terça-feira, 23 de agosto de 2011

AFINANDO A LOUCURA

Os processos de criação desenham em nós alguma coisa que todos os outros processos não podem desenhar. Os círculos de criação coletiva são uma necessidade para quem pretende ensinar caminhos ou descaminhos (estes que são lugares mais inéditos e, portanto, mais ricos). É preciso excitar os pontos de energia colorida... mas eu nem sei o quê é um ponto de energia colorida, tampouco sei onde eles estão. È preciso absorver a música até o final, a poesia até a ponta dos cabelos, a respiração auscultada dos ácaros que nos rodeiam...mas também não sei nada sobre isso, falo por falar, pra enganar a torcida, tomar tempo de gente que reclama que não tem tempo mas que lê irracionalidades porque anda cansada de fazer algum sentido...

É preciso estar confortável, em casa, inserto no seu hábito mnemônico, nos dogmas da sua existência, entre as paredes que sustentam o caos que lhe pertence. É triste ver que as pessoas não aguentam a própria solidão, que são dependentes de outros fantasmas como elas. No que se refere à companhia, em geral, prefiro os livros às pessoas. Eles tem mais o que dizer. De todo modo, contraditoriamente, entendo que os livros são engodos, fugas da realidade. Depois de um tempo, os livros dizem sempre a mesma coisa, são substancias comuns em formas articuladas pluralmente. A vida não vive nem acontece nos livros. Depois de ler, é preciso viver. Se os livros nos trazem conhecimento, as pessoas nos trazem crescimento. Não há como dar passos senão comparando diferenças. Comparar diferenças é avançar por meio da fusão de horizontes que foram previamente atritados pela nossa capacidade de confrontação com o estranho. Para aumentar de tamanho, portanto, é preciso conviver. A indispensabilidade do outro é um tema de casa pra mim. Encarar o outro e seus olhos defensivos, que atacam nossos reinos pelas costas. O universo de cada um de nós, visto como o útero que nos detêm, acaba se tornando facilmente uma pequena pulga atrás da orelha de um deus ou de um diabo. 

Eu tenho conclusões pra esconder que não tenho nenhuma. Eu acabo enganando quando sou porque ser alguma coisa é deixar de ser todas as demais. Poder de escolha? Ah, ando suavemente cansado de falar de livre arbítrio ou relatividade, condeno os fantoches do meu tempo sabendo que também sou um. Escolhemos o quê afinal? A comida que nos come, uma mulher pra ter como companheira, as rotas da estrada da vida, as músicas que nos chegam aos ouvidos, nossos desejos de não castração? Ou estamos castrados desde todo o divino SEMPRE? Qual a liberdade que existe quando sequer podemos dizer aos amigos que não estamos com saco pra aguentar a companhia deles? Eu tenho requerido uma honestidade honesta de verdade, sem culpa, sem dor, autônoma, que fuja da onipotência das certezas únicas da ciência, da religião, dos relacionamentos, dos paradigmas que copiamos da TV.

A rejeição da universalidade com a matéria corpo é a pior das castrações. E essa polenta congelada que eu tenho que comer, o que dizer sobre ela? Essa polenta industrial da Sadia que de sadia não tem nada me escolheu antes que eu pudesse escolhê-la, razão pela qual eu não posso mais falar em lívre arbítrio, liberdade ou autonomia. Eu tenho nostalgia da Rute, uma querida amiga que trabalhava na casa dos meus pais que fazia uma polenta deliciosa, verdadeira, à mão, com carinho, açúcar e afeto como disse o Chico. Sem afeto, afecttio, afeição, sentimento de bem querer, a coisa acaba ficando uma merda mecânica completa.

Fazer poesia é o único jeito de enganar o destino, mas se esse não for o único jeito, me conte digno leitor que gasta seu precioso tempo lendo essas letras manchadas de esperança e desassossego. Digo isso para que não me descubram, quero o privilégio de ter a certeza de que posso chegar antes de qualquer um na minha descoberta, de ter certeza de que o processo de ser não acaba nunca, nem na mortalidade do passado, nem na eternidade do porvir.

A loucura talvez seja uma benção pela sua desrazão, pela conexão direta e régia com o divino. Ter nascido assim com pouca loucura me faz sentir pobre de uma pobreza maior que as pobrezas que aparecem na TV. A TV aqui em casa pifou. Era daquelas grandes, com tubo de imagem. No meio de uma pequena reforma, deixei ela sobre a cama. E, da sala, praguejei sobre o peso daquela porcaria dos anos 90. Aconteceu que ela se atirou da cama, se espatifou no chão e estragou. Agradeci. Minha namorada me emprestou a TV dela. Mas acontece que a TV plasma dela não funcionou e estou até hoje sem ver TV. A TV é um movimento, uma companhia na solidão. Com esse quadro todo, percebi que a TV era uma bengala. Pago a TV a cabo até hoje, mas sem ver as imagens. Fico imaginando os programas que a TV passa...e é provável que tudo continue igual: os mesmos gols do futebol, os mesmos boa noites do Bonner, as mesmas tragédias.

Não tenho saco pra ligar de novo pra um 0800 e tentar consertar a falta de sinal. Esses dias liguei para o 0800 da SKY. Uma mulher eletrônica atendeu, falando de forma gravada como se não estivesse falando de forma gravada. Falando coisas do tipo “então, olha só, se você tá com problemas de sinal, tecle 2; se tá com problemas na fatura tecle 4” e assim por diante. Acho que é um jeito de fazer com que a nossa paciência aumente. Eu fui teclando os números do meu problema complexo que era simplesmente voltar a ver TV. Quando falei com uma vagabunda de verdade, a bateria do meu celular acabou e prometi que ia pagar a SKY sem ver a SKY, apenas imaginando os programas, imaginando que essa era uma mensagem dos deuses pra me fazer exercitar a imaginação. Me foi conveniente pensar assim. Estou alienado do mundo, sem saber se a bolsa caiu ou se os terremotos pré programados pelo destino estão devastando alguma terra do mundo. Não escuto o rárárá do CQC e do Pânico na TV. Tenho postergado a ligação e vou seguir assim até que a coragem volte. Tenho visto os DVD’S que estavam por ver e eles têm sido interessantes. Busco a loucura para depois ter um problema pra resolver. Quero ser um inquilino da normalidade, mas com aluguel atrasado. Essa televisão que me abandonou, essa polenta artificial da Sadia, essas crostas de comida nos talheres mal lavados pela faxineira, esses fantasminhas camaradas...tudo isso é de mentira, criações imaginantes. Ao final, nos melhores diálogos que temos com nossos abismos, estamos sozinhos. Confirme você mesmo antes de dormir.

6 comentários:

  1. Coloca esse texto na tua lista top 10!!!

    Grande obra Hermes!

    Parabéns!!!

    UM BRINDE A LOUCURA

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  2. Diego Pierdoná Portella24 de agosto de 2011 09:12

    "Depois de ler, é preciso viver". Um brinde à você.

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  3. Ser, estar...eis a questão..
    ser você? ou, estar em você?

    lembre-se:
    a poesia é para sermos nós mesmos...a escrita é sua inquietação que deixa de ser sua, e passa a ser do mundo..
    com beijinhos carinhosos J.D.
    ps: sem inquietações...passou..varreu..

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  4. Valeu grande Mago, operando a magia de se ver e ler, operando a magia de não se ver e de não se ler ;)

    Abração Jéssica e Diego, bem vindo à minha sala de estar.

    Anônima, comentário pessoano hein ;) em breve tenho que escrever as "Elucubrações da varinha mágica dourada e com uma fita rosa" hehehe
    Beijos

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  5. Melhor maneira de começar o mês Paulinho! Muito bom mesmo.
    Abração

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