terça-feira, 25 de março de 2014

Hermenêutica jurídica da Sogra






O imaginário da sogra, antes de um efeito, se apresenta como causa complexa das decisões. Perceber que a decisão judicial é um fenômeno complexo, deve(ria) ser o ponto de partida que, infortunadamente, é o ponto de chegada. Em geral, as pesquisas em direito se ocupam com aquilo que os pesquisadores do direito já sabem: que o positivismo fracassou porque sempre foi incapaz de apreender o real, que o lugar de poder é quem diz o quê o direito é, que a história chã do Brasil se constituiu e hoje se sedimenta via Ctrl C/Ctrl V, em um direito patrimonialista e aristocrático, ou seja, basicamente preocupado com gente rica, ainda que os ricos repudiem acusações desse tipo. É um direito que, de alguma estranha maneira, resignifica o ideal ético-medíocre do Rei do Camarote (se você ainda não viu esse personagem-tipo tupiniquim, visite o Youtube).

            Uma teoria da decisão judicial que deixe de ser subversiva em relação às fontes do direito, só é capaz de instruir os normalpatas[1]. A normalpatia é a psicopatologia de todos os juízes que acreditam ser justos.  E eles são maioria! No domingo de tarde eles almoçam com a família da esposa. Chegam às 11:30 pra ajudar com os preparativos. Eles adoram os talheres em ordem porque amam etiquetas – faca de um lado, garfo do outro, copo disso, copo daquilo, blá-blá-blá-nhê-nhê-nhêm. Tudo em perfeita simetria. A simetria dos talheres é a materialização da autoimagem que produzem de si mesmos. Ele – o juiz normalpata – com uma camisa polo comprada na última ida para Miami, afinal, em Miami as polos “de marca” sempre estão em promoção, o que faz o juiz normalpata publicar no facebook que o Brasil é uma porcaria por conta dos impostos. Ela, a esposa, com aquele vestido florido e largo, de algodão, pra esconder as imperfeições da bunda, afinal, depois dos filhos e do tempo, não há bunda que resista... E os filhos CORRENDO E GRITANDO de um lado para o outro. Com o DIABO no corpo! Depois do almoço, o juiz normalpata senta ao redor daquelas mesinhas brancas de plástico. Toma uma cerveja, e outra, e outra, até encher a cara. Não muito, afinal, ele bebe com prudência, pois é o Juiz Nosso Senhor da Prudência! Então discute alguma notícia do jornal dominical com a cunhada, que é mestre em Biologia pela Universidade de Pedro Juan Caballero (Paraguai). Ela também odeia o Brasil porque o MEC não reconheceu o diploma falsificado que ela comprou. E vai morrer sem admitir porque escreveu meia dúzia de parágrafos ruins na dissertação que ninguém vai ler. 
           
            Enquanto isso a velha está lá, fuçando em alguma coisa. As sogras estão sempre fuçando em alguma coisa. São rainhas da ninharia. E falam pelos cotovelos. E porque falam, inevitavelmente afetam os genros. Dessa afetação estão sujeitos todos os genros. O fato é que nos juízes, essa afetação tem efeitos apocalípticos que envenenam a democracia. A sogra então faz sua sustentação oral: uma fofoca do grupo da missa, a preocupação com as netas que começaram a sair (e a fumar a maconha – mas da maconha as velhas não sabem porque pensam que suas famílias são abençoadas por Deus...), emitem alguma opinião imbecil sobre a política que acontece na TV ou, ainda, decretam um comando despótico para o marido, o sogro, que é um velho que já morreu mas ainda não sabe.

            Depois os juízes normalpatas passeiam com os filhos e assistem o futebol das 4 da tarde. De noite assistem o Fantástico e vão para a cama. Mas não transam... porque já transaram no sábado, que é o dia oficial. Para os juízes normalpatas, transar no domingo é preclusão consumativa, afinal, a coisa já se consumou no sábado. O domingo é o dia da formação ideológica do juiz que acredita que é imparcial ou neutro. Todo jurista que tenta diferenciar imparcialidade e neutralidade está doente. Todas as decisões “neutras” das segundas-feiras têm o Fantástico como fonte do direito. O Fantástico e, claro, a sogra. A sogra é o arquétipo da justiça na parcimoniosa consciência dos julgadores do direito. Mas a sogra é metáfora. E é pelo analfabetismo metafórico que a virtude gagueja pelos corredores da jurisdição...

A hermenêutica da sogra é uma provocação surrealista que pretende observar a complexidade do fenômeno jurídico. Os laços óbvios que ligam o juiz, o conteúdo da decisão, seu pandemônio psíquico, a cultura e a historicidade, o mau humor, o decote que as advogadas usam nas audiências, o jeitinho de bom moço dos advogados cordiais, a TPM das juízas e das escreventes que morrem de inveja das juízas, as vidas despedaçadas pelos divórcios, o êxtase juvenil dos juízes recém-casados, o medo abissal de não conseguir pagar a conta do cartão de crédito, as tendências filosóficas – se bem que a normalpatia dos juízes imuniza qualquer abalo filosófico de seus significantes – e outras notas evidentes que atestam a malha de significações despercebidas que transitam nas margens da decisão judicial. Daí que responder aos dilemas judiciais por subsunção é uma das críticas mais óbvias (e cansadas) que as pesquisas em direito podem (e continuam a) fazer.
            Todo juiz que pensa que o Certo é igual à exatidão milimétrica de uma reta, não terá capacidade de entender que a hermenêutica da sogra é um borrão disforme cuspido no acostamento de uma rodovia em horário de pico. A hermenêutica filosófica é uma ferramenta importante para perceber a fundura do buraco em que o decidir judicial está metido. Não é preciso dizer que Platão e a história do conceito de Verdade têm parte nisso tudo. Os ares das Cortes ainda respiram o fedor das dicotomias platônicas. A overdose da gravata é um sintoma que qualquer acadêmico iniciante é capaz de perceber, desde que tenha exercitado e desenvolvido alguma sensibilidade propedêutica. O platonismo nunca morreu, aliás, nunca esteve tão vivo. Engana-se quem pensa em coisas como o tribalismo pós-moderno porque o direito está blindado a esse tipo de viragem cultural. A gravata, a barriguinha proeminente (barriguinha diminutiva porque eles bebem socialmente, ainda que sejam alcoólatras caseiros) e o cabelo lambido são os elementos essenciais do jurista de confiança, um Príncipe da República jurídica (e platônica) das bananas.
            A estrutura prévia de sentido, conceito cardinal da hermenêutica filosófica, e manuseado entre nós por juristas como Lenio Streck, Rafael Tomaz de Oliveira e Clarissa Tassinari, são a condição na qual está imerso o julgador quando pensa idiotamente que está colhendo provas para, em seguida, enquadrar a Verdade de um fato às normas, para, finalmente, emitir a decisão em um processo judicial. Os juízes são enganados pela fábula das três partes da sentença: o relatório, a fundamentação e o dispositivo. Isso porque o Relatório, feito pelo estagiário, não é lido por ninguém. Funciona bem como exercício de produção textual para alunos de graduação que, em geral, chegam à faculdade de direito com um português castiço. As Fundamentações são como lasanha congelada: estão sempre pré-montadas. E congeladas. E mórbidas. E sem gosto. E quando são servidas, estão frias no meio... As lasanhas e as fundamentações curam barrigas que roncam e direitos que gemem: basta descongelar no microondas e pedir para o estagiário assar por 20 minutos. O Dispositivo é o local formal onde o poder ejacula. O Dispositivo é um quarto de motel com uma puta de luxo que vai obedecer a todos os comandos de desejo obcecado, antes do gozo de poder DETERMINAR, CONDENDAR, ABSOLVER, MULTAR etc.
            A ideia de que a interpretação que constrói a decisão não se dá pela linearidade da subsunção, mas pela circularidade compreensiva do intérprete, é a primeira implosão do edifício da metodologia da interpretação feita pelos juízes normalpatas. Segundo Nietzsche, toda verdade é curva. José Calvo González trouxe as curvas necessárias para a compreensão do Direito[2]. Não seria o direito uma reta manipulada que torce pelo reestabelecimento de suas curvas? Com a sogra nos ajudando a estacionar...


[1] BARROS, L. F. Os normalpatas, não matei Jesus e outros textos. Rio de Janeiro – Ed. Imago, 1999.
[2] Para mais curvaturas do direito, vejam o livro de José Calvo González – Direito Curvo, editado pela Livraria do Advogado.

quinta-feira, 20 de março de 2014

cruzando o rio caveira

o dogma, revestido de todo o tipo de bíblia que se adjetiva na cabeça de gente com medo, é um modo de outorgar infantilmente a um pai qualquer, a interpretação moral, psicológica e sensível dos outros.

***

Os filisteus continuam a associar suas vidas a todo tipo de casca. A casca lhes protege das intempéries. E também empalidece suas carnes cruas e sem sabor.

***

Esses brancos são assim mesmo, se não cagam na entrada, cagam na saída.

***

As mulheres que nunca usaram OB afirmam que é pelo tamanho.

***

O Amor subverte as leis da física: perder espaço é potência para crescer.

***

Amor é quando duas coisas diferentes se olham e enxergam a mesma coisa. 

**

Gozar na vida é amor correspondido.
Viver a vida é amor não correspondido. Morrer na vida é não haver amor.

***

A liberdade do silencio é uma peça de mim que grita quando é torturada pela presença. Há em mim uma ausência que sente fome da lisura e da honestidade do silêncio. É uma espécie de incapacidade, de desumanidade, de rabugice melancólica que me toma e me transforma, me coloca em xeque. Uma submissão ao mar dos meus humores. Uma latencia chata que coça o espirito, uma morrinha que afasta ao invés de unir. É um repouso que os meus demônios da alteridade precisam depois de um banquete
barulhento, sociável, notável, bendito, divino, amoroso, aceitável, burguês e com ares de normalidade e de congruência. A congruência não me interessa. Pedir o silêncio, antes de uma
loucura ou uma heresia,
É minha maneira de fazer com que os demônios durmam, quando eles ja me são insuperáveis e insuportáveis. O outro me é uma flecha ferina, um veneno acido que corrói minhas carnes, um mosquito zunindo durante meu grande sono que é estar vivo. Viver é uma maneira de dormir. E de esquecer.
Seria melhor não ser, ser nada, apagar os resquícios de qualquer história para matar os demônios que tem residência fixa nos nossos esquecimentos.
Mas os demônios, tal qual
os anjos, não são muito de
morrer. Apenas dormem, ou tiram ferias. Eu conheço uns e outros, e percebo quando sussurram, mesmo sem entender o que dizem.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Direito é um site de encontro









 



Tempos atrás me cadastrei em um site de encontros. Algo do tipo: você informa dados pessoais como seu prato preferido, sua idade, a cidade que você mora, sua religião, se tem filhos e quantos, se fuma ou não fuma ou se fuma só de vez em quando, se gosta de esportes, de filmes, de yoga, de jogar videogame, de foder bastante ou não, se prefere mais ou menos amorzinho, se come ou não come sushi (porque hoje, amigo, se você não comer sushi, suas chances são terrivelmente remotas), se é socialismo-amoroso-bobmarley ou se é liberalismo-razão-meritocracia. O muro de Berlim que temos hoje vai de Davos até o Fórum Social Mundial. E nisso não há nada de novo porque sempre fomos campeões em ver vitória em todo tipo de oposição. 

Pergunto: qual o fundamento do desespero para encontrar coisas como o “Amor Ideal” ou a “Namorada que Vai te Salvar do Fogo do Demônio” ou a “Justiça Social Escrevendo Artigos Qualis para o seu Lattes que Ninguém Vai Ler”?


A solidão coça em quase todos. Não gostam de ficar sozinhas porque morrem de medo da solidão. Poucos suportam o silêncio – melhor que falemos, melhor que o som do carro esteja ligado, melhor que se diga. Se o medo paralisa, a cultura cobra. O grande Outro que é a cultura cobra desde sempre: a família, o nascimento e o casamento, sempre foram a quantidade, enquanto a solitude, a vitória sobre o instinto de reprodução biológico (porque há reproduções artísticas como os gozos de criatividade) e a contemplação, foram a qualidade. Há neste antagonismo um quê do antagonismo entre o Oriente e o Ocidente que é um naco do entendimento sobre o direito que virá – e não nos importa que seja com este ou outro nome. Um espírito geneticamente passivo (e mórbido¿) que tem um casamento fadado ao fracasso com um espírito geneticamente ativo (e ansioso¿). Um que olha e tudo e vê, outro que precisar sonhar para ver tudo e os filhos que pensam que o tudo está fora de moda depois que começamos o Tribalismo Pós-Moderno do Depende Ú-hul!


A apoteose do desejo de encontro, e desse grande medo adolescente, é um dado revelado com esses sites de encontro. O desejo e o medo são fantasmas de barbas brancas, o calo da transvaloração do nosso jeito de pretender justiça – desde sempre por intermédio de uma preleção de normas. A diferença é a turbinada dos meios para anestesiar os medos e para controlar os desejos. Somos a história de uma repressão de tudo que foi ligado ao corpo. Desnutridos do pão da fundura, se têm ouvidos para ouvir, ouçam: quando a balança estiver equilibrada, já estaremos mortos!
No site de relacionamento, você pode definir qual o raio de filtragem da busca. Ou seja, você pode estar disposto a ir até a cidade vizinha, até a puta que pariu, ou até o interior do Acre, que é depois. Claro, se você aumentar o raio, as chances de você encontrar o Amor da Sua Vida são maiores. Isso se você postar uma foto (que aumentam a chance segundo janelinhas sem fim do próprio site) e preencher com atenção todas as lacunas que são os ingredientes da Receite Perfeita que você montou no Site da Limpeza de Todos as Entidades do Mal que vão embora de sua casa com um Incenso de Canela do Cerrado e que, de quebra, vai acabar com sua conformação de punheteiro.
 

O perfil de um site de relacionamento é como um Código ou uma Constituição: se tudo aquilo der certo, seremos felizes...! Agora, então, à Constituição desnutridos!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

pontes




Há um antigo mito qualquer que apresenta as possibilidades do dilema humano. Ao encontrar uma fenda imensa bem no meio do caminho, que impedia a natureza do seu itinerário, o caminhador meditou as possibilidades. Poderia tentar pular a fenda, mesmo sem certeza do alcance do seu impulso. E aprendeu que a coragem, por si só, não aumentava o tamanho de suas pernas nem diminuía a extensão do buraco. Poderia tentar contornar a enorme fenda, que rasgava a terra até onde os olhos não podiam ver. E aprendeu que mesmo a resistência precisava crer. Crer que não se tratava de uma fenda sem fim, que porventura pudesse ter o tamanho do mundo inteiro, a ponto de separá-lo para sempre do seu próprio destino, que era caminhar. Poderia voltar. Dar as costas. Mas pela dor que os pés sentiam, aprendeu que voltar é trair os caminhos. Poderia, por fim, construir. Uma ponte. Ou asas. Ou uma casa com vista para a fenda. Ficou com a ponte porque todas as pontes são memória das faltas e potência de volta.

domingo, 1 de dezembro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

orgasmo no clitóris é como fumar e não tragar




Então falamos sobre como ela gostava. Me disse que tinha construído sua própria via-régia até o orgasmo. Eu ficava imaginando não o gozo em si, porque esse eu sentia, mas o caminho. E que tipo de paisagem erótica ou exótica ela via enquanto ia caminhando até o abismo do orgasmo. E o modo como caminhava, ou se rebolava, ou se corria, ou se deslizava. Ou se era abduzida na hora do abismo ao invés de cair. O orgasmo feminino é mais misterioso que todo o Cosmo e os Buracos Negros e os OVNIS. É da natureza do êxtase não ter direção, nem noções espaciais precisas. É uma espécie de lambida que a gente dá na morte. Ela preferia orgasmo interno, o choque das paredes internas, o frêmito invisível dos sucos espalhando-se por dentro. Disse que gozar pelo clitóris era como fumar um cigarro e não tragar. Fiquei pensando em como sabemos pouco sobre o corpo de uma mulher. E nada sobre sua alma. Em como somos miseravelmente ignorantes. E em como somos óbvios com nosso pau ali honestamente pendurado, e nosso orgasmo inegável, e todas mentiras que não sabemos mentir.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

escute-me




Estamos ligados um no outro.
Tenho provas improváveis.
A ciência não poderá dizer.
Nem nada poderá dizer.
Dizer o quê, quando a coisa já está dita?
Não se pode ver, mas acontece:
em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo.
As coincidências pululam e pulam.
E gemem em eco.
As recorrências também.
As novas incidências do mesmo, somadas às diferenças do múltiplo.
A diferença acontecendo dentro da repetição.
E eu ai dentro -
do teu banho,
da tua coberta,
da tua vida,
do teu corpo.
Morando ai em ti,
como se tivesse mudado pra um flat beira-mar.
Com rede na sacada.
E música boa.
Ganhando um assopro de vida sem fazer mal pra ninguém.
Feliz com a potência da coisa.
Olhando tudo de olhos fechados.

domingo, 13 de outubro de 2013

morte aos facínoras



A segunda é uma minoria ignorada.
A segunda foi deposta pela tirania da maioria das sextas e sábados.

Por isso se prostituiu.
Teve que sair de casa.
E dar sem vontade ou tesão para os velhos gordos e broxas,
por sobrevivência, pra pagar as contas.

Sonho uma segunda recriada. 
Como um final de semana ao contrário.

Sonho que a segunda seja a primeira.

E torço que os casais possam transar na segunda.
Não de noite, mas de tarde.
Boa parte dos problemas do mundo se resolveriam 
se as pessoas trepassem mais de tarde.
 
Eu luto pelas segundas.
Mas sem passeata, porque passeata cansa.
Pretendo ressuscitar as segundas.
Para que tenham direitos, 

para que não sofram preconceito nem bullying,
para que tenham quota na universidade, 
para que tenham passe livre no metrô. 

Para que sejam ressarcidas por esperar na lama.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

o coice





a paixão é um coice.
é uma morte violenta de um adolescente que bate o carro no final de semana.
e que está frio no meio de um velório dramático, com o mundo desabando ao redor daquele corpo frio.
e que faz a vida mudar do dia pra noite pela dor da ausência nos que ficaram.

simplesmente pelo que se era antes daquilo que aconteceu.

a paixão também é um coice de carinho.

nesse tipo não há corpos frios, apesar de toda a mudança.
um coice 

que sorri três vezes no celular quando ela coloca três bocas ao invés de uma.
e que olha as árvores passando enquanto um ônibus anda.
e que fica 24h sem comer, na cama, fungando uma pele,

com os gatos olhando com ceticismo para o jeito como a gente faz amor.
e que acorda como se já tivesse acordado,

com ares de uma outra vida repetida, 
uma intuição mais próxima da verdade do que a própria verdade.
e que diz SIM.

Porra, temos que dizer sim para as coisas - toda a merda do mundo começa com um Não!
 

e que afirma a desrrazão daquilo tudo.
e que percebe que o sol, quando morre, é mais bonito.

e que nota que tem outras coisas além do sol que são bonitas mortas, ou morrendo.
e que não entende a rapidez dos coices, das lanças e do estar vivo e já não estar mais.
que não entende nada.
e que só trairá o outro com o silêncio.
ou nem mesmo com ele.


a paixão é um tipo de absurdo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

sem escrever a palavra silêncio





E eu...
que me pensava rico de palavras,
me percebi menino.
Ou melhor: criança.
Dessas novinhas, de colo.
Tipo as que cospem a papa na gola da camiseta.
E que devolvem a papa para a colher, 

sem nenhuma culpa ou vergonha dos outros.

Definitivamente, não tenho sabido dizer!
Por isso, quando escurece, escrevo.
É um jeito nostálgico de lembrar quem eu fui.
Mas escrevo só a raspa do tacho,
só as cracas das palavras que, mesmo ditas, não dizem porra nenhuma.
Dizer é errar o alvo das coisas humanas que são sumas.

E eu...
que me pensava rico em palavras!
QUE INGÊNUO! QUE IMBECIL!
Fui autoboicotado por mim mesmo, que é um tipo de boicote raro. 

E duplo.
Tenho tido fé no gaguejo.
E balbuciado como nunca.
Ando bom também em enrolar a língua:
Em público porque sou sequestrado pelo que penso.
E no íntimo porque simplesmente minha dicção gripou.
É uma espécie de virose da linguagem que os médicos nunca poderão catalogar porque ainda acreditam em catálogos.
Craque mesmo fiquei em sussurro e gemido - tanto em emitir quanto em ouvir,
porque não se pode dizer nem um nem outro.
De resto tenho BABADO.
E limpado na manga da camisa.
Isso porque pegaria mal pra um cara de 30 andar com aquele paninho-branco-estanca-baba-de-recém-nascido.

É que depois dela emudeci.
Não sei dizer.
E nem quero.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

cortando




Já não tenho uma teoria.
Nem exemplos.
A subsunção me traiu.
A dedução limitou tudo a quase nada.
Eu espero.
Espero a vida me assoviar um exemplo.
As teorias são cigarros acessos esquecidos num cinzeiro.
Já não estou certo como estive.
Nem errado, afinal até o Diabo teve razão em algumas coisas.
Tenho uma fé científica de que a fé e a ciência amadureçam dentro de mim. E também fora de mim. E nos outros.
Até lá estaremos com a mesma atenção de alguém que levanta bêbado pra mijar no meio da madrugada.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Chapeleiro é o Anjo da Terra

 
 As de 30 querem ter filhos.
As de 20,
também querem ter filhos, mas ainda não sabem.
Umas dizem: "eu sou uma MULHER
e preciso de um HOMEM,
por isso que você não fica comigo."

No meio de um mundo em que todo mundo quer ser um HOMEM, eu só quero ser um homem.

Algumas dizem que abortariam.
Outras dizem que teriam a criança de qualquer jeito -
mesmo que tivessem que ser mães solteiras.

O lamento heroico da mãe solteira - uma moda.
É a sujeirinha moral da história na toalha em que tomamos este café da manhã.
Todas as mães acabam abandonadas no mundo animal.
O abandono do macho em relação à fêmea prenhe,
é um dos caminhos do mito da heroína.

Os coringas de baralho,
os peter-pans,
os palhaços de circo,
os ciganos e os nômades,
os tripulantes de navio,
os imigrantes,
os andarilhos.
Todos esses são os homens de um rio guiado pela força da gravidade.
Homens que esquecem seus filhos na margem com as mães depois que descobrem a riqueza da Terra e da Vida.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

boca puta








Gosto de ficar tentando entender tua boca.
Gosto de ter certeza que não posso entender tua boca.
Gosto de perceber que o pressuposto da tua boca é uma sensação.
Gosto de olhar ela nas fotos: 
ela se lambendo, se lambuzando, 
se mordiscando, 
se arrefecendo quando o sangue escorre para os desejos que não acontecem na boca.

Tua boca não é SÓ a tua boca porque se relaciona com a minha.
E com todas as bocas que desejam avidamente a tua.
Vejo todos engatinhando escravos em direção à tua boca.
Vejo sentinelas ao redor da tua boca, guardando ela como se guarda um lugar proibido.
É uma esquina erótica do mundo.
Um borrão de vontade suspenso no ar de um rosto.
Uma carne pendurada, passiva, à espera de uma violência.
Tua boca é puta!
É minha puta!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

micro manifesto sobre a sinceridade



Só as cãimbras são sinceras.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Treze vezes anteontem




Quando faço toda a força, e minha veia do pescoço engrossa, e sinto a dor humana de fazer uma força insuportável, percebo que que os pilares, fincados até o centro da Terra, só deixam a indiferença ou para me desejar uma pena, ou para denunciar a minha arrogância de tentar mover, com força humana, um cimento mórbido feito pelo copia-e-cola da história de milhares de fracos. A história do cotidiano pertence aos fracos. A virtude do cotidiano pertence aos fracos. Se não lhes cabe o pódio do porvir, a própria vida, enquanto acontece, é seu coroamento. Eles não estão nos livros, mas sempre controlaram todas as fronteiras do instinto maniqueísta, sempre controlaram os sorrisos dos que deveriam sorrir, sempre ajustaram as vidas alheias nos processos judiciais, sempre tiveram o poder de constituir os fatos no momento em que os fatos acontecem. É com espanto que percebo que são eles, os que verdadeiramente afirmam a vida. A soma de todos os medos dos fracos não forma uma centelha de coragem sequer, mas constrói uma Torre de Babel miserável e imensa, um Leviatã transgênico e horroroso, feito de carne artificial, de olhos míopes e perfume francês. Então a fadiga e o fastio me abatem: é quando me visita o demônio do conformismo, que chupa todo meu sangue, me faz letárgico, fraco, medroso de um medo fluido que não se petrifica. O demônio me diz: não perca tempo Paulo, é em vão. Atendo ao demônio, porque atendo todos que me visitam. Perco o interesse em dizer, porque não há eco. Perco o interesse em fazer força, porque toda a força é em vão. Perco o interesse em silenciar, porque mesmo o silêncio não significa coisa nenhuma a pilares que, por desumanos, não têm ouvidos. O Estado é uma máquina caótica, torturante, enguiçada e controlada por fantasmas. Não tenho as ferramentas pra consertar o enguiço.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

a cara do cara do bem




A cara de homem de bem do Alckimin é irritante. O José Simão acertou na mosca quando percebeu ele como uma espécie de arquétipo do "homem de princípios". A encarnação do eixo. Aquela cara que não enruga a testa diz, toda vez que diz qualquer porcaria: eu não peido, eu não furto, eu me alimento 5 x por dia, eu não como o cú da minha esposa, eu vou à missa, eu nunca repito a cueca dois dias seguidos, eu só dou doce para as crianças no final de semana, eu só bebo no final da refeição, eu só durmo com os lençóis esticados, meu deadline pra dormir é à meia-noite, eu nunca escondo com o nó da gravata o botão aberto da camisa. Ele nasceu pra ser OK. Ele tem, já na terra, as fitinhas pra ala vip no céu. É uma máquina nascida pra gerar culpa na subversão, que não sente culpa, mas náusea. E isso não é uma crítica política...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

não vim ser feliz, vim ser humano






Onde estão os espaços por onde caminharei?
Onde estão os esgotos pra escoar, junto com o mijo urbano, também as minhas chuvas?
O quê veem os olhos do mundo, que são também meus?
O quê tem passado no filme dos sonhos daqueles que são capazes de dormir?
Por qual mão se atreve a textura da pele e do pelo mínimo da pele que não está mais?
Por qual pinça de dedos se arrepiam os mamilinhos das gurias de 18 anos,
das ovelhas que moram nas chácaras e
das cadelas domésticas das velhas aposentadas que ninguém mais quer comer nem sequer no escuro?
Onde está o peito que amanhã receberá a bala mortal e o coice da paixão?
Onde reinará o amor daqueles que são incapazes de amar?
Quantos mendigos haverão nas ruas dos meus 83 anos de tristeza de um sorriso sem dentes?

E quantas senhorinhas, enfim, chorarão meu peso morto de defunto,
descendo irônico pela vala que nunca me terá,
porque terei subvertido, na hora da vala, também à própria vala?

Percebo que não há em mim nada mais do que um antes e um depois,
um depois que é frágil igual a um espermatozoide que se debate como um peixe louco numa camisinha.

Sou um gatilho engatilhado em direção ao escuro.
Sou um galho torto que voltou a se enterrar só pela nostalgia da raiz.
E cogitando o flerte regresso do que foi, e mesmo a esperança,
contemplo a espera rememorando os murmúrios.
É um modo de dedilhar um gozo melancólico, ora precoce, ora letárgico.
É uma espécie de poder silencioso, robusto e vil,
que não serve para as coisas vivas do mundo.
O presente não me interessa.
O presente é uma gozada robótica que se dá antes de dormir.
Não posso deixar de detectar que o presente é a miséria dos felizes.
Assim como são miseráveis todas as coisas feitas de fragmentos.
Pretender pedaços é instinto dos bichos de zoológico alimentados por um pai idiota.
É tanta gente feliz, que eu me entristeço pra cooperar: 
fico triste pela função social de equilibrar o mundo.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

mínimas coisas que se pode dizer sobre os novos relacionamentos






E quando fui ver, eu já era outro.

*

Pra quem acha que o contrário de amor é ruim, se engana, porque o lugar é bem agradável, e a comida boa.

*

Quanto mais dura é a realidade, menos duro eu fico.

*

  Primeiro mandamento: diga o que precisa ser dito aos idiotas, custe o quê custar.

*

A bunda é a futilidade do homem.

*


Deus me fez econômico, mas o Diabo inventou os livros, os vinhos, os rodízios de churrasco e as massagistas.

*


Os amantes servem justamente para quando os namorados estão trabalhando demais.

*

Haverá maior subversão que o suicídio?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

luto







Em cada dito

há um luto.

Mas os ditos não são benditos.

Pois lhes falta o defunto.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

ENCONTRAR O ANVERSO



As costas estão nuas, e não os peitos.
O nó-de-pinho será a lenha, antes do eucalipto.
A bebida será a comida.
A luz será a meia-luz.
A música será apenas o crepitar de um fogo mal começado.
Os vidros não estarão limpos, mas empoeirados.
Os vidros não estarão translúcidos, mas embaçados.
Você escreverá em pé, para não estar sentando, moribundo, paralítico.
Você escreverá em pé para estar mais perto do céu.
Você escreverá em pé, arrogante.
E olhará a janela, encarando ninguém.
Você esquecerá as unhas e a barba;
o horário e a cueca de ontem.
Estacionará na frente da casa de uma cartomante, mas não verá nenhuma carta.
Encontrará antigos amores, sem estar com antigos amores.
E tocará a pele dela, sem poder ENCOSTAR na pele dela.
Você sentará ao lado do fogo, mas sentirá frio do outro lado do corpo.
Reunirá os tapetes para construir um exército de um homem só contra o nada.
Comerá o doce antes do salgado.
Estará polígamo, mesmo com o pau mole.
Será o sado-masoquista, sem dor  ou dever.
A uma, dedicará o pensamento.
A outra, reservará o coração.
E a uma terceira ainda, dedicará o gozo.
A uma terceira e até, eventualmente, a uma quarta, sabe-se lá!
Haverá um rearranjo estético – a mesa mais pra lá e uma escrivaninha improvisada pra roubar o sinal da internet. Manifestações em todo o país contra a corrupção e eu aqui, corrupto, ROUBANDO O SINAL DA INTERNET, DEMASIADO ROUBANDO O SINAL DA INTERNET.
O frio gélido vai fazer uma das suas bolas sumir.
Você vai olhar na hora do mijo, e perceber que uma bola entrou cavidade adentro.
Haverá o devir de um amor livre.
E o único silêncio de uma colher num prato de sopa.
Haverá coragem para tomar territórios.
E uma covardia para sair deles.
Você terá nas mãos o controle seminal do fogo.
Você estará esperando que alguma coisa aconteça.
Haverá uma enganação feita de palavras verdadeiras.
Haverá um livro a ser lido, que na página 59 diz assim:

Os verdadeiros fundamentos de uma investigação não ocorrem, absolutamente, a um homem.

sábado, 20 de julho de 2013

tópica




Você olha em volta
tentando encontrar a própria miséria, 
mas só vê paredes mudas de branco, cachorros que são felizes sem falar nada
e pulgas trabalhando por gotas minúsculas de sangue de cachorros que não falam nada.

Você olha por dentro, 
se transforma em um bacilo que caminha no meio do músculo da carne humana, 
ou então se sente um micróbio pequeno como o nada, 
nadando no mar gástrico que transforma tudo em merda. 

Mesmo assim, sorrateiro, não encontra a própria miséria. 
Então você resolve ir fundo, prescindir da matéria, 
e começa a acreditar no inconsciente, no cosmo, no raio que o parta, 
numa cruzada à caça da própria miséria, 
mas só encontra um oco, mudo, igual a um salão de baile em final de festa, 
quando as faxineiras que dormem e acordam cedo, 
começam a virar as cadeiras de pernas pra cima, 
como se atirassem corpos do patamar da vida para a morte.

Fora ou dentro ninguém diz nada, 
nenhum mestre dos magos e nenhuma bruxa maligna,
nem mesmo pra nos dar a direção errada do caminho. 
Ah a direção errada! Nem mesmo ela pra eliminar uma variável das direções possíveis.

A direção errada seria um rosto humano nu nesse baile veneziano de máscaras. Mas nem ela!
Terei o direito de ser proprietário da própria miséria?

Cogito a miséria como o ponto vélico do mundo, 
como o triângulo das Bermudas, 
como o buraco negro que fechará as cortinas do absurdo.
Deus estará lá, brincando de ser Deus, com uma máscara do Bozo ou com uma máscara de Deus.
Mas ele não é nem nunca será um filho da puta. 
Ele não nasceu no meio do sangue e das gororobas da placenta.
Ele é um deixado ao relento dentro de uma caixa de sapato numa parada de ônibus. 
A miséria dos que vivem é não poder parar.