segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ditaduras invisíveis



Menininhas siliconadas com cabecinha-bandeja-para-petiscos-com-azeitona. Garotões narcisitas de academia viciados em espelho. Prestem atenção, todos vocês, porque a senhora do vídeo abaixo consegue entendê-los e, por isso, eu, perdoá-los. Eu sei que minha simpatia é pouca, mas é que a liberdade sem nome que sonho precisa, antes, de entendimento. Tenho que entender os mistérios do abismo para depois saltar pelado nele. Digo pelado porque pelado é sempre mais livre, mais produtivo. Só pelados podemos sentir-nos verdadeiramente seguros. (Agora entendi a razão dos naturistas que andam com o saco balançando pra lá e pra cá). Tenhamos o bodie que for, estar pelado é sempre a condição mais pura do sentimento de segurança. Estamos querendo ser o que não somos (corpo e todo o resto) porque existe o Hitler invisível nos condenando à morte simbólica do não pertencimento. Eu apanho bastante ainda. Sou torturado diariamente. Me sinto quase como a Ingrid Betancourt escrava das FARC, mesmo podendo dormir numa cama box.
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Por isso é que meu diletantismo é maior com a expressão da linguagem e menor com a expressão (e a necessidade pobrezinha) dos corpos recipientes de merda. Que a verdade possa chegar antes da velhice. E que, quando vier, não precise chegar pedindo desculpas, ela que não tem culpa de nada... A velhice e toda a pelanca que teremos será, se bem quista, a vitória sobre a vida e o começo do abraço doce e delicioso da morte.




http://globonews.globo.com/platb/milenio/?s=bodies

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

asrespostas



Escondo as respostas.
Porque gosto de procurá-las.
Dizem que o importante são as perguntas, mentira.
É preciso esconder as respostas.
Porque elas são sempre óbvias, com a mínima atenção que se ponha.
Perguntar é um delírio quando já sabemos as respostas.
E sempre sabemos!
Eu sei, mas escondo-as.
Antes eu brincava de ficar escondido dos outros.
E pensava que os lugares explícitos seriam menos óbvios:
ficar disfarçado de chão num amontoado de almofadas.
Agora brinco com minhas decisões,
escondo as decisões que me cabem bem na frente do meu nariz.
Planto informações a um palmo de distância dos meus olhos, artificialmente.
Fui um guri de apartamento.
Prefiro o sintético, o feito, o manipulado, o mexido,mesmo sabendo que a única pureza possível é a que brota da terra virgem.
Nem sei se quero a pureza virgem.
Talvez não me sirva pra nada.
Quero a pureza?
Vou esconder a resposta que já caiu aqui no meu colo,
fazê-la um rato corredor do esgoto escuro perseguido por um gato gordo e maligno. Eu.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Gemido do cão




O cachorrinho ia esganiçado na coleira. Querendo dar mais passos do que o limite da coleira permitia. Ele patinhava, roçando as unhas no chão de concreto bruto. O filho da puta silvava, esganiçado, com o diabo no corpo. Lembrei da menina do Exorcista, mas ele ainda não pertencia ao inferno porque não girava a cabeça em 360 graus. Latia como uma mulher em trabalho de parto, bem na hora em que está saindo a cabeça da criança, que deve ser dose de elefante misturada com dose de cavalo. Sinto dó das mulheres que tem que parir naturalmente. Um parto pode ter ares divinos, mas a dor deve ser infernal. Senti pena da cadela que pariu aquela aberraçãozinha doméstica da natureza. O cachorrinho idiota queria atravessar a rua. Não tinha noção do perigo. Se fosse atropelado eu aplaudiria. Gosto dos cachorros assim como gosto das pessoas, mas em alguns casos é melhor que nem existam. Ele latia um latido estridente, insuportável, contínuo. Íamos na mesma direção, o que sepultava minhas esperanças. O dono tinha uma cara de tapado. E recém tinha saído da cama. Devia estar de férias. Provável que tivesse levantado da cama exclusivamente pra levar aquela porcaria de cachorro pra mijar. Depois iria voltar pro ronco eterno da felicidade, até o meio dia. Eram 8 horas de uma manhã que era o fim de uma noite mal dormida. A dor de cabeça era do tipo minhocas: minhocas remoendo minha massa encefálica como se fosse terra úmida. Minha panturrilha ainda está se acostumando com o salto maldito do sapato social. O cachorro parecia que ia infartar, berrava e gemia sem parar. Parecia ter orgasmos múltiplos de ver a rua. Eu ganhava alguns metros de distância enquanto ele largava jatos de mijo pelas rodas dos carros estacionados. Achei que o cachorro pudesse estar vendo um fantasma, tamanha a gritaria tresloucada. Dizem que alguns animais podem ver espíritos, provável que esse visse. Era cedo, mas já devia estar uns bons 25 graus embaixo do meu agradável terno de lã quente (não existe lã que possa ser fria no verão tropical do Brasil). O dono do cachorro bocejou. Estava com a camisa do pijama que não tapava toda a barriga esquizofrênica que ele tinha. O cachorro continuava gritando e querendo correr sabe-se lá pra onde, talvez quisesse mesmo o suicídio por não aguentar aquele dono gordo. Comecei a entender o cachorro, mas com os gritos repetidos, voltei a não entender mais. Nunca gostei de armas de fogo. Melhor assim.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Globalitarismo



As metas estão nos matando.
Mataremos as metas ou elas a nós?
Demos de marcha ré meus caros convivas!
Meia volta, volver!
Mas sem marchar que isso é coisa dos militares filhos da puta.
Filhos da puta escondidos sob o manto sagrado da disciplina.
Mas se até Jesus,
que pelo que consta nos anais da história foi mesmo gente,
se até (E-ou-e?)le foi um indisciplinado,
porque deveriam os militares ocupar o lugar da verdade sob a falsa chancela da ordem?
Demos de marcha ré,
mas só se quisermos mesmo viver.
Vejo vendedores fantasmagóricos.
Vendendo à gentes-fantasma.
Vendem um nada para um ninguém.
Mas se vendem, vendem mais 1,
Que somado a mais outro,
Amontoam-se com uma pouca meia dúzia de poucos,
(que quase sempre são pobres e chatos além da conta),
(se é que me entendem).
Poucos mesmo, lá um que outro,
e olhe lá...
Alguém com capacidade de vender
nasce pra oprimir alguém sem capacidade de vender.
A verdade é vender.
E nos neutralizamos?
Ah, não sejamos bestas ambulantes,
pensando que ainda respeitam-se os papéis.
RECHAÇAM-SE os papéis!
E quando falo papéis quero dizer DESTINO.
Sou da corja de verdugos.
Sou aquele que não pôde.
E todos ficamos de papéis trocados,
assim duplicados,
certos apenas de um talvez,
que é o que, talvez, poderíamos não ser.
A tortura está virando gente grande, evoluindo,
enfiando o instrumento de metal quente nas nossas feridas mais invisíveis.
Estamos sendo apedrejados,
como se as pedras tivessem a leveza de uma flor.
E gritamos com sorrisos, tentando vender tudo quanto é porcaria.
Gritar com sorrisos, já pensaram nisso?


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ficar como tatuagem




A divindade da poesia do Chico sobre a união dos corpos e das almas que não podem, senão afixadas, grudadas, trançadas, conectadas, afiveladas; continuar respirando. A tatuagem imperiosa das peles, que faz do toque uma condição, do roçar uma sensação bendita, de dois calores um sol, do tato das línguas saliva una. Coisas que apenas inundações de feminilidade podem contar aos ouvidos do mundo. O mistério é um menino que nasceu do sexo entre duas mulheres, a vida e a morte. Só quando as feminilidades encontram-se é que nascem coisas incomensuráveis como o universo, o inconsciente, o fundo do mar, um talho entreaberto, um caminho de escura textura e cálido perfume. As fêmeas são a condição de todo mistério. E o paradoxal é que as lésbicas não geram nada além de orgasmos mútos. E o intrigante é que a Monalisa deixa no ar que era um Monaliso, com aqueles peitos escondidos, sem silicone e aquele riso que chama de imbecil cada turista idiota que visita o Louvre e não entende que ela se ri dos idiotas que não entendem o porque do riso. A eternidade está além de tudo isso. O eterno mora além dos lados da moeda. Quantas mensagens subliminares morrerão incompreendidas? Sigam duvidando e tropeçando no fio do próprio bigode. As flores, estas sim, são eternas. Vivem e morrem misteriosamente. Também as nuvens são eternas, mas por pertencerem ao reino dos céus, não devem ser assunto nosso. As nuvens são a única transcendência possível aos olhos, a prova aos que duvidam que seja possível atravessar coisas que parecem tão grandes e espessas. As especulações apenas morrem, porque querem entender. Entender é morrer. Por isso é preciso fazer com que as flores terrenas - e também os que pensam por portarem olhos - tenham a propriedade de transcender e alcançar a graça das nuvens.

Palavrar - Fernando


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

explícitasreticências





Quando nos encontrarmos
- e será tão loguinho que já agora tudo é céu -,
estaremos somando nossos 4 pés na areia,
em frente da divindade do mar,
quando a tarde estiver pronta pra dormir
e o sol, no lugar que sempre deve estar.
A brisa vai ser como deve ser,
E o mar num ritmo bom para nos acalentar.
O universo todo, então, no devido lugar.
Outra vez.

Reticências explícitas pululavam.
E quando, entrementes, caminharam,
o universo todo deu voltas imensas até sabe-se lá onde.
Eles sabiam tudo.
Tudo que acontecia.
Tudo que os envolvia.
Até que o tudo não era assim grande coisa.
Sabiam e saberiam.
(Saber antecipadamente é o sêmen do destino.)
E o destino,
eles tinham na palma das 4 mãos que tinham.
Eram andróginos sem saber, depois, logo rápido, souberam.
Coisas rápidas são matéria das sensações,
não do entendimento.
Mas entenderam, sentindo,
que vinham ambos do mesmo lugar
e que por isso pertenciam um ao outro.
Assim como entenderam, sentindo,
o lugar que o sol deveria estar quando estacionou na pele do mundo,
a brisa mansa do fim das tardes que silvava,
o ritmo adocicado do mar,
Mais todo resto deles antes usurpado.

O cordão cortou-se,
assim efemeramente,
e não por efêmero que fosse,
evitou-se o choro.
Que era manso e tristonho,
porque tristonho não é tão triste quanto o triste.
Mas, visto que de lágrimas se faz um choro,
havia uma tristezinha necessária a se enfrentar.
O afeto que transitava a conta-gotas,
transbordou no balde da existência que os envolvia,
assim num repente.
As estrelas explodiram,
mas nem noite ainda era.
Havia uma união distante, invisível.
Havia um cordão feito de aço,
E quem sabe só Deus soubesse como desfazê-lo.
Deus estava metido na história.
Talvez observando.
Ou rindo-se docemente,
como o Buda feliz da vida que tenho em cima da mesa lá em casa,
mostrando que para encontrar Deus,
é preciso encontrar-se.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Visita à Casa do Poeta




CASA DO POETA. Essa foi a inscrição que li numa placa de madeira cruzando as ruas de Timbó, uma cidadezinha de Santa Catarina. Comecei a seguir as placas. Casa do poeta? Em Timbó? Não que tenha havido qualquer desprezo à cidade, mas poesia, aonde quer que seja, chama minha atenção. Em geral, as pessoas querem que a poesia vá pro espaço. Não se interessam por nada que não tenha praticidade. Poesia serve pra quê? E esquece-se de, pelo menos, cogitar em revolver as premissas que constroem seus próprios conceitos de praticidade. Mas não há como determinar culpados, ninguém é obrigado a gostar de nada. Falo de forma bem sincera.

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Era apenas mais uma cidade do interior, com olhares curiosos sobre os forasteiros, ruas limpas e vidas compartilhadas e vigiadas entre a consciência de todos. A vida no interior é mais mansa e mais escrava. Mais mansa porque ainda é possível escutar os pios dos pássaros. Mais escrava porque todos estão agrilhoados a todos outros. Quanto menor a cidade, mais despótico é o grande Outro, tomando emprestada a expressão de Lacan. O grande Outro é aquela voz imaginária que sussurra em nossos ouvidos “...mas...o que os outros vão pensar?”. Viver para os outros é uma merda absoluta se essa for uma regra absoluta. Nessas cidades menores é assim: todo mundo conhece o fedor de todo mundo. Falo com o magistério de quem já morou em Casca, uma cidade com uma italianada cheia de certezas e mortos de medo de decepcionar os vizinhos, ainda que tivessem que tolher as próprias vidas. Vão morrer pensando que estavam certos. Quem tem sobrenome europeu acha isso uma grande vantagem. Vão à merda com isso. A vida é um jogo de xadrez com apenas um cara movimentando as peças. O grande Outro joga com as peças pretas e brancas, a seu bel prazer. Esse tal grande Outro é apenas um novo nome de batismo da velha moral, essa que com certeza já ferrou pelo menos uma vezinha os desejos de todo mundo...

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Seja como for, a vida nas cidades maiores é também uma merda. Talvez seja menos porcaria que nas pequenas, mas apenas talvez. Ao passo que se pode passar a perna no grande Outro com mais facilidade e, por conta disso, sentir-se mais livre, as cidades com gente empoleirada são caóticas e cruéis. Para os pobres é uma desgraça. Para os ricos uma insegurança. Resumindo: não temos pra onde fugir.

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Cheguei à Casa do Poeta. O poeta em questão era Lindolf Bell. Nunca tinha ouvido falar do cara. Já morreu. Melhor pra ele. Se não voltou é sinal que as cidades aonde ele vive são menos tirânicas e mais espaçosas. Fiquei impressionado com a aura da casa. Era um alívio estar ali. Tudo recheado de verde e ao mesmo tempo sem os mosquitos infernais. A natureza só não é divina porque existem os borrachudos chupando nosso sangue. Lá na tal Casa do Poeta eles estavam de férias. Havia flores e calmas. Coisas vagarosas. Formigas preguiçosas que não picam ninguém. Até a brisa era vagabunda e soprava com lentidão. Enchi os pulmões de brisa vagabunda. Que tesão vagabundo. Poético. Uma sensação de estar-com a natureza. Ser ela ao mesmo tempo em que eu era eu. Mas tinha aquele terno e aquele sapato maldito. Com o mini salto maldito. Entrei e uma secretária com seus 48 anos me atendeu. Assisti um vídeo chatíssimo sobre a vida e obra do tal Lindolf Bell. O cara atirava poesias dentro de uma garrafa nos rios e tirava fotos para registrar, vai ver deixava as poesias ruins pra jogar no rio. Depois entrei nos cômodos. Tinha fotos do L. Bell com Clarice Lispector e com Mario Quintana. Camisas puídas e armários antigos. Nenhum fantasma. Quinquilharias. A secretária era atenciosa. Devia viver numa boa trabalhando ali.

Comecei a escrever isso no ano passado e acabei esquecendo as sensações que tive quando visitei a Casa do tal Poeta. É as sensações são como eclipse, é preciso estar presente para sentir. E como é preciso sentir pra escrever, vou parando por aqui.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre o pau e coisas grandes que ficam fora da cueca



Dizer que o pau é pequeno está na moda. A frase chega cheia de mistério ao ouvido feminino. É como se criássemos, antecipada e efemeramente, a mesma sensação de mistério que sentimos quando estamos diante da porta mágica delas, essa que esconde os mais indizíveis segredos da vida. Digo efemeramente porque quando homem baixa a cueca... babáu, tem que se virar com a porcaria que tem. De qualquer forma, chegar ao ponto de ter que tirar a cueca, por si só, já é bom sinal. Pelo menos se ela não começar a rir ou inventar uma saída abrupta dizendo que a mãe se engasgou com um caroço de azeitona.


Dizer que o pau é pequeno se constitui como um charme irresistível, afinal, elas adoram mais a coragem de dizer o que ninguém diz, do que o tamanho do pau propriamente (tomara). Mexe naqueles anseios primtivos sobre homens fortes e opulentos das cavernas. Hoje que existem apartamentos no lugar das cavernas, ser forte é dizer verdades escondidas, nem que um pedaço da verdade fique fora da cueca. Se ela perceber os complementos do pau que estão fora da cueca, sinal que não é apenas uma vampira querendo chupar sangue masculino. É preciso DIZER meus amigos, DIZER que o pau é PEQUENO. Seja verdade, seja mentira, seja 15 centímentros.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Poema da concentração


Que pensam todos esses que caminham pelas calçadas?
(Irão talvez sem culpa de sentir que sentem...)
Que segredos íntimos habitam suas casas?
(E pode que os segredos guardados sejam uma senhora anciã que chacoalha as pelancas numa cadeira de balanço, estando sem estar, de tão pobre de gracejo de se ver que já é – segredos velhos enfiados em um mundo novíssimo, como tratá-los?)
Que gemidos roucos sussurram todas essas mulheres nos quartos de úmida intimidade?
(Gemem prazeres que acabam, afinal, acabam e com isso havemos de nos conformar enquanto formos privados do abraço quente da morte).
Sentirão de verdade as gotas que escorrem por entre suas entranhas?
(Mas se a condição de toda gota é estar entre os vácuos da terra, então há que se delirar – e conformar-se – com a rota das gotas na cruzada até o seio da grande Gaia, sepultura escura dos movimentos)

Não ser impossibilita-me de sentir todas as coisas.
E por não ser absolutamente nada,
nem mesmo qualquer coisa absoluta como o nunca,
plasmo. Plasmo sei lá onde.
Seremos, por simplesmente sermos,
mendazes para com tudo que nos é próprio?
E se o universo nos for propriedade legítima,
ínfimo instante da claridade absoluta,
teremos ganhado então,
a grande mentira,
a única capaz de ensinar a volúpia da verdade?

Estrelas escrevem desenhos que eu sequer posso antever,
banham de ingenuidade minha cabeça crivada de sensações.
Sou o menino. Sou um menino.
Sou uma flor sem vento.
Sou o jardim todo, de poucos.
Mas virá a tortuosidade do inverno.
E contra ele não poderei.
E não podendo,
já antes de ser morto pela geada que queima sem ser fogo,
já não serei.
Sou um menino. O que vomita na jangada.
Das terras do nunca e do nunca mais.
E se a mim o emetismo evitasse, aonde me levaria a jangada?
Talvez me reserve o nunca mais,
além da última marca da última bota no último pedaço de terra...
Farejo que os mundos além da marca da bota última estão também ali,
na cabeça incessante dos que passam (mesmo que não pensem nas marcas finais),
e também logo ali, na cabeça dos seus cachorros encoleirados.
Quê pensam os cachorros na coleira dos donos que eu também não sei o que pensam?
Capaz de farejarem por seus donos.

E é exatamente isso que troco por todo esse tugúrio que me contém.
Sim, as copas das árvores que não são minhas me banham de sombra até a hora do banho das estrelas que não sei onde moram e que piscam, como a blefar sua própria existência.
Minha casa é fora dela.
Essa de ossos e tijolos.
Essa minha árvore,
de vastíssima sombra e frondosa ramagem,
leito formado por terra e tronco aonde apoio de noite o que não sustento de dia.
Pobre mansarda que me contém. Pobre tolo de mim.
Pobres tolos também esses que pensam sem saber que podem pelas calçadas,
esquecendo que depois da última gota – de vômito – nada mais há que se vomitar.
O manah de existir escafedeu-se. E pra onde?
Alimentemo-nos, agora, então, e me digam os deuses todos até quando, de quê?
Se nem sabemos de que fome exatamente se trata nossa angústia.
Enquanto isso, sorrisos. Salvadores talvez.

sábado, 8 de janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pessimismo


Escuto com certa frequencia que sou pessimista. Um recente grande amigo comentou que o pessimismo da poesia não é o mesmo pessimismo das ruas. Se ambos os pessimismos se aproximam da morte, então, a diferença do pessimismo que toca a poesia é que lida com a morte com a normalidade de uma caminhada na praia em dia de férias. Tirar férias morando na praia é como transar com ex-namorada, é melhor ainda. Parece que a vida de quem mora na praia é um grande quindim. E é.

Dizem que sou pessimista, que escrevo pessimismos, abismos e outros ismos que esqueci. Eu TENHO que ser alguma coisa, então! Puta merda! Esse necessidade de SER me aborrece. Porque, meu senhor que morreu na cruz para nos salvar, porque tenho que ser alguma coisa? Escrever é coisa de gente aborrecida. Alegria demais não escreve porque não pára para tanto. Eu estaciono. E quem estaciona e não exprime, deprime. É uma tábua em alto mar. A Clarice entendia das coisas pra dizer que escrever é uma salvação. Movo-me por dentro como se estivesse dentro de uma piscina, ainda que de fora pareça uma barata tonta cheia de veneno nos olhos. Se sou aborrecido não sei. Me aborreço com frequencia, mas não sei se a ponto de ser um aborrecido. Prefiro não ter que me batizar, mas vira e mexe batizo os outros. Isso é um vício que ninguém escapa. Talvez os caras que ficam peidando e meditando no alto das montanhas sem comer porcaria nenhuma. Ainda vou subir até um deles em alguma montanha pra aprender como eles fazem pra não comer. Mas a existência dessa gente é despropositada. Só cuidam do próprio rabo.

Aqui embaixo das montanhas estamos nessa coisa animal de batizar os outros e de os outros nos batizarem. Por isso fica fácil de concluir que somos quase nada, pra não dizer uma grande merda que fala, fornica e fede. Vou tentar passar um dia inteiro sem batizar ninguém de nada: não batizar de filho da puta o motorista, não batizar de rabugenta minha síndica (aliás, temos reunião dia 15 de janeiro, se alguém quiser passo uma procuração), não batizar de gostosa uma bunda gostosa, não batizar de alegre quem sorri, de estranho aquele imbecil que não fomos com a cara. Vou tentar, só pra ver no que dá. Provável que não dê em porra nenhuma. Se sou pessimista, então sou. Ponto. Não se enganem achando que vocês são o que pensam que são. Somos o que os olhos dos outros resolvem ver. Como pessimista, quero que o mundo exploda, nem que seja de alegria.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ovo ovo ovo, viva o ano novo





Até dezembro que vem?
Com os mesmos fogos coloridos?
A mesma pança estufada de comidas e cervejas?
Paciência nossa de cada dia que tivermos que levantar sem vontade,
derramai seus respingos sobre todos nós. Amém.
Não pensem que sou pessimista porque não sou nada.
Não me venham com batismos.
E depois do dezembro que virá, virá um outro e outro e outro.
Outro ainda. O calendário é totalitário.
Até o dezembro em que estaremos salvos, se é que existem outros lados da moeda.
Meu silêncio foi consumido, o frangão de natal também.
Agora virá o mesmo correr dos meses com suas trágédias e comédias.
Com personagens diferentes ou mesmo os mesmos.
Fiquem alertas porque nada vai acontecer.
Um deslizamento de terra. Gente passando fome.
Gente cuspindo filé mignon para os cachorros.
Pobres insatisfeitos e sorrindo.
Ricos insatisfeitos e sorrindo.
Todos na mesma vala.
Amores rompidos. Falências. Dores de barriga. Filhos abortados.
Comidas apodrecendo na geladeira e nos estômagos.
Ejaculações precoces. Alergias e verdadeiras alegrias.
Esperança renovada com a bebedeira e tudo mais.
Vou comer mais pipoca salgada e mais coca cola gelada
com mais esse ano circense que começa.

sábado, 18 de dezembro de 2010

WARAT e o luto colorido do meu coração



É passagem conhecida das fábulas heróicas a figura do mestre. O grande guru que indica ao herói os caminhos em direção ao centro da existência. O caminho de luz personalíssimo que só podemos alcançar quando tocamos o mais selvagem sítio de nossas interioridades. Diferentemente do imaginado, os heróis não são apenas os que povoam o imaginário infantil, mas todos que encaram longos caminhos em busca de grandes objetivos. E qual missão poderá ser maior que enfrentar a vida? Diante desse grande desafio que é a vida e as tortuosidades de seu caminho, nos tornamos heróis pela simples condição de ser. Para Joseph Campbell, todos somos heróis pelo simples fato (ou não tão simples assim...) de vencermos aquela avalanche competitiva de espermatozóides que nadam freneticamente em direção ao abraço quente do útero.
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Para a fábula e para a psicologia, o mestre não pode ser representado pela figura do pai que, pelos rótulos de responsabilidade, salvaguarda e amor, pode confundir a proteção instintiva com a desnecessidade de lançar os filhotes no abismo cru(el) da vida. Nossos mestres, assim, aparecem ao longo de nosso caminho e, no mais das vezes, chegamos até eles escutando apenas o eco rouco de nossos corações. Só o coração pode conduzir ao mestre. E quando podemos encontrá-los, é como ter nas mãos a chave de um grande baú de tesouros que ainda se esconde em nossos próprios jardins. Os mestres brilham como estrelas, apontando o dedo para o pote de ouro que se esconde no final de nosso próprio arco-íris. E porque brilham em demasia, se transformam em energia pura, incompreensíveis aos sentidos, impossíveis aos olhos comuns que brotam da mãe terra.

Meu mestre morreu, mas sem ter morrido. Tenho um otimismo em relação à morte, um otimismo que me falta em relação à vida. Prefiro pensar que o mestre deixou-me. Já me havia deixado a um bom tempo. Minha relação com o mestre Warat se deu como uma ejaculação precoce. Atingi o clímax e logo ele se afastou. Acompanhei o processo de abandono do plano terreno do Warat de longe, enviando energias curativas coloridas com o verde renovador da vida. Bebi tudo que dele podia, e logo ele partiu. Efetivamente não temos tempo a desperdiçar quando encontramos o mestre. É preciso sentir sua mensagem e seguir em frente, sabendo perceber o múltiplo olhar que o mestre lançaria em cada situação da vida.

Warat morreu sem ter me ensinado absolutamente nada. Os grandes mestres não ensinam, simplesmente caminham seguindo a luz que brota de seus próprios corações. Àqueles que intuitivamente sentem-se chamados pelo caminho que se descortina, cabe seguir. Os mestres ensinam de costas , em silêncio. Seguir trilhas onde nenhum pé ainda esteve, não é ter apenas coragem, mas confiança nos ecos sublimes do coração.

O mestre Warat foi das poucas almas que pude admirar em totalidade. Seduziu-me dos pés à cabeça. E agora se foi. Foi-se sabe se lá pra onde. Colorir sabe-se lá que parte da existência. Ele era um pintor de quadros invisíveis. Foi-se. Queridíssimo Warat. Que oco no peito me causa a partida dele. Como disse Quintana, quando um dos grandes vai embora, parece que o coração do mundo sofre uma parada cardíaca. Foi-se, assim simplesmente. Quando a morte chega, só existe o lamento e alguns pingos de esperança.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Conselho



Aconselhar?
Aconselhar é uma forma amistosa de enganação.
Perda de tempo, ladainha!
Perdão amigos fiéis,
conselheiros financeiros,
terapêutas estudados,
perdão espíritas de plantão.
Conselhos são pura ladainha!
A vida minha,
só eu sei ela todinha.
Mas... e se a vida minha não for só minha?
Agora fiquei em dúvida...
alguém tem algum bom conselho?



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Personalidade à la carte


As conhecidas noções de introversão e extroversão foram criadas por Jung. As vinculações entre sensação-intuição e pensamento-sentimento, também são dele. Com o longo estudo empírico, os desenvolvimentos junguianos definiram 16 tipos básicos de personalidade. Se é improvável a possibilidade de precisão absoluta dos enquadramentos nas categorias propostas, provável, por outro lado, que muito digam sobre nós e nossos diversos modos de ser.
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Se minha intuição não está me traindo, para entender Jung, é preciso intuição apurada. Talvez dai a resistência na recepção de muitas das propostas junguianas que saltam sobre a rigidez fragmentada daquilo que apenas os olhos podem nos contar.
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A autoavaliação que segue, é bom meio de constatar possíveis erros e acertos na teoria. Se existem tipos de personalidade que podem ser resumidos em grupos, vale a pena matar a curiosidade e descobrir qual é o seu:


http://sites.mpc.com.br/negreiros/quiz.html


O meu teste teve um índice altíssimo de precisão. Loucura, nice to meet you!

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

às todas maneiras




Aos extremos quero viver
e chegar perto das beiras.
Para quando eu lembrar, não esquecer
o divino de ser todas as maneiras.

abismos





Opa!
A prefeitura não coloca nenhuma placa
indicando aonde estão os abismos.
Vamos andando pela rua,
com a sensação de que tudo vai bem,
superficialmente bem, mas bem,
e uma queda sem fim nos espera.
O abismo é uma hiena da estepe
que espera um antílope distraído.
É da natureza dos abismos não ter fim.
São buracos negros da existência que sugam toda nossa energia.
E quando, sem querer, caímos em algum dos grandes,
como demora pra voltar à superfície.

domingo, 12 de dezembro de 2010

ovo choco, cabeça rachada



Ou o dia nos ganha ou ganhamos o dia. Ganhei um dos dias da semana que passou. Desde já vou avisando que provavelmente você se decepcione com a razão pela qual ganhei o dia. Os nossos motivos nunca interessam tanto aos outros quanto a nós mesmos. É por isso que os psicólogos têm um futuro promissor. Fazem de conta que se interessam pelas nossas picuinhas e, com paciência, a coisa acaba dando certo, que é quando percebemos, depois de gastar uma dinheirama, que é o “certo” o grande vilão filho da puta da história. O faz de conta dos psicólogos funciona: a ficção, quando é tanta, vira realidade. Acredito no poder dos psicólogos. Acredito que acreditar ajuda a anestesiar as dores da vida, mesmo que eu acredite em pouquíssimas coisas. Acreditar em alguma coisa, qualquer coisa: é isso que nos salva. Tenho acreditado nas sensações, elas estão se tornando os deuses da minha pseudoreligião politeísta. A religião das sensações busca o simples estar bem, um estado “oqueizão”, numa boa, nem feliz nem triste. Sinto minha crença na pele, mas, como meus ventos ventam para todos os lados, logo devo mudar de crença. Viver sem acreditar é coisa de macho. É preciso ter três testículos pra viver bem sem acreditar em porra nenhuma.

Balelas sobre psicologia e religião à parte, voltemos ao mundo real. No mundo real existem os estupradores da linguagem. Sim, da linguagem, não do idioma. São coisas diferentes. Estuprar o idioma não é tão feio assim quando se tem consciência do estupro. Os poetas sabem que estupram o idioma e as regras de sintaxe. Por outro lado, estuprar o idioma sem consciência, é sinal de falta de estudo, simplesmente. Em geral, a culpa, se é que alguém tem alguma, pode ser do vagabundo que não gosta de estudar ou do sistema de merda que não dá condições para as pessoas, que não são tão vagabundas, estudar como deveriam. Já estuprar a linguagem é fazer mal uso da possibilidade de expressão. Foi um estupro de linguagem que presenciei.

Eu tava sentado na sala da OAB, praticando aquelas burocracias “burrocráticas”. Meu grau de paciência é baixo com coisas burocráticas. Por isso que minha paciência é pouca com o mundo e seus trâmites insuportáveis. Hoje em dia, pedir uma pizza pelo telefone se tornou um tormento. Esses dias - excessos por minha conta - a coisa foi mais ou menos assim:

- Pizzaria, boa noite
- Boa noite, eu quero uma pizza de 4 queijos
- O senhor quer tamanho brotinho maroto, brotinho, pequena, média, grande, família ou cavalar?
- Brotinho maroto?...
- Sim, é uma novidade que estamos lançando para pessoas com anorexia, para quem come muito pouco.
- Pode ser essa então, respondi.
- O senhor quer com borda recheada?
- Sim
- Recheada com catupiry, cheddar, requeijão do cabrito do Himalaia ou o raio que o parta?

A essas alturas desisti da pizza e fui tomar um vinho. Mas voltando à sala da OAB. Sentou um doutor do meu lado, todo engravatado, todo advogado-sou-importante-porque-passei-na-porra-do-exame-da-oab. Esses caras apertam bem o nó da gravata pra justificar o nariz empinado. Deixam a barba crescida pra transparecer que são mais velhos e mais experientes do que realmente são. Forjam-se para o mundo e suas necessidades descabidas. Ele me cumprimentou engrossando a voz:

- Bom dia doutor – quando o cara engrossa a voz e chama qualquer um de doutor, é um sinal que precisa de um outro “doutor” como resposta. Massageei o ego dele e respondi repetindo: “bom dia doutor”. Esses caras, se não forem ladrões, nem fedem, nem cheiram, nem servem pra nada além de esperar o final de semana e trepar metodicamente com a mulher. Uma vida previsivelmente desgraçada. Ainda bem que eles não sabem. Educadamente, o tal doutor perguntou para a funcionária da OAB se podia usar o computador. Sentou a bunda burguesa na cadeira e questionou a menina:

- Querida, para imprimir, preciso de papel?
- Não, o senhor pode desabotoar a camisa e colocar na impressora no lugar das folhas, pensei.

Anos e anos sentando o cú numa carteira de colégio. Mais 5 anos esquentando a cadeira da faculdade e o cara faz uma pergunta imbecil dessas. E há quem se orgulhe de ser advogado!

Voltei pra casa pra tirar o terno. Fiquei envergonhado de usar um. Ele também não me seria mais útil no dia. É uma fantasia desconfortável de se usar. Encontrei a síndica do meu edifício na garagem. Pensei “lá vem essa mala encher o meu saco”. Os síndicos têm sempre o mesmo perfil: ou são aposentados ou são estelionatários. Ou os dois. Ela é aposentada e já ouvi reclamações sobre os altos custos das reformas que ela faz no edifício. Os aposentados vivem numa boa, não têm horário pra nada. A merda é que acham que todo o mundo está aposentado.

- Oi Paulo, deixei o recado da nossa reunião de condomínio embaixo da porta do teu apartamento. Chegaste a ver?
- Sim
- Vai ser na segunda, já que nos outros dias você disse que tem compromisso.
- Pois é dona Vera, justamente nessa segunda vou recuperar uma aula e não vou poder participar (eu usava sempre a mesma mentira pra ver se ela notava que eu DE FATO não queria participar de nada. Mas não adiantava, ela sempre pregava uma lição de moral em mim)
- Acho importante que você participe, afinal, vamos definir sobre as infiltrações na garagem, sobre os horários dos porteiros, sobre o uso do fundo de reserva e outras pendências...
- Pois é dona Vera, infelizmente ando sem tempo. E ainda aparecem essas aulas imprevistas. Na próxima vou fazer de tudo pra comparecer (mentira).
- É importante você comparecer, é bom termos mentes jovens participando, com a cabeça mais arejada (fiquei imaginando aquela velharada discutindo picuinhas, aquele caos sem propósito). Além de tudo você é um advogado (culpa da gravata) que pode nos ajudar a resolver as pendências com os inadimplentes.
- O pessoal é complicado né dona Vera, não pagam as contas.
- Sim, e blá blá blá...

Ela ficou me alugando por um tempo, depois consegui me safar. Coisa mais chata. Sempre acontece a mesma coisa. Ela marca as reuniões de condomínio (devem ser umas 2 por mês, nunca vi tanta reunião de condomínio), eu não apareço, e quando nos encontramos é esse o papo de sempre. Ela cobrando gentilmente minha presença e eu inventando uma lorota qualquer. Ela não percebeu ainda que eu NÃO VOU participar de reunião nenhuma. Não bastasse isso ser um saco, a velha marca as reuniões às 8:00 do sábado. Puta merda! Ela deve ficar sozinha no salão de festas nos sábados de manhã, falando com as paredes. Ninguém fora os aposentados é louco de participar disso num sábado de manhã.

Voltei ao trabalho e lá fiquei até o final da tarde. Quando sai, a chuva chovia que só ela. Chovia sinceramente. Em algumas ocasiões a chuva cai sincera. A chuva é sincera quando não é garoa nem temporal. Ela cai num ritmo de chuva, uma chuva de intensidade média. Fiz umas quadras a pé, sem correr. Deixei os pingos tomarem conta dos meus passos. Medo de se molhar? Devo ter, porque sempre que tenho que enfrentar a chuva, corro para me refugiar nas marquises. Dessa vez não corri. Tudo bem que sou sedentário e sempre que dá pra evitar o desgaste, eu evito, mas, dessa vez, não deixei de correr por preguiça, mas porque queria saborear a chuva molhando a roupa, a pele, o cabelo. Andamos com medo até da água! Fiquei sentindo a chuva me lamber, sensação agradável.

Pensei em caminhar pelado na praia sentindo a chuva. Seria uma boa maneira de sentir a liberdade. Mas como eu ia ser preso achei melhor desistir. Pensei em ir de sunga. Também desisti. Eu vestindo uma sunga era uma cena de filme de terror que ninguém mereceria ser obrigado a ver. Além disso eu tinha mais trabalho pela frente, tinha que dar a última aula do ano. Falei com a turma, discutimos, falamos mal do direito, falamos mal do mundo. Falamos bem do mundo. Falamos merdas. Rimos. As aulas eram agradáveis. No final, um dos alunos me disse:

- Eu decidi: vou abandonar o direito. A culpa é tua
- Ótimo

Meu dia tinha sido útil. Se sentir útil para os outros é muito bom. Gratificante. Perceber o que pertence ou não a nós mesmos é encontrar tesouros.

sábado, 11 de dezembro de 2010

amanhã talvez





Onde estão as ondas do rádio?
Estarão além das montanhas?
Como chegam até o carro que percorre os vales?
Como atingimos as coisas invisíveis?
Onde foram parar os pêlos de barba que não nasceram?
Será que ficarão em um quase?
Será que os pêlos vão mesmo desaparecer com o tempo?
E o apêndice? E o "minguinho"?
Onde está meu apetite?
Fome, cadê você?
Cadê o botão “alimentar-se” nos seres humanos?
Onde ficou o desejo de virar jogador de futebol?
Será que realmente eu nunca joguei porra nenhuma?
Onde esqueci aquela camiseta cinza?
Terá sido na minha velha casa?
Onde está a solidariedade?
Ninguém mais se importa com um desgraçado passando fome na rua?
Onde está a capacidade de habitar o estar alheio?
Ficou no prelo dos tempos que vivemos?
Ou o ser humano é filho da puta desde sempre?
Onde ficaram aqueles projetos de vida?
Os meus, os teus, os nossos?
Onde foi que perdi o tesão por todas aquelas festas e bebedeiras?
Terei broxado para as energias extravagantes e externas?
Como mudamos tanto?
Por que eu não sou mais a cada segundo do relógio?
Por que um segundo passa tão rápido?
Por que um segundo passa tão devagar quando o vaso está longe e estamos apertados?
Onde está a vontade de torrar a pele na praia?
Será uma desculpa de alguém que nunca poderá se bronzear?
Por que os grãos de areia são tão miúdos?
Por que a areia não é uma pasta homogênea e uniforme?
Onde está a vontade de comer coisas saudáveis?
Ainda vou conseguir parar de comer a morte das carnes?
Onde ficou meu desejo de ganhar na mega-sena?
Será mesmo que dinheiro não traz felicidade?
E se trouxer, como conseguir a felicidade?
Se eu virar um vagabundo, será que posso ser feliz?
Existe algum ócio que não seja criativo?
Criar é externar ou é pensar apenas?
Criar apenas pra não morrer?
Eu quero ser feliz?
O que eu quero sentir é mesmo a felicidade?
Ou tem outro nome?
O nome do que sentimos importa pra quê?
Perguntar é um mal dos ansiosos?
Onde estão os aparelhos de cd?
E os cd’s por que ainda são tão caros?
Por que tudo tem um preço?
Por que as pessoas não conseguem pagar os preços?
Como se sentem os que podem pagar e não pagam?
E os que podem e pagam e matam de sede outro tipo da mesma raça?
Somos mesmo todos da mesma raça?
O que é uma raça?
Qual a minha?
E a ratio, vai mesmo ir pro beleléu?
Existe só a emoção e a razão?
E o resto?
E as parcelas fragmentadas?
Somos feitos só de cabeça e só de coração?
E os pulmões?
É importante o ar em nossas vidas?
Onde deixei a vontade de ter um BMW?
Posso viver sem ar dentro de um BMW?
E sem amor?
O universo é mais profundo em uma pessoa do que em mil?
E as pererecas, são mesmo profundas?
Será que elas têm dentes malignos que nos esperam vampirescamente?
O cara que sonhou com a perereca dentada era virgem?
Onde encontrei a verdade sobre o amor?
Encontrei?
O que é a verdade?
Onde vi aquela paisagem que não sai da minha cabeça?
Eram ondas de poesia ou um tsunami?
Onde estão os guarda-chuvas todos?
No reino das piadas sobre os guarda-chuvas?
Os lixões hospedam os guarda-chuvas?
Onde está o inconsciente coletivo?
Onde está o inconsciente?
Coletividade é flertar com o umbigo alheio?
Onde ficam guardadas as cartas que não são enviadas?
Será que com o computador acabaram-se as gavetas de cartas?
E as cartas de Tarot, dizem o que não podemos ver realmente?
Por que o ser humano fica viciado em cartas?
Por que fica viciado em qualquer coisa?
Será que dá pra viver sem nenhuma necessidade?
Será que dá pra morrer sem nenhuma necessidade?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

postagem corrupta



Será que a corrupção é maior no Brasil do que em outros lugares? Dizem que a corrupção é um respeito à liberdade...será? Dizem que a corrupção quer obter uma vantagem...será mesmo? Dizem outras coisas. Tudo por conta do resultado de uma pesquisa sobre a corrupção. Mas, como uma pesquisa sobre corrupção pode ser confiável? Quem garante que as respostas e as perguntas não sejam corruptas?

É corrupto avisar com sinal de luz os carros que vêm na direção contrária, quando a policia está fazendo uma blitz surpresa?
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Lula lê Bukowski


O Lula é leitor de Bukowski. Tenho quase certeza. Não, não tenho muita certeza. Enfim. O entrevistador perguntou pra ele sobre a quantidade de petróleo depois da camada do pré-sal. Ele respondeu:

- Olha Gabriel (o Lula é um cara esperto, grava o nome de todo mundo), aqui é o seguinte: você está sendo pago pra dizer que existe pouco petróleo além do pré-sal, e eu estou sendo pago pra dizer que existe muito petróleo além do pré-sal...
Ele lê Bukowski. Tenho quase certeza. Não, não tenho.



(fui fazer, pela primeira vez na história do Google, a pesquisa: LULA - BUKOWSKI)

Carlos Alberto (SAI)demberg na Globo News



...os dados, as percentagens, o quadro econômico do ano, os juros, o ano que vem das incertezas (todo ano que vem é uma incerteza!), o PIB, a inflação que é inflamável como o antigo álcool que se comprava no mercado e que pegava fogo de verdade, o juro real (será que existe o juro irreal?), as médias e as especulações, o país volta a crescer se..., e essa inflação (ela de novo) correndo em 5% (Jesus Cristo!), como reduzir a taxa real de juros? Claro, a culpa de tudo isso, no fim das contas (que é a hora de acertar a conta), é da dívida pública. Entenderam! A dívida pública não é mole não! Ai sim meu amigo, ai sim é que eu quero ver...

beber o vinho




As taças de cristal são as ideiais para tomar vinho, dizem. Não concordo. Melhor que sejam de vidro. Assim, é possível tomar sem a preocupação de quebrar o copo, ou melhor, a taça. Pressuposto seja um momento para se tomar um vinho sem a menor preocupação.

Duvida de alguém que mora sozinho






Por que, no dia em que a moça limpa o apartamento, as bocas do fogão não funcionam a contento? Por que será meu deus?



virgular



Ontem, quando a chuva choveu no fim da tarde, pensei em ti. E enquanto eu pensava, muitas coisas aconteceram, ainda que eu só pensasse em ti. A sensação foi tão próxima da maior delícia que já brotou na terra, que me senti com a obrigação coletiva de escrevê-la e fazê-la nota digna de toda a humanidade. Escrevi sem querer escrever uma poesia, senão um relato. De qualquer modo, como de tão sublime sentir se tratou, foi inevitável usar a metáfora. O título é VIRGULAR:

“A poesia é a água, que escorre pelos dedos do poeta, da chuva das sensações que encharcou a contemplação.”

Pensando hoje, o dia de ontem tinha sido um bom dia. Algo para se pensar todos os dias.

A flor mais grande do mundo - Saramago

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Poesia acamada





Oh verde das matas virgens,
Oh vermelho das bochechas enamoradas,
Oh amarelo do crepúsculo de fim de tarde,
Oh branco das espumas do mar...
Oh arco íris de cores naturais,
das cores limpas de toda lúdica poesia comportada.

Mas onde estará a poesia desgraçada?
Ei-la posta ao pé do chão,
no vão da calçada!
Salivada poesia de cores, moribunda,
espatifada, mal educada.
Oh verde do muco gripal,
Oh vermelho do sangue tubercoloso,
Oh amarelão de toda infecção nasal,
Oh branco do transparente cuspe cavernoso.

Oh arco íris de cores naturais,
das cores sujas de toda poesia do mundo.
A poesia adoentada, mesmo coitada,
sabe doer sua dor, convalesce,
e levanta renovada.

Oh arco íris de cores naturais,
de todas as cores sujas
de toda a poesia
de todo mundo.