terça-feira, 27 de outubro de 2009

A insustentável leveza do ser


Aproveitando a deixa da queridíssima amiga Fran, transcrevo esta interessante passagem de A insustentável leveza do ser, escrito em 1984 por Milan Kundera. Além de reafirmar a falibilidade do método científico, o aforismo revela que, quando se trata de aproximações amorosas, a grande protagonista é a aleatoriedade. Ou seria o caos? Sim, o caos desprovido de qualquer conotação pejorativa. O caos que resolvemos chamar de "lado B" quando nos referimos ao não-saber do destino. Talvez muito antes de 1984, nos tempos de Caim e Abel em que os jornais se preocupavam com o dilúvio e não com o aquecimento global, essa grande mensagem já tivesse sido proclamada. Kundera acaba sendo bíblico e indicando a todos que sigam os sussurros que ecoam baixinho em nossos corações. Essas sábias orientações ametódicas que, por vezes, tentamos evitar. Por medo que não valha. Por medo que não de tempo. Por medo que, antes, o aquecimento do mundo nos frite. Por medo de tanta coisa que pensamos ter certeza e que se esvanecem em mortes que sequer carecem de luto. Enquanto isso, ficamos sujeitos aos instantes quaisquer, ao copo de vinho a mais, à desistência não querida, ao beijo dado, ao fim que parecia cólera, à mentira que de dor virou prazer, ao sono esticado ou perdido e tantas outras conjunturas mínimas, ínfimas e minúsculas da vida que fazem esse norte chamado destino ser o que de mais aleatório e sem motivo existe no universo.


"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

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