quarta-feira, 4 de maio de 2011

PRE(S)SENTE




Quando ela chegou no meu apartamento com todas as malas que traziam todas as bugigangas dela, compreendi que o que tínhamos tinha acabado. Mas como as percepções são sempre matéria a se confirmar com o passo das horas do futuro, ainda não tínhamos acabado DE VEZ. Viveríamos juntos: mesma cama todos os dias, mesmo banheiro pra escovar os dentes e cagar, espaços iguais e vontades diferentes, andróginos em busca da necessidade de não ser, sexo burocrático por amor, medo e tesão. Faríamos essas coisas de casal que mora junto sem ter filhos. O filme do que viria passou e entendi que antes de começar tudo já estava errado. Ela não devia morar no espaço que era meu porque era meu e não nosso. E como as coisas sempre chegam em momentos decisivos, tudo estava acabado.

Antes mesmo que ela fosse já sabíamos por pressentimento, mas não queríamos admitir. Por isso criamos uns personagens que se amavam, enquanto nos escondíamos atrás desses fantoches de pano vivo. A gente se sentia mal porque no submundo das nossas almas habitava um monstro chamado fracasso. Todo projeto que dá errado desce rasgando a garganta e fica embolorado no estômago. Um fracasso que empunhava a bandeira: “você não é capaz de, sequer, planejar a própria vida seu animal estúpido”. Além disso, tinha todo aquele amargo de saber antecipadamente que se viéssemos a viver juntos, permaneceríamos juntos por conta das contas.

Claro, as contas ficam mais curtas se são divididas em 2. 1 casa dividida por 2 é = à despesa de meia casa para cada 1, enquanto 2 casas divididas por 2 é = à despesa de 1 casa para cada 1, logo, esse é um dos dois momentos em que o amor tem alguma precisão. O outro é quando amamos de verdade. A merda é que esses amores em que paira uma dúvida eterna são como os gatos traiçoeiros que um dia inesperadamente lanham todo nosso rosto. Hoje em dia existem muitos companheiros de teto que já se amaram e continuam morando na mesma casa porque a grana é curta. Acho essa uma das grandes merdas de nosso tempo.

Eu tinha sido um apaixonado. Um apaixonado pelos castelos que havíamos construído quando os castelos ainda eram um sonho. Eu gostava do jeito do nosso amor e isso é e sempre será inexplicável. Cada amor tem seus jeitos, suas manhas, seus modos idiotas de falar e de fazer preliminares. Seus programas prediletos, suas melhores posições, seus melhores movimentos invisíveis. À parte isso - que é quase comum -, tínhamos o tempero da distância. Esse era O PONTO. Eu morava no sul, ela morava no norte. Havia um gozo antes de cada encontro. O “estar indo”, essa grande e arrastada preliminar, realmente nos excitava. Cada vez era uma outra vez, que se desenhava sempre como um novo encontro escondido. Tomávamos uns capuccinos pela cidade, depois da expectativa do portão de desembarque. Novidades em cada papo e às vezes até um novo perfume no cangote, que quando se misturava com o antigo cheiro da pele fazia tudo ficar perfeito.

Nosso amor tinha uma teoria, uma autopesquisa, várias conclusões desconexas. E pensando, o que as pessoas amam são sempre os conceitos. A distância era o conceito nosso, nosso chantily. Quando os sete mares para atravessar se transformassem em sete centímetros de lençol, tudo estaria acabado, afinal, só amávamos o conceito, materializado na distância entre nós. O único jeito de manter vivo o amor que tínhamos era sentindo aquele pedaço de ausência que sempre nos atormenta, como disse a Camile Claudell num dvd bacana do Chico. Não tinha jeito. Não tinha jeito porque é só no presente que estão as respostas. Quando ela chegou no meu apartamento com todas as malas que traziam todas as bugigangas dela, compreendi que o que tínhamos tinha acabado.



6 comentários:

  1. tudo bem foi ótimo, sabe que se eu tivesse lido em algum outro lugar ia ter certeza que vc era o autor! bjj
    Débora Thomé

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  2. não consegui completar a psicometria do comentário Dé...help!
    Beijo

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  3. hahahaha
    é isso mesmo, só falei que se tivesse lido em algum lugar sem estar assinado por vc, mesmo assim saberia que foi vc que escreveu!simples assim!só pq é a tua cara mesmo!mas espera... o instinto humano ou animal ainda te pega pela mão!hahahahaha sem psicometria mesmo!!beijinhos Dé

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  4. Não era amor!! E ambos queriam que fosse amor. O lindo foi que deram chance a "ele" e só saberemos se é ou não amor se nos arriscarmos a olhar nesse abismo.

    Mas o amor não "tem que ser" ele é ou não é.

    Existe também o "amor de longe", mas só "de longe" pode ser amado.

    Gloriosa experiencia entre o "sim e o não".

    Abraço Hermes.

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