domingo, 19 de maio de 2013
deixar que os gatos caguem no tapete dos outros
Os cotonetes acabaram.
Então você compra um pacote de cotonetes na farmácia da esquina e logo resolve aquele desejo insano de USAR o cotonete.
Como uma síndrome de abstinência, você sofre uma overdose,
e FINCA o cotonete com TUDO no ouvido.
Aquela nata podre se agarra no algodãozinho como o delírio de um gol.
Mas logo o ouvido direito fica entupido.
Então você não escuta NADA com o ouvido direito.
Mas tudo que acontece no COSMO tem que acontecer, então você pensa que aquilo (1) pode ser um sinal para que você "se escute" mais, ou que (2) o espírito de uma velha surda acoplou em você sendo o efeito do cotonete apenas um pretexto, ou que (3) Deus mandou um recado no sentido de que é preciso ouvir menos e falar mais.
Mesmo morando sozinho e parcialmente surdo, você resolve fazer um jantar.
Corta a cebola e mistura à ela uma carne moída meio estragada.
Frita tudo até que a massa fique cozida na outra panela.
Enquanto isso entorna 2 taças de vinho.
Depois de pronto você escorre a massa.
Coloca a massa no prato.
Depois coloca aquele projeto de molho por cima da massa.
Em seguida o queijo ralado.
Depois que você consegue passar protetor solar nas costas e fazer uma janta, casar se torna prescindível.
Então você calibra a taça de novo.
E vai para a sala, jantar sem nenhum ritual, sem filhos correndo pela casa, sem gatos cagando no tapete, em paz com a sua televisão cheia de canais.
Mas ai a massa toda escorrega do prato e morre no tapete da sala.
No prato o molho estava por cima da massa, mas agora, no tapete, está por baixo da massa.
Ainda faltam dois dias para que a Carmen apareça pra faxinar o apartamento e manchar algumas roupas.
Você é um semi surdo e sem comida.
E isso não é um problema, afinal, a taça está em pé, equilibrada, firme, livre, democrática.
romina
O tempo para o amor é um destempo.
A tampa para uma panela que não tampa.
Amor pra mim é amor próprio:
é um arroz cozendo numa panela com a tampa entreaberta, pra deixar o vapor do processo sair.
Em fogo lento.
Pro tempo aprender a ter calma.
mínimas (porque as máximas são muito arrogantes)
Nada de novo no front. No mundo todos seguem felizes. Mas ser feliz não basta. É preciso ser mais feliz que os outros felizes. Desconfio dos felizes de vitrine. Eles são manequins. Mas são diferentes dos tradicionais porque vão ao mercado, levam os filhos na escola e até transam. Essa casta dos que são mais "felizes" a partir do ciuminho que os outros "felizes" sentem, é imensa. E vai acabar dominando o mundo. O Cérebro - aquele do desenho - nunca conseguiu dominar o mundo porque o exército do Pink sempre foi e será muito mais numeroso. Eles ganham no grito, ganham no abafa. Mas nunca deixarão de ser manequins que, quando pelados, tem uma cor pálida bege horrorosa. E aquele rosto perfilado com um trejeito nada pessoal. E aqueles genitais duvidosos.
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Não me interesso por lágrimas que escorrem sobre a maquiagem de um rosto.
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Sigo sem nenhum interesse pelos rebeldes e pelo governo da Síria.
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STATUS: Completamente arrependido de não ter estraçalhado e trucidado o pano da tua blusa, o cadeado daquele sutiã, o botão da tua calça. Juro que me arrependo. Juro com essa honestidade selvagem que Deus me deu.
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Fim de tarde no sábado é quando a paz ejacula.
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Pergunte a alguém: você voltaria a ter 5 anos a menos de vida? Todos dirão não. É a prova de que os pré-socráticos estavam certos. Jurar amor eterno é uma ficção - e quanta dor nas almas de arrogância metafísica causa essa ilusão. É assim que o verbo "estar" força a extinção do verbo "ser". É o "está" comendo o cú do "é"... e sem cuspe.
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O casamento e os policiais fardados são as duas únicas coisas oficiais que as mulheres gostam. De resto, preferem os amantes, as terças-feiras de noite e outras coisas supreendentes.
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É o ego meu Deus! é Ego o nome do diabo.
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É esta a sensação de uma tristeza: de uma chuva que nunca para.
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Cura é quando o vinho medica a doença.
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CONTEMPORÂNEAS: Síndrome do estrangeiro é não entender postagens com especulações sobre os dramas da novela das 8.
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DA SÉRIE - MULHERES IMPOSSÍVEIS (DE SUPORTAR)
1 - Ela é gente boa, mas vai em Bistrô.
2 - Ela é bonita, mas não lê Bukowski.
petúnia negra
2 - DA DESINTEGRAÇÃO
Depois da rua e da esquina da rua, todos estavam sentados na mesa, dizendo suas retidões, cultuando suas nostalgias, fazendo ode a todas as fronteiras que existem dentro e fora do mundo, a todas as fronteiras que é preciso criar para dizer qualquer coisa.
Todos estavam ali, vidrados em coisa nenhuma, chamando de "aspectos" o que, no fundo no fundo, era só uma parcimônia que encobria egos cheios de agulhas afiadas em direção ao mundo. Todos estavam lá, elogiando a verdade, mesmo sem saber a história da verdade. Justamente eles, que não sabem verdades tão pequeninhas como a sensibilidade que os cachorros têm em relação ao medo humano, ou a verdade dos torvelinhos do sonho, ou ainda o fato de que a verdade é uma cigana que, além de não ter residência fixa, joga cartas que aparecem sempre com diferentes composições.
Depois da rua e da esquina da mesma rua, as mulheres ainda esperavam na sala até que seus homens bêbados de vinho terminassem suas conversas sérias na biblioteca que não tem nenhum livro. E elas esperariam seus homens sérios porque homens sérios, quando se juntam, falam de negócios. E não há nada mais excitante pra uma mulher que homem "negando-o-ócio". Elas esperariam ali, resignadas, até a hora que fosse, cheias de amor por seus homens de negócios, que usavam gravata de dia e chinelos de noite pra que os pés brancos e sem vida pudessem tomar o sol da noite... como fazem os encarcerados com as migalhas do sol do dia.
E elas também tirariam os pratos, assistiriam suas novelas, falariam suas banalidades, que eram as mesmas banalidades de seus homens de negócios sentados na biblioteca sem livros. Enquanto os homens de negócios transcendiam a altura de uns centímetros, elas lamentariam alguma dor, fariam alguma queixa velada, ririam por educação. Perguntariam alguma idiotice por aparência.
Então os homens de negócios abririam mais uma garrafa, porque sempre é preciso estar bêbado de noite pra suportar a honraria de ser, durante o dia, um homem de negócios. O sonho do homem é a verdade de Sileno: ser nada.
E suas mulheres, que não bebem tanto vinho tinto porque são melhores de tino, continuariam ali, querendo que aquele circo acabasse. As mulheres dos homens de negócios estavam fora deles e, por isso, a eles tudo parecia ter sentido. E eu estava lá, sentado com os homens de negócios, era um deles, era todos eles, mesmo não sendo nada daquilo nem de qualquer coisa. Eu participava daquilo como se participasse da vida. Articulando conversas e interesses. Participando de tudo, sendo tudo aquilo que um dos meus olhos de mulher testemunhava. Minha mulher era uma rebelde, uma desprendida. E quando vi, ela queria, como as mulheres dos homens de negócios, ir embora. E vagava sutil, louca e lúcida pelo lugar.
sábado, 27 de abril de 2013
manifestos do itinerário
1
A comunicação é a condição do homem. Habermas disse isso. Mas eu nunca li nenhuma linha de Habermas. Não importa. Intuição serve pra isso: intuir o que o pensamento faz no pensamento de cada pensador, como atua, como se move, como respira, como chega no pensamento do pensador, sua historicidade, suas razões ocultas, suas fraturas expostas, o jeito como entrega as entrelinhas da sua genealogia a partir do estilo que adota ou do jeito com que se expressa, falando ou escrevendo. Os pensadores que não podemos ver em vídeo têm esse charme em relação aos contemporâneos que podemos ver no youtube.
Warat nos alertou sobre o abandono do corpo e os excessos da razão como chave mestra das linguagens. Ele sabia da necessidade da comunicação dos corpos como fiel de uma balança enguiçada e domesticada para ser capenga. A comunicação dos corpos é constituída de silêncio. O não-dito é a palavra da linguagem sensível. AO idioma dos corpos vence a peste da incompreensão e de sua mãe: a ignorância. A ignorância do dito é a ingenuidade do silêncio. É preciso voltar a ser ingênuo para traduzir a comunicação do silêncio. É preciso abandonar o inteligível da comunicação para assumir e para ascender à expressão do toque, à hermenêutica que faz mediação entre os arrepios, à cadência do ar dentro dos corpos, ao cheiro - notadamente ao cheiro, esse filme que passa dentro do nariz da gente.
Os regulamentos sobre os relacionamentos ainda carregam a dose dupla (como um uísque vagabundo, dose dupla, sem gelo, que se toma estilo martelinho...) de uma esperança herdada pelo vício à metafísica. A construção histórica da metafísica é só uma projeção do desejo de poder. Uma ilusão que mora em andares mais elevados em relação ao andar térreo que o homem vive. Estar no térreo é o mandamento magistral do grande condomínio da vida. Os regulamentos são o novo ópio de um povo que não percebe o medo que sente. O medo é a fundação profunda do arranha céus do metafísico desejo-pela-regra, ou, a vontade de regrar.
É a partir de tolices metafísicas apoiadas nesse terreno lamacento, que os relacionamentos regulamentados determinam os cultos de anestesia como a institucionalização do afeto, a inflexibilidade do desejo, a possessão em relação ao outro e o que chamo de ritual do final de semana. Sábado é a possibilidade dionisíaca dos conserva-dores do amor. O sábado é o paraíso deles antes do pecado original. Aliás, todos os pecados do corpo só se justificam porque o paraíso do sábado será restabelecido com um jantar e um sexo burocrático. A libido dos conservadores do amor concentra-se na ilusão de domínio do porvir. E eles chegam, em casos de patologia extremada, a matar em nome dessa causa adolescente.
É porque eles têm aversão ao presenteísmo. Ignoram o instante. Ignoram o ar que os mantém. Ignoram o entorno que os observa porque se pensam como Senhores das lentes do Mundo. O medo é tão necessário aos projetos como o alpiste para os canários de gaiola. O homem é uma corda esticada entre o medo e os projetos (devo esta imagem à Nietzsche). Sobre os pássaros de gaiola o que lembro é que meu pai tinha um quando eu era guri. Era um canário belga amarelo, que cantava feliz dentro de uma gaiola com pedaços de fruta e de alface pendurados com um prendedor de roupas. O bem-estar de quem não é livre é um dos grandes mistérios da vida. A pulsão pelo conforto - tendência a privilegiar lugares comuns em detrimento de terrenos selvagens - é uma recriação existencial do útero materno que arrazoa preambularmente (e apenas preambularmente) o bem estar dos escravos não conscientes de sua escravidão, como os pássaros de gaiola, os peixes de aquário e os homens que idolatram os regulamentos e a institucionalização de invisibilidades para dar explicações ao medo que funciona como um pai rigoroso. No fundo, os regulamentos são a gaiola que mantém os homens cantando, ingenuamente. Essa felicidade servil dos escravos do conforto é a lona circense em que se desenvolveu o pensamento ocidental. O bem-estar escravo é a premissa de tudo que se escreveu e se pensou, como asserção ou como crítica.
Em Nietzsche, as marteladas à metafísica e o construto do super-homem me parecem cavalos de força que, amarrados à um cabo de aço, galopam em direções contrárias. A transvaloração dos valores não seria, porventura, um céu imanente? E as montanhas como a morada dileta de Zaratustra não seria, porventura, o afastamento da imanência? E o quê importa essa pergunta à quem não pode perguntar porque, no fundo, morre de medo das respostas que o conforto evita? Perguntas de uma terça-feira anestesiada aos conservadores do amor que assassinaram a liberdade com o deslize de uma faca afiada na garganta hemorrágica.
É preciso ser fiel à terra numa terça-feira depois que o relógio passa das 23 horas. Pra isso, além de amor, é preciso liberdade. Para Osho os relacionamentos são uma grande ave que voa e que se sustenta por duas asas, uma é o amor e a outra é a liberdade. Estou de acordo com essa transvaloração de Osho. Um preâmbulo que fabricará ainda muitos solitudinários. Terça-feira de noite é o dia do culto à liberdade. E nada que se escreva poderá dizer, porque o devir é o mistério eterno, a cereja do bolo, a graça de uma piada ainda não contada. O devir é o grande assalto que a mentira fez ao Banco da verdade e as suas promessas de investimento rentável. A terça-feira, depois das 23h, faz parte da sombra sincera que os velhos ascéticos consideram como subversão. São velhos dançando esquisito numa festa eletrônica. Até logo! Eu vou me embrenhar na terça-feira embriagada, enquanto o mundo espera o sábado - seja pra ir ao culto na igreja, seja pra transar com a esposa.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
o bloco dos napoleões
A experiência de aprender passa pelo caminho da humildade. A humildade é a condição de possibilidade para que o ego ajoelhe-se diante daquilo que não sabe. Mas esse não costuma ser um movimento de triunfo cotidiano do ego. Fernando Pessoa diz que o espelho desgraçou a raça humana porque fez com que o homem não precisasse mais se ajoelhar nas margens dos rios para ver sua imagem refletida. Ajoelhar-se é perceber que, mesmo que tudo se saiba, ainda assim, muito pouco se saberá.
Sempre desconfiei de quem não consegue dizer que não sabe. Assim como desconfio de quem diz: "EU SEI". A vida tem me ensinado a elogiar o silêncio. E também a admirar os que ensinam em silêncio. Ver em silêncio um aleijado que passa na rua, ver em silêncio como o poder vai se tornando o combustível da vida que acontece ao nosso redor, ver em silêncio o universo dos olhos de alguém, depois que a gente é capaz de ter amado alguém. Não se pode ensinar sem que antes se compreenda a alteridade até suas últimas consequências beneficentes, curativas e poéticas. Mas entender que o charme do mistério é nunca ser revelado, também é um atributo de quem quer aprender. Isso torna o ensinar um horizonte impossível, que só serve para nos fazer caminhar, como disse o Eduardo Galeano sobre a saúde das utopias. O aprender só se apresenta no silêncio de pensar e de sentir o que antes se experimentou. Primeiro é preciso ser uma testemunha ambivalente e paradoxal da vida. Depois desse engatinhar, há uma autorização para uma fala legítima, para um professar, para uma encenação simbólica. É só depois de autorizada esta fala legítima, que se pode penetrar nos sulcos selvagens, úmidos e mágicos do silêncio. O símbolo é a ponte que leva o discurso até o silêncio. É no símbolo que mora a possibilidade do ouvinte incrementar o saber com seus próprios ingredientes. Não há conhecimento legítimo se não houver esse sincretismo com o universo pessoal de quem aprende. É preciso que a carne doa e sinta para que se grave a tatuagem do saber.
Aprender é estar nessa roda viva: falamos para alguns, escutamos outros e silenciamos...tanto para absorver o mundo quanto para responder. Que belas respostas o silêncio nos dá! Ouvintes atentos são os que mais tarde falarão. E os que falaram, desejarão avidamente o silêncio. Eis a roda. Mas para entrar na roda é preciso operar-se. Como se você fosse, ao mesmo tempo, o paciente anestesiado e o cirurgião que segura o bisturi. Você está sozinho na sala cirúrgica de um hospital criado pela sua imaginação. Não há uma esquipe de apoio. É você que está ali, moribundo e anestesiado. Assim como também é a sua intuição curativa que está ali, fazendo os cortes e as costuras necessárias na carne convalescente. Só você pode se operar, e será preciso abrir-se com o fio da lâmina, ver os músculos vivos, as vísceras pulsando, os ossos recobertos pelas mucosas. Operar-se é encarar essa realidade escondida em nós. Ver o bruto e o fantástico que existe por dentro. Ver a tragédia no espelho, e a vida no grão dos olhos. Esse confronto com a natureza bárbara é uma das condições de poder ser um ouvinte.
Em geral as pessoas odeiam aquilo que não conseguem compreender. Ou dizem que é inútil, ou dizem que é idiota. Uns dizem que é abstração demais. Outros dizem que é exatidão demais. Essa arrogância é a miopia do processo de se tornar ouvinte. Não há conhecimento que possa ser inútil porque onde há uma produção humana, ali está uma parte de nós. Os objetivistas denunciam de loucos os que se elevam a andares mais arejados. Os loucos entram em conflito com a terra e suas diretrizes rígidas. Os que pensam, pensam que sentir é uma bobagem. Os que sentem, sentem que existe algum coisa de errado com essa gente que pensa demais. Os que bebem não entendem a abstinência dos abstêmicos. Os abstêmicos rezam para que os bêbados sejam salvos pela salvação fajuta que já (?) sorriu a eles. As religiões pecam na origem do aprendizado porque castram. Instituir é uma tesoura para o conhecimento. Os paradoxos são os personagens estúpidos do conhecimento. São os que brigam com o mundo de fora porque não suportam o confronto com o selvagem que está por dentro. São margens que brigam pelo domínio da ponte, sem perceber que o conhecimento é a coragem de enfrentar o rio selvagem que corre e urra logo ali.
O AINDA
O sagrado e o profano têm peticionado aos céus em busca da nova resposta. A rinha e o transe animalesco estão na política, nas faculdades, na rede, no jornal, no silêncio dos velhos nos asilos.
Os evangélicos sabem toda a verdade. Os gays sabem toda a verdade. Os evangélicos estão salvos do inferno. Os gays estão salvos da grande infância. Os evangélicos leram a Bíblia. Os gays leram a sabedoria pagã, os alemães e as entrelinhas da dor. Os evangélicos vencem a vida. Os gays vencem a morte.
São as novas facções. São dois meninos com socos pueris que se reúnem ao redor de um grupo de meninos no intervalo do colégio. É o mesmo buraco que já empacou as dicotomias d passado. É a grande recorrência do exercício de fazer o tempo passar com o balanço de uma gangorra. Uma sístole e uma diástole que, inevitavelmente, a cada inflação, coloca uma pedra a mais no caminho que conduz ao senhorio da morte. É uma outra história, uma outra fantasia, mas com o mesmo enredo. Um outro jeito e um outro nome, mas só. Eles estão brigando de novo, discutindo, com argumentos nos artigos do jornal, arrebanhando os imbecis de cada um dos lados, porque entendem que existem lados.
As evangélicos sabem que, no fundo, poderiam sucumbir à curiosidade que ronda o cú. Os gays sabem que, no fundo, Deus está lá, controlando toda a loucura deles e dos evangélicos. São co-irmãos na loucura média. É Caim e Abel, cada um com seus exércitos. São múmias da moral, porque ainda cercam a moral com conceitos. São múmias dos conceitos, porque ainda precisam dizer a palavra "é". São múmias quanto à morte, porque o medo lhes é insuportável. São múmias quanto ao eixo da consciência, porque desconhecem a profundidade da inconsciência. São múmias quanto ao silêncio, porque ainda pensam que a linguagem é uma condição...
No fundo são analfabetos porque não conhecem a gramática da contemplação testemunhal. São analfabetos do detalhe. Analfabetos do paradoxo. Analfabetos dentro de um mundo que foi educado à separação, à desunião e à desintegração. Analfabetos que fazem do espelho, antes de uma porta de entrada, um muro que refrata. O ego, a vontade de poder e a pureza estão comparando o tamanho do pau com um olhar juvenil por cima dos mictórios. Ainda.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
brevê para voar no meio de nuvens feitas de nada
É preciso compreender, de uma vez, que esta falta de consenso acerca do conceito de mediocridade, faz com que muito se fale praticamente por nada.
in berejuk
Você olha em volta tentando encontrar a própria miséria, mas só vê paredes em paz, cachorros dormindo e pulgas sendo felizes. Você olha por dentro, vira uma mini gente que caminha no meio do músculo da carne humana, ou então se sente um micróbio pequeno como o nada, nadando no mar do suco gástrico que transforma tudo em merda. Mesmo assim sorrateiro não encontra a própria miséria. Então você resolve ir fundo, prescindir da matéria, e começa a acreditar no inconsciente, no cosmo, no raio que o parta, numa cruzada à caça da própria miséria, mas só encontra um oco mudo igual a um salão de baile em final de festa, quando as faxineiras que dormem e acordam cedo, começam a virar as cadeiras de pernas pra cima como se atirassem corpos numa forca da cadeira pra baixo. Fora ou dentro não há ninguém que possa dizer alguma coisa, nenhum mestre dos magos nem mesmo pra nos dar a direção errada do caminho. A direção errada, ah se a direção errada viesse sem esforço e caísse mortinha da silva no nosso colo! Pelo eliminaríamos alguma coisa dentre essas tantas. Pelo menos seria um rosto humano nu nesse eterno baile veneziano de máscaras. Todos temos o direito de ser senhores e proprietários da própria miséria. Mas Deus escondeu tanto o tesouro quanto a miséria em algum lugar impossível. Deus é um sacana, mas apenas um sacana, filho da puta seria demais. Os ateus mentem a si mesmos que não estão interessados nem na própria miséria, essa é a injeção diária de morfina deles. A oração é a morfina dos crentes. Mas ambos desejam a própria miséria: os primeiros negando o futuro, e os outros negando o presente. O ponto arquimédico do círculo onde transitam todos esses elétrons humanos, ninguém pode encontrar. E eu, que navego como Colombo por mares imaginados, cogito a miséria como o ponto vélico do mundo, como o triângulo das Bermudas, como o buraco negro que fechará as cortinas dessa grande palhaçada. Deus estará lá, brincando de ser Deus, com uma máscara do Bozo. Mas ele não é nem nunca será um filho da puta. Ele não nasceu no meio do sangue e das gororobas da placenta como todos nós. Ele é um deixado ao relento dentro de uma caixa de sapato numa parada de ônibus. A miséria dos que vivem é não poder parar: de perceber, de perquirir, de peregrinar.
ok ok
ativo, caminho pelas ruas de mim mesmo com um
passo cansativo. Demandas lá de fora, fazem com que eu extravie o GPS aqui de dentro.
Há uma saudade de só ficar sendo, de só estar ali, de só ser o que se pode ser,
de se resignar sem qualquer culpa. Tenho trabalhado, metido o martelo na pedra
dura – e faço por amor à fadiga. Canso o corpo pra não ter que enfrentar o
espírito. Tem horas que a vida mete um espelho microscópico na frente da gente.
Aí podemos ver tudo que é podre, impuro, minúsculo, feito de nada...toda a
pequeneza que significa tudo que a gente ACHA que é. Uma coisa tipo: a
humildade comendo o cú da arrogância, do ego. Peguei um filhote de gato pra
morar aqui comigo. O bicho não durou nem 3 dias. Miava o tempo todo. As
formigas dominaram o pote de comida dele. Cagava no tapete de um modo superior,
arrogante e ingênuo, vencendo o cabresto de cagar SEMPRE no mesmo lugar. Mas
merda de gato novo FEDE. E aí tem que por sapólio. E esfregar COM DEDICAÇÃO um
pano que eu acabo sempre jogando fora, afinal, ninguém merece a desgraça de ter
que LAVAR um pano cheio de MERDA DE GATO. Ele foi desmamado muito cedo. Os
gatos também têm complexo de Édipo e querem ficar mamando nas tentas da gata
mãe a vida inteira, sem ter que pagar imposto, aprender a cagar na caixa de
areia ou ter que acordar cedo pra ir trabalhar. Mas, pelo menos por um período,
todos têm o direito de ficar ali, existindo só pra chupar nas tetas de quem nos
pariu. E foi isso que aconteceu com o gato que veio morar comigo. Ele não pôde
sequer chupar o tempo nas tetas o temo que a vida nos legitima pra ficar só
chupando as tetas. A vida foi cruel com esse gato. E entender porque esse gato
veio parar no meio da minha sala é uma coisa, sobretudo, imbecil. Imbecil
porque entender não passa de um interesse. De uma resposta ao desejo de saber.
Entender sempre está divorciado de ter sensações. E são as sensações, terrenas,
carnais, femininas, umedecidas de suor e vida, que valem a pena. Um corpo nunca
será um corpo à toa. Ou será que os corpos nascem em série como a frieza de uma
linha de montagem¿.
Ele era um gato carente. E porque era carente, ele MIAVA.
Por exemplo, ele fazia - MIAU, e depois de 3 segundos, fazia -MIAU de novo, e depois de outros 3 segundos,
MIAVA DE NOVO. No primeiro dia achei legal. Segurava ele no colo com carinho e
dei ele dormia, para felizmente para o MIADO I-N-C-E-S-S-A-N-T-E. Mas depois
veio a segunda-feira. E com ela a CORRERIA desta vida filha de uma puta (daquelas
bem vagabundas e caras). Vieram os
bancos, os sistemas que não funcionam, a vida dentro de um carro, a vida dentro
de uma casa, a vida dentro do mundo abaixo do céu com este mar andando pra lá e pra cá sem ter
consciência de nada, as chuvas alagando a vida de quem mora perto da chuva, o
caos, o redemoinho, Bob Dylan quase morto, Warat morto. Com tudo isso, chorei.
E foi bom porque depois que a gente chora é um momento-túmulo. Uma coisa é a
choradeira do velório. Outra é a do túmulo. Velar é quando ainda não é possível
se conformar com a perda. Não existe nenhum charme num velório. O choro
charmoso é o do túmulo e, mais ainda, do caminho até o túmulo. Aquele cortejo
fúnebre indo, lento, com uma garoa que domina o barulho do choro.
Hoje eu chorei e tenho essa sensação de caminhar num cortejo
fúnebre. Segurando a alça do caixão que tem o meu próprio corpo. Talvez seja
bom. É uma sensação de estar morto, estando vivo. E não existe nenhuma razão
pra eu não me tirar tanto do defunto quando do eu que carrega o caixão, pra ver
a coisa toda como um terceiro personagem espectador.
sexta-feira, 8 de março de 2013
uma oração
Mulheres,
todas vocês mulheres,
que seguirão sendo o porque,
a causa humilde de tudo que é grandioso,
o nexo entre o que não existe e o que está por acontecer,
a benção da manhã que alimenta a intensidade da noite,
a religião dos bêbados e dos que não conseguem amar,
origem de todas as músicas e todos os corpos,
todas vocês mulheres,
por quem passamos, estamos e vivemos atrás,
por quem atrás depressa olhamos,
por quem passamos gel de manhã,
por quem nos fodemos trabalhando,
por quem perdemos nossa ereção, nossos bens, nossa paz, nossa alma.
todas vocês mulheres,
que levaram pedaços do meu coração,
que me tornaram um assassino cruel e virulento,
que estupraram com flores minhas partes ingênuas,
que fizeram o milagre acontecer numa cruzada de pernas, num rebite de bunda, numa mexida de cabelo, num gemido mútuo, numa dança onírica, numa ligação que nunca poderia ter terminado.
todas vocês mulheres,
que fazem parte do milagre como quintessência da vida,
que foram estupradas, apedrejadas, esquartejadas, ferradas até dizer chega,
que alimentaram os pequenos e limparam a ferida dos velhos,
que passaram creme na pele, cheiros no corpo, incenso pelo ambiente do mundo,
que penduraram esses brincos tão exclusivamente seus mulheres,
que perderam os clitóris só porque os homens morrem de medo de um clitóris,
que perderam seus homens porque a guerra é o maior veneno entre os homens,
que perderam seus filhos porque o amor maior é uma lição não sabida pelos homens,
que esperaram plácidas nos portos e portões por homens que nunca entenderam nada sobre a paciência,
todas vocês mulheres,
que manipularam a raiva dos pais violentos,
que ocultaram a verdade quando a verdade só sabia ser má,
todas vocês mulheres,
que nunca souberam ser más,
que nunca souberam ser violentas,
que sempre souberam chorar sem dor,
e que por isso puderam ser melhores na dor,
todas vocês mulheres,
que escutam a sintonia da minha alma,
o trejeito de um arremedado de poeta,
o desajuste dos meus desejos incontidos, profundos e enormes,
todas vocês mulheres,
que enlouqueceram a minha paz,
que promulgaram regras dentro de mim,
que me intoxicaram, me baniram do meu estado de ser normal,
que me crucificaram vivo por 7 dias e 7 noites,
que treparam com outros quando eu não podia cogitar que fizessem,
mas que também fizeram amor comigo, entregues à benção do tempo, do cosmo e de todos os Senhores de todas as religiões,
todas vocês mulheres,
que foram pacientes na morte,
que carregaram os túmulos de flores,
que se dedicaram dia e noite até o fim da vida aos filhos depois de uma separação,
que cortaram a cenoura para a sopa,
que esmagaram a banana para a criança que não era sua,
que esperaram os 9 meses e que esperariam 9 vidas pela mesma razão,
à todos vocês mulheres eu me presto e me submeto.
à todas vocês mulheres eu me invento e me calculo.
à todas vocês que não sei ser, ou me portar, ou me imiscuir, ou canetar,
Todas vocês mulheres,
rainhas de todos os sambas, dançarinas de boates, baianas cozinheiras de todo o Brasil, musas do folclore, divas de todas as coisas, artesãs de toda a poesia, fotógrafas, alunas, executivas, santas, putas, faxineiras, orientais do pé trucidado, tias das mercearias e porteiras de banheiro público,
todas vocês mulheres da bondade de Calcutá, da beleza de Jolie, da força de Joana, as de Atenas, as que vivem nos conventos, as que vivem sem uma casa, às índias que moram na beira do rio Passo Fundo com seus indiozinhos cheios de ranho no nariz, às avós que sabem e as que não sabem cozinhar, a todas as mulheres que vivem dentro do Chico Buarque, às que tem silicone e às que tem tetas de vaca morta, às que dançam no Bolshoi, às que trabalham comigo todos os dias, à mãe e às mães, à minha irmã e às irmãs, às cunhadas de todo o mundo, à Arendt que pensava sentindo, às Venturas que ensinam como ninguém, à Virgem Maria, às bibliotecárias e às camareiras, às Simones, às que sempre puderam nos Estados Unidos,
todas vocês mulheres,
todas vocês que ganharam e não ganharam rosas no dia oficial das mulheres,
que odeiam o dia oficial das mulheres porque não ganharam a porra da rosa oficial,
que odeiam o dia oficial das mulheres porque odeiam coisas oficiais,
que odeiam o dia oficial das mulheres e mais ainda as colegas de trabalho por terem recebido a porra da rosa oficial
que odeiam o dia oficial das mulheres porque gostam mesmo é das surpresas,
todas vocês mulheres, de estados civis que não existem, estados mentais inescrutáveis, estados instáveis por natureza e estados espirituais que não podemos saber,
todas vocês mulheres,
que não permitem que essa nem que todas as poesias tenham fim.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
buzinando
O mundo que deveria ser, não é o mundo que é. Gosto do mundo assim pela metade, incompleto, igual a uma casa com uma goteira eterna que pinga nos lençóis da cama.
Se o mundo fosse perfeito seria estúpido, não se teria nada pra fazer. Ficar caminhando naquela grama verde bem aparada, com aquelas camisolas de velha, mais aquela brisa que chacoalha o pano da camisola e a 9a sinfonia de música ambiente, só serve como utopia espírita: esse céu espírita deve ser um SACO.
Por aqui o legal do mundo é que temos trabalho, já que a podridão fede e, do fedor que fede, leva todo mundo a sonhar com o mundo que deveria ser.
O Renan disse que o povo só odeia ele porque ele é nordestino, e não porque é corrupto. Só isso serve pra demonstrar que é um filho da puta completo.
O cardeal inglês comedor de coroinhas saiu do conclave. Quem vota deve estar de acordo com as regras do jogo, caso contrário, ou se reavalia o jogo ou se culpa os votantes pela eleição de um imbecil (valem corruptos e comedores de cú de coroinha, que no fundo são corruptores de cú infanto-juvenil).
Esse negócio do padre inglês me faz lembrar do Renan porque, pensando bem, a ilegitimidade do Renan é só parcial: foram idiotas e ignorantes corruptíveis que votaram nele. Que bom! Se todos fossem honestos estaríamos no céu espírita, tomando água sem gás e comendo grão de bico.
Quando penso, começo a simpatizar com o Renan, o grande malandro brasileiro, ele tá na moda, é responsável por dar trabalho à mídia, por instigar o senso crítico nos movimentos estudantis, por ser o anti-herói do mundo que tenta ser perfeito desde que o mundo é mundo. O Renan, coitadinho, de carrasco virou vítima social cabeça chata. Logo vai pedir pra entrar nas quotas de alguma coisa.
E o Berlusconi? Quer manter os ternos, aquele ar de galante que agora também tá na moda depois dos 50 tons de Cinza. Os peitos nus das italianinhas não serão páreos para o nosso referencial de Al Capone. Berlusconi devia ter poder de voto no conclave. E eleger aquela filha gostosa que o Pato comia como a primeira Papa da história. Assim ele dominaria completamente a península.
E o padre brasileiro que comia a jovenzinha antes da missa? O advogado saiu em defesa, juridicamente, claro: "a carne é fraca", disse o ADEVOGADO. Fraca e dura né Doutor? O Freud sabia que o instinto, quando encontra um tabu, fica de pau duro. Que o proibido só serve para seduzir o instinto. Que o instinto sempre dá um jeito de se autorrealizar. Que o instinto é o maior de todos os corruptos. Mas é que isso pouco importa, e é bom, porque pelo menos temos o que fazer, temos trabalho, temos alguma coisa pra dizer pra uma platéia de plastas.
Nós, homens legais viventes do mundo cão, somos inocentes de tudo. E só falamos na presença de nossos advogados idiotas. Não teria a mínima graça senhores, aquela graminha verde é nossa utopia e nosso engano.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Phebus
Eu até diria, escreveria, borraria o branco da tela, pra que tudo fosse jogado fora, pra que as angústias e as esperanças fizessem um par em letras fora de mim. Mas porra, que merda, ninguém mais aguenta que se lamente todas as saudades que todos sentem. A saudade é um dedo, é um braço invisível, que nos acompanha mesmo estando amputada. A saudade é a mãe dos suicidas, de todos os drogados que querem "transcender", falar com o "outro lado". A saudade cansou de pedir os holofotes. A saudade é a grande mãe desses caras com barba comprida, que são "artistas", e que fazem poesia... qualquer porcaria de poesia é uma ARTE pra esses caras. Eles querem fazer ARTE. E fazem qualquer merda em nome disso. Uma cadeira pendurada no teto é a porra da ARTE. A foto de uma bolita no cú é ARTE. Um par de peitos moles servindo como protesto contra a corrupção é "a arte contra o capitalismo". Fodam-se. Estão todos no mesmo saco. Fedendo o mesmo fedor. Eu poderia falar da menina de saia azul que dançava como ninguém: linda, coxas fortes e finas, coxas que subiam e colavam na bunda do cara no meio do forró, cabelo preso, 19 anos, sonho de um consumo impossível. Mas ela é a utopia, a falta de nexo entre o mundo real e as possibilidades do sonho. Então jogo ela nessas letras, pra dormir em paz. Eu poderia recusar o convite dos sentidos - e escrever é uma espécie de se livrar das coisas que a gente sente - e em recusando, sentir completamente. Escrever é esta espécie de vaso que, antes de se encher de merda humana, dilui os dilemas, organiza as hipóteses, racionaliza os sonhos que não lembramos. Um sonho não lembrado é uma benção à memória. Não ando interessando em entender os sonhos, porque eles me cansam. A lógica dos sonhos me cansa, como todas as outras lógicas. Poderia escrever um poema como os artistas barbudos dizendo que toda a saudade só é bonita nas músicas, ou escrever frases de efeito, essas frases curtas de efeito que vendem como IPhone novo, afinal, ninguém mais tem paciência pra ler MIL páginas sobre alguma coisa. É o mundo da impaciência meus senhores e senhoras, meninos e meninos, veados, artistas, mendigos, evangélicos, nazistas, putas, caminhoneiros drogados de rebite. Eu poderia escrever esse poema sobre a saudade, ou sobre essa gostosa que dançava sensualíssima. Mas estou cansado. E vou poupá-los. Nada é tão importante quanto dormir, dormir profundo, e não lembrar de nenhum sonho no dia seguinte.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
o dinheiro
O dinheiro. Que poder tem o dinheiro!
Tem sido o senhor de todos os corações, de todas as pulsações, o senhor de toda heresia. Senhor de todos os camelos que passaram pelo buraco da agulha.
O dinheiro já teve muitas vidas, encarnou em mulheres pálidas e em negros de pau grande. O dinheiro é a qualidade de ter sido um deus, uma verdade, um Estado, um Momento, um Nirvana.
A promessa do dinheiro é um nirvana.
É quando a frase “Sejais fiéis à terra”, do Nietzsche, ejacula na boca de uma puta paga.
O dinheiro foi um carrasco, um Don Juan que fez chorar mil mulheres, aquele que colocou a casca de banana. O dinheiro foi o padre católico que vendeu a alma ao diabo.
O dinheiro e o diabo sempre foram siameses. O dinheiro tem separado muita gente.
O dinheiro tem causado vergonhas na separação e nas repartições de suas frações.
O dinheiro foi o Calígula, foi um medieval enfiando a espada na barriga de um troglodita furioso defendendo seu Senhor! O dinheiro criou o vinho, e essa garrafa que está lá longe na cozinha.
O dinheiro, como os outros deuses, é um grande sedutor.
É a mesma bela mulher que foi a carcaça do diabo, agora em versão pornô.
É a Monalisa que virou Bruna Surfistinha. É a pegada na mão que se tornou um bacanal confuso de homens, mulheres, bichas, borboletas, unhas e cabelos que se chupam on line.
É o recado escrito que virou um mural rotatório com mil imagens, textos e egos por segundo.
O charme da dificuldade de acesso à amada que virou um site erótico com descrição de possibilidades e preços adaptáveis ao bolso.
A fidelidade que virou compreender a diferença, a fidelidade que virou relacionamento aberto. Pegar sem se apegar. Estar sempre sem estar. É a crença, que já duvida de tudo.
O dinheiro é o último dos deuses. É o Senhor Feudal de todo o planeta Terra. É o maior de todos – quem duvidará que o presente é o último patamar vivo entre os vivos?
O dinheiro criou as mulheres de 20 que não sabem amar. O dinheiro criou as mulheres de 30 que venderam o seu amor pela própria vontade de poder. O poder esta para o dinheiro, assim como Zeus está para Dionísio. O poder é a lava que escorreu pela superfície.
É o espermatozóide que bateu a cabeça na ponta da camisinha. O poder é a fundação sólida do teatro da economia. A economia é a disciplina das disciplinas, como já foram a teologia, a filosofia, o positivismo, a técnica. A técnica é a máquina de dinheiro.
O dinheiro é o resultado de uma trepada entre a máquina e o poder. O poder enfiou gostoso na máquina. E esse é o sexo mais cibernético que já houve. A máquina já tem silicone, e o poder, algumas vezes, já usou Viagra (só pra garantir a 2ª).
O dinheiro foi o rei que fechou as portas dos cofres, que fechou homens em salas escuras fedendo a merda, que amarrou o homem que via a própria mulher ser estuprada por um cara com um pau 2 vezes maior que o dele. O dinheiro embotou os corações.
O dinheiro foi o guri que atirou as pedras naqueles cachorros unidos pelo cu. Haverá sempre os acenos cruéis dos que antecipam o naufrágio de uma multidão. Boa viagem.
Antes não se podia falar do diabo, antes não se podia ver mulher pelada na Playboy. Hoje falar de dinheiro é colocar a mão dentro da cueca no meio de uma valsa de casamento feito em clube com aqueles peitos de frango com molho branco.
espelho da raça
a raça humana é um bicho preto que transita no canto de um banheiro escuro de um posto de gasolina às 2:54 da madrugada de um sábado para domingo. a raça humana é uma rato grande como um leitão que se arrepende de cruzar a rua depois de já ter começado a cruzar a rua. a raça humana é um desajuste entre os desejos e as possibilidades de suportar o contexto que estão ao redor dos desejos. é estacionar o carro numa rua deserta, chavear o carro, caminhar lento pela calçada, olhar os cadeados que asseguram as coisas de todos os lugares, e subir os degraus do prédio para enfiar a chave na fechadura, então abrir passagem para um corpo com vida que não consegue atravessar coisas simples como um vidro ou uma grade sem vida. depois enfiar de novo a chave para fechar a porta e ir até o elevador que sempre está no último andar porque os filhos da puta geralmente moram no último andar. a raça humana é um passeio sozinho nesse elevador depois de apertar o mesmo botão que leva ao mesmo andar. a raça humana é essa repetição de passos que conduz aos mesmos buracos profundos. a raça humana é dormir numa cama pequena com quem não se gostaria de dormir. a raça humana é dormir na rua e beber pinga barata até alcançar com o dedo pra suportar o inverno. a raça humana é um estatuto de preocupações ao redor do corpo. a raça humana é um desejo tenebroso de trucidar o desconhecido e todo o exército de gente que não sorri para os nossos próprios sorrisos. a raça humana é a batalha vencida de poder olhar o rosto humano. a raça humana é um maçarico incansável no pijama velho e surrado que nunca deveríamos tirar.
o carnaval é uma velha fumando na sacada vendo o samba passar
todos os espermatozoides a postos.
todas as lubrificações de buceta esperando fluidez.
todas as garrafas de cerveja bicadas por uma boca bêbada.
todos as vísceras de férias.
todos os pandeiros sendo tocados como as peles que se esfregam e roçam e se arrepiam.
todos os gemidos esperando que as palavras silenciem.
todas as barrigas estufadas.
todas os relógios ultrajados.
todo o prosaico em transe.
o carnaval é um coito desinterrompido.
é uma bomba relógio de subversão íntima.
é uma cascata de possibilidades pastosas.
é um pandemônio de consciências na fila de entrada da vida, esperando o leilão dos corpos.
é a produção em série dos escorpianos que nascerão em outubro.
o carnaval é quando as fricções fazem hora extra,
quando os arrepios estão em pé de guerra com a morbidez do sono,
quando as ereções são potenciais pontes ao útero.
o carnaval é este apagão de responsabilidades, de saúde, de heteronomia.
é o acerto de contas entre a culpa e a moral
é o acordo quixotesco do desejo com o corpo.
é uma mulher recém saída do banho,
com a toalha enrolada no cabelo,
de joelhos ao pé da cama,
com a bunda arrebitada,
deixando que só os espíritos do quarto espiem a beijo íntimo dos lábios íntimos,
teclando comigo no computador,
narrando uma nudez que não posso tocar.
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