sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Aforismos em direção à autonomia - 1





A solitude nos faz reis, enquanto a solidão nos faz escravos. E entre o trono e a chibata, estão os que caminham. Os caminhantes repousam suas canseiras em busca de reabastecimento, abrigo e conselhos. São os conselhos, travestidos de mote para o diálogo, a coordenada para a solitude. São nas pousadas da estrada que os caminhantes abastecem as suas direções, recuperando a força das pernas e redefinindo o traçado de seus itinerários. A pousada é o grande Outro em que o viajante encontra cama, sopa, fogo para a roda de prosa e para o frio da noite, afinal, é da natureza do encontro que haja alguma espécie de calor. A doçura de estar só é o cajado daquele que caminha em direção ao seu próprio coroamento. A solitude é um balançar na rede, no interstício de um sono já quase sem vigília: é quando podemos esticar as vistas sobre o amplo de nós, no entreato de extremos que vai da falsa plenitude dos sentidos até a invasão das sensações íntimas. Sem o estorvo da mirada alheia, promovemos os seminários necessários com todos os que nos habitam. Ejaculamos para dentro, semeando o diálogo facilitado pelo silêncio. A longa semeadura dentro da própria consciência depende deste solo livre de influências imediatas, desta terra recém afagada pelo outro, mas livre de sua presença. A sensação de solidão tem algo de amargo, algo de ausente, algo que corta os pulsos do espírito. Os que caminham de mãos dadas com a solidão, caminham em direção ao estado do diminuto, do verme, da partícula, como um Benjamin Button que nasce velho e faz mal uso do tempo para  remoçar. É preciso que o tempo nos envelheça, que nos faça vincos de sabedoria no espírito, que controle a ânsia pelo outro como completude em direção ao outro como compartilhamento. É preciso que a estrada do tempo cubra de pó os nossos sapatos para que possamos indagar a necessidade deles na caminhada. O anti-fluxo do tempo cobra um imposto caro. A necessidade imperiosa do outro como definidor dos sentidos revela a insuficiência de si-mesmo. Se o outro constitui, por meio do diálogo tácito ou expresso, qual espelho do mundo, nossa identidade, é no silêncio de depois da dialética, no sono profundo, na quietude colorida do sonho, que integramos à consciência os passos que devemos pisar em direção ao trono da autonomia.  

sábado, 22 de dezembro de 2012

ODE INCA




Do alto,
de onde se pode perceber que a terra é grande,
mesmo que se mantenha pequena se pudéssemos subir um pouco mais,
há de se ver a pequeneza dos detalhes terrenos.

Filho do céu,
entre o céu,
em direção ao céu,
sento-me sobre a montanha.

A fumaça circunda o cimo,
mostrando que até Deus ainda não deixou de fumar.
Há mais coisas na fumaça que caminha em direção ao alto,
do que nas pedras incas que deixaram a fama subir à cabeça
 e agora vivem de fazer pose para as máquinas fotográficas.

Empilho as pedras,
todas elas ricas em equilíbrio depois de equilibradas por mim.
O sol segue arrogante,
marcando um meio dia de dias antes de um fim de mundo que vai acabar,
mas só pela metade.
Ele o sol, faz nexo entre eu e o impossível.
Então caminho pela ponte temerosa porque sei do jardim onde vivem os que já não esperam.

Noutro cimo outros dois homens conversam:
de quê haverão de falar dentro deste silêncio tão cheio,
sendo a sabedoria a experiência dos que aquietam?

O fecho da doutrina do silêncio não poderá ser escrito,
assim como as formigas não poderão descer até o pé do monte.
É preciso muita impossibilidade para  que o sol nasça a cada dia.

Embaixo ou em cima, pouco muda àquele que vive por caminhar sem ver.
Mas eu ainda não sou,
nem nunca serei qualquer coisa além de carteiro dos deuses,
porque o que sei,
se resume a pensar de olhos fechados...
enquanto todas as formigas da terra carregam seus pesos,
e juntam suas folhas, e se organizam em equipe, e se comunicam pelas antenas.

Na minha casa eu caço formigas -
porque da minha casa elas não pertencem.
Aqui no alto, agora, vivo a revanche.
Se lá elas levam pedaços do meu bolo de chocolate,
eu, aqui do vale sagrado latino,
trago meu coração para pulsar neste terreno formigueiro sem nenhuma autorização.
Com sangue quente, e carne humana.
Contemplo, aquieto e sinto para encontrar outros sangue-quente,
embaixo desta bruma que é o país onde vivo com as formigas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

mitologemas




De um sopro que a Ciência não explica e que Deus não lembra, nasceram a Distância e o Tempo. Como nessa época remota não tinha luz elétrica, internet e nem canal evangélico na madrugada, resolveram trepar. 

O Tempo teve ejaculação precoce, mas apesar da brevidade da relação, tiveram que esperar nove meses até que nascesse a Saudade. A Saudade nasceu toda torta, feia, com um olho vesgo e outro normal, o que é muito pior que uma vesguice completa. 

Quando a Saudade madurou, não deu outra: não conseguia dar pra ninguém. Por horrenda que era, nenhum outro semi-deus do colégio queria comer a Saudade. Traumatizada, se tornou uma estupradora. Na calada da noite amordaçava as vítimas, amarrava suas mãos, e depois fodia o cú de todos os que a tinham rejeitado. 

Porque os semi-deuses são imortais, continua fodendo o cú de um por um, sem cuspe nem consentimento.

sábado, 24 de novembro de 2012

mínimas coisas que se pode dizer antes do fim do mundo




As paisagens só mudam para me dar certeza de que, apesar delas, eu continuo.

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Amizade é escrever "lindaaaaaaaaa" na foto da sua amiga que é parecida com um trânsito engarrafado.

*

Toda sexta-feira é santa.

*

A originalidade é um cara fodido de sede no deserto. Hoje, pra ser original, é preciso morrer e ir pra praia tomar banho de sol com sunga estampada, e bronzear todo o corpo espiritual. É a última moda no além.

*

A única igualdade de condições é ter um corpo - uma sentença que seria reprovada por Marx...

*

A mentira deslavada é uma verdade cheia de poeira (ou) A mentira deslavada é uma verdade no cesta de roupa suja.


*

O Direito é um platonismo de gente engravatada pra gente de havaianas.

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Todo casamento é por interesse: pizza congelada depois das dez da noite me faz acreditar em casamentos gastronômicos.

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Há esta eterna rejeição que atravessa o amor. O não é este querer infinito e tuberculoso. O não é o desejo escamoteado para um boeiro que leva à um esgoto. O não é o olho que flerta e a língua que lambe a própria boca. É de muito não que se faz um amor eterno.

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Numa discussão acalorada sobre o caráter natural ou artificial de um conceito, os debatedores esqueceram a possibilidade da polpa.

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O excesso de gente neste mundo, por si só, demonstra o apego dos homens à matéria, que funciona como eixo de sentido da "grande" vida dos medíocres. Permanecem peritos em gerar filhos e inábeis na geração de ideias, tanto as suas quanto as que poderiam suceder às gerações que se espalham a partir do seu sêmen aguado e sem sal... Fodem demais e pensam de menos simplesmente porque ainda rastejam - é sua condição, seu degrau da escada. Na grande avenida da vida ainda desfilam carcaças que usam máscaras emprestadas. Um carnaval fora de época, sem nudez, sem espírito.

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Não receber do outro, mas encontrar o outro: é este nosso tema de casa enquanto vemos a paisagem que passa neste vagão que, em curva, não nos permite ver o destino.

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Um tempo em que mais estamos do que somos, e que, quando somos alguma coisa, deixamos de ser todo o resto...

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Mais e mais vejo a abundância e o quanto quem a tem, tanto a merece. Abundância é a caridade discreta que a vida faz a todos os tipos de miseráveis indiscretos.

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Longe, toda mulher é fria.

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Maturidade é jogar no próprio time.

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As mulheres não gostam de homem que conta vantagem, só gostam da vantagem.

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Há uma obviedade que se esconde no mover (ou no não mover) das peças que não aparenta a intenção de quem as move. É a representação que se representa ocultando a vontade.

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Jogar um jogo é o ânimo de jogar um jogo - uma obviedade escondida da sedução.

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As maiorias são feitas de fracos. as minorias são feitas de fortes. E há esta eterna equivalência, este empate sem gols num jogo jogado pra cumprir tabela.

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Um cálculo eterno é insuportável até para as calculadoras. anda a nuvem e volta e faz sombra em outro canto. a medição do jeito que antevê a reação do rosto, que prediz a palavra, que sabe onde tremerá o músculo involuntário... - sobretudo de arrependimento se alimenta essa gente casada com o óbvio.

*

A vida seria menos pesada se trocássemos exclamações por risos e orgasmos.

a ciência não é feliz



então, no meio de todos os outros, um dia qualquer, como um coringa que aparece num jogo de cartas, ou um feriado municipal que tínhamos esquecido, ou uma nota de 100 que ficou na bermuda do verão passado; resolve nos dar um abraço: somos felizes sendo o que já somos, fazendo o que já vinha sendo feito e tendo o mesmo de sempre. é quando Deus nos manda um sinal de fumaça que caminha de cima pra baixo. e a física não consegue explicar como pode ter a fumaça invertido sua trajetória natural. e talvez ser feliz seja uma inversão de valores de estar vivo, um eclipse, uma coisa que só aparece quando não olhamos, uma Medusa que deve ser vista por  um escudo de bronze, assim meio indomável a não ser que se caminhe pelo ar.

os pesos da imanência





somos os jesuses e a academia é a cruz.
começo a fazer aquela força toda,
como se fosse mexer o globo terrestre sem a ajuda de nenhum amigo.
no 1-2-3 você ainda pensa que pode...
depois do 4-5-6 você já começa a perder a esperança.
então uma bunda passa, dura como um osso, gostosa, florida, fluida,
mas ela será dos trogloditas, 
que tem braços maiores que a minha coxa. 
O Obama reeleito, 
o primeiro negro e
ncabeçando o STF, 


os gols da rodada...


tudo acontece nas notícias da televisão enquanto você é uma formiga operária erguendo um peso de merda.
7-8-9...
a coisa começa a fritar, foder, TRUCIDAR, ESTILHAÇAR o pobre músculo,
como se enfiassem uma lâmina crua na sua carne mais crua ainda.
você sabe que as mesas de bar estão cheias de gente feliz entornando o caneco, 


chopp, jack daniels com duas de gelo, caipirinhas à beira-mar.
nos motéis os caras estão metendo e olhando a bunda das namoradas no espelho do teto.
as famílias brincam com suas crianças no tapete da sala.
e você ali, com aquele PROGRAMA DE EXERCÍCIOS,
3 séries de 10, 12, 15 repetições


um verdadeiro cardápio de autotortura consentida, 


feito por um computador filho da puta que NÃO te conhece, 


que NÃO sabe o tamanho tua preguiça, 


ou do quanto você acha LENTO aquele processo, 


do quanto você sabe que está sendo SABOTADO pela obrigação da "saúde" ou da "boa forma" 


(boa forma de trepar com as bunda-osso)
no 10-11-12, inevitavelmente se comete uma espécie de suicídio.
é um último suspiro antes da morte, 


uma dor de parto, 


um esmagador de dedo de bruxas na idade média.
a hipoglicemia e a fraqueza reclamam.


um rosto PÁLIDO no espelho que é o meu.
os livros estão todos lá, esperando por olhos.

o exercício do abstrato é dolorido, mas é como uma função já exercida.
em vidas pregressas nunca fiz academia, é alguma coisa que não sei.

então eu resolvo a questão com simplicidade: 


mando aquele peso todo pro INFERNO.
o natal está aí, o fim de ano.


vou encher o rabo de carne de porco, lentilha,


fios de ovos, aquela cereja sem vida da decoração, 


peru e e arroz à grega,


cervejas em comemoração ao papai noel.


e em janeiro, se o mundo não acabar, eu resolvo esse coma com a imanência.

domingo, 4 de novembro de 2012

vistas grossas ao que pulsa






A chamada antes de ouvir a voz dela era sempre precedida pela trindade do TÚ-TÚ-TÚ. Geralmente três TÚS previsíveis. Um sempre TÚ soa meio ansioso, adolescente. Dois TÚS parece corriqueiro e oficial. Dois TÚS é coisa de repartição pública e ligações de horário comercial. Então três TÚS era o que de menos óbvio haveria antes do início da indiferença, mesmo que falseada. Quando se conhecem às vezes as pessoas falseiam indiferenças,  é o blefe do amor que é perdoado por São qualquer coisa no dia do Juízo Final. Três TÚS é sinal de sinal de 
amor correspondido. Então ela falava um "alô" todo doce, e sempre parecia que antes de atender se masturbava. Um doce quase ofegante. 

A voz era a música de uma paz que vinha de uma viúva negra e quente e peluda. Mesmo em direção a uma morte presciente, firme eu ia em direção ao suicídio. Todos esses suaves suicídios que nem a vida, nem os homens, nem todos os seus códigos estúpidos poderia criminalizar... Além do instituído e das prescrições sociais esta a lacuna da vida, acontecendo em forma de dança, de preguiça e de sonho, incontrolável e fluida. Esse ir-se morrendo em direção ao amor vai nos deixando biruta até que a gente pare de respirar.

Então foi um "alô" e "alô". Conectados mesmo antes da conexão.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

os átomos de Drummond



À memória de Drummond.


A Poesia é uma borboleta sem querer
que chega até um dedo que não espera.
Os mais velhos olham, analisam as cores.
Queriam ver o grão dos olhinhos do bicho - mas não podem.
Sabem que não podem mas nem por isso deixam de tentar pela graça da tentação.
A poesia, alma pura, não pode ver nem ser vista.
Então os mais velhos movem o dedo com delicadeza,
querem manter a borboleta - e até conseguem com a prática.
Ligam suas antenas às dela,
e assim comunicam suas incompreensões.
Talvez entoem mantras, não sei!
Ou cometam silêncio, igual a antes de dormir.
A poesia é um monte de letras que dão beijinhos,
só com a ponta do bico.
Em matéria de beijinho de bico, somos todos bichos.
(Instalar essa confusão entre gente e borboleta é coisa típica de Poeta)
O beijo de língua já coisa de Poema.
Os Poemas são Poesias que estudaram bastante.
Poesia é um querer bem por querer bem.
Esse grisalho da Poesia é um dos grandes mistérios
que nenhum Poema pode dizer.
Há quem duvide da imortalidade da Poesia e dos Poetas:
esses ainda nem borboletas nem dedos, nem mesmo nada.

domingo, 28 de outubro de 2012

ONDE NOS DEIXARÁ O VAGÃO DESTE TEMPO?


          Entre a modernidade, que bem não sabemos se terminou, e o que virá, há este grande entre ato histórico em que nos encontramos. Chamá-lo de pós-modernidade, de contemporaneidade ou de modernidade líquida, não afasta qualquer uma das angústias próprias de nosso tempo. E talvez elas, as angústias, sejam efetivamente o grande cheiro deste vagão que nos leva para sabe-se lá. A angústia, sensação particular de toda experiência com o inconcluso, é reação de quem habita esse limbo histórico que, antes de separar dois grandes tempos, reúne gerações e conceitos que são opostos entre si, que esperam ajuste a partir do atrito e que pretendem fazer do paradoxo objeto da calma. Dos modernos, cônscios da onipotência da razão como instrumento de institucionalização da sociedade, ao tribalismo pós-modernos e sua crença inconjunta de que a máscara é, antes de aparência, a essência apreensível por meio do fenômeno que nos chega aos sentidos; este tempo, como todos, guarda a resistência do que passou e a potência do que virá.

            A transição é anacrônica porque faz estranha sinergia entre o antigo, que corteja o fundamento e a solidez, e o atual, que faz ode ao efêmero, ao consumo de descarte, ao excesso que os olhos – e apenas os olhos – podem ver.  Uma realidade que faz do presenteísmo e do imediatismo protagonistas do ato teatral que passa diante de nossos olhos que ainda se acostumam à mudança de intensidade (e intenção...) da luz que podem ver.

            O processo de secularização da vida humana, que fez do si-mesmo eixo de sentido primeiro, é a declaração de que as referências externas como a ciência, a religião ou a “providência cósmica”, deixaram de orientar e dar sentido à vida humana. Se a modernidade cultuou o planejamento, a organização, a sistematização e a ordem – marcas por excelência da predominância do masculino na cultura; a pós-modernidade é o prelúdio de um tempo voltado para a cooperação, para a ética comunitária, para o compartilhamento. Sem mais contar com as “certezas” da razão, se desenha uma sociedade da suspeita, que deve, antes de tudo, negar qualquer proposta de unidade ou totalidade. O medo do concluso (o número de divórcios e a esquizofrênica aceleração das postagens no facebook, para ficar apenas nesses exemplos, são dados óbvios) revela esta recusa de sistemas fechados, dogmáticos e autorreferentes, que desde sempre querem responder a todas as perguntas que eles mesmos formulam.

            A certeza de que efetivamente não nos conhecemos e de que não podemos repassar qualquer conhecimento ao outro, como refere o filósofo francês Derrida, faz desse tempo uma reedição atualizada da antiga ética estóica, que de algum modo submetia a vida humana aos caprichos da natureza e fazia do ser humano títere do destino. Se a crença nas forças naturais obrigava o homem a aceitar humildemente a natureza para encontrar a paz, é justamente essa reedição da humildade – não mais a partir de um sentido externo, mas sim interior – que desponta no horizonte do tempo que vem. É essa atitude de humildade, acima de tudo, que marca a passagem da modernidade para o que ainda virá. A palavra humildade tem origem no latim – húmus, que significa terra. É respeitando a terra, esteja ela ou não adequada a toda nossa ânsia de idelização, que daremos o primeiro passo em direção à humildade que este tempo requererá. Esta nova humildade nasce da inevitável interrogação personalíssima que cada um deve fazer a si-mesmo, tendo como ponto de partida a desconstrução de todo e qualquer sistema metafísico de sentido, copiando a mecânica nietzschiana de tijolar toda a verdade pré-dada.

            O quase-silêncio provocado pelo projeto moderno de institucionalização, que fala a partir de seus próprios significados e significantes, dá lugar à necessidade de comunicação, já que o relativismo pós-moderno tem como efeito o estabelecimento de laços e relações. Mesmo sendo âncora da comunicação, o relativismo também é promotor da angústia, já que furta os lugares seguros (falsamente) legados pela modernidade, tornando-os incapazes de dizer o que é bom, justo, verdadeiro – preocupação ocidental desde a semente filosófica de raiz socrático-platônica... A angústia é a cruz desse tempo em que ainda não somos o novo e também continuamos carregando o defunto do passado nas costas, sem saber direito onde enterrá-lo. A pós-modernidade é uma travessia neste deserto social e individual que nos acena falsas miragens de água por conta do desejo do imediato e do reino do aleatório. Um tempo em que mais estamos do que somos, e que, quando somos alguma coisa, deixamos de ser todo o resto...

            Se, por um lado, contemporaneamente a identificação com a tribo social é facilitada pela emersão pública da pluralidade, por outro, a constituição da identidade é árdua tarefa, já que a dúvida eterna da escolha chacina a confiança e a certeza necessárias para que se abandone o assujeitamento e para que se constitua um sujeito com alguma fidelidade a si-mesmo.

            As questões relativas a construção da subjetividade na pós-modernidade dependem da análise do grande sintoma da angústia e da vontade de anunciações dentro de uma época que, mesmo vivida, segue sem tradução. Resolvemos nossa localização com qualquer GPS, mas não sabemos o rumo do nosso próprio encontro. A cartografia e a anunciação externa não são as nossas porque partem do embusteiro ambiente da heteronomia. Uma sociedade cujo constructo é o capitalismo mecânico, que nos molda como roldanas de uma grande máquina impostora da culpa que vem do “dever” externo não satisfeito. A pós-modernidade é um tempo de tentativa de construção de uma subjetividade que quer ser. Os cânones impostos são construídos na dimensão da heteronomia, enquanto nosso self recôndito grita pela promoção de seu desejo de autonomia. Uma vitória sobre a heteronomia é tudo que podemos buscar nesse tempo que requererá, sobretudo, autopesquisa, afinal, o “pai” simbólico precisa e precisará ser morto. Um ente que se reconhece sem as algemas da visão e sem a necessidade do grande espelho do mundo. Um narciso humilde que se vê mesmo de olhos fechados – eis o horizonte de nossa construção.

            Se é verdade que precisamos superar a heteronomia e as imposturas desse tempo, também é incontornável a colocação do outro como único capaz de anunciar nossa subjetividade. A construção do que a psicologia analítica de Carl Jung chama de self ou de integridade psíquica, depende exclusivamente da anunciação alheia que pulsa em todo exercício de alteridade. Nosso self é fruto de elaborações nos quais não somos agentes tão atuantes como gostaríamos de ser. Não nos conhecemos. Temos acessos mínimos. Temos acesso ao mínimo. A nós mesmos somos fantasmas nesse tempo de perguntas e respostas reticentes. Sendo o outro o constituidor de nossa reserva selvagem, somos o que não podemos acessar... O outro é então uma porta, e a chave para essa porta é o encontro. Seremos para sempre os engenheiros das chaves que abrirão as portas que estão escondidas em nós mesmos. A pós-modernidade é basicamente um projeto de construção de subjetividade que, a partir do outro, deve servir de impulso para a elaboração dos traçados da autonomia de cada um e de superação de toda e qualquer submissão.

            É com essas lentes que Michel Onfray, no livro A Política do Rebelde, vê o trem deste tempo e nosso projeto de construção da autonomia a partir da insubmissão: “...a individualidade é o que há de comum aos seres, qualquer que seja seu sexo, sua idade, seu passado....[por sua vez] o sujeito se define em relação a instituição que o permite, daí a distinção entre os bons e maus sujeitos, os brilhantes e os medíocres, ou seja, aqueles que aceitam o princípio da submissão....a pessoa [por sua vez] lembra que a palavra procede da máscara usada em cena....a metáfora barroca do teatro, a vida como um sonho ou um romance, a necessidade do ardil ou da hipocrisia, do jogo social que subentende a pessoa teatral....resta formular as condições de possibilidade de um individualismo que não seja um egoísmo”.  A autonomia que a pós-modernidade reclama de todos já estava lindamente fraseada em Nietzsche: “Para mim é tão odioso seguir quanto guiar”.

            Não receber do outro, mas encontrar o outro: é este nosso tema de casa enquanto vemos a paisagem que passa neste vagão que, em curva, não nos permite ver o destino. 

domingo, 7 de outubro de 2012

um feto no colo da morte






É preciso avançar.
Não se pode dormir.
Alerta é aquele que sempre está.
O sentinela vê, está desperto.
Já sabe ser senhor do próprio sono.
Dormirá com apenas um dos olhos, sonhando pela metade.

Um exército todo se agacha num campo de batalha.
E todos cravam suas lanças na terra, esperando o inimigo que vem com gana de morte.
As pontas reluzem até o brilho que logo se apagará com sangue.
Morrer é uma condição da vitória sobre os outros e sobre si.

Não se pode mais voltar.
Os que voltam serão pra sempre os covardes.
Enquanto todos ficavam à espera da morte - eu ia na direção contrária.
Agora espero.
E toda a saúde é firmar as lanças na terra e os olhos na morte que me carrega criança no colo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MÍNIMAS AMONTOADAS




O chá água as certezas, o café as constitui e o leite as azeda.

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A vida seria menos pesada se trocássemos as exclamações, as vírgulas e os poréns por risos e orgasmos múltiplos.

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Um buraco negro que cria patas, e depois uma tarântula que caminha sobre a pequenez do universo - o nascer do amor.

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Grilos noturnos me cantem esse silêncio de não dizer palavras.

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É estar com alguém que faça do tempo um inimigo, que obrigue por benção a dormir tarde, tarde demais.

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O egocídio começa com um dar a luz ao ego.

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Gosto quando, antes de dizer, dizem que vão dizer.

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Uma queda brutal por coisas que derrubam: o vício de todos andarilhos de beira de abismo.

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A única carne que a maioria dos vegetarianos come é cú de gente.

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Alimentar a fome para depois cometer um empanturramento é uma atitude devota. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

o inferno




Descer o inferno é satisfação de uma escolha.
É praticar a metafísica avessa do arbítrio.
O ingresso é uma navegação para o outro mar,
turvo e caudaloso que flerta com a água clara e seduz as aves sem ninho.
E o prelúdio é um remo de aço em braços fracos e flácidos e petulantes.
A arrogância é o cheiro do incenso que se fuma num altar.
Depois voar pela lua nova refletida nas nuvens tempestuosas das coisas que meditamos por força do arrepio do vento e do medo.
Comer o banquete de carne de porco mal cozida e café gelado como provação.
O inferno é o parque de diversões de quem descobre que a escuridão é o primeiro sentido da luz.
Do esconderijo do útero até o último passo do fenecer, haverá agenda no inferno.
E a certeza solar da vida mais ainda será depois que ser for e voltar.
Quem volta deixa um bilhete subornado e o passa entrededos corruptos.
O assunto é um alerta para a cruzada do peregrino subterrâneo.
O inferno acaba apenas na metade para quem volta de verdade.
Está escrito assim:



Lembra que tua ida curiosa será tua volta cansada.
Lembra que o retorno é pulsão de prudência.
Lembra que não é conveniente que se recupere fôlego nas entranhas do inferno.
Lembra que o inferno não perdoa os que param


– diz o bilhete, que acaba com uma vírgula e um borrão na última parte. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

a livraria é um salão de beleza metafísico






Nas livrarias, é outra a lei do desejo macho. Lá as mulheres ficam ainda mais deliciosas. Mesmo com unhas encravadas, têm unhas feitas. Mesmo com furículos que se escondem na calça, ficam com a bunda arrebitada e dura, essa grande fonte de esperança. Mesmo desgrenhadas, têm o cabelo perfumado e liso como uma pele de depois do banho. Se estiverem nas prateleiras marginais, ai sim é que ficam muito gostosas. Se não estiverem ao redor dos best-sellers, estão ainda mais disponíveis, rodando com camisola de seda, sem calcinha nem sutiã. Numa livraria as ruas marginais são avenidas com putas ao contrário. E quando elas dão mais atenção ao livro que flertam do que ao nosso olhar que sustenta uma boca que baba, então são rainhas. A livraria é um salão de beleza metafísico.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

direita-esquerda-volver






Temos que ler demais, saber demais, ter demais. Bastante equilíbrio. Bastante foco. Bastante planejamento. Produção, prudência, provocar sem torrar a paciência alheia. Autocontrole. Autoconhecimento. Automóveis. Economizar e viajar. Amar e trabalhar. 

Cuidar de si sem esquecer dos outros. Se reconhecer no outro, essa grande porcaria que os psicólogos falam cheios de razão. Recolher-se no mato dos mosquitos e adequar-se ao ruído da cidade que fede e está cheia de asfalto. Manter o cérebro ligado, o corpo são, a mente stand by: tudo ao mesmo tempo. 

Importar-se, mas assim meio indiferente. No fundo no fundo o destino já comeu o cú da vida, e por trás, e sem ela ver, e dormindo, e sem cuspe, e a liberdade é só um imã de geladeira. Aprender uma língua nova, falando bem, antes, a que aprendemos primeiro, e usando a língua nos finais de semana, e também durante a semana. Lamber e ser lambido. Sorvete e bucetas. Cultura, o mundo antes do pecado original, natureza intacta, tudo no mesmo saco. Saco de lixo biodegradável e sacolinhas plásticas de mercado que voltam para o inferno depois de 100 anos de espera. As sacolas de plástico venceram o homem. O homem não é todos em 1, e também as mulheres. Os homens e as mulheres morreram e existem "estilos". Todos são de um jeito, e vão querer dizer e mostrar. É o ponto narcísico de depois do espelho.

O porteiro e os intelectuais. Os intelectuais sabem tudo depois que leem Kakfa, psicanálise, Clarice Lispector, e acabam não sabendo apenas porque QUEREM saber. Querer é a fonte de todo engano. Os franceses falando com todo aquele charme, comendo pão baguete, macdonalds e yoakissoba. A dor para sempre revelará as portas do fundo que levam até o jardim e que convivem, mansas, com as portas da frente que permitem ir embora.

Ser da pele para dentro mas dominar TODA a natureza sem fazer com que ela morra. Cuidar da comunidade, sem esquecer dos goles do ego. Latir e meditar. Escutar mais e sempre, falando as vezes. Falar, falar, falar. É esse ter que dizer da vida que torna ela um excesso de todas as coisas. Seríamos mais pássaro sem qualquer vocabulário, e os pássaros estão lá, voando, e rindo das nossas caras sérias. Escrever é escrever sempre e até quando não se está na frente do teclado ou com a caneta enfiada nos dedos como um pau que não para de ejacular. Escrever com lentidão e rapidez, pra controlar o orgasmo. Assoprar a poeira das letras e expor uma peça feita, e também mostrar o vômito indigesto de cada palavra que se une a outras venenosamente, brutas e selvagens e quentes como sangue. Um dar o pescoço e ser vampiro. 

Colocar fogo nas cinzas depois de um incêndio assassino. Estar com o mundo na tela e nada ao redor. E as golas das camisas? ...estão em transe, são de um jeito x, y, z, beta, gama, alfa, e mais a puta que pariu. Marx acertou. Os liberais acertaram. Os economistas e seus pitacos de merda acertaram. A nova era espera e os retrôs acreditam no pirulito da infância. 

O homem do tempo e sua margem de segurança de 15 graus pra acertar sempre. Os riscos calculados como um computador que elabora a melhor jogada de xadrez na frente do humano orangotango. É preciso concentrar cérebros dentro de um computador e preservar a "individualidade". A saúde é global, barba, bigode e costeleta, mas os médicos são especialistas na especialidade. Corpo, alma, espírito de porco. 

Os sistemas são os culpados e os psiquiatras dizem que temos que lidar com a própria culpa. Deus quis assim, mas os ateus assaram Deus. E comeram o coitado como um churrasco de final de ano, com presentes e chopp e tudo mais. Nas entrevistas de emprego todos têm o mesmo defeito, fazem e dão o melhor e nunca estarão mal humorados. Em casa todos são assassinos, cruéis, filhos da puta por completo. 

As putas amam os filhos. As senhoras que vão no mercado e fazem reiki e assistem a novela também. O avião é um ônibus sem rodas. Os ricos preferem ficar em casa porque os aeroportos já são alguma coisa old fashion, enquanto os pobres tiram fotos de todos os lugares e revelam e mostram o álbum para os colegas de trabalho. Há uma roda de choro, e há um blues americano. E talvez haja o silêncio.

O constrangimento rebelou-se, o despudor só quis gozar rápido pra poder dormir, a paciência virou santa. Até os santos têm medo de que suas varinhas estejam broxas e precisando de uma injeção de viagra etéreo. 2000 mil músicas por um LP.

Retroceder a vida para apressá-la. Um abraço imenso transportado e escoltado pela patrulha das estradas que cobram pedágio e que vão avisando que o negócio ocupa quase duas pistas pra passar. A overdose quase morreu, mas passa bem.

"garçom, 39 doses de tempo, com bastante gelo...e peça pra que ela mostre mais."




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

passei um café inda escuro, e logo me pus a cantar...






Elas transitavam pela casa.
Bebendo vocka.
Uma queria a outra.
A uma era um andrógino transcendente, um anjo integrado.
A outra era tímida, nunca tinha beijado outra menina.
A tímida foi trocar de roupa.
Trocou a calça por uma bermuda.
Aí perguntou se a bermuda tinha ficado bem, naquele corpinho novo e pequeno e delicado.
Dissemos que a calça ficava melhor.
Então ela pôs de novo a calça.
De calça ou bermuda,
era uma fruta intacta do jardim do Éden,
tinha 18 anos,
um charme vindo de algum nascedouro charmoso.
Tinha uns passos que não pesavam.
Ria como se fosse uma egípcia cobiçada por milhares de escravos a mais de 20 mil anos atrás.
O peito era um assunto à parte.
Um apenso.
Um anexo.
De arquitetura escondida entre uma blusa branca e um casaco branco e um colar que fazia curva na divisa dos dois peitos.
Alguns peitos são tão unos como Deus que chegam a merecer CPF, RG, cadastro na Polícia Federal.
Como peregrino do amor, cartografei dezenas de peitos na memória.
É meninice pensar que o volume é a grande qualidade de um par de peitos.
Um peito é o cheiro da pele que embrulha o peito,
é enlevo na dança das carnes,
é o arrepio do peito.
Um peito é a copa.
Como a copa das árvores coníferas, o peito é a agressão do corpo em relação à vida.

Vimos o trailer do filme Vicky Cristina Barcelona.
Elas queriam dar para o Javier Barden, como todas as mulheres do planeta terra.
Então foram tirar mil fotos juntas, como fazem as meninas jovens.
Minha profissão era observar, nunca fiz nada melhor.
É uma espécie de transe.
Observar é um retiro que se faz no meio das coisas que acontecem na vida.

Mas voltando à peituda:
olhei melhor e no final do colar havia uma cruz.
Pensei em dizer que ela tinha peitos religiosos, mas achei que ia parecer sem graça, como de fato é.
Então tocaram o interfone.
Era a comida.
Enquanto uma foi buscar a comida, fiquei olhando a menina tímida e peituda e divina.
Pensei em estupro, mas achei que seria complicado encarar um presídio.
No fundo no fundo só estupro a mim mesmo.
Pensei em hipnose, em projeções pra fora do corpo, naquela nudez vestida de branco, no efeito estufa, nas tetas das índias xocleng que caem com o tempo, na vitória do peito dela sobre a força da gravidade, na madureza física, no jogo do inter que estava por começar, na mulher perturbadora que ela seria com 30 anos.
Cheguei perto, mas já estávamos próximos.
Era estranho, mas era.
Talvez tivesse sido minha amante em vidas passadas.
Ou uma amiga, ou uma faxineira daquelas que seduzem meninos de 12 anos.
Ela tinha um rabinho pequeno, charmoso, europeu.
Tudo estava ali, pulsando.
Dei um beijo no canto da boca,
naquele lugar entrevado onde o quando construiu uma casa de dois andares, com piscina e drinks doces e pesados de álcool.
Tenho sido fiel à ilusão, esta amante envenenada.


Baron de Condesexto

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

os silvos inauditos



Quando encontraram-se, as duas solidões sentiram mútuo pesar. Olharam-se fundo no fundo dos olhos, que é o lugar que guarda o todo e o nada. Não suportaram o que viram. As solidões voltaram para casa, repousando suas solitudes, suas costas, suas unhas encravadas. Descansaram a carne dura numa banheira morna, até murcharem os dedos e sorrirem de descanso os músculos. Bebericaram delícias e provaram a própria unidade. Alimentaram as plantas que já quase moribundas. No vão do sono, cada uma delas fragmentou-se em muitos pedaços. Dividiram-se até dizer chega, espalhando-se impetuosamente em algum lugar sem nome, talvez fora do mundo batizado de mundo. Foram, cada uma em seu endereço, até o fim que sempre espera tudo que existe. Reencontraram-se num átrio solene que tinha ares de sala de espera. Uma sorriu. A outra também. A mão direita de uma beijou a mão esquerda da outra no transe dos dez dedos.  

segunda-feira, 30 de julho de 2012

o espírito da coisa



Entro.
Vejo.
Troco de roupa.
As notícias na TV.
Esportes, o clima. Aquele papo.
O lixo esperando na porta.
O cronópio de estimação que late sem incomodar os vizinhos.
Pressa.
Vida pressa.
Descruzo a perna.
Cruzar a perna é a porção mais sexual de um gozar do pensamento.
Deixo a alpargata livre para viver sua democracia.
O mate morto.
A silenciar.

Respirando.

Respirar e ser pra sempre, é pra sempre.

Vivo poesias virgens.
Quem sentirá além do poeta uma poesia virgem?

A expressão é uma respeitadora.
Respeita tanto quanto as prositutas.
Respeito é exceção.
Dizem que se trata de uma espécie de re-espectare.
Ser espectador de si mesmo,
pra depois poder expectar - como um catarro de antes de dormir.
Enxergar-se de novo, e outra vez, e de novo, e outra vez, e de novo, e outra vez.
Um ir-se-atualizando.
Como os mil desenhos sobrepostos que fazem uma animação à moda antiga.

No fundo um ir-se, apenas.
Em direção a todos no mundo que no fundo são carnais como eu.
A vaidade mora fora da carne.
Por isso o diabo é um deus da carne.

Ando de mãos dadas.
Peregrinando em busca do espelho completo.



sábado, 28 de julho de 2012

respirro




Há uma lâmina de carne fria que me separa da vida.
Transito dentro de uma bolha terrestre.
Sempre que acabo sabendo, lembro.
Sempre que narram e narram, poemo.

Os pés estão no chão.
O peito está no chão.
E até a cabeça.

O mais é presságio aéreo.
Sutileza de uma geladeira de gente solteira.
Talvez liberdade.

Sou um eu-pulmão. Diastólico. A-ú. A-ú.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

uma aposentadoria anunciada





Meu notebook está morrendo.
Vem dando sinais do tempo que passou por ele.
O tempo é o senhor das rugas, da poeira, do fenecer, da broxura.
As teclas estão encardidas.
Os adesivos descolando.
O drive  de vídeo pára num repente.
Existem manchas de vinho num canto.
Entrou no que se chama de "melhor idade".
Mas a "melhor idade" é como propaganda política: trama embusteira.
Não pode ser melhor uma idade em que se perde a autonomia.
O melhor da "melhor" idade deve ser a liberdade de poder dizer.
O tempo, este São filho da puta, dirá.
A velhice nos dá essa chance que a novice nos rouba por conta de planos fajutos de um futuro que se pretende eterno.
A "melhor" idade, como todas, é uma idade mais ou menos.
Recheada de esperanças e poréns.
De caipiras de morango e de epocler.
Meu notebook se arrasta como um velho de bengala.
Ainda me relaciono com ele, com respeito e intensidade.
A senilidade dele faz com que eu perca aquivos de mim mesmo.
Bem não sei se é minha loucura ou a velhice dele ou as duas coisas.
Provável que não seja nenhuma das três.
Não tenho métrica pra guardar arquivos.
Frases estão soltas,
textos perdidos pra sempre.
Cartas e poemas e filosofias...tudo de gaveta.
Escritos para ex-namoradas, ex-amantes. Prefiro ex-amantes.
Todas mulheres têm a potência de "ex".
No flerte da conquista já há uma morte.
Algumas narrei.
Outras mortes preferi deixar morrer.
É um exercício do livre arbítrio, afinal, uma dose de autoengano nos salva.
Vídeos pornô, fotos antigas...tudo em desordem.
Esquecidos como despachos numa esquina,
abandonados como autistas de um sanatório estatal.
A área de trabalho é um parque surrealista de diversões.
O jardim de um asilo de velhos e dementes.

Sempre foi uma máquina de escrever com prerrogativas a mais.
Morrerá apenas máquina de escrever.
Tudo que morre fica gravado na história por aquilo que fez mais, não pelo que fez melhor.
Essa é uma das tristezas da vida.
O mar de letras ordenadas como uma pedra bruta que esconde uma escultura.
A ordenação da desordem é dos dedos, do cérebro, da metafísica, das nuvens, dos espíritos.
Ele foi minha coroa de espinhos e minha mãe.
E por honra, agora sou o enfermeiro.

terça-feira, 24 de julho de 2012

MÍNIMAS FEMININIMAS





Uma mulher que traz, de uma só vez, a garrafa de vinho, a taça e o saca rolhas, é uma mulher pra casar. 

***

Longe dela os dias são lesmas pegajosas, que resistem ao sal das horas.

***

As mulheres dos dias fragmentados desse tempo são ansiosas, inseguras e ocupadas com muitas coisas. Preferem pintos confortáveis e que não tardem em gozar. É preciso estar adaptado. Os pintos pequenos perderam a batalha mas vencerão a guerra.  


***

Mulher satisfeita se satisfaz com o final. 

***

Entre um sexo e outro, espera o homem. Entre um sexo e outro, vive a mulher.

***

Sem um cachorro ou uma televisão ou uma planta ou uma mulher, a vida fica muito desgraçada.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

um plágio incapturável



um chasque para o derretimento das calotas polares.
um chasque para as redes de balanço.
um chasque para os que vão morrer na cadeira elétrica.
um chasque para as estradas e os carros.
um chasque para quem inventou as estufas Nikon.
um chasque pro processo de digestão.
um chasque para o GPS.
um chasque para a rejeição e para a serpente no quadrante crístico.
um chasque para os elevadores, os motores, e tudo que vai sozinho.
um chasque para a falta de conclusões.
um chasque para as faturas mais caras que a promessa.
um chasque para os assaltantes de banco.
um chasque para as batatinhas fritas com queijo e bacon.
um chasque para as aparências.
um chasque para todas as ilhas que existem na terra.
um chasque para as tendas de umbanda e candomblé do Brasil.
um chasque para os cronópios que vivem dentro dos livros.


voltei com Kate


Em 1997 me apaixonei pela Kate Winslet. O Titanic tinha sido lançado. Fui 4 vezes no cinema. E esperava por aquela cena que o Leonardo DiCaprio desenhava ela nua, branca, lisa, maravilhosa, numa poltrona abençoada por Deus, um anjo guardião do céu da vida. 

Com braços acima, e pernas juntas, e esfregando a pele que fica do lado direito do corpo.  Recortei uma foto dela na Zero Hora e escondi embaixo do travesseiro. Minha cama era no andar de cima do beliche. Kate me inspirava.

As nuvens passavam. As chuvas caiam. Começava o dia. E terminava o dia. E eu cavalgava a imaginação na Kate. Ela era o que me salvava. Porque desde sempre só as imaginações me salvaram. 

O que sempre houve, na verdade, foi que sempre fiz da idéia uma verdade antes da própria realidade, meio como pensava Platão. Platão é meu carrasco e minha sacristia.

Depois a paixão passou, como acontece com toda paixão. Mais tarde vi a bunda dela pelada num outro filme que não lembro o nome. Percebi que ela já não era a mesma. A bunda se mantinha lúcida só porque a luz da cena do filme ajudava. Pude ver. Sou um técnico em bundas, como esses caras que arrumam máquinas de lavar roupa.

Depois disso fiquei vários anos separado da Kate. Ligar, como eu nunca tinha ligado, nunca mais liguei. Emails, que eu nunca tinha enviado, jamais voltei a enviar. Até lembranças de aniversário deixei de lembrar, ainda que nunca tivesse feito uma.


Encontrei ela de novo como a aluna analfabeta que trepava de tarde, ingenuamente, com um aristocratinha que lia livros pra ela.  O leitor lia e ela escutava pelada, de bruços. Eu pensava: "essa mulher me persegue". Volta e meia, ela era outra na minha frente.

Depois veio Em Busca da Terra do Nunca. Era ela. De novo maravilhosa e vulnerável. Dentro de vestidos ajustados e em paz com o universo. Sorrindo no inicio. Doente no fim. Devota dos filhos. Devota do marido morto. Fiel até a morte e mesmo depois dela. 

Deixou de ser a rica-afogada-e-apaixonada-por-um-pobre, e se transformou em uma mãe fiel aos filhos e ao marido, do tipo que não se importa com quantas amantes o marido tenha ou não tenha, seja nessa ou em outra vida. Uma devoção própria das madres santas da comunidade nosso senhor dos selvares de Deus. Os anos tinham feito Kate se tornar uma santa. Que chora e morre agarrada na vida. Feita para sofrer, para morrer pelo amor, e para ser só perdão, como disse Vinícius, um poeta de linhagem hermética. 

Ela sempre será uma gordinha que não aconteceu. Um abraço para a velhice. As novas precisam ser gostosas para que o colo da velhice seja mais gordo e mais quente, uma espécie de instinto de sobrevivência do macho, que busca um assento confortável para morrer, exatamente como fazem os elefantes no fim da vida.

Kate me olhava pelada pela foto congelada, esperando que eu lesse histórias pra ela.


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