quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A morte da geração silicone


A geração silicone vai morrer, natural, e vai provocar uma situação interessante. No futuro os coveiros vão abrir o caixão e lá vai estar o esqueleto, ou suas sobras, e aquelas duas esferas circulares endurecidas bem no meio do caixão. O coveiro vai entregar para família a caixinha com os restos mortais e uma sacolinha a mais contendo o silicone. Você já pensou nisso? Além, claro, de representar a resistência do feminismo. O coveiro abre o caixão e sabe, de cara, "aqui jaz uma mulher". Mulher até depois da morte.E caso a sujeita seja cremada, seus lindos peitos irão explodir! Sim, no momento em que o corpo queima o silicone explode, pois possui um derivado do petróleo...pois é.


Andréa Behregaray

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entre a cruz e a espada empunhada por Nietzsche


Quanta verdade suporta? Quanta verdade ousa um espírito?

Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

As cores das paisagens distantes


ENTREMONTANHAS

Estás certa, como não haveria de estar! Em alguns tempos é preciso estar afeita ao cinema, ao teatro e à literatura das terras de lá e de longe. É necessária alguma loucura, algum pedaço de fruta sem nome e um olhar além da fronteira. Estás certa! Sim, estás certa, como não haveria de estar. Tens mesmo é que sentir os cheiros novos, ver se o arrepio dos pêlos, o frio e as nuvens são iguais aos que já conhecias. Provar o gosto da longitude. Enxergar os olhares tristes dos animais que aí sofrem, sabendo que antes é preciso olhar para as gentes. Alternar tua alteridade. Enxergar-se e mudar-se. Nesses tempos é preciso olhar o que nem a luz pode iluminar. É preciso se encontrar sozinha no vão do escuro. Ver o claro que existe quando se acendem as interioridades. Tens que saber ser sensível e também amortecer a consciência. Podes até queimar, desde que aguardes o tempo rei a fazer cura do ardor. Tens que viver dos poetas. Do lirismo. Dos versos. Do sereno bucólico das flores. Tens que não esquecer que é preciso desprender-se dos deveres e casar com teus quereres. Por isso tudo estás certa, como não haveria de estar! E depois, com o aplauso ensurdecedor de duas mãos em contato, terás que me contar que cores têm os arco-íris que teus olhos doces enxergam entre essas montanhas.

* Pintura de Amedeo Modigliani (1884-1920)

O direito de sonhar por Eduardo Galeano



Aunque no podemos adivinar el tiempo que será, sí que tenemos, al menos, el derecho de imaginar el que queremos que sea. En 1948 y en 1976, las Naciones Unidas proclamaron extensas listas de derechos humanos; pero la inmensa mayoría de la humanidad no tiene más que el derecho de ver, oír y callar. ¿Qué tal si empezamos a ejercer el jamás proclamado derecho de soñar? ¿Qué tal si deliramos, por un ratito? Vamos a clavar los ojos más allá de la infamia, para adivinar otro mundo posible:

el aire estará limpio de todo veneno que no venga de los miedos humanos y de las humanas pasiones;

en las calles, los automóviles serán aplastados por los perros;

la gente no será manejada por el automóvil, ni será programada por la computadora, ni será comprada por el supermercado, ni será mirada por el televisor;

el televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia, y será tratado como la plancha o el lavarropas;

la gente trabajará para vivir, en lugar de vivir para trabajar;

se incorporará a los códigos penales el delito de estupidez, que cometen quienes viven por tener o por ganar, en vez de vivir por vivir nomás, como canta el pájaro sin saber que canta y como juega el niño sin saber que juega;

en ningún país irán presos los muchachos que se nieguen a cumplir el servicio militar, sino los que quieran cumplirlo;

los economistas no llamarán nivel de vida al nivel de consumo, ni llamarán calidad de vida a la cantidad de cosas;

los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas;

los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos;

los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas;

la solemnidad se dejará de creer que es una virtud, y nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz de tomarse el pelo;

la muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes, y ni por defunción ni por fortuna se convertirá el canalla en virtuoso caballero;

nadie será considerado héroe ni tonto por hacer lo que cree justo en lugar de hacer lo que más le conviene;

el mundo ya no estará en guerra contra los pobres, sino contra la pobreza, y la industria militar no tendrá más remedio que declararse en quiebra;

la comida no será una mercancía, ni la comunicación un negocio, porque la comida y la comunicación son derechos humanos;

nadie morirá de hambre, porque nadie morirá de indigestión;

los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura, porque no habrá niños de la calle;

los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero, porque no habrá niños ricos;

la educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla;

la policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla;

la justicia y la libertad, hermanas siamesas condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, bien pegaditas, espalda contra espalda;

una mujer, negra, será presidenta de Brasil y otra mujer, negra, será presidenta de los Estados Unidos de América; una mujer india gobernará Guatemala y otra, Perú;

en Argentina, las locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental, porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria;

la Santa Madre Iglesia corregirá las erratas de las tablas de Moisés, y el sexto mandamiento ordenará festejar el cuerpo;

la Iglesia también dictará otro mandamiento, que se le había olvidado a Dios: «Amarás a la naturaleza, de la que formas parte»;

serán reforestados los desiertos del mundo y los desiertos del alma;

los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados, porque ellos son los que se desesperaron de tanto esperar y los que se perdieron de tanto buscar;

seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de justicia y voluntad de belleza, hayan nacido donde hayan nacido y hayan vivido cuando hayan vivido, sin que importen ni un poquito las fronteras del mapa o del tiempo;

la perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los dioses; pero en este mundo chambón y jodido, cada noche será vivida como si fuera la última y cada día como si fuera el primero.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Versos litorâneos de agosto


ENTREDRAGÕES

São mesmo os compromissos, tais?
Me explode agora essa intriga.
Mais essas vaguidades de fundo!
Eis que a tarde é minha’miga
mesmo sendo vazia de mundo.

Inebriado por sensíveis sensações,
passeio entredragões e angélicas.
Ao deixar minhas verdes razões,
lembro putas baratas, famélicas.

Do amor recordo a saudade!
Entre uma ou outra nota,
recupero a minha verdade.
Também me lembro das tetas,
que tanto apraziam olhar.
O calor daquelas gavetas,
é que me faziam iluminar.

Agora desabafo a sinceridade:
essa benção não pago à vista.
No cartão das minhas profundidades,
mantenho uma metade mal vista

Nas muletas que me escoram,
vivo a vida que mais preciso.
Na aurora da minha história,
transito entre Geraldo ou Chico,

Traio a sociedade que
me espera no pódio de ouro.
Num furtivo encontro violado,
esqueço do plano vindouro.

Seguido me abate a ausência de tom,
umas falhas seqüenciais.
Um bemol ou sustenido
gaguejam versos mananciais.

No desafino daqueles minutos,
vivo-me mesmo assim.
Abobalhado nos meus acordes fajutos,
vou passeando sobre mim.

E esta música bonitinha,
faz o que espero da tarde.
A altaneira crueza minha,
requer que se aumente a alteridade.
E faço dos compromissos de antes
a maldição que arranca e me arde.

Me sigo a ouvir,
ao iniciar da nova cena.
Enquanto esse episódio morre,
conto outra verdade, uma pena.

Agora sou um vencedor.
Meu terno é alinhado.
Meu relógio reluz ao sol,
meu cabelo é bem tratado

A cara grave de um si bemol,
completam meu personagem.
Aquela tarde era adulto-infantil,
Burocraticamente, pura bobagem.

E meus anos mais belos
nessa cadeira macia,
nesse ambiente notável,
repleto de vidas vazias.

Me relacionando com uma tela de luz,
agora a todos sou palatável.
Sou cúmplice da sociedade,
com a alma quase amputável.

Logo traio,
esse solitário ganha-dor que ora sou.
Sem morrer me desmaio;
suplicando a emoção que restou.

Venci a onda que nos leva ou ela a mim?
Comi ela no rabo ou fui antes castrado?
Estava perdido...paradoxos...enfim...?
Vivo vivia, no meu violão desafinado...

A noite cai na paisagem.
Os vidros que viam até o mar,
refletem o fantasma: minha imagem.
E volto às interioridades, a pensar.
Inexato nesta outra paragem,
saio a trotar pela cidade que flerto.
A justeza dos meus passos
na garoa desse chuvoso deserto.

O terno vencedor se vai encharcando,
com a mesma lentidão da chuva.
Meu instinto segue flutuando
nas marquises que andam em curva.

Ensaio meu teatro decente,
que permanece a se aproximar.
Do violão me sinto carente,
tal qual das tardes a fornicar.

Quando a água alcançar a carcaça,
estarei na casa que não é minha.
Anestesiado nuns goles de cachaça.
Dormirei esta vida mesquinha.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

e q u i l í b r i o e q u i l i b r a d o


Abrir mão dos apoios, das escoras e das bengalas é voltar a ser criança. É quando começamos a nos educar e aprender a encontrar sozinhos o equilíbrio. O equilibrista até pode cair, o equilibrado jamais!

Psicologia social por Gloria Kalil...



Algumas imagens valem mais que palavras. Ainda mais quando se tem uma filósofa do quilate da Gloria Kalil para comentar o caso! Estar fora da "moda" parece que vai ser causa de aumento de pena para o crime de falta de noção ao vestir-se...E seguimos assim: enxergando apenas a carcaça, a massa encastelada segue a pensar que seu ver é totalizante (o vestido vermelho é a sentença sobre a carcaça bruta de algo que sequer sabem ou podem ver); pensando que podem ver, chegam a pensar que pensam, estes asnos do rebanho...E você Gloria, vai tomar um capuccino com chantily no São Paulo Fashion Week que é mais tua cara!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

No prelo



“Livro Vermelho” de C. G. Jung, considerado um dos mais importantes trabalhos ainda não publicados no campo da psicologia analítica, foi apresentado ao publico pela 1ª vez no dia 07 de outubro. A apresentação ao publico, que coincide com a 1ª publicação do livro, acontece no Rubin Museum of Art em Nova York, que foi o local para onde o livro foi mandado em Setembro ultimo para ser copiado possibilitando sua publicação. Desde a morte de Jung em 1961, o livro foi guardado pela família na Suíça. Nos anos 80, foi levado para um banco suíço e guardado em um cofre.

O Livro Vermelho é considerado não apenas uma obra cientifica, mas também uma obra de arte, pois em suas 205 páginas, escritas com uma caligrafia espetacular, encontram-se desenhos de figuras mitológicas e formas gráficas simbólicas feitas pelo autor, de valor artístico incontestável.Para a Psicologia Analítica esse é um momento de grande importância porque permitirá o conhecimento dos elementos que levaram Jung a criar toda sua obra sem interpretações ou posteriores elaborações, certamente trará novas perspectivas e possibilidades de exploração do pensamento de Jung.


*Extraído do site da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica!

Poesias encomendadas

NOMEMARIA

Apaixonei primeiro pelo nome,
depois de Maria.
Casei com o sonho,
projetando o que viria.

O regozijo veio antes
que o gozar de Maria.
Pensei nossos filhos
enquanto ela nem me conhecia.

O sono da noite pelas manhãs.
Queria sempre o que não podia!
Inda'ssim deleguei cupidos vãos,
a testar de Maria.

Acabei sem notar,
o nó górdio que me envolvia.
Prematuramente,
já provava Maria.
Ela de mim inconsciente,
nem imaginava, sequer sabia!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tormentos de fim de ano...


Natal e verão têm uma identidade infantil, só são bons quando somos crianças. Depois, se tornam um tormento. Terno, gravata, banha na cara... o velhinho de vermelho não existe mais... fica a tristeza e os parentes que a gente não escolheu!

Giovani M. Rigoni

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Saudade viva no dia dos mortos

ENTREALMASPENADAS

Há alguma morte no ar.
Enquanto rezam para os mortos,
saudade...saudade de estar.
E esses destinos todos tortos,
teimosos a não se encontrar.

Entrealmaspenadas,
segues nua a respirar.
Se meu caminho
fosse ao leito - a prantar,
casaria com a certeza,
suplantando meu esgar.

Levar-te-ia tulipas, margaridas ou jasmins;
viçosos no túmulo a te agradar.
Enquanto rezam para os mortos,
tenho que viver sem te tocar.

domingo, 1 de novembro de 2009

Mude-se de você mesmo




Muda-se muito em três anos e dois meses. Há três anos e dois meses li o Budapeste do Chico. Hoje vi o filme da adaptação. E porque muda-se muito em três anos e dois meses, esvaiu-se entre os dedos - com a mesma rapidez de um sorvete nesses insuportáveis dias de verão -, a velha certeza clichê de que os livros são sempre melhores que os filmes. Esses que contam a mesma história dos livros em imagens não imaginárias. Todo mundo sabe que a possibilidade de criação imaginária faz o livro ser o que de melhor há em que o lê. Melhor que os filmes, portanto. Se produz ambientes, gentes e cheiros; tudo ao gosto do cliente. Mas, deveras, essa lógica pode ser revertida quando o leitor deixa de ser quem foi outrora. Três anos e dois meses depois, já não se é quem se era. Quem julgar falsa essa premissa: pobre inconsciente!

Budapeste é um roteiro em que circundam sobre o tema da linguagem, reconhecimento e, mais no fundo, ignorância. Serão mesmo os escritores que acabam cegos? O grande risco de firmar uma posição é a de que ela pode estar equivocada. Com essa certeza na cabeça nada mais razoável que o silêncio em exatamente tudo...ou então as onomatopéias...

Enquanto Vanda queria ver reconhecido os dotes literários do marido, que escrevia biografias para terceiros sem levar nenhum louro por isso, Costa queria morbidamente que nada em casa faltasse. Sendo ele a mente iluminada, não conseguia fazer com que seus próprios adjetivos atingissem a vaidade da esposa: única, intacta, intraduzível. Se partissem de sua boca seriam escarros de gripe suína. No andamento normal das coisas, Costa é que deveria estar no palco e nos jornais. Mas assim não era. Escrever era um ofício que não devia trazer o reconhecimento de um bom escritor, mas apenas sustento. Afinal, o dinheiro, a bufunfa, o faz-me-rir, não deveria, por si só, trazer reconhecimento para quem os leva na algibeira virtual das contas-correntes? Assim que funciona muito antes da derrota filosófica de Marx. O mundo abre alas para quem tem brilho nos bolsos ainda que carregue dias nublados na alma. Isso que se chama pobreza de espírito não faz diferença alguma. Esses pobretões continuam a usar o elevador social, a pisar no estrado alto da ala vip, a limpar a bunda com cheirinho de lavanda. Essa episodica pobreza não lhes tira o lugar de destaque. Mas tudo bem! Falta tanto para que se vejam essas incogruências, que vamos estar todos frios na terra quando essa consciência se banalizar.

Costa o escritor, pela mente de Chico, escancara pela analogia do idioma que não sabemos porcaria nenhuma. Nada de nada. A incomunicabilidade pela ignorância de um idioma, num mundinho tão pequeno dentro do universo, é um bom jeito de perceber que não sabemos absolutamente nada. E essa sentença vale também aos poliglotas e seu admirável dom da compreensão plural. Como curar essa ignorância universal? Essa de não saber quase nada? Resposta: abraçando a ignorância cega do amor! Pra que descobrir alguma coisa, falar dez idiomas ou escrever livros se se está em paz com o amor? E aqui peço desculpas públicas e parciais aos ceguinhos do castelo!!

O mesmo amor que amortece a ignorância generalizada, também faz sarar até a incomunicabilidade de quem fala português e húngaro. Os sussurros de amor de Kriska eram universais, tal qual os gemidos e o ranger de dentes. Tudo volta a ser tão complicadamente simples. O amor não carece de linguagem. O amor não pede sequer um "eu te amo". O amor só é no silêncio dos gemidos brutos. Na parte mais vazia da linguagem, no instante mais animal do humano. E todos esses livros, reconhecidos ou não, viram farelo diante das onomatopéias do amor. Em Budapeste descobri que persona, o que Jung bem chamou de máscara da psique, tem origem em per sonare, justamente uma máscara que permite que apenas o som a atravesse pela fenda na altura da boca. Assim, o que é expresso em palavras pode estar em conflito com o que a máscara esconde ou representa...Com as onomatopéias do amor, talvez, se dê o genuíno momento em que se está mais próximo da pureza que só é plena em solidão. Quando em sussurros encontra-se no outro o amor, caem-se as máscaras, penetram-se os olhares. Nesse vago instante, homem e mulher podem se descobrir em um só. Reconhecidos plenamente não pelos livros que venderam, nem pelo dinheiro que carregam, nem pelos corpos que levam suas almas, nem pelos seus nomes nos jornais. Se reconhecem nos efêmeros estados do amor. Ela branca, bela e crua. Ele mais pálido por ela. Esses estados, porém, não se repetem. Muda-se muito em três anos e dois meses. Há três anos e dois meses não lembro o que eu era.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Seamos realistas, soñemos lo imposible

Depois de tanto escutar Warat e sua proposta de educação dionisíaca, alguns fantasmas passaram a perambular em meu imaginário sobre os métodos de ensino, formas de avaliação e demais desdobres em direção à melhor pedagogia. Especialmente no Direito e sua tradição bruta e burocratizada. Refletindo, passei a transmudar esses fantasmas em seres mais coloridos e com mais vivacidade. As borboletas e os anjos me indicaram, então, que era preciso fazer ação de todo aquele discurso, que era preciso começar a mexer as peças do retrógrado e cansativo palco reprodutor de bacharéis de nariz empinado. Também estava ciente que alguma resistência existiria em razão da velha dificuldade de transformação. Afinal, como diz Ingenieros, na órbita dos espíritos medíocres é preferível repetir o que é mal conhecido do que testar o bem que possa vir a ser conhecido. Os medícores - aqui se alude ao mediano e não ao medíocre carregado de notas pejorativas - são rotineiros, não tem ideiais. Fazem da arte um trabalho, da ciência um comércio, da filosofia uma ferramenta, da virtuosidade uma empresa, da caridade uma festa, do prazer de dionísio um pobre sensualismo. Buscando sempre a vitória da vida naquilo que não lhes pertence, já que, em verdade, não pensam, e portanto, assumem para si os nortes alheios. Podem passar uma vida inteira sem essa consciência e, por isso, são mais felizes pois são bobos inconscientes, são egoístas (e o assumem sem medo) e tem boa saúde. Essas são as três condições para um medíocre - os nossos ceguinhos do castelo - ser feliz. E são.
Eles também nada tem de criativos, pois se apoderam da criatividade de alguma alma geniosa quando esta vira algum resultado prático. Sim, eles vivem e morrem pela prática. Em tudo deve haver um porque bem delineado, uma chegada estabelecida...e passam inconscientes pela vida sem perceber que o doce está na travessia. O rol de características é extenso e por isso encerro por aqui.

Feita essa introdução, foi tentando superar essa rotulação que na 1a avaliação da turma de Contratos Internacionais na IMED, depois da leitura de um texto sobre a história de Peter Pan, de James Barrie, fiz a seguinte pergunta: Você acha possível comparar ou fazer alguma analogia entre o mundo atual e a Terra do Nunca? Apoiado no adágio de Erich Fromm, para quem "a criatividade exige a coragem de nos libertarmos das certezas" e mesmo em Einsteen que sentenciou que "a imaginação é mais importante que o conhecimento", tive gratas surpresas com os ótimos textos produzidos pelos alunos. Entre eles, o texto da excelente aluna Eva Valéria Lorenzato se destacou, razão pela qual vai aqui publicado. Parabéns pela sensibilidade e criatividade Eva.


A "TERRA DO NUNCA" É A REALIDADE SUBJETIVA DE CADA SER HUMANO. AO LER O TEXTO RECORDEI DO LÍDER "CHE GUEVARA". ONTEM ASSISTI A UM PEQUENO VÍDEO ELABORADO SOBRE ELE, COM UM FUNDO MÚSICAL DE DANTE RAMON, QUE FALAVA DE LIBERDADE. CHE ME PASSOU UMA IDEIA DE PESSOA QUE DEVERIA TER A ALMA LIVRE. DEPOIS DISSO, COMECEI A AQUIETAR A MINHA ALMA, QUE JÁ ESTAVA FICANDO PRESA LÁ NO FUNDO DE UM CALABOUÇO CHAMADO ROTINA, REALIDADE, CAPITALISMO, GANÂNCIA, DINHEIRO E MUITOS OUTROS.

LIBEREI, ENTÃO, DENTRO DE MIM UM SENTIMENTO DE SOLIDARIEDADE PELO MUNDO E PELA MINHA PRÓPRIA ALMA. PERMITI-ME, ASSIM, SONHAR NOVAMENTE COM UM MUNDO MELHOR. O MUNDO QUE EU ACREDITEI COMO VERDADEIRO DESDE A MINHA INFÂNCIA, QUANDO O LOBISOMEM PODERIA SER MANDADO EMBORA COM UM SIMPLES OLHAR MATERNO. COM ESSA LÓGICA, NA ADOLESCÊNCIA PASSEI A CONSTRUIR A MINHA IDEOLOGIA DE MUNDO. UMA IDEOLOGIA DE QUEM TINHA CORAGEM PARA ENFRENTAR E TRANSFORMAR A SOCIEDADE. HOJE, DEPOIS DE REVER O OLHAR DE "CHE", RELEMBRO NOVAMENTE DE MEUS IDEAIS E A MINHA ALMA VOLTA A SER LIVRE. ASSIM, DEVO ACORDAR DO SONO DIÁRIO, RECOMEÇAR A ROTINA, MAS SEM ESQUECER DE SONHAR E DE ACREDITAR SEMPRE QUE UM MUNDO MELHOR PARA TODAS E TODOS É POSSÍVEL.

FINALMENTE, A MINHA FÉ ME FAZ ACREDITAR QUE PETER PAN FOI CHE GUEVARA E GANDI, SOU EU E PODE SER VOCÊ, ENFIM, SOMOS TODOS NÓS QUE ACREDITAMOS NA FELICIDADE E CONSTRUIMOS UM MUNDO MELHOR PARA SE VIVER.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O inaudito feminino


Os dragões e anjos femininos operam silenciosamente...por isso que mesmo falando muito, muito pouco do que as mulheres falam realmente tem alguma relevância.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O amor e seus conceitos improváveis

E então Charlie Brown, o que é amor pra você?
- Em 1987 meu pai tinha um carro azul
- Mas o que isso tem a ver com amor?
- Bom, acontece que todos os dias ele dava carona pra uma moça. Ele saía do carro, abria a porta pra ela, quando ela entrava ele fechava a porta, dava a volta pelo carro e quando ele ia abrir a porta pra entrar, ela apertava a tranca. Ela ficava fazendo caretas e os dois morriam de rir....acho que isso é amor.
** Essa tão completa definição de amor foi extraída (pasmem) de uma pretensiosa comunidade do orkut!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A insustentável leveza do ser


Aproveitando a deixa da queridíssima amiga Fran, transcrevo esta interessante passagem de A insustentável leveza do ser, escrito em 1984 por Milan Kundera. Além de reafirmar a falibilidade do método científico, o aforismo revela que, quando se trata de aproximações amorosas, a grande protagonista é a aleatoriedade. Ou seria o caos? Sim, o caos desprovido de qualquer conotação pejorativa. O caos que resolvemos chamar de "lado B" quando nos referimos ao não-saber do destino. Talvez muito antes de 1984, nos tempos de Caim e Abel em que os jornais se preocupavam com o dilúvio e não com o aquecimento global, essa grande mensagem já tivesse sido proclamada. Kundera acaba sendo bíblico e indicando a todos que sigam os sussurros que ecoam baixinho em nossos corações. Essas sábias orientações ametódicas que, por vezes, tentamos evitar. Por medo que não valha. Por medo que não de tempo. Por medo que, antes, o aquecimento do mundo nos frite. Por medo de tanta coisa que pensamos ter certeza e que se esvanecem em mortes que sequer carecem de luto. Enquanto isso, ficamos sujeitos aos instantes quaisquer, ao copo de vinho a mais, à desistência não querida, ao beijo dado, ao fim que parecia cólera, à mentira que de dor virou prazer, ao sono esticado ou perdido e tantas outras conjunturas mínimas, ínfimas e minúsculas da vida que fazem esse norte chamado destino ser o que de mais aleatório e sem motivo existe no universo.


"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Outro vagabundo com dois braços e duas pernas!

Encontrei o texto abaixo no blog do PPGDireito da Unisinos que foi retirado da revista Carta Capital. Trata-se de uma cientificação aos cegos do castelo que gritam aos sete ventos aos seres rastejantes das ruas que não são bichos: vai trabalhar vagabundo, você tem 2 braços e 2 pernas como eu! O que é preciso fazer para ganhar a carícia de um olhar? Se não começarmos a olhar e ouvir os murmúrios para além das miradas e sussurros que agradem nossos sentidos, inciamos, inevitavelmente, o processo de convulsão da estrutura social. Talvez o nosso guerreiro da vida relatado abaixo tenha sido abatido pela nova epidemia global: "a vontade de José Mayer"...


José carlos da Conceição estava com a aparência de quem havia se perdido há muito. Descalço, com unhas, cabelos e barba enormes. Ladeado por policiais militares e bombeiros, o baiano de 26 anos saía à força do local onde pretendia dar cabo da própria vida. Enquanto José Carlos era algemado, curiosos, que ao longo da manhã interromperam suas rotinas e se aglomeraram para acompanhar o desenrolar da história, gritavam contra ele. “É um marginal. Tem de ser preso”, “Ele precisa de uma surra”, “O que ele quer é roubar”, diziam. O jovem mantinha o olhar fixo, distante.
Um ano antes, José Carlos deixava a cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, onde vivia, para buscar trabalho a 800 quilômetros de distância, no Recife. Na capital pernambucana, além de não encontrar o que procurava, trilhou o descaminho. Ao chegar, disse, foi assaltado. Não sobrou nada. Dinheiro, lenço ou documen-to. Começou a vagar pela cidade, a dormir na rua. Virou pedinte. Pedia trabalho e ajuda. O primeiro, não encontrou quem lhe desse. A segunda, com o pouco que recebia tentava vencer a fome diária. À família, avisou apenas que iria viajar, não disse para aonde. “Perdi o contato.”
Pouco antes do dia em que decidira se matar, José Carlos se envolveu em uma briga de bar. Foi esfaqueado, na barriga. Atendido em um hospital público do Recife, teve de enfrentar uma cirurgia. Ficou dias internado. Após receber alta, voltou para as ruas. Raciocinou com a lógica do desespero e foi então à rodoviária. Pensava que no lugar de partidas e chegadas, conseguiria encontrar seu caminho de volta. Pediu em vão auxílio a viajantes. Decidiu dormir no terminal. Acabou expulso uma semana mais tarde.
Sem ter como contatar a família, sem esperança de voltar à Bahia, José Carlos escolheu o suicídio. Na manhã de uma segunda-feira subiu em uma torre de telefonia para se jogar. A cena mudou a rotina de uma movimentada avenida em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife. A polícia e o Corpo de Bombeiros foram acionados. Um carro e uma equipe de resgate, além de duas viaturas policiais, seguiram para o local.
Os curiosos se acotovelavam nas calçadas, em cima de muros, na rua. O trânsito parou. Nos ônibus, todos os rostos estavam voltados para o alto. As buzinas não cessavam. “Pula logo. Para de chamar a atenção, rapaz”, alguém gritou. Não faltou quem tentasse adivinhar o que o teria levado a tomar tal decisão. “A mulher traiu ele”, disse uma senhora. “Ele é um golpista, faz isso para tirar dinheiro dos outros”, garantiu outro.
Naquela segunda-feira, o pastor evangélico José Alencar Lopes fazia seu trajeto habitual quando viu a movimentação próxima à torre de telefonia. Informou-se a respeito e descobriu que se tratava de uma tentativa de suicídio. “Tentar se matar é coisa de quem está desesperado. Decidi conversar, tentar ajudá-lo. Ajudar os outros faz parte do meu trabalho, do trabalho de Deus”, explicou. Depois de duas horas, com o apoio do pastor, José Carlos foi convencido a descer. E só o fez mediante uma promessa: em troca, receberia auxílio para retornar à Bahia.
José Carlos carregava apenas uma sacola de plástico com o que parecia ser uma rede velha e suja. Seus lábios estavam rachados. O corpo, coberto de feridas. Na barriga, a cicatriz da cirurgia recente. “Não quero ir para hospital. Quero ir para casa. Vocês vão me ajudar? Preciso ir para casa”, repetia. Ao descer da torre, precisou ser escoltado. Ante o desfecho anticlimático, os espectadores tentaram agredi-lo.
Não parou por aí. Na delegacia, policiais checaram sua ficha. Nenhum antecedente. O nada consta criou, porém, outro problema. Liberado e sem ter para onde ir, José Carlos deveria ser encaminhado ao Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano. Deixá-lo ao léu seria arriscado. Poderia gerar novo tumulto. Comunicado da decisão, o baiano estacou na porta da delegacia. “Para lá não quero ir não. Para o Ulysses não.” Se fosse, seria a quarta passagem de José Carlos pelo local. Então, pela segunda vez, o pastor José Alencar entrou na história. Contatado pelos policiais, o religioso foi à delegacia e assumiu a responsabilidade pelo rapaz.
Ao pastor, ele relatou sua história. “Aconteceu com ele o que acontece com muitos jovens: não consegue trabalho, nem comida, e acaba se envolvendo com bebida e confusões. Não aparece quem lhe dê a mão, apenas quem lhe mostre o mal. Ele estava sem esperança, faminto há vários dias. Além disso, ninguém quer por perto uma pessoa pobre e fedendo, não é?”, diz. José Alencar ofereceu orientação, abrigo, comida, banho e roupas a José Carlos. “Com a barba feita, cabelo cortado, roupas limpas e banho tomado, ele ficou até bonito, o rapaz”, brinca. O pastor levou o protegido à rodoviária e comprou a passagem de volta para a Bahia. Após um ano, o jovem registrou a perda dos documentos e voltou a existir oficialmente. Quinze para as 7 da noite, embarcou de volta à terra natal.
Durante o tempo em que permaneceu na cidade, José Carlos só foi percebido pelos olhos do poder público nos momentos em que quase morreu. Sua passagem pela estrutura de Saúde do estado e a operação de resgate, quando tentou se matar, custaram aos cofres do governo cerca de 3 mil reais. A atenção dispensada a José Carlos por um cidadão comum solucionou o problema de um ano em uma tarde e com pouco mais de 150 reais. “Acredito que isso deu a ele uma nova chance de ter uma vida digna”, concluiu o pastor, capaz de um gesto humanamente simples (Larissa Brainer – 16/10/2009).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entrebocas...


- Honrada ao ver a súplica de um canalha da pior categoria pelos meus beijos...
- Não bem súplicas, isso soa tão desesperado...Talvez um saudosismo intenso pelos beijos que eram nossos...beijos de um canalha da pior categoria e de uma gordinha gostosa, que se desencontraram no tempo mas não nas bocas efêmeras!


Quando é preciso despedir-se


"Daquilo que sabes conhecer e medir, é preciso que te despeças, pelo menos por um tempo. Somente depois de teres deixado a cidade verás a que altura suas torres se elevam acima das casas."
Friedrich Nietzsche

Sobre lugares encantados


LUGARESENCANTADOS


Não só a morbidez das palavras ditas a granel,
mas também o vivaz dos que respiram,
quedam a rodar em imaginário carrossel,
em ígnea marca de olhares que’inda miram.
As Simones e Salomés,
que amortecem pêlos, cabeça e pés,
mais todos personagens imaginários,
alimentam o criativo incandescente.
A viver desses preceitos falsários,
esse enredo é uma esperança
de propósitos decadentes.
Essas que nos marcam,
nos fazem em multidão tão sozinhos.
Revoluções em silêncio desatam,
laços gramaticais que fogem de mansinho.
E fico a esperar no balanço das praças,
aquelas delícias que não posso renunciar.
Ela, que minha alma ainda amassa,
a revolver esse chão a se estreitar,
a me lançar moribundo outra vez
na floresta encantada do saber amar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cafés filosóficos da Casa Warat: o privilégio de estar próximo ao pensamento celeste


Como sempre, ficamos com a sensibilidade apurada, com o sopro quente dado a degelar a fria geleira das burocracias, com o persistente manifesto da geniosa alma do querido Warat. Este que não se conforma com o posto e faz do surrealismo a ponte capaz de unir a falsa retidão ao macio dos sentidos. Lamentavelmente, ainda são ecos nobres que se perdem em meio à tanto ouro e tantas máquinas emperradas pelo tempo. Warat faz do surrealismo o broto próspero a retirar do inconsciente a forma genuína de sentir os olhares e o amor alheio. Minutos com Warat são como as metas de Kubitschek: crescimento de 50 anos em 5...minutos! Agredecemos à essa geniosa alma que podemos estar tão perto!



Foto surrealista do café surrealista!


Ecos de Caetano



Escuro exposto, exposto no escuro!


EFÊMEROSESTADOS

Adivinha-me os segredos?
E eles, os segredos, se fizeram,
um a um, quando, sem qualquer
prenúncio, aviso ou intimação;
as energias elétricas todas,
enviadas pelas redes, desapareceram.
Era um sábado qualquer
de um mês também qualquer.
E no escuro pela energia ausente,
uma outra brotava.
Eis que a energia de um homem
acontece quando ele é capaz
de pensar sua própria imagem:
dos espelhos e da alma.
Mas a noite era escura.
E com ela, o homem se encontrou sozinho.
A solidão mórbida e sabida da noite,
se fez outra pelo estado de natureza
plantado naquele homem, de forma bruta
e de jeito normal, pela queda abrupta de energia.
Sabia ele que logo voltaria.
Sabia que com ela também tornaria
sua capacidade vaga de perceber as coisas
na noite por meio da possibilidade da luz.
Notava que, durante a noite,
era nada sem a luz,
a ferramenta que fazia ver as coisas no escuro.
Não exatamente a luz, por si só, especificada
nuns ou noutros abajures, nas irradiações
das lâmpadas de cem velas, que equivaliam,
dentro de um micro universo de química,
a nada menos que cem velas de cera acessas,
todas, ao mesmo instante.
Essas mesmas que se esvanecem
nas capelas a sonegar promessas que
nunca se dão.
Não a óbvia luz elétrica,
mas a luz que nele tanto se escondia,
e que se acendia, na noite escura que ali vivia.
Sabia, o homem do escuro, que a luz voltaria.
E pensou até poder dispensá-la,
eis que em rápida adaptação,
podia já ver certos contornos
mesmo na mancha negra do escuro.
Seu sínodo só não era em solidão
pois se fazia notar seu vinho e sua taça.
E pensava que o vinho escuro que tragava,
tinha uma qualquer correspondência com aquele
momento posto em notas de uma poesia ilegível no escuro.
E percebia, também, todo o poder da escuridão.
Sua onipresença silenciosa.
Era uma monarca dormente.
Que estava ali todos os dias,
escondida na ardilosa luminosidade artificiosa.
A mesma que fazia velar os próprios dentes escuros
que o vinho escuro pintava e que não
se fazia notar, pela faticidade escura que se dava.
Todas as circunstâncias do instante,
içaram do profundo do espírito do homem,
uma inquietação cercada de nada,
aquela angústia de sempre e um novo porém.
As próprias velas de cera eram nada.
Pois se estavam, encontrá-las não era possível.
E a companhia daquele sábado, se resumia
à escuridão do momento e à outra do vinho.
A embriaguez que não se mostrava no rubor das buxexas,
cansada e com medo,
pediu licença ao prazer por um lapso,
e aquele efêmero homem sem luz,
pleno e perdido entre a nuvem escura,
escureceu também seus desejos inquietos,
sacrificou uma parte pouca dos seus segredos,
para mostrar que era ele o dono daquilo,
e que nenhuma escuridão seria invencível
com a possibilidade eterna que tinha de transcender
à exatamente tudo que se tensionava,
no clarão dos dias sem sol,
ou na escuridão daquela noite em que se encontrava.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Quadra paulistana


Fazendo rimas, construindo poemas,
fingindo a profundidade que nunca alcança.
Pisa sempre nos mesmos lugares,
e nunca avança.


Ana Justiniano

domingo, 18 de outubro de 2009

Não devia ser apenas sonho!


No frutífero ínterim entre a consciência de estar desperto e do mergulho ao inconsciente que o sono promove, lembrei de “Foi apenas um sonho” (Revolutionary Road, 2008), filme que me deixou boquiaberto a um ano atrás. E não sei exatamente as razões de sua aparição neste lusco-fusco de consciência. A verdade é que a história tocou, provavelmente, pelas rotas que se apresentavam no meu contexto pessoal. Desviadas, estreitadas, dissimuladas. No momento em que a falta de respostas era a única resposta clara. No momento em que apercebia que transitar por um mar de contradições era a mais nova condição.

Entre esse momento, o filme foi luminoso para apoiar a repugnância à felicidade formalizada que tentam nos enfiar guela abaixo. Já notaram como a felicidade é dogmatizada? Basta ter várias coisas e ser outras poucas e pronto: um feliz sai quentinho do forno da vida. O filme fala sobre a (falta de) coragem de buscar a felicidade fora da receita pronta. Ana Maria Braga, pedimos benção ao seu bom humor matinal e sua felicidade sem fim...Aliás, tem muita Ana Maria em todo lugar. Merecem o mais puro sentimento de pena. Não há tanta sorte ou tanta felicidade enlatada nas prateleiras dos mercados! Pobres felizes enlatados...

O filme, que repete o casal de Titanic mas não sua historinha previsível, traz consigo uma riqueza de sentido que imperativamente nos faz questionar o universo que cerca nossas vidas. Esse circo no mais das vezes montado com peças falsas. O nosso xadrez diante da morte, em que não se vence com um xeque-pastor. Essa interrogação é mais vital e valiosa que a decisão entre Paris ou o gramado verde da simpática casinha branca. Extrapola também a esfera do teatro de relações pessoais e da hipocrisia da quase totalidade delas. Como andam raras as relações sinceras né?O filme fala, antes disso, da capacidade de suportar as verdades, essas criaturas que nascem demoniacamente com a lucidez. Viver como aquele que não somos, ou que ainda não somos, é também uma falta de consciência da necessidade de buscar a origem de nós mesmos e do que queremos. Por isso refiro que o filme trata da capacidade de suportar verdades, afinal, estamos preparados, de fato, para romper absolutamente com a “vida boa e digna” que nos vendem a todo momento? E a que preço? Ao mesmo tempo, a representação a que forçosamente temos que nos submeter diariamente é cansativa e maçante.
A náusea contida que se tem no final do filme é porque, de alguma forma, nos projetamos nos personagens e não sabemos bem se queremos ser o matemático “louco e lúcido” ou Wheeler “são e cego”, ou seria, ao contrário, um “são lúcido” e um “louco cego”. Deixar a tradição nos ensinar pelo tropismo das condutas sua velha felicidade e chegar ao crepúsculo com a mesma “vontade de silêncio” ou revolver o chão das pseudo-certezas? O fim do filme é uma tijolada na cara: tudo que o velho homem queria era não ter que escutar mais as idiotices da velha rabugenta que tinha casado a sabe-se lá quantos mil anos atrás. É o único filme em que o coadjuvante vira protagonista. Dá pra lembrar de outro ótimo filme: “Into the Wild”, que também fala sobre rupturas e coragem para fazê-las. Se tivesse essa coragem que aparecem raras até nos filmes (claro, queremos ver o José Mayer comendo aquelas gostosas...quem duvida que o José Mayer seja feliz?) estaria eu fazendo as malas...só não sei para onde...

sábado, 17 de outubro de 2009

Anima em tormentos


TRISTEZA,
por Gladis de Fátima Ferrareze, por obséquio, minha querida mãe!

Onde está a alegria que morava aqui?
Não sei.
Ninguém sabe, ninguém viu.
Será que cansou?
Será que é uma só para tantos,
Obrigando-a a perambular,
sem parada,
deixando alegres uns e
tristes outros?
Ou será que em cada um
ela habita,
sem ensinar o segredo
da vida própria?
Não sei.
Alguém sabe?
Alguém viu?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O frio é um deserto sem estufa!


ESFRIAMENTOGLOBAL

Em dois séculos o absurdo total:
mandaram “ser” à Marte,
e aqui feridas abertas com sal.
Em Terra o mito do desastre:
de férias na Polinésia, “comprar”,
filho de “deuster”
não precisa mais de filtro solar.
É que agora em Marte
esticou o sol seu calor e sua arte.
Enquanto a Terra fria escurece,
o dia em Marte é uma eterna tarde.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Educação dionisíaca

Excelente texto do amigo Warat, utilizado como ponto de partida (e chegada) nos cafés filosóficos dos dias 9 e 10 desse mês em Buenos Aires!



Lo real no es verdadero, se conforma con ser

Es el disparador que figura en el comienzo del libro de Mafessoli “Elogios de la razón sensible”
¿Que me sugiere?. Lo primero, que a mi me sugiere,. es que esa existencia conformada únicamente con ser es,siempre y para todos los miembros de la especie , inaccesible. Únicamente sujeta a aproximaciones hermenéuticas y semióticas que nos permiten tener una representación de ese real que se nos impone como
inaccesible. Trabajando hermenéutica y semiológicamente con el obtendremos un real construido como representación del real inaccesible
Confrontados desde los orígenes más o menos civilizados de nuestra especie animal nos fuimos eludiendo con una sucesión de grandes relatos: cristianismo, judaísmo, marxismo, liberalismo, racionalismo, que no pasan de grandes incuestionabilidades ideológicas y estratégias de dominación que culminan con la biopolítica. A todos estos factores los llamamos engañosamente grandes valores culturales de la modernidad ,por un lado, y por otro, verdades científicas . Sumados ambos vies nos encontramos con la racionalidad del modelo de mundo de la modernidad.
Termino de describir la cartografía de elementos que organizaron y cristalizaron el modelo educacional del paradígma moderno, empeñado en pasar a los estudiantes esos grandes valores y las argumentos y valors puestos fuera de discusiòn en la modernidad, junto al crisol de sus verdades.
Pero el paradígma moderno ya no tiene mucha confianza en si mismo y la concepción educacional de la modernidad tiene poco que ver con una juventud que casi antes de saber hablar sabe operar una computadora. Una sociedad de bebés que mezclan mamaderas con circuitos de la WEB emerge delante de la mirada de educadores que aprendieron a habar con radio Belgrano o escuchando las andanzas de un cacique Guaraní que insistiendo en ciertos valores no negociados facilito la escalada genocida de españoles y portugueses. O prestando sus oídos a la voz de Carmen Mirando o Maysa Matarazo en las radios cariocas.
Hoy tanto los jóvenes embebidos de caminatas digitales o los nostálgicos educadores que fueron jóvenes con Maysa Matarazo están hoy implicados en nuevas emergencias de la razón y de la sensibilidad que el modelo educacional hegemónico y obsoleto no puede satisfacer mínimamente. Educativamente todo es lastimosamente trivial y, por lo general, inútil.
Existe un establishment educativo es un estado de espíritu que tiene miedo de afrontar lo extraño, lo desconocido, lo inesperado y la propio animalidad de la especie
La peor de las barbaries que nos afecta es el estado de espíritu que emerge de lo que se considera establecido desde siempre y para siempre.
Las verdades están contaminadas por ese estado de espíritu que las ve como afirmaciones con escasismo riesgo de perecer, es lo imperecedero.
La verdad es un significante que me incomoda, supongo por ese espíritu de una eternidad que precisa ser conservada a toda costa. Ese espíritu o tendencia al statu quo que me molesta, y mucho en las verdades, sobre todo cuando son instrumentalizadas desde la educación.
Las verdades que un maestro predica, además suelen estar contaminadas de soberbia, de curriculum lattes de luchas académicas, de alianzas mafiosas, de pactos de mediocridad.
La lección de las cosas, en su hermenéutica da inaccesibilidad, es sustituida por un normativismo beato, que va mas allá de lo jurídico como llamada pueril a facilismos y encantamientos como el Estado de derecho o visiones de los derechos humanos apoyadas en idealizaciones ideológicas, que en el peor de los casas, ambas, no pasan de apelos hipócritas.
Todos estos juegos de la razón que nos condena disciplinariamente podrían ser agrupadas sobre la denominación de educación apolínea .Una educación que pide a los gritos que la cambien y la dejen morir
La sustitución precisa ser radical, el cambio apuntar a una educación dionisiaca que nos aleje de los moralismos, las hipocresías, las creencias disciplinadoras, que sea capaz de comprender lo nuevo, abrirnos para una sensibilidad generosa que no se sorprenda con nada, principalmente con lo nuevo que esta llegando. Un saber capaz de concederle al caos el lugar que le corresponde, que de repente es mayor que el de las verdades. Un saber competente para trazar la cartografía de las cosas imprevisibles, sorpresivas aparentemente no racionales, de los ingredientes patafísicos, de la presencia de lo cósmico y mágico, del desamparo y de las otras formas de lo trágico, que están mucho mas cerca de la condición humana que los ingredientes que pueden ser controlados por los modelos de la lógica racional en exceso Eso nos torna menos ilusos frente a un mundo en agonía ,que se torna ciego frente a todo lo que agoniza, obstinandose en adornar su crepúsculo con las candilejas de la edad de oro;engañandose con un alba que es solo un artificio
La concepción educacional dionisíaca no tiene que tener miedo de aceptar la incertidumbre, la contradicción, el azar, el desorden, el real magico ,los modos de ser surrealistas de la convivencia popular ,todos como elementos simplemente humanos en la vía crucis del conocer.
La construccion de una cartografia dionisíaca (me molesta usar contradictoriamente como fuerza de expresion la palabra paradigma) que funciona como vision trasmoderna de mundo debe comenzar por una critica demoledora ,una critica a los martillazos , con la fuerza de un martillo que quibra las paredes mas solidas que construyeron las mistificaciones ambientales y las conceptualizaciones de un racionalismo obsoleto..Ser capaz de destruir para que lo que tenga que nacer pueda crecer con toda libertad.Inclusive tener la desenvoltura patafisica de emitir paradojas Despues ya se vera.
La pedagogia no es un placebo.La funcion de los educadores no es la de recetar tranquilizantes, es la de despertar la sensibilidad la creatividad, y la estetica de la otredad.
La descripcion de los fenomenos sociales no tiene porque ser unicamente un problema sino tambien una plataforma a partir de la cual va elaborarse un ejercicio de pensamiento que responda a las audaces contradicciones de un mundo en gestación, Tiene que ser una plataforma de fortalecimiento de la subjetividad ,en un trabajo de resiliencia e logoterápia
Tambien implica pensar con distanciamiento del poder y con desmesura para trasbordar surrealisticamente los lugares comunes.
Mi modelo educacional dionisíaco tiene que ver en sus origenes con la ciencia juridica y sus dos maridosy con una vieja comunicación que presente en el cuaro congreso de ALmed en Rio de Janeiro.intitulado La pedagogia del deseo, ahi por el año de 1976
Al estar alejado de los diversos ideales dominantes y universales, al estar enraizado en lo corriente ( que es estructuralmente polisemico y paradojal) ,contiene siempre sentidos que se modifican diariamente ,que se experimentan y viven al dia ) el saber dionisiaco es un saber erotico que ama al mundo que describe y permite vislumbrar lo plausible, lo posible y lo que deseamos soñar de las situaciones humanas.
El cartograma dionisíaco pretende superar las acostumbradas categorias de un cartesianismo que a engendrado la visión de un mundo contractual ,regido por un voluntarismo racional. Para el cartograma dioniíiaco no es nada interesante la preocupacion por saber de donde viene la crisis del burguesianismo, ,lo que importa es es preguntarse por la energia y la sensibilidad social , una energia que no se centra mas en el productivismo ni el activismo.
Asi como Descartes balizo las condiciones del paradígma moderno necesitamos,ahora, alguien que balise los caminos de la trasmodernidad
apostando en una literatura, en un arte de creracion y no en una literatura o un arte comercial Un a apuesta en el arte educativo El arte y la litrratuura comercial es siempre la vulgarizacion de los tonos de antes de ayer
La descomunicacion que desarrolla actualmente los medios de la modernidad niegan la importancia de lo vivido Eso debe ser recupeado Recuperando la importancia del si a la vida que todo la modernidad se obstina en negar
Lo cartografico dionisíaca es una mirada de proa ,una mirada semajante al del vigia de proa encargode de ver anticipadamente los primeros perfiles de los territorios desconocidos, de los territotios que estan nevegando las caravelas para descubrir esos mundos nuevos Es una mirada muy incierta en terminos de contornos , de lo que falta para lograrlo ,del trayecto que se debe comenzar a realizar.
Hasta que punto lo cartógrafico dionisiaco exige quemar las naves y que el antiguo mundo que esta detras de nosotros no puede funcionar como sueño de retorno.
El pensamiento establecido es un estado de espiritu La actitud puramente intelectual se contenta con discriminar y olvida que la existencia es una constante participacion mistica, contradictoria , cargada de referencias a los ancestrales ,Lancelot retornando permanetemente a lo cotidiano para hacer de las ciudades modernas una nueva Camelot.
Finalmente la coincidencia de los opuestos es el punto de partida de la otredad


Luis Alberto Warat

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pois é...

Essa poesia é fruto de uma troca de emails com uma amiga recém chegada que conheci em São Paulo. Ana, depois de tanto dizer, ficamos, pelo menos, com uma poesia irritante. Ainda assim, eu também passo!


GENTEQUEPENSA

Gente que pensa é quase redundante.
No fundo de suas notas densas,
são prolixos em seus achaques pensantes.
Falam tanto. Escrevem tanto. Irritam tanto.
Vestem os léxicos copistas dos livros das estantes.
Gente que pensa grita tanto, é contra tanto.
E acabam sentenciando meros adágios errantes.
Essa gente acaba chata, inexata.
Aquelas letras coloridas,
agora gemidos queixantes.
Enquanto suas mentes altas voam
num mundo quase infante,
perdem rios de felicidade para almas ignorantes,
essas que sabem nada e conseguem tudo sem o mesmo nada.
E os livros clássicos sempre lidos,
seguem a não responder nossos problemas chocantes.
Mas essa gente que pensa é insistente.
Vivem em caminhos paralelos,
em morfinas de planetas distantes.
Essa gente acaba chata, ingrata, irritante.
Durante uma vida, este pequeno instante,
que o ignorante tem prazeres de amante,
essa gente que pensa acaba mórbida, confusa e delirante.
E se morrem para fazer os que não pensam,
pensar que estão pensando.