sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

pontes




Há um antigo mito qualquer que apresenta as possibilidades do dilema humano. Ao encontrar uma fenda imensa bem no meio do caminho, que impedia a natureza do seu itinerário, o caminhador meditou as possibilidades. Poderia tentar pular a fenda, mesmo sem certeza do alcance do seu impulso. E aprendeu que a coragem, por si só, não aumentava o tamanho de suas pernas nem diminuía a extensão do buraco. Poderia tentar contornar a enorme fenda, que rasgava a terra até onde os olhos não podiam ver. E aprendeu que mesmo a resistência precisava crer. Crer que não se tratava de uma fenda sem fim, que porventura pudesse ter o tamanho do mundo inteiro, a ponto de separá-lo para sempre do seu próprio destino, que era caminhar. Poderia voltar. Dar as costas. Mas pela dor que os pés sentiam, aprendeu que voltar é trair os caminhos. Poderia, por fim, construir. Uma ponte. Ou asas. Ou uma casa com vista para a fenda. Ficou com a ponte porque todas as pontes são memória das faltas e potência de volta.

domingo, 1 de dezembro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

orgasmo no clitóris é como fumar e não tragar




Então falamos sobre como ela gostava. Me disse que tinha construído sua própria via-régia até o orgasmo. Eu ficava imaginando não o gozo em si, porque esse eu sentia, mas o caminho. E que tipo de paisagem erótica ou exótica ela via enquanto ia caminhando até o abismo do orgasmo. E o modo como caminhava, ou se rebolava, ou se corria, ou se deslizava. Ou se era abduzida na hora do abismo ao invés de cair. O orgasmo feminino é mais misterioso que todo o Cosmo e os Buracos Negros e os OVNIS. É da natureza do êxtase não ter direção, nem noções espaciais precisas. É uma espécie de lambida que a gente dá na morte. Ela preferia orgasmo interno, o choque das paredes internas, o frêmito invisível dos sucos espalhando-se por dentro. Disse que gozar pelo clitóris era como fumar um cigarro e não tragar. Fiquei pensando em como sabemos pouco sobre o corpo de uma mulher. E nada sobre sua alma. Em como somos miseravelmente ignorantes. E em como somos óbvios com nosso pau ali honestamente pendurado, e nosso orgasmo inegável, e todas mentiras que não sabemos mentir.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

escute-me




Estamos ligados um no outro.
Tenho provas improváveis.
A ciência não poderá dizer.
Nem nada poderá dizer.
Dizer o quê, quando a coisa já está dita?
Não se pode ver, mas acontece:
em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo.
As coincidências pululam e pulam.
E gemem em eco.
As recorrências também.
As novas incidências do mesmo, somadas às diferenças do múltiplo.
A diferença acontecendo dentro da repetição.
E eu ai dentro -
do teu banho,
da tua coberta,
da tua vida,
do teu corpo.
Morando ai em ti,
como se tivesse mudado pra um flat beira-mar.
Com rede na sacada.
E música boa.
Ganhando um assopro de vida sem fazer mal pra ninguém.
Feliz com a potência da coisa.
Olhando tudo de olhos fechados.

domingo, 13 de outubro de 2013

morte aos facínoras



A segunda é uma minoria ignorada.
A segunda foi deposta pela tirania da maioria das sextas e sábados.

Por isso se prostituiu.
Teve que sair de casa.
E dar sem vontade ou tesão para os velhos gordos e broxas,
por sobrevivência, pra pagar as contas.

Sonho uma segunda recriada. 
Como um final de semana ao contrário.

Sonho que a segunda seja a primeira.

E torço que os casais possam transar na segunda.
Não de noite, mas de tarde.
Boa parte dos problemas do mundo se resolveriam 
se as pessoas trepassem mais de tarde.
 
Eu luto pelas segundas.
Mas sem passeata, porque passeata cansa.
Pretendo ressuscitar as segundas.
Para que tenham direitos, 

para que não sofram preconceito nem bullying,
para que tenham quota na universidade, 
para que tenham passe livre no metrô. 

Para que sejam ressarcidas por esperar na lama.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

o coice





a paixão é um coice.
é uma morte violenta de um adolescente que bate o carro no final de semana.
e que está frio no meio de um velório dramático, com o mundo desabando ao redor daquele corpo frio.
e que faz a vida mudar do dia pra noite pela dor da ausência nos que ficaram.

simplesmente pelo que se era antes daquilo que aconteceu.

a paixão também é um coice de carinho.

nesse tipo não há corpos frios, apesar de toda a mudança.
um coice 

que sorri três vezes no celular quando ela coloca três bocas ao invés de uma.
e que olha as árvores passando enquanto um ônibus anda.
e que fica 24h sem comer, na cama, fungando uma pele,

com os gatos olhando com ceticismo para o jeito como a gente faz amor.
e que acorda como se já tivesse acordado,

com ares de uma outra vida repetida, 
uma intuição mais próxima da verdade do que a própria verdade.
e que diz SIM.

Porra, temos que dizer sim para as coisas - toda a merda do mundo começa com um Não!
 

e que afirma a desrrazão daquilo tudo.
e que percebe que o sol, quando morre, é mais bonito.

e que nota que tem outras coisas além do sol que são bonitas mortas, ou morrendo.
e que não entende a rapidez dos coices, das lanças e do estar vivo e já não estar mais.
que não entende nada.
e que só trairá o outro com o silêncio.
ou nem mesmo com ele.


a paixão é um tipo de absurdo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

sem escrever a palavra silêncio





E eu...
que me pensava rico de palavras,
me percebi menino.
Ou melhor: criança.
Dessas novinhas, de colo.
Tipo as que cospem a papa na gola da camiseta.
E que devolvem a papa para a colher, 

sem nenhuma culpa ou vergonha dos outros.

Definitivamente, não tenho sabido dizer!
Por isso, quando escurece, escrevo.
É um jeito nostálgico de lembrar quem eu fui.
Mas escrevo só a raspa do tacho,
só as cracas das palavras que, mesmo ditas, não dizem porra nenhuma.
Dizer é errar o alvo das coisas humanas que são sumas.

E eu...
que me pensava rico em palavras!
QUE INGÊNUO! QUE IMBECIL!
Fui autoboicotado por mim mesmo, que é um tipo de boicote raro. 

E duplo.
Tenho tido fé no gaguejo.
E balbuciado como nunca.
Ando bom também em enrolar a língua:
Em público porque sou sequestrado pelo que penso.
E no íntimo porque simplesmente minha dicção gripou.
É uma espécie de virose da linguagem que os médicos nunca poderão catalogar porque ainda acreditam em catálogos.
Craque mesmo fiquei em sussurro e gemido - tanto em emitir quanto em ouvir,
porque não se pode dizer nem um nem outro.
De resto tenho BABADO.
E limpado na manga da camisa.
Isso porque pegaria mal pra um cara de 30 andar com aquele paninho-branco-estanca-baba-de-recém-nascido.

É que depois dela emudeci.
Não sei dizer.
E nem quero.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

cortando




Já não tenho uma teoria.
Nem exemplos.
A subsunção me traiu.
A dedução limitou tudo a quase nada.
Eu espero.
Espero a vida me assoviar um exemplo.
As teorias são cigarros acessos esquecidos num cinzeiro.
Já não estou certo como estive.
Nem errado, afinal até o Diabo teve razão em algumas coisas.
Tenho uma fé científica de que a fé e a ciência amadureçam dentro de mim. E também fora de mim. E nos outros.
Até lá estaremos com a mesma atenção de alguém que levanta bêbado pra mijar no meio da madrugada.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Chapeleiro é o Anjo da Terra

 
 As de 30 querem ter filhos.
As de 20,
também querem ter filhos, mas ainda não sabem.
Umas dizem: "eu sou uma MULHER
e preciso de um HOMEM,
por isso que você não fica comigo."

No meio de um mundo em que todo mundo quer ser um HOMEM, eu só quero ser um homem.

Algumas dizem que abortariam.
Outras dizem que teriam a criança de qualquer jeito -
mesmo que tivessem que ser mães solteiras.

O lamento heroico da mãe solteira - uma moda.
É a sujeirinha moral da história na toalha em que tomamos este café da manhã.
Todas as mães acabam abandonadas no mundo animal.
O abandono do macho em relação à fêmea prenhe,
é um dos caminhos do mito da heroína.

Os coringas de baralho,
os peter-pans,
os palhaços de circo,
os ciganos e os nômades,
os tripulantes de navio,
os imigrantes,
os andarilhos.
Todos esses são os homens de um rio guiado pela força da gravidade.
Homens que esquecem seus filhos na margem com as mães depois que descobrem a riqueza da Terra e da Vida.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

boca puta








Gosto de ficar tentando entender tua boca.
Gosto de ter certeza que não posso entender tua boca.
Gosto de perceber que o pressuposto da tua boca é uma sensação.
Gosto de olhar ela nas fotos: 
ela se lambendo, se lambuzando, 
se mordiscando, 
se arrefecendo quando o sangue escorre para os desejos que não acontecem na boca.

Tua boca não é SÓ a tua boca porque se relaciona com a minha.
E com todas as bocas que desejam avidamente a tua.
Vejo todos engatinhando escravos em direção à tua boca.
Vejo sentinelas ao redor da tua boca, guardando ela como se guarda um lugar proibido.
É uma esquina erótica do mundo.
Um borrão de vontade suspenso no ar de um rosto.
Uma carne pendurada, passiva, à espera de uma violência.
Tua boca é puta!
É minha puta!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

micro manifesto sobre a sinceridade



Só as cãimbras são sinceras.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Treze vezes anteontem




Quando faço toda a força, e minha veia do pescoço engrossa, e sinto a dor humana de fazer uma força insuportável, percebo que que os pilares, fincados até o centro da Terra, só deixam a indiferença ou para me desejar uma pena, ou para denunciar a minha arrogância de tentar mover, com força humana, um cimento mórbido feito pelo copia-e-cola da história de milhares de fracos. A história do cotidiano pertence aos fracos. A virtude do cotidiano pertence aos fracos. Se não lhes cabe o pódio do porvir, a própria vida, enquanto acontece, é seu coroamento. Eles não estão nos livros, mas sempre controlaram todas as fronteiras do instinto maniqueísta, sempre controlaram os sorrisos dos que deveriam sorrir, sempre ajustaram as vidas alheias nos processos judiciais, sempre tiveram o poder de constituir os fatos no momento em que os fatos acontecem. É com espanto que percebo que são eles, os que verdadeiramente afirmam a vida. A soma de todos os medos dos fracos não forma uma centelha de coragem sequer, mas constrói uma Torre de Babel miserável e imensa, um Leviatã transgênico e horroroso, feito de carne artificial, de olhos míopes e perfume francês. Então a fadiga e o fastio me abatem: é quando me visita o demônio do conformismo, que chupa todo meu sangue, me faz letárgico, fraco, medroso de um medo fluido que não se petrifica. O demônio me diz: não perca tempo Paulo, é em vão. Atendo ao demônio, porque atendo todos que me visitam. Perco o interesse em dizer, porque não há eco. Perco o interesse em fazer força, porque toda a força é em vão. Perco o interesse em silenciar, porque mesmo o silêncio não significa coisa nenhuma a pilares que, por desumanos, não têm ouvidos. O Estado é uma máquina caótica, torturante, enguiçada e controlada por fantasmas. Não tenho as ferramentas pra consertar o enguiço.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

a cara do cara do bem




A cara de homem de bem do Alckimin é irritante. O José Simão acertou na mosca quando percebeu ele como uma espécie de arquétipo do "homem de princípios". A encarnação do eixo. Aquela cara que não enruga a testa diz, toda vez que diz qualquer porcaria: eu não peido, eu não furto, eu me alimento 5 x por dia, eu não como o cú da minha esposa, eu vou à missa, eu nunca repito a cueca dois dias seguidos, eu só dou doce para as crianças no final de semana, eu só bebo no final da refeição, eu só durmo com os lençóis esticados, meu deadline pra dormir é à meia-noite, eu nunca escondo com o nó da gravata o botão aberto da camisa. Ele nasceu pra ser OK. Ele tem, já na terra, as fitinhas pra ala vip no céu. É uma máquina nascida pra gerar culpa na subversão, que não sente culpa, mas náusea. E isso não é uma crítica política...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

não vim ser feliz, vim ser humano






Onde estão os espaços por onde caminharei?
Onde estão os esgotos pra escoar, junto com o mijo urbano, também as minhas chuvas?
O quê veem os olhos do mundo, que são também meus?
O quê tem passado no filme dos sonhos daqueles que são capazes de dormir?
Por qual mão se atreve a textura da pele e do pelo mínimo da pele que não está mais?
Por qual pinça de dedos se arrepiam os mamilinhos das gurias de 18 anos,
das ovelhas que moram nas chácaras e
das cadelas domésticas das velhas aposentadas que ninguém mais quer comer nem sequer no escuro?
Onde está o peito que amanhã receberá a bala mortal e o coice da paixão?
Onde reinará o amor daqueles que são incapazes de amar?
Quantos mendigos haverão nas ruas dos meus 83 anos de tristeza de um sorriso sem dentes?

E quantas senhorinhas, enfim, chorarão meu peso morto de defunto,
descendo irônico pela vala que nunca me terá,
porque terei subvertido, na hora da vala, também à própria vala?

Percebo que não há em mim nada mais do que um antes e um depois,
um depois que é frágil igual a um espermatozoide que se debate como um peixe louco numa camisinha.

Sou um gatilho engatilhado em direção ao escuro.
Sou um galho torto que voltou a se enterrar só pela nostalgia da raiz.
E cogitando o flerte regresso do que foi, e mesmo a esperança,
contemplo a espera rememorando os murmúrios.
É um modo de dedilhar um gozo melancólico, ora precoce, ora letárgico.
É uma espécie de poder silencioso, robusto e vil,
que não serve para as coisas vivas do mundo.
O presente não me interessa.
O presente é uma gozada robótica que se dá antes de dormir.
Não posso deixar de detectar que o presente é a miséria dos felizes.
Assim como são miseráveis todas as coisas feitas de fragmentos.
Pretender pedaços é instinto dos bichos de zoológico alimentados por um pai idiota.
É tanta gente feliz, que eu me entristeço pra cooperar: 
fico triste pela função social de equilibrar o mundo.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

mínimas coisas que se pode dizer sobre os novos relacionamentos






E quando fui ver, eu já era outro.

*

Pra quem acha que o contrário de amor é ruim, se engana, porque o lugar é bem agradável, e a comida boa.

*

Quanto mais dura é a realidade, menos duro eu fico.

*

  Primeiro mandamento: diga o que precisa ser dito aos idiotas, custe o quê custar.

*

A bunda é a futilidade do homem.

*


Deus me fez econômico, mas o Diabo inventou os livros, os vinhos, os rodízios de churrasco e as massagistas.

*


Os amantes servem justamente para quando os namorados estão trabalhando demais.

*

Haverá maior subversão que o suicídio?

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

luto







Em cada dito

há um luto.

Mas os ditos não são benditos.

Pois lhes falta o defunto.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

ENCONTRAR O ANVERSO



As costas estão nuas, e não os peitos.
O nó-de-pinho será a lenha, antes do eucalipto.
A bebida será a comida.
A luz será a meia-luz.
A música será apenas o crepitar de um fogo mal começado.
Os vidros não estarão limpos, mas empoeirados.
Os vidros não estarão translúcidos, mas embaçados.
Você escreverá em pé, para não estar sentando, moribundo, paralítico.
Você escreverá em pé para estar mais perto do céu.
Você escreverá em pé, arrogante.
E olhará a janela, encarando ninguém.
Você esquecerá as unhas e a barba;
o horário e a cueca de ontem.
Estacionará na frente da casa de uma cartomante, mas não verá nenhuma carta.
Encontrará antigos amores, sem estar com antigos amores.
E tocará a pele dela, sem poder ENCOSTAR na pele dela.
Você sentará ao lado do fogo, mas sentirá frio do outro lado do corpo.
Reunirá os tapetes para construir um exército de um homem só contra o nada.
Comerá o doce antes do salgado.
Estará polígamo, mesmo com o pau mole.
Será o sado-masoquista, sem dor  ou dever.
A uma, dedicará o pensamento.
A outra, reservará o coração.
E a uma terceira ainda, dedicará o gozo.
A uma terceira e até, eventualmente, a uma quarta, sabe-se lá!
Haverá um rearranjo estético – a mesa mais pra lá e uma escrivaninha improvisada pra roubar o sinal da internet. Manifestações em todo o país contra a corrupção e eu aqui, corrupto, ROUBANDO O SINAL DA INTERNET, DEMASIADO ROUBANDO O SINAL DA INTERNET.
O frio gélido vai fazer uma das suas bolas sumir.
Você vai olhar na hora do mijo, e perceber que uma bola entrou cavidade adentro.
Haverá o devir de um amor livre.
E o único silêncio de uma colher num prato de sopa.
Haverá coragem para tomar territórios.
E uma covardia para sair deles.
Você terá nas mãos o controle seminal do fogo.
Você estará esperando que alguma coisa aconteça.
Haverá uma enganação feita de palavras verdadeiras.
Haverá um livro a ser lido, que na página 59 diz assim:

Os verdadeiros fundamentos de uma investigação não ocorrem, absolutamente, a um homem.

sábado, 20 de julho de 2013

tópica




Você olha em volta
tentando encontrar a própria miséria, 
mas só vê paredes mudas de branco, cachorros que são felizes sem falar nada
e pulgas trabalhando por gotas minúsculas de sangue de cachorros que não falam nada.

Você olha por dentro, 
se transforma em um bacilo que caminha no meio do músculo da carne humana, 
ou então se sente um micróbio pequeno como o nada, 
nadando no mar gástrico que transforma tudo em merda. 

Mesmo assim, sorrateiro, não encontra a própria miséria. 
Então você resolve ir fundo, prescindir da matéria, 
e começa a acreditar no inconsciente, no cosmo, no raio que o parta, 
numa cruzada à caça da própria miséria, 
mas só encontra um oco, mudo, igual a um salão de baile em final de festa, 
quando as faxineiras que dormem e acordam cedo, 
começam a virar as cadeiras de pernas pra cima, 
como se atirassem corpos do patamar da vida para a morte.

Fora ou dentro ninguém diz nada, 
nenhum mestre dos magos e nenhuma bruxa maligna,
nem mesmo pra nos dar a direção errada do caminho. 
Ah a direção errada! Nem mesmo ela pra eliminar uma variável das direções possíveis.

A direção errada seria um rosto humano nu nesse baile veneziano de máscaras. Mas nem ela!
Terei o direito de ser proprietário da própria miséria?

Cogito a miséria como o ponto vélico do mundo, 
como o triângulo das Bermudas, 
como o buraco negro que fechará as cortinas do absurdo.
Deus estará lá, brincando de ser Deus, com uma máscara do Bozo ou com uma máscara de Deus.
Mas ele não é nem nunca será um filho da puta. 
Ele não nasceu no meio do sangue e das gororobas da placenta.
Ele é um deixado ao relento dentro de uma caixa de sapato numa parada de ônibus. 
A miséria dos que vivem é não poder parar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

a gente não quer só política






No fundo - e se bem que nem tão fundo assim -
não me interesso pelo plebiscito.

Não me interesso pela reforma política.
Reformar é manter vivo.
E não se pode manter vivo o que já morreu.
Lutero fez isso, e deu no que deu.
Olhar hoje uma igreja é olhar um asilo.
Até o cheiro é parecido.
Porque a morte tem sempre aquele cheiro de sovaco no inverno.

Política?
Política é estar em paz.
Política é poder ficar em silêncio.
"Conversar democraticamente" - o primeiro caminho em direção à discórdia. 
Concórdia é dormir.
E democracia é acordar e ter mais 2 horas antes do despertador tocar.
Democracia é um sonho de valsa achado atrás do saco do pão de sanduíche.

Direito só quero um: o de ter uma garrafa de vinho.
E um saca rolhas. Sem saca rolhas, não dá.
Afundar a rolha é extremismo.

Afundar a rolha é um barbudo de esquerda com a camisa do MST. 
É coisa de bebedor terrorista estilo homem-bomba-do-Islã.

Transporte público?
Transporte público é aprender a se desamontoar.
E a saúde? Saúde é saber a morte.
E se sabem e ainda pedem saúde, qual a tramóia desse arrogante desejo de eternidade?
E o direito de ser fugaz? Não vi na rua esse cartaz.

Meu bloco ainda não pretende ir às ruas.
Tenho mais preguiça do que democracia no sangue.

domingo, 30 de junho de 2013

MÍNIMAS COISAS QUE SE PODE DIZER DEPOIS DE UM BOCEJO





A resistência é o pai e a mãe da força dos fortes

*

Diremos de nosso tempo: foi uma época de publicidade das potências.

*

Para os surrealistas a visão privilegiada é a do dissenso, da margem, da brisa gélida de uma sombra no inverno que mantém viva a nossa atenção.

*

Interpretar é se dedicar ao erro.

*

Clarice Lispector - uma mulher metafísica que viveu maritalmente e que, certamente, terá muito a nos dizer sobre a democracia no amor.

*

O que se faz quando você olha pra alguém que tem aquela cara estilo - eu tenho a chave mestra do universo?

*

A saudade é um atraso, é o fora do agora, é a doença dos doentes que não se sabem doentes, é uma faceta feliz do absurdo humano.

*

Vote nulo: não é a peça que está ruim, mas o teatro que está velho - e precisa ir abaixo.

*

Depois do invenção da cura gay, até os cús estão protestando.

*

Na maior parte do tempo eu fico acreditando, como um fiel ajoelhado numa igreja. Mas lá pelas tantas, ver a massa cantando o hino nacional na rua, atiça meu ceticismo, e sinto um cheiro de rebanho que nunca agradou o meu nariz grande. É uma espécie de natureza torta que fica pulsando em mim.

*

as mal comidas e os heróis da bronha ficam ainda mais insuportáveis no dia dos namorados.

*

A tristeza é a ressaca da crítica. Fico triste com a raça humana de um modo geral, triste porque ela vê pouco, triste porque ela é estreita, triste porque ela não percebe obviedades.

*

Homem é lobo do homem: o maior interesse de quem viaja é fazer inveja a quem não foi.

democracia e amor





A criação da leveza nos relacionamentos – não o líquido e o sem fundamento - mas o leve, que tem o fundamento ligado à própria leveza, estará entre as promessas mestras que faremos ao outro, em todos os tipos de relacionamento que ainda não soubemos arquitetar pelas fraquezas e medos do nosso espírito. Haverá uma reedição imanente daquelas coisas sutis que teimamos em não lembrar. 
Contemplar o outro e o agenciamento dos seus desejos será estar com o outro. E esses infantis desejos de ser Senhor, ou dono, e mesmo a castração do devir-desejo do outro, serão uma nostalgia primitiva.

terça-feira, 25 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

sobre outras verdadinhas



O primeiro arrebatamento que nós, ocidentais, deveríamos ter, é o do experiência com a imposição de Verdade presente no pensamento judaico-cristão. 
A própria maiúscula usada nos termos Deus, Senhor e Verdade, mostra a necessidade de sujeição imposta pelo sistema de sentido das religiões cristãs. É o “estar-sujeito-a-Deus” que alimenta o discurso bíblico e que pede, sempre, uma atitude de submissão. Mas  o discurso bíblico cobra uma atitude de submissão querendo, no fundo, promover o aprendizado da fidalga virtude a que chamamos humildade. Se um barulhento “- sim” corroborar essa afirmação, então, uma primeira contradição emerge do discurso bíblico. 
Sustendo a expressão “discurso bíblico” justamente porque, de fato, o que há nesta dimensão terrena, imanente, limitada e parcial, é apenas a possibilidade de um discurso sobre alguma coisa – um texto, um relato, uma história, um dado empírico, um sonho, uma fantasia, seja o que for. Se há alguma “Verdade” capaz de ser maiúscula, essa verdade nunca poderá ser escrita em algum lugar, ou entoada por alguma voz, ou lida em algum púlpito. Para os  cabalistas o rosto de Deus pode ser visto a partir da combinatória infinita, e a combinatória infinita precisa da pluralidade do outro para ser feita. O rosto de Deus, diz Warat, é a diferença. Os orientais, ao contrário de nós – ocidentais e herdeiros do judaico-cristianismo – percebem Deus (ou a ideia de Deus) de outro modo. Enquanto nós escrevemos a “Verdade”, eles apenas a contemplam (humilde e minusculamente). Enquanto nós discursamos com pompa e embargamos a voz para que a Verdade pareça séria, eles apenas cantam (humilde e minusculamente). Enquanto nós temos que ler para ter certeza de que não esqueceremos de nada para termos poder sobre tudo, eles querem apenas esquecer de tudo (humilde e minusculamente). Para os orientais, estar com Deus é esquecer de tudo, é dançar, é contemplar tudo que existe. Os orientais estão de acordo, inclusive, com o velho santo solitário que dialoga com o Zaratustra de Nietzsche (este que irônica e metaforicamente "matou" Deus), quando diz: “eu faço canções e as canto, e, quando faço canções, rio, choro e sussurro: assim louvo a Deus. Cantando, chorando, rindo e sussurrando eu louvo ao deus que é meu Deus.”

O pensamento oriental, que tem o mesmo propósito do re-ligare ocidental, acaba, por fim, ensinando melhor. Enquanto o ocidentalismo judaico-cristão concentra sua atenção na submissão em relação ao transcendente e ao metafísico; o pensamento oriental se preocupa, antes, com o aprendizado da crença da virtude da submissão, ou seja, a capacidade de se tornar humilde diante, principalmente, do Deus que vive no outro e que é sempre o reflexo do Deus que vive no "eu" que olha. Este outro que obrigatoriamente é um não-eu que não deve (ou não deveria) ameaçar egos culturalmente domesticados pela cultura patriarcal ao vício de ser o portadores da verdade - uma atitude arrogante, nada submissa, muito menos humilde e, portanto, anticristã... O cristianismo tem paradoxos insanaveis como tudo que é humano, ainda que se pretenda divino. É apenas sem a agressão do ego alheio que podemos encontrar o Deus que vive nos outros, para que este, fale com o Deus que vive dentro de nós.

Essa atitude de “desprendimento” ou de liberação, está no I-Ching, oráculo chinês que data da danistia Chou dos anos de 1150-249 a.C, portanto, anterior à passagem de Cristo na Terra, precisamente no hexagrama 40. Neste hexagrama consta: “[...] como a chuva provoca um alívio nas tensões atmosféricas e faz com que todos os brotos se entreabram, assim também o período da liberação traz um alívio ao que estava sendo oprimido, e um estímulo à vida.”  O I-Ching é também chamado de Livro das mutações e, por isso, contraria a noção do cristianismo que pretende uma Verdade estável, fixa e eterna, em evidente repetição do modelo de pensamento ocidental socrático-platônico. O cristianismo como um platonismo para as massas (Nietzsche) é, nesse sentido, uma expressão certeira. Desde o modo sincronístico como deve ser lido, até o modelo de verdade-eternamente-transitória contida no contexto do texto, o I-Ching é a expressão contrária do Deus cristão, que se pretende Maiúsculo, Onipotente, Onipresente e Onisciente.

Jung, que prefaciou a tradução ocidental do I-Ching, quando perguntado se acreditava em Deus, disse simplesmente: “- eu sei, não preciso acreditar”. Nesse sentido, é possível dizer que Jung estava com Deus, que a sua própria profundidade e riqueza eram o seu próprio Deus, construído artística e exclusivamente por e para ele. Negada a pluralidade, onde ficou esquecida a humildade das centenas de religiões que professam suas crenças a partir da Bíblia? A imensa lista de dissidências das religiões ocidentais que tem a Bíblia como fundamento, por si só indaga: qual realiza a Verdadeira interpretação da Verdade do texto Bíblico? Da Igreja Católica Apostólica Romana, passando Igrejas não-Calcedonianas, pelo Luteranas, Anglicanas, Calvinistas, Presbiterianas, Pietistas, as Pentecostais e Neopentecostais, as Igrejas Unidas, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Quadrangular, a da União em Cristo, as dos surfistas unidos do reino do Senhor como a Bola de neve e, numa dessas, até a Bola de fogo…para qual delas eu me associo, já que o ritual do batismo é imprescindível?

Tenho profundo respeito à noção de humildade que se pode extrair do discurso bíblico, na medida em que ele se estrutura a partir da ideia de que devemos nos render ou nos sujeitar a alguma coisa do qual somos incapazes a partir dos sentidos (de saber, de lidar, de tocar, de ver, de experimentar). Assim, o substrato ou a "essência" da ideia do Deus bíblico, está apoiado na noção de que assumir a incapacidade humana é livrar-se da incapacidade humana ou, dito de outro modo, assumir a incapacidade humana significa assumir a submissão para, por fim, salvar-se.  A superação da “vontade de ser submisso”, que vai em direção à “materialização da humildade”, corolário da tolerância solicita por Jesus, encontra uma resistência fincada na alienação do sujeito formatado culturalmente como um animal de rebanho, homogêneo, humilde, capaz de prescindir do palco da linguagem (os pastores, os politicos e, recentemente, o sincretismo de ambos na infeliciana figura dos políticos-pastores adora o palco da linguagem...), da enfermaria que é construída no centro do próprio ego. O desconhecido recebe então diversos nomes (Deus, Allah, Buda, Iluminação, Transe, Morte, Sonho), mas dentro de cada uma dessas vozes, as palavras são ditas e interpretadas, cada uma, de outro jeito, o que torna o I-Ching chines um livro sagrado que merece mais respeito do que a Bíblia. O discurso é o feto da intuição - talvez porque a intuição, seja para sempre este diálogo que a gente faz com Deus sem a imposição material e humana da linguagem.  

Essa noção de submissão do homem terreno em relação àquilo que ele não pode dominar – como Deus, o Desconhecido e a Morte, para ficar apenas nesses exemplos – encontra infindáveis recorrências. Lembre-se: recorrências significam, precisamente, uma mesma ocorrência que acontece em diferentes lugares, com diferentes pessoas, em diferentes tempos históricos, com diferentes linguagens e com diferentes roupagens. Utilizarei apenas dois exemplos da recorrência da noção de humildade como efeito da atitude de submissão.  No espiritismo, o corpo é desprestigiado, na medida em que faz da vida terrena uma escola de errantes, o desconhecido ambiente spiritual é privilegiado. Também no oriental livro sagrado hindu chamado Bhagavad-Gita, que do sânscrito significa literalmente “Canção de Deus”, Krishna, o equivalente de Jesus neste texto sagrado do hinduísmo, auxilia seu discípulo Arjuna a promover sua própria autorrealização (leia-se - o encontro pessoal com seu Deus) a partir da conciliação do bem e do mal – apenas uma outra recorrência em relação à experiência e à moral postas no mito edênico da Bíblia. Nesse sentido, o Gita se aproxima da Bíblia, quando esta afirma que Jesus veio ao mundo para auxiliar o homem a se re-conciliar ou se re-unir com Deus depois do pecado original. Considerando que se tratam de ocorrências idênticas narradas em textos sagrados diferentes, como pode o discurso bíblico apropriar-se da arrogantemente da Verdade em detrimento deste (ou outros tantos textos sagrados), tão antigos, humanos e profundos quanto a Bíblia?