domingo, 1 de agosto de 2010

O lado da cama


O LADO DA CAMA

Desde que o inconsciente existe, as coisas ficaram um pouco mais complexas do que sempre foram. Seja para preparar o ritual de dormir, seja simplesmente para tirar um “tatu” do nariz (se acaso for um regionalismo do sul, tatu é o que as legendas dos filmes americanos traduziriam por meleca...), fato é que desde que os psicanalistas e psicólogos invadiram o planeta Terra há sempre uma tentativa de explicação para cada movimento ou inércia das gentes. E eu aposto que o não-movimento é um prato que além de mais recorrente é mais suculento para os tradutores da alma, já que mais se ouve falar em mecanismos de defesa, obstáculos a se transpor, fixações passadas, traumas disso e daquilo, do que pessoas preocupadas em fazer do carpe diem uma filosofia de vida e chutar o balde (dizemos assim para mandar tudo às favas lá no Rio Grande, acaso se trate de novo de um regionalismo).

O tema do inconsciente interessa porque correlato à ele está um assunto mestre: as interpretações e as traduções (estas não em sentido idiomático obviamente), ou melhor, a tentativa de interpretações e traduções (não sejamos demais atrevidos). O inconsciente é, de alguma forma, o Deus pormenorizado de cada um. Se é verdade - e imagino que sim - que viver com religiosidade e a presença constante de um Deus é um alento pelo singelo fato de que há sempre uma justificação das coisas que conosco acontecem; pode-se dizer que o inconsciente é um Deus justificador de tudo o que fazemos, do tatu, passando pelas relações amorosas e profissionais, até o ritual de dormir. Não que exista uma lógica, afinal, o inconsciente é um ilógico bêbado com mais noção de nós que nós mesmos; mas é ele que, iluminado, nos ajuda a entender. Será o inconsciente o caminho, a verdade e a vida? E penso, pensando nisso, na frase do Quintana quando diz que “o destino é o acaso com mania de grandeza”. Aliás Deus e destino deviam ter mesmo nome, já que se prestam para a mesma função de justificadores. A dúvida ia ser para saber se manteríamos a maiúscula ou a minúscula...

E foi tentando traduzir uma vaguidade que resolvi pensar no lado da cama. Sim, o lado da cama que os casais deitam todos os dias, porque se sabe que são raríssimas as alternâncias de posição. Tem-se que é sinal de educação o homem deitar do lado que fica a porta, como forma de proteção inconsciente da fêmea frágil (que já não andam tão frágeis assim). Um resquício do tempo em que morávamos nas cavernas: o homem deitava no lado da entrada da caverna para tentar salvar a mulher sapiens caso algum animal selvagem invadisse o lar sapiens durante a noite. Desde esse tempo sapiens isso já é conversa pra boi dormir porque, na verdade, não se trata de educação senão solidariedade: “- não amor, deixe que eu seja devorado primeiro, faço questão”, devia dizer o Seu Sapiens para a Dona Sapiens antes de dormir... A não ser que se queira salvar a tradição e fazer dela uma justificadora cega, isso hoje em dia é uma bobagem porque ninguém sabe o que vem primeiro: um homem selvagem entrando pela porta do quarto (os animais selvagens andam mais raros...) ou uma bala perdida atravessando a parede do quarto.

Tradições à parte, no mundo pluralizado de hoje, provavelmente essa já não seja uma regra. O que não significa que não se possa entender porque, de algum modo silencioso, homens e mulheres elegem o lado de deitar na cama. É sempre silencioso, pensem vocês, o acordo que define o lado da cama. Se alguém já não lembra como foi a primeira noite no quarto de casa, tente lembrar do hotel, simplesmente homem e mulher instalam-se na cama, silenciosamente. Mas porque escolher um ou outro lado? Se pensarmos bem, os quartos das cavernas não eram do tipo suíte como são alguns hoje, então, será que deixar a mulher no lado da porta do banheiro significa um desejo inconsciente de jogá-la no vaso? Ou será que a mulher que força o homem a deitar no lado da porta do banheiro não quer indicar à ele que faça do banho um hábito mais recorrente? São infinitas as possibilidades, não há dúvida. Mais interessante que fazer essas cogitações é pensar nas camas que são encostadas na parede. Será que os que ficam entre o companheiro e a parede são os que gostam menos? Explico: pode ser que quem deite do “lado de fora” possa estar tentando inconscientemente prender o outro. Claro, quem quer prender é porque sente que o preso quer mesmo é fugir, o que explicaria a tese de que quem deita do lado da parede gosta menos daquele que deita no lado de fora, esse que gosta mais daquele que deita do lado da parede, que, muitas vezes, o que mais quer é deitar, inclusive, virado para a parede. Tem ainda os quartos com sala de vestir, o que aumenta as possibilidades; os quartos em que dorme toda a família, as vezes com sogra e cachorro junto; os de casais com filhos recém nascidos, em que o lado da cama pode ser uma definição do tamanho das responsabilidades com o rebento...e por aí vai. Mas essas coisas são apenas especulações sem nenhuma base teórica, pois no fim das contas o melhor não é entender o lado da cama, mas quem fica em cima ou embaixo.


7 comentários:

  1. Paulo:
    Primeiro achei que estás mto neurótico com eventuais "regionalismos"... por certo algum comentário deve ter te traumatizado. Não dês explicações nem traduzas nada não, o charme da escrita está nisso! E o interessado que se esforce! Responda apenas: "Não vou explicar. Trate de se aculturar. Mofas com a pomba na balaia!" hahahahah
    Segundo... me deixaste mto encafifada com todas essas considerações. O que me faz escolher o lado é uma coisa tããããão básica... rsrs
    E definitivamente não envolve nada externo à cama e à companhia... será que não sou normal?!?!
    Ai, agora quem ficou neurótica fui eu!!!
    POFT!

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  2. Pode ser trauma inconsciente sim Lu..ahhahhaha
    nas próximas vou deixar o "foda-se" mais atento!
    Agora, pode contar ai qual é a tua motivação tãaaaoo básica?? Não faça mistério!haha
    beijão

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  3. cara, adorei...
    deixas de lado essas coisas de outros que nao gauchos...
    Dei umas boas gargalhadas, se bem que com um bom vinho a me acompanhar...
    Coisas de psicologias deixo para os psicologos de plantao, achei engraçado...
    valeu...

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  4. hahahaah
    Não me provoca que eu conto mesmo!
    Beijos!

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  5. Bem vindo Geraldo!
    Diga de onde vem e do que se alimenta.
    Lu, não é provocão, é curiosidade. Que inclusive aumentou agora! Conta aiiiiiii! :)
    Beijo

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  6. O melhor acesso possível ao corpo desejado...
    ;)

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