quarta-feira, 27 de julho de 2011

AMY E OUTRAS OVERDOSES

Amy na sua fase mais saudável...
Sábado passado fui avisado de que a Amy morreria mas não consegui entender o recado. Viva ou morta a Amy deixou uma interrogação moral difícil de compreender. Além da voz demoniacamente bela, era o pacto que ela tinha com Dionísio o que mais agradava os fãs.

Ser, ao mesmo tempo, genial e suicida é uma conjunção existencial de atributos que a moral não coloca no mesmo saco (ou não gosta de colocar...). É como se toda a genialidade tivesse a obrigação de se eternizar igual à Jesus na cruz e, ainda, como se, por outro lado, todo o suicídio devesse ser levado à cabo por alguém sem qualquer atributo nobríssimo e cultuado pelas massas.

A Amy fez e ainda continuará fazendo a “filosofia das certezas” esmorecer diante de tamanha incompatibilidade de atributos, ou seja, explico, é quase impossível que seus dons demoníacos e divinos saiam ilesos ao entrar no universo dos julgamentos morais. É o mesmo estranhamento que a moralidade tem quando não consegue compreender como um milionário resolve abrir mão de todas as cifras e virar um mendigo de verdade, ou ainda, se o mesmo milionário resolvesse mandar tudo à merda e ir meditar com os monges no Tibet, pensando que é só a kundalini a grande riqueza do ser humano.

Ver que ela (a Amy) roda-a-cotia-de-noite-e-de-dia com tanto álcool e drogas é um colírio aos olhos do público, que em geral tende a achar que todo grande artista tem direito a acabar com a própria raça pra produzir seus frutos legítimos, ainda mais se tiverem qualidade. O Diabo é mais irmão da Arte do que Deus, não há dúvida. A arte carece de intensidade, de uma brincadeira irresponsável no limite do desfiladeiro. Deus nos dá plenitude e não intensidade. A arte divina não tem cor justamente porque, em se tratando de Deus, tudo é luz e não cor... A Amy, claro, bebia com os anjos troposféricos e, por isso, à distância, o comentário entre todos era: “Nossa, ela é LoKoNa”...”Uhuul”... (...mais reticências...) ... ... ... ...

De longe, a loucura suicida da Amy pode ser perdoada, afinal, por mais bêbada, inconsciente, inconsequente, chapada, irresponsável, pá-virada ou desleixada que ela tenha sido, o cd continuava e continua tocando sempre igual, mecanicamente, obediente às ordens do seu dono que determina o momento de dar o “play”, o “stop” e o “pause”, este último caso toque o telefone e seja hora da Amy calar a boca pra não atrapalhar a ligação.

Entretanto, a reação do público que ia aos shows da Amy confirma que nosso inconsciente coletivo não sabe lidar com a rejeição, confirmando em grande parte os prenúncios da psicanálise, que percebeu que nascemos em meio a muito sangue e muitos nãos...nãos estes que tem como NÃO-MOR o de que NÃO podemos permanecer no útero. Quando nascemos, é como se a enfermeira mostrasse uma placa imensa com a inscrição: “NÃO, VOCÊ TERÁ QUE FICAR FORA DESSA BANHEIRINHA DE ÁGUA QUENTE, TERÁ QUE FABRICAR O PRÓPRIO ALIMENTO E SE FERRAR BASTANTE PRA APRENDER AS COISAS”.

Isso porque, ao vivo e para os que só admiram e admitem um caos controlável, a Amy é intragável. Afinal, que história é essa de não cumprir com o prometido, já que os ingressos do show foram pagos, e vocês tem o D-I-R-E-I-T-O (todo detentor de direitos fala a palavra com um vagar nojento...)de assistir o showzinho com os amiguinhos ou com a namoradinha, né suas criançolas de merda? Nos shows, em que a Amy continuava sendo o que era de verdade, ou seja, uma drogada que canta muito bem (mas que canta só quando quer), os sumiços do palco, os tombos e as golfadas de vinho goela abaixo eram chocantes para o público que queria e ter a certeza de que estava pagando para ter atendidos os seus desejos de prazer e pertencimento. A Amy estava se lixando pro público, não fazia de conta que amava todas as cidades em que cantava, não participava da hipocrisia de merda...e, pensando assim, pode ser que tenham requisitado ela pra dar aulas de honestidade individual no reino dos céus...

Os gênios não se importam com os contratos. A Amy tava "nem aí" pro contrato com a gravadora, pro empresário da cidade que contratou o show, pra todos os seus fãs de mentirinha que aceitavam o néctar mas repudiavam o cheiro ácido do vômito, que vaiavam e vão continuar vaiando, porque querem controlar a incontrolável terra do nunca que existe em cada ser humano. Nessa overdose invisível e coletiva, ninguém desmaia em cima do palco. Os vômitos são privados. A morte, anunciada.  

9 comentários:

  1. Paulinho, encontrei teu blog por acaso, tens uns talento fantastico.

    Parabéns, excepcional leitura.

    Sucesso, amigo!

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  2. Tenho percebido que você gosta desta teoria (e uso esta palavra por falta de outra melhor, e não por ironia ou descrédito) que relaciona tudo ao evento da saída do útero... Faz sentido. Gosto quando você discorre a respeito.

    Mas eu me dou a liberdade de discordar quando você assume esta postura de defesa da Amy que "se lixava para o público ou para os contratos". Não acho que o resto do mundo é quem deve se acostumar ao seu temperamento inconstante e seu sujeitar à sua potestividade. Ela escolheu entrar nesse meio... Então é ela quem devia seguir as regras. Caso quisesse continuar seguindo a própria cartilha, devia permanecer cantando só para si. O mundo perderia uma grande chance de conhecer seu talento, mas enfim, para tudo há um preço.

    De qualquer forma, continuo apreciando seus textos e gostando muito de visitar seu blog. Não tenho a intenção de confrontá-lo ou inspirar contenda, apenas me expressar mesmo.

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  3. Paulo meu bem, você é admirável! Um tempo distante e já senti saudade de te ler.
    Um beijo cheio de amor puro.

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  4. Fiquei refletindo o comentário da colega de cima, Ana. Já que ela se deu a liberdade de discordar contigo Paulo, não pude deixar de me dar a permissão para intrometer-me neste embate, com todo o respeito.
    A entrada no mundo da música não depende apenas da vontade do artista e de sua submissão às referidas regras. Amy chegou ao patamar elevado de ilustre cantora internacional, onde por longo tempo permaneceu, porque foi exatamente este mesmo "resto do mundo" citado pela Ana, que de fato aceitou seu temperamento inconstante, arrogância e descaso com as regras e aprovações que vem de fora.
    Eis a prova real do que defendo: se hipoteticamente, mesmo com todo inenarrável talento musical, não a aprovassem, provavelmente estaria ainda hoje cheirando tudo quanto é tipo de pó antes de cada show nos pequenos pubs de Londres, sem que a maioria conhecesse a grande diva do jazz e do blues que certamente foi.
    E querem saber? Quem disse que para gostarmos de alguma música precisamos gostar também da pessoa que a canta?
    Quero dizer que, de certa forma, apesar da imposição da mídia, somos nós fãs que escolhemos também aceitar nossos ídolos, basta comprarmos ou não seus discos - que hoje em dia já bastante ultrapassados, mas ainda ouço dados e números com relação à venda destes. Os da Amy venderam horrores, mais um sinal de que o nosso aval foi dado a ela, mesmo não seguindo a fio todas as regras.
    Ainda que não tenha sido questionada, afirmo-lhes que a verdade para mim é que as qualidades fenomenais das suas músicas eram tantas, que anulavam todo e qualquer defeito de sua vida pessoal.
    A Amy se lixando para o público, e o público se lixando para Amy também: nesse joguinho aí de moral, a bola da vez era realmente o grande talento dela, que talvez agora ao lado do Diabo, esteja mais afiado do que nunca.
    Beijo da pequena.

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  5. Oi querido,
    Tudo bem?

    O Blog da Michele mudou de nome e caminho. Com pseudônimo agora:

    Michele Santti
    http://michelesantti.blogspot.com/

    Igualmente o Twitter
    @MicheleSantti

    e FaceBook
    facebook.com/michele.santti

    Um beijo,
    Mih

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  6. È o Davi do futebol de corredor de Casca?? bah que nostalgia. brigado amigo, bom te rever por aqui. Como anda a vida?

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  7. Ana, aqui opiniões contrárias são tidas como bençãos. Acho que é pelo fato de que ela não se adequava às regras do jogo que se tornou genial, assim como tantos...Jom Morrison, Edith Piaf, Vinicius de Morais, Marques de Sade entre outros...então meu sentir fica de acordo com a Gabita e seu eterno desassossego :) brigado pelo comentário.

    Valeu Michi, vou visitar com certeza.
    Marlon, grande rockeiro xirú de Blumenau! Quando vem tocar aqui em BC? Abração velho

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  8. Um taxissista em SP me disse:

    .- Coitada da EMIUNIROSE...veio para o Brasil e apresentaram o crack para ela..ela morreu....
    pode...a culpa é do Brasil!!!!

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