quinta-feira, 18 de abril de 2013

O AINDA








O sagrado e o profano têm peticionado aos céus em busca da nova resposta. A rinha e o transe animalesco estão na política, nas faculdades, na rede, no jornal, no silêncio dos velhos nos asilos. 

Os evangélicos sabem toda a verdade. Os gays sabem toda a verdade. Os evangélicos estão salvos do inferno. Os gays estão salvos da grande infância. Os evangélicos leram a Bíblia. Os gays leram a sabedoria pagã, os alemães e as entrelinhas da dor. Os evangélicos vencem a vida. Os gays vencem a morte. 

São as novas facções. São dois meninos com socos pueris que se reúnem ao redor de um grupo de meninos no intervalo do colégio. É o mesmo buraco que já empacou as dicotomias d passado. É a grande recorrência do exercício de fazer o tempo passar com o balanço de uma gangorra. Uma sístole e uma diástole que, inevitavelmente, a cada inflação, coloca uma pedra a mais no caminho que conduz ao senhorio da morte. É uma outra história, uma outra fantasia, mas com o mesmo enredo. Um outro jeito e um outro nome, mas só. Eles estão brigando de novo, discutindo, com argumentos nos artigos do jornal, arrebanhando os imbecis de cada um dos lados, porque entendem que existem lados. 

As evangélicos sabem que, no fundo, poderiam sucumbir à curiosidade que ronda o cú. Os gays sabem que, no fundo, Deus está lá, controlando toda a loucura deles e dos evangélicos. São co-irmãos na loucura média. É Caim e Abel, cada um com seus exércitos. São múmias da moral, porque ainda cercam a moral com conceitos. São múmias dos conceitos, porque ainda precisam dizer a palavra "é". São múmias quanto à morte, porque o medo lhes é insuportável. São múmias quanto ao eixo da consciência, porque desconhecem a profundidade da inconsciência. São múmias quanto ao silêncio, porque ainda pensam que a linguagem é uma condição... 

No fundo são analfabetos porque não conhecem a gramática da contemplação testemunhal. São analfabetos do detalhe. Analfabetos do paradoxo. Analfabetos dentro de um mundo que foi educado à separação, à desunião e à desintegração. Analfabetos que fazem do espelho, antes de uma porta de entrada, um muro que refrata. O ego, a vontade de poder e a pureza estão comparando o tamanho do pau com um olhar juvenil por cima dos mictórios. Ainda.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

brevê para voar no meio de nuvens feitas de nada





É preciso compreender, de uma vez, que esta falta de consenso acerca do conceito de mediocridade, faz com que muito se fale praticamente por nada.

in berejuk

Você olha em volta tentando encontrar a própria miséria, mas só vê paredes em paz, cachorros dormindo e pulgas sendo felizes. Você olha por dentro, vira uma mini gente que caminha no meio do músculo da carne humana, ou então se sente um micróbio pequeno como o nada, nadando no mar do suco gástrico que transforma tudo em merda. Mesmo assim sorrateiro não encontra a própria miséria. Então você resolve ir fundo, prescindir da matéria, e começa a acreditar no inconsciente, no cosmo, no raio que o parta, numa cruzada à caça da própria miséria, mas só encontra um oco mudo igual a um salão de baile em final de festa, quando as faxineiras que dormem e acordam cedo, começam a virar as cadeiras de pernas pra cima como se atirassem corpos numa forca da cadeira pra baixo. Fora ou dentro não há ninguém que possa dizer alguma coisa, nenhum mestre dos magos nem mesmo pra nos dar a direção errada do caminho. A direção errada, ah se a direção errada viesse sem esforço e caísse mortinha da silva no nosso colo! Pelo eliminaríamos alguma coisa dentre essas tantas. Pelo menos seria um rosto humano nu nesse eterno baile veneziano de máscaras. Todos temos o direito de ser senhores e proprietários da própria miséria. Mas Deus escondeu tanto o tesouro quanto a miséria em algum lugar impossível. Deus é um sacana, mas apenas um sacana, filho da puta seria demais. Os ateus mentem a si mesmos que não estão interessados nem na própria miséria, essa é a injeção diária de morfina deles. A oração é a morfina dos crentes. Mas ambos desejam a própria miséria: os primeiros negando o futuro, e os outros negando o presente. O ponto arquimédico do círculo onde transitam todos esses elétrons humanos, ninguém pode encontrar. E eu, que navego como Colombo por mares imaginados, cogito a miséria como o ponto vélico do mundo, como o triângulo das Bermudas, como o buraco negro que fechará as cortinas dessa grande palhaçada. Deus estará lá, brincando de ser Deus, com uma máscara do Bozo. Mas ele não é nem nunca será um filho da puta. Ele não nasceu no meio do sangue e das gororobas da placenta como todos nós. Ele é um deixado ao relento dentro de uma caixa de sapato numa parada de ônibus. A miséria dos que vivem é não poder parar: de perceber, de perquirir, de peregrinar.

ok ok






ativo, caminho pelas ruas de mim mesmo com um passo cansativo. Demandas lá de fora, fazem com que eu extravie o GPS aqui de dentro. Há uma saudade de só ficar sendo, de só estar ali, de só ser o que se pode ser, de se resignar sem qualquer culpa. Tenho trabalhado, metido o martelo na pedra dura – e faço por amor à fadiga. Canso o corpo pra não ter que enfrentar o espírito. Tem horas que a vida mete um espelho microscópico na frente da gente. Aí podemos ver tudo que é podre, impuro, minúsculo, feito de nada...toda a pequeneza que significa tudo que a gente ACHA que é. Uma coisa tipo: a humildade comendo o cú da arrogância, do ego. Peguei um filhote de gato pra morar aqui comigo. O bicho não durou nem 3 dias. Miava o tempo todo. As formigas dominaram o pote de comida dele. Cagava no tapete de um modo superior, arrogante e ingênuo, vencendo o cabresto de cagar SEMPRE no mesmo lugar. Mas merda de gato novo FEDE. E aí tem que por sapólio. E esfregar COM DEDICAÇÃO um pano que eu acabo sempre jogando fora, afinal, ninguém merece a desgraça de ter que LAVAR um pano cheio de MERDA DE GATO. Ele foi desmamado muito cedo. Os gatos também têm complexo de Édipo e querem ficar mamando nas tentas da gata mãe a vida inteira, sem ter que pagar imposto, aprender a cagar na caixa de areia ou ter que acordar cedo pra ir trabalhar. Mas, pelo menos por um período, todos têm o direito de ficar ali, existindo só pra chupar nas tetas de quem nos pariu. E foi isso que aconteceu com o gato que veio morar comigo. Ele não pôde sequer chupar o tempo nas tetas o temo que a vida nos legitima pra ficar só chupando as tetas. A vida foi cruel com esse gato. E entender porque esse gato veio parar no meio da minha sala é uma coisa, sobretudo, imbecil. Imbecil porque entender não passa de um interesse. De uma resposta ao desejo de saber. Entender sempre está divorciado de ter sensações. E são as sensações, terrenas, carnais, femininas, umedecidas de suor e vida, que valem a pena. Um corpo nunca será um corpo à toa. Ou será que os corpos nascem em série como a frieza de uma linha de montagem¿.
Ele era um gato carente. E porque era carente, ele MIAVA. Por exemplo, ele fazia - MIAU, e depois de  3 segundos, fazia  -MIAU de novo, e depois de outros 3 segundos, MIAVA DE NOVO. No primeiro dia achei legal. Segurava ele no colo com carinho e dei ele dormia, para felizmente para o MIADO I-N-C-E-S-S-A-N-T-E. Mas depois veio a segunda-feira. E com ela a CORRERIA desta vida filha de uma puta (daquelas bem vagabundas e caras).  Vieram os bancos, os sistemas que não funcionam, a vida dentro de um carro, a vida dentro de uma casa, a vida dentro do mundo abaixo do céu  com este mar andando pra lá e pra cá sem ter consciência de nada, as chuvas alagando a vida de quem mora perto da chuva, o caos, o redemoinho, Bob Dylan quase morto, Warat morto. Com tudo isso, chorei. E foi bom porque depois que a gente chora é um momento-túmulo. Uma coisa é a choradeira do velório. Outra é a do túmulo. Velar é quando ainda não é possível se conformar com a perda. Não existe nenhum charme num velório. O choro charmoso é o do túmulo e, mais ainda, do caminho até o túmulo. Aquele cortejo fúnebre indo, lento, com uma garoa que domina o barulho do choro.
Hoje eu chorei e tenho essa sensação de caminhar num cortejo fúnebre. Segurando a alça do caixão que tem o meu próprio corpo. Talvez seja bom. É uma sensação de estar morto, estando vivo. E não existe nenhuma razão pra eu não me tirar tanto do defunto quando do eu que carrega o caixão, pra ver a coisa toda como um terceiro personagem espectador.

sexta-feira, 8 de março de 2013

uma oração



Mulheres, 
todas vocês mulheres, 
que seguirão sendo o porque, 
a causa humilde de tudo que é grandioso, 
o nexo entre o que não existe e o que está por acontecer, 
a benção da manhã que alimenta a intensidade da noite, 
a religião dos bêbados e dos que não conseguem amar, 
origem de todas as músicas e todos os corpos, 
todas vocês mulheres,
por quem passamos, estamos e vivemos atrás,
por quem atrás depressa olhamos,
por quem passamos gel de manhã,
por quem nos fodemos trabalhando,
por quem perdemos nossa ereção, nossos bens, nossa paz, nossa alma.
todas vocês mulheres,
que levaram pedaços do meu coração,
que me tornaram um assassino cruel e virulento,
que estupraram com flores minhas partes ingênuas,
que fizeram o milagre acontecer numa cruzada de pernas, num rebite de bunda, numa mexida de cabelo, num gemido mútuo, numa dança onírica, numa ligação que nunca poderia ter terminado.
todas vocês mulheres,
que fazem parte do milagre como quintessência da vida,
que foram estupradas, apedrejadas, esquartejadas, ferradas até dizer chega,
que alimentaram os pequenos e limparam a ferida dos velhos,
que passaram creme na pele, cheiros no corpo, incenso pelo ambiente do mundo,
que penduraram esses brincos tão exclusivamente seus mulheres,
que perderam os clitóris só porque os homens morrem de medo de um clitóris,
que perderam seus homens porque a guerra é o maior veneno entre os homens,
que perderam seus filhos porque o amor maior é uma lição não sabida pelos homens,
que esperaram plácidas nos portos e portões por homens que nunca entenderam nada sobre a paciência,
todas vocês mulheres,
que manipularam a raiva dos pais violentos,
que ocultaram a verdade quando a verdade só sabia ser má,
todas vocês mulheres,
que nunca souberam ser más,
que nunca souberam ser violentas,
que sempre souberam chorar sem dor,
e que por isso puderam ser melhores na dor,
todas vocês mulheres,
que escutam a sintonia da minha alma,
o trejeito de um arremedado de poeta,
o desajuste dos meus desejos incontidos, profundos e enormes,
todas vocês mulheres,
que enlouqueceram a minha paz,
que promulgaram regras dentro de mim,
que me intoxicaram, me baniram do meu estado de ser normal,
que me crucificaram vivo por 7 dias e 7 noites,
que treparam com outros quando eu não podia cogitar que fizessem,
mas que também fizeram amor comigo, entregues à benção do tempo, do cosmo e de todos os Senhores de todas as religiões,
todas vocês mulheres,
que foram pacientes na morte,
que carregaram os túmulos de flores,
que se dedicaram dia e noite até o fim da vida aos filhos depois de uma separação,
que cortaram a cenoura para a sopa,
que esmagaram a banana para a criança que não era sua,
que esperaram os 9 meses e que esperariam 9 vidas pela mesma razão,
à todos vocês mulheres eu me presto e me submeto.
à todas vocês mulheres eu me invento e me calculo.
à todas vocês que não sei ser, ou me portar, ou me imiscuir, ou canetar,
Todas vocês mulheres,
rainhas de todos os sambas, dançarinas de boates, baianas cozinheiras de todo o Brasil, musas do folclore, divas de todas as coisas, artesãs de toda a poesia, fotógrafas, alunas, executivas, santas, putas, faxineiras, orientais do pé trucidado, tias das mercearias e porteiras de banheiro público,
todas vocês mulheres da bondade de Calcutá, da beleza de Jolie, da força de Joana, as de Atenas, as que vivem nos conventos, as que vivem sem uma casa, às índias que moram na beira do rio Passo Fundo com seus indiozinhos cheios de ranho no nariz, às avós que sabem e as que não sabem cozinhar, a todas as mulheres que vivem dentro do Chico Buarque, às que tem silicone e às que tem tetas de vaca morta, às que dançam no Bolshoi, às que trabalham comigo todos os dias, à mãe e às mães, à minha irmã e às irmãs, às cunhadas de todo o mundo, à Arendt que pensava sentindo, às Venturas que ensinam como ninguém, à Virgem Maria, às bibliotecárias e às camareiras, às Simones, às que sempre puderam nos Estados Unidos,
todas vocês mulheres,
todas vocês que ganharam e não ganharam rosas no dia oficial das mulheres,
que odeiam o dia oficial das mulheres porque não ganharam a porra da rosa oficial,
que odeiam o dia oficial das mulheres porque odeiam coisas oficiais,
que odeiam o dia oficial das mulheres e mais ainda as colegas de trabalho por terem recebido a porra da rosa oficial
que odeiam o dia oficial das mulheres porque gostam mesmo é das surpresas,
todas vocês mulheres, de estados civis que não existem, estados mentais inescrutáveis, estados instáveis por natureza e estados espirituais que não podemos saber,
todas vocês mulheres,
que não permitem que essa nem que todas as poesias tenham fim.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

buzinando




O mundo que deveria ser, não é o mundo que é. Gosto do mundo assim pela metade, incompleto, igual a uma casa com uma goteira eterna que pinga nos lençóis da cama. 

Se o mundo fosse perfeito seria estúpido, não se teria nada pra fazer. Ficar caminhando naquela grama verde bem aparada, com aquelas camisolas de velha, mais aquela brisa que chacoalha o pano da camisola e a 9a sinfonia de música ambiente, só serve como utopia espírita: esse céu espírita deve ser um SACO. 

Por aqui o legal do mundo é que temos trabalho, já que a podridão fede e, do fedor que fede, leva todo mundo a sonhar com o mundo que deveria ser.


O Renan disse que o povo só odeia ele porque ele é nordestino, e não porque é corrupto. Só isso serve pra demonstrar que é um filho da puta completo. 

O cardeal inglês comedor de coroinhas saiu do conclave. Quem vota deve estar de acordo com as regras do jogo, caso contrário, ou se reavalia o jogo ou se culpa os votantes pela eleição de um imbecil (valem corruptos e comedores de cú de coroinha, que no fundo são corruptores de cú infanto-juvenil). 

Esse negócio do padre inglês me faz lembrar do Renan porque, pensando bem, a ilegitimidade do Renan é só parcial: foram idiotas e ignorantes corruptíveis que votaram nele. Que bom! Se todos fossem honestos estaríamos no céu espírita, tomando água sem gás e comendo grão de bico. 

Quando penso, começo a simpatizar com o Renan, o grande malandro brasileiro, ele tá na moda, é responsável por dar trabalho à mídia, por instigar o senso crítico nos movimentos estudantis, por ser o anti-herói do mundo que tenta ser perfeito desde que o mundo é mundo. O Renan, coitadinho, de carrasco virou vítima social cabeça chata. Logo vai pedir pra entrar nas quotas de alguma coisa. 

E o Berlusconi? Quer manter os ternos, aquele ar de galante que agora também tá na moda depois dos 50 tons de Cinza. Os peitos nus das italianinhas não serão páreos para o nosso referencial de Al Capone. Berlusconi devia ter poder de voto no conclave. E eleger aquela filha gostosa que o Pato comia como a primeira Papa da história. Assim ele dominaria completamente a península. 

E o padre brasileiro que comia a jovenzinha antes da missa? O advogado saiu em defesa, juridicamente, claro: "a carne é fraca", disse o ADEVOGADO. Fraca e dura né Doutor? O Freud sabia que o instinto, quando encontra um tabu, fica de pau duro. Que o proibido só serve para seduzir o instinto. Que o instinto sempre dá um jeito de se autorrealizar. Que o instinto é o maior de todos os corruptos. Mas é que isso pouco importa, e é bom, porque pelo menos temos o que fazer, temos trabalho, temos alguma coisa pra dizer pra uma platéia de plastas.  

Nós, homens legais viventes do mundo cão, somos inocentes de tudo. E só falamos na presença de nossos advogados idiotas. Não teria a mínima graça senhores, aquela graminha verde é nossa utopia e nosso engano.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Phebus




Eu até diria, escreveria, borraria o branco da tela, pra que tudo fosse jogado fora, pra que as angústias e as esperanças fizessem um par em letras fora de mim. Mas porra, que merda, ninguém mais aguenta que se lamente todas as saudades que todos sentem. A saudade é um dedo, é um braço invisível, que nos acompanha mesmo estando amputada. A saudade é a mãe dos suicidas, de todos os drogados que querem "transcender", falar com o "outro lado". A saudade cansou de pedir os holofotes. A saudade é a grande mãe desses caras com barba comprida, que são "artistas", e que fazem poesia... qualquer porcaria de poesia é uma ARTE pra esses caras. Eles querem fazer ARTE. E fazem qualquer merda em nome disso. Uma cadeira pendurada no teto é a porra da ARTE. A foto de uma bolita no cú é ARTE. Um par de peitos moles servindo como protesto contra a corrupção é "a arte contra o capitalismo". Fodam-se. Estão todos no mesmo saco. Fedendo o mesmo fedor. Eu poderia falar da menina de saia azul que dançava como ninguém: linda, coxas fortes e finas, coxas que subiam e colavam na bunda do cara no meio do forró, cabelo preso, 19 anos, sonho de um consumo impossível. Mas ela é a utopia, a falta de nexo entre o mundo real e as possibilidades do sonho. Então jogo ela nessas letras, pra dormir em paz. Eu poderia recusar o convite dos sentidos - e escrever é uma espécie de se livrar das coisas que a gente sente - e em recusando, sentir completamente. Escrever é esta espécie de vaso que, antes de se encher de merda humana, dilui os dilemas, organiza as hipóteses, racionaliza os sonhos que não lembramos. Um sonho não lembrado é uma benção à memória. Não ando interessando em entender os sonhos, porque eles me cansam. A lógica dos sonhos me cansa, como todas as outras lógicas. Poderia escrever um poema como os artistas barbudos dizendo que toda a saudade só é bonita nas músicas, ou escrever frases de efeito, essas frases curtas de efeito que vendem como IPhone novo, afinal, ninguém mais tem paciência pra ler MIL páginas sobre alguma coisa. É o mundo da impaciência meus senhores e senhoras, meninos e meninos, veados, artistas, mendigos, evangélicos, nazistas, putas, caminhoneiros drogados de rebite. Eu poderia escrever esse poema sobre a saudade, ou sobre essa gostosa que dançava sensualíssima. Mas estou cansado. E vou poupá-los. Nada é tão importante quanto dormir, dormir profundo, e não lembrar de nenhum sonho no dia seguinte.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

o dinheiro





O dinheiro. Que poder tem o dinheiro!

Tem sido o senhor de todos os corações, de todas as pulsações, o senhor de toda heresia. Senhor de todos os camelos que passaram pelo buraco da agulha.

O dinheiro já teve muitas vidas, encarnou em mulheres pálidas e em negros de pau grande. O dinheiro é a qualidade de ter sido um deus, uma verdade, um Estado, um Momento, um Nirvana.

A promessa do dinheiro é um nirvana.

É quando a frase “Sejais fiéis à terra”, do Nietzsche, ejacula na boca de uma puta paga.

O dinheiro foi um carrasco, um Don Juan que fez chorar mil mulheres, aquele que colocou a casca de banana. O dinheiro foi o padre católico que vendeu a alma ao diabo.

O dinheiro e o diabo sempre foram siameses. O dinheiro tem separado muita gente.

O dinheiro tem causado vergonhas na separação e nas repartições de suas frações.

O dinheiro foi o Calígula, foi um medieval enfiando a espada na barriga de um troglodita furioso defendendo seu Senhor! O dinheiro criou o vinho, e essa garrafa que está lá longe na cozinha.

O dinheiro, como os outros deuses, é um grande sedutor.

É a mesma bela mulher que foi a carcaça do diabo, agora em versão pornô.

É a Monalisa que virou Bruna Surfistinha. É a pegada na mão que se tornou um bacanal confuso de homens, mulheres, bichas, borboletas, unhas e cabelos que se chupam on line.

É o recado escrito que virou um mural rotatório com mil imagens, textos e egos por segundo.

O charme da dificuldade de acesso à amada que virou um site erótico com descrição de possibilidades e preços adaptáveis ao bolso.

A fidelidade que virou compreender a diferença, a fidelidade que virou relacionamento aberto. Pegar sem se apegar. Estar sempre sem estar. É a crença, que já duvida de tudo.

O dinheiro é o último dos deuses. É o Senhor Feudal de todo o planeta Terra. É o maior de todos – quem duvidará que o presente é o último patamar vivo entre os vivos?

O dinheiro criou as mulheres de 20 que não sabem amar. O dinheiro criou as mulheres de 30 que venderam o seu amor pela própria vontade de poder. O poder esta para o dinheiro, assim como Zeus está para Dionísio. O poder é a lava que escorreu pela superfície.

É o espermatozóide que bateu a cabeça na ponta da camisinha. O poder é a fundação sólida do teatro da economia. A economia é a disciplina das disciplinas, como já foram a teologia, a filosofia, o positivismo, a técnica. A técnica é a máquina de dinheiro.

O dinheiro é o resultado de uma trepada entre a máquina e o poder. O poder enfiou gostoso na máquina. E esse é o sexo mais cibernético que já houve. A máquina já tem silicone, e o poder, algumas vezes, já usou Viagra (só pra garantir a 2ª).

O dinheiro foi o rei que fechou as portas dos cofres, que fechou homens em salas escuras fedendo a merda, que amarrou o homem que via a própria mulher ser estuprada por um cara com um pau 2 vezes maior que o dele. O dinheiro embotou os corações.

O dinheiro foi o guri que atirou as pedras naqueles cachorros unidos pelo cu. Haverá sempre os acenos cruéis dos que antecipam o naufrágio de uma multidão. Boa viagem.

Antes não se podia falar do diabo, antes não se podia ver mulher pelada na Playboy. Hoje falar de dinheiro é colocar a mão dentro da cueca no meio de uma valsa de casamento feito em clube com aqueles peitos de frango com molho branco.

espelho da raça




a raça humana é um bicho preto que transita no canto de um banheiro escuro de um posto de gasolina às 2:54 da madrugada de um sábado para domingo. a raça humana é uma rato grande como um leitão que se arrepende de cruzar a rua depois de já ter começado a cruzar a rua. a raça humana é um desajuste entre os desejos e as possibilidades de suportar o contexto que estão ao redor dos desejos. é estacionar o carro numa rua deserta, chavear o carro, caminhar lento pela calçada, olhar os cadeados que asseguram as coisas de todos os lugares, e subir os degraus do prédio para enfiar a chave na fechadura, então abrir passagem para um corpo com vida que não consegue atravessar coisas simples como um vidro ou uma grade sem vida. depois enfiar de novo a chave para fechar a porta e ir até o elevador que sempre está no último andar porque os filhos da puta geralmente moram no último andar. a raça humana é um passeio sozinho nesse elevador depois de apertar o mesmo botão que leva ao mesmo andar. a raça humana é essa repetição de passos que conduz aos mesmos buracos profundos. a raça humana é dormir numa cama pequena com quem não se gostaria de dormir. a raça humana é dormir na rua e beber pinga barata até alcançar com o dedo pra suportar o inverno. a raça humana é um estatuto de preocupações ao redor do corpo. a raça humana é um desejo tenebroso de trucidar o desconhecido e todo o exército de gente que não sorri para os nossos próprios sorrisos. a raça humana é a batalha vencida de poder olhar o rosto humano. a raça humana é um maçarico incansável no pijama velho e surrado que nunca deveríamos tirar.

o carnaval é uma velha fumando na sacada vendo o samba passar




todos os espermatozoides a postos. 
todas as lubrificações de buceta esperando fluidez. 
todas as garrafas de cerveja bicadas por uma boca bêbada. 
todos as vísceras de férias. 
todos os pandeiros sendo tocados como as peles que se esfregam e roçam e se arrepiam.
todos os gemidos esperando que as palavras silenciem. 
todas as barrigas estufadas.
todas os relógios ultrajados.
todo o prosaico em transe.
o carnaval é um coito desinterrompido. 
é uma bomba relógio de subversão íntima.
é uma cascata de possibilidades pastosas. 
é um pandemônio de consciências na fila de entrada da vida, esperando o leilão dos corpos.
é a produção em série dos escorpianos que nascerão em outubro. 
o carnaval é quando as fricções fazem hora extra, 
quando os arrepios estão em pé de guerra com a morbidez do sono,
quando as ereções são potenciais pontes ao útero. 
o carnaval é este apagão de responsabilidades, de saúde, de heteronomia.
é o acerto de contas entre a culpa e a moral 
é o acordo quixotesco do desejo com o corpo. 

é uma mulher recém saída do banho, 
com a toalha enrolada no cabelo, 
de joelhos ao pé da cama,
com a bunda arrebitada,
deixando que só os espíritos do quarto espiem a beijo íntimo dos lábios íntimos, 
teclando comigo no computador, 
narrando uma nudez que não posso tocar.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Pontes de Madison




Como a intoxicação de uma droga que faz persistir na consciência o estado alterado, o rastro do romance, da sensualidade e do toque sensível ao tato da alma, permanece ao meu redor, seguindo meus passos pela casa, pela noite, sobretudo pelo longo oco que a madrugada fabrica dentro dos meus ambientes profundos. 

O vento da madrugada leva e traz a cortina branca da sala a ponto de esconder as manchas de pó e vinho que o tempo marca em todas as cortinas solteiras. As vozes acontecem lá embaixo, mas distantes, nada ruidosas. Um zunido longínquo como numa embriaguez profunda. A planta da sacada talvez beba a água que a chuva trouxe e deixou na terra como alimento. 

As formigas filhas da puta transitam pela mesa, pelas teclas, por mim. Todo o rancor que não guardo pelos homens, tenho pelas formigas que invadem meu espaço. Posso sentir o itinerário tímido que algumas fazem pela minha pele. Como contraponto do mal que me fazem, procuro a lição: talvez seja mesmo melhor não saber onde se pisa, assim como fazem essas formigas filhas da puta, aventureiras que são, que ensinam mesmo sem saber que ensinam. 

O silêncio me envolve como o sonho, me abraça, me beija, me permite estar em paz com a sua lambida. O paradoxo do amor quase me abate, mas antes que meu pensamento pereça por saber que as histórias mais bonitas de amor são as impossíveis, resplandeço, respiro o mundo, auto-corrijo o engodo da aparência: porque elas acontecem. Estão nos livros e nos passeios da praia e no cinema. O peregrinar é uma estrada de quem tem muitas casas, é de quem não arrasta pesadas raízes senão troca incessantemente as folhagens vistosas à vista do mundo. 

O peregrinar faz muitas fotografias, mas mais olhografias que é a fotografia da memória - muito mais tecnológica porque apreende a sensação. Mas o silêncio me diz que sempre haverá a casa com a cama mais macia, a capa de um álbum de fotos que permitirá apenas uma, a história mais lida, mais linda... 

Pelo amor impossível que se crava como pilar de mármore na cidade invisível onde acontecemos, inscrevo dizeres eternos, de um amor eterno. Passado pelo presente e pelo futuro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Aforismos em direção à autonomia - 1





A solitude nos faz reis, enquanto a solidão nos faz escravos. E entre o trono e a chibata, estão os que caminham. Os caminhantes repousam suas canseiras em busca de reabastecimento, abrigo e conselhos. São os conselhos, travestidos de mote para o diálogo, a coordenada para a solitude. São nas pousadas da estrada que os caminhantes abastecem as suas direções, recuperando a força das pernas e redefinindo o traçado de seus itinerários. A pousada é o grande Outro em que o viajante encontra cama, sopa, fogo para a roda de prosa e para o frio da noite, afinal, é da natureza do encontro que haja alguma espécie de calor. A doçura de estar só é o cajado daquele que caminha em direção ao seu próprio coroamento. A solitude é um balançar na rede, no interstício de um sono já quase sem vigília: é quando podemos esticar as vistas sobre o amplo de nós, no entreato de extremos que vai da falsa plenitude dos sentidos até a invasão das sensações íntimas. Sem o estorvo da mirada alheia, promovemos os seminários necessários com todos os que nos habitam. Ejaculamos para dentro, semeando o diálogo facilitado pelo silêncio. A longa semeadura dentro da própria consciência depende deste solo livre de influências imediatas, desta terra recém afagada pelo outro, mas livre de sua presença. A sensação de solidão tem algo de amargo, algo de ausente, algo que corta os pulsos do espírito. Os que caminham de mãos dadas com a solidão, caminham em direção ao estado do diminuto, do verme, da partícula, como um Benjamin Button que nasce velho e faz mal uso do tempo para  remoçar. É preciso que o tempo nos envelheça, que nos faça vincos de sabedoria no espírito, que controle a ânsia pelo outro como completude em direção ao outro como compartilhamento. É preciso que a estrada do tempo cubra de pó os nossos sapatos para que possamos indagar a necessidade deles na caminhada. O anti-fluxo do tempo cobra um imposto caro. A necessidade imperiosa do outro como definidor dos sentidos revela a insuficiência de si-mesmo. Se o outro constitui, por meio do diálogo tácito ou expresso, qual espelho do mundo, nossa identidade, é no silêncio de depois da dialética, no sono profundo, na quietude colorida do sonho, que integramos à consciência os passos que devemos pisar em direção ao trono da autonomia.  

sábado, 22 de dezembro de 2012

ODE INCA




Do alto,
de onde se pode perceber que a terra é grande,
mesmo que se mantenha pequena se pudéssemos subir um pouco mais,
há de se ver a pequeneza dos detalhes terrenos.

Filho do céu,
entre o céu,
em direção ao céu,
sento-me sobre a montanha.

A fumaça circunda o cimo,
mostrando que até Deus ainda não deixou de fumar.
Há mais coisas na fumaça que caminha em direção ao alto,
do que nas pedras incas que deixaram a fama subir à cabeça
 e agora vivem de fazer pose para as máquinas fotográficas.

Empilho as pedras,
todas elas ricas em equilíbrio depois de equilibradas por mim.
O sol segue arrogante,
marcando um meio dia de dias antes de um fim de mundo que vai acabar,
mas só pela metade.
Ele o sol, faz nexo entre eu e o impossível.
Então caminho pela ponte temerosa porque sei do jardim onde vivem os que já não esperam.

Noutro cimo outros dois homens conversam:
de quê haverão de falar dentro deste silêncio tão cheio,
sendo a sabedoria a experiência dos que aquietam?

O fecho da doutrina do silêncio não poderá ser escrito,
assim como as formigas não poderão descer até o pé do monte.
É preciso muita impossibilidade para  que o sol nasça a cada dia.

Embaixo ou em cima, pouco muda àquele que vive por caminhar sem ver.
Mas eu ainda não sou,
nem nunca serei qualquer coisa além de carteiro dos deuses,
porque o que sei,
se resume a pensar de olhos fechados...
enquanto todas as formigas da terra carregam seus pesos,
e juntam suas folhas, e se organizam em equipe, e se comunicam pelas antenas.

Na minha casa eu caço formigas -
porque da minha casa elas não pertencem.
Aqui no alto, agora, vivo a revanche.
Se lá elas levam pedaços do meu bolo de chocolate,
eu, aqui do vale sagrado latino,
trago meu coração para pulsar neste terreno formigueiro sem nenhuma autorização.
Com sangue quente, e carne humana.
Contemplo, aquieto e sinto para encontrar outros sangue-quente,
embaixo desta bruma que é o país onde vivo com as formigas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

mitologemas




De um sopro que a Ciência não explica e que Deus não lembra, nasceram a Distância e o Tempo. Como nessa época remota não tinha luz elétrica, internet e nem canal evangélico na madrugada, resolveram trepar. 

O Tempo teve ejaculação precoce, mas apesar da brevidade da relação, tiveram que esperar nove meses até que nascesse a Saudade. A Saudade nasceu toda torta, feia, com um olho vesgo e outro normal, o que é muito pior que uma vesguice completa. 

Quando a Saudade madurou, não deu outra: não conseguia dar pra ninguém. Por horrenda que era, nenhum outro semi-deus do colégio queria comer a Saudade. Traumatizada, se tornou uma estupradora. Na calada da noite amordaçava as vítimas, amarrava suas mãos, e depois fodia o cú de todos os que a tinham rejeitado. 

Porque os semi-deuses são imortais, continua fodendo o cú de um por um, sem cuspe nem consentimento.

sábado, 24 de novembro de 2012

mínimas coisas que se pode dizer antes do fim do mundo




As paisagens só mudam para me dar certeza de que, apesar delas, eu continuo.

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Amizade é escrever "lindaaaaaaaaa" na foto da sua amiga que é parecida com um trânsito engarrafado.

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Toda sexta-feira é santa.

*

A originalidade é um cara fodido de sede no deserto. Hoje, pra ser original, é preciso morrer e ir pra praia tomar banho de sol com sunga estampada, e bronzear todo o corpo espiritual. É a última moda no além.

*

A única igualdade de condições é ter um corpo - uma sentença que seria reprovada por Marx...

*

A mentira deslavada é uma verdade cheia de poeira (ou) A mentira deslavada é uma verdade no cesta de roupa suja.


*

O Direito é um platonismo de gente engravatada pra gente de havaianas.

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Todo casamento é por interesse: pizza congelada depois das dez da noite me faz acreditar em casamentos gastronômicos.

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Há esta eterna rejeição que atravessa o amor. O não é este querer infinito e tuberculoso. O não é o desejo escamoteado para um boeiro que leva à um esgoto. O não é o olho que flerta e a língua que lambe a própria boca. É de muito não que se faz um amor eterno.

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Numa discussão acalorada sobre o caráter natural ou artificial de um conceito, os debatedores esqueceram a possibilidade da polpa.

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O excesso de gente neste mundo, por si só, demonstra o apego dos homens à matéria, que funciona como eixo de sentido da "grande" vida dos medíocres. Permanecem peritos em gerar filhos e inábeis na geração de ideias, tanto as suas quanto as que poderiam suceder às gerações que se espalham a partir do seu sêmen aguado e sem sal... Fodem demais e pensam de menos simplesmente porque ainda rastejam - é sua condição, seu degrau da escada. Na grande avenida da vida ainda desfilam carcaças que usam máscaras emprestadas. Um carnaval fora de época, sem nudez, sem espírito.

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Não receber do outro, mas encontrar o outro: é este nosso tema de casa enquanto vemos a paisagem que passa neste vagão que, em curva, não nos permite ver o destino.

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Um tempo em que mais estamos do que somos, e que, quando somos alguma coisa, deixamos de ser todo o resto...

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Mais e mais vejo a abundância e o quanto quem a tem, tanto a merece. Abundância é a caridade discreta que a vida faz a todos os tipos de miseráveis indiscretos.

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Longe, toda mulher é fria.

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Maturidade é jogar no próprio time.

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As mulheres não gostam de homem que conta vantagem, só gostam da vantagem.

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Há uma obviedade que se esconde no mover (ou no não mover) das peças que não aparenta a intenção de quem as move. É a representação que se representa ocultando a vontade.

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Jogar um jogo é o ânimo de jogar um jogo - uma obviedade escondida da sedução.

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As maiorias são feitas de fracos. as minorias são feitas de fortes. E há esta eterna equivalência, este empate sem gols num jogo jogado pra cumprir tabela.

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Um cálculo eterno é insuportável até para as calculadoras. anda a nuvem e volta e faz sombra em outro canto. a medição do jeito que antevê a reação do rosto, que prediz a palavra, que sabe onde tremerá o músculo involuntário... - sobretudo de arrependimento se alimenta essa gente casada com o óbvio.

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A vida seria menos pesada se trocássemos exclamações por risos e orgasmos.

a ciência não é feliz



então, no meio de todos os outros, um dia qualquer, como um coringa que aparece num jogo de cartas, ou um feriado municipal que tínhamos esquecido, ou uma nota de 100 que ficou na bermuda do verão passado; resolve nos dar um abraço: somos felizes sendo o que já somos, fazendo o que já vinha sendo feito e tendo o mesmo de sempre. é quando Deus nos manda um sinal de fumaça que caminha de cima pra baixo. e a física não consegue explicar como pode ter a fumaça invertido sua trajetória natural. e talvez ser feliz seja uma inversão de valores de estar vivo, um eclipse, uma coisa que só aparece quando não olhamos, uma Medusa que deve ser vista por  um escudo de bronze, assim meio indomável a não ser que se caminhe pelo ar.

os pesos da imanência





somos os jesuses e a academia é a cruz.
começo a fazer aquela força toda,
como se fosse mexer o globo terrestre sem a ajuda de nenhum amigo.
no 1-2-3 você ainda pensa que pode...
depois do 4-5-6 você já começa a perder a esperança.
então uma bunda passa, dura como um osso, gostosa, florida, fluida,
mas ela será dos trogloditas, 
que tem braços maiores que a minha coxa. 
O Obama reeleito, 
o primeiro negro e
ncabeçando o STF, 


os gols da rodada...


tudo acontece nas notícias da televisão enquanto você é uma formiga operária erguendo um peso de merda.
7-8-9...
a coisa começa a fritar, foder, TRUCIDAR, ESTILHAÇAR o pobre músculo,
como se enfiassem uma lâmina crua na sua carne mais crua ainda.
você sabe que as mesas de bar estão cheias de gente feliz entornando o caneco, 


chopp, jack daniels com duas de gelo, caipirinhas à beira-mar.
nos motéis os caras estão metendo e olhando a bunda das namoradas no espelho do teto.
as famílias brincam com suas crianças no tapete da sala.
e você ali, com aquele PROGRAMA DE EXERCÍCIOS,
3 séries de 10, 12, 15 repetições


um verdadeiro cardápio de autotortura consentida, 


feito por um computador filho da puta que NÃO te conhece, 


que NÃO sabe o tamanho tua preguiça, 


ou do quanto você acha LENTO aquele processo, 


do quanto você sabe que está sendo SABOTADO pela obrigação da "saúde" ou da "boa forma" 


(boa forma de trepar com as bunda-osso)
no 10-11-12, inevitavelmente se comete uma espécie de suicídio.
é um último suspiro antes da morte, 


uma dor de parto, 


um esmagador de dedo de bruxas na idade média.
a hipoglicemia e a fraqueza reclamam.


um rosto PÁLIDO no espelho que é o meu.
os livros estão todos lá, esperando por olhos.

o exercício do abstrato é dolorido, mas é como uma função já exercida.
em vidas pregressas nunca fiz academia, é alguma coisa que não sei.

então eu resolvo a questão com simplicidade: 


mando aquele peso todo pro INFERNO.
o natal está aí, o fim de ano.


vou encher o rabo de carne de porco, lentilha,


fios de ovos, aquela cereja sem vida da decoração, 


peru e e arroz à grega,


cervejas em comemoração ao papai noel.


e em janeiro, se o mundo não acabar, eu resolvo esse coma com a imanência.

domingo, 4 de novembro de 2012

vistas grossas ao que pulsa






A chamada antes de ouvir a voz dela era sempre precedida pela trindade do TÚ-TÚ-TÚ. Geralmente três TÚS previsíveis. Um sempre TÚ soa meio ansioso, adolescente. Dois TÚS parece corriqueiro e oficial. Dois TÚS é coisa de repartição pública e ligações de horário comercial. Então três TÚS era o que de menos óbvio haveria antes do início da indiferença, mesmo que falseada. Quando se conhecem às vezes as pessoas falseiam indiferenças,  é o blefe do amor que é perdoado por São qualquer coisa no dia do Juízo Final. Três TÚS é sinal de sinal de 
amor correspondido. Então ela falava um "alô" todo doce, e sempre parecia que antes de atender se masturbava. Um doce quase ofegante. 

A voz era a música de uma paz que vinha de uma viúva negra e quente e peluda. Mesmo em direção a uma morte presciente, firme eu ia em direção ao suicídio. Todos esses suaves suicídios que nem a vida, nem os homens, nem todos os seus códigos estúpidos poderia criminalizar... Além do instituído e das prescrições sociais esta a lacuna da vida, acontecendo em forma de dança, de preguiça e de sonho, incontrolável e fluida. Esse ir-se morrendo em direção ao amor vai nos deixando biruta até que a gente pare de respirar.

Então foi um "alô" e "alô". Conectados mesmo antes da conexão.