segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CHAMADA DE TEXTOS PARA OBRA "DIREITO E PSICOLOGIA A PARTIR DE ASSOCIAÇÕES LIVRES"

No detalhe, Warat dirigindo o mundo jurídico com um prato vazio!


O objetivo da presente obra é reunir textos que abordem, direta ou indiretamente, a temática Direito e Psicologia.

Com a proposta de inovar quanto à produção de sentido deste estudo interdisciplinar, propõe-se que os textos sejam elaborados por meio de associação livre, ou seja, desvinculados dos clássicos rigores metodológicos dos textos e artigos acadêmicos.

Luis Alberto Warat, ao escrever seu Manifesto do Surrealismo Jurídico, nos legou, além do brilhante conteúdo da obra, a forma pelo qual a mesma se materializou por suas geniosas mãos. Dizia Warat que escrevia em forma de manifesto, ou seja, sem deixar que o jugo da razão pudesse limitar aquilo que jorrava de seus territórios selvagens, em alusão à força de seu próprio inconsciente.

Se, por um lado, para o cientificismo moderno a “desatenção” às regras metodológicas pode significar carência científica, de outro, entende-se que o comprometimento dos autores na formação da presente obra, aliado às suas reflexões “maculadas” por seus próprios inconscientes, podem contribuir para uma profícua fusão de horizontes dentro do tema.

Os textos devem conter de 10 a 15 páginas (não sendo este um limite rígido), com fonte Times New Roman tamanho 12 e espaçamento entre linhas de 1,5. Os textos deverão ser encaminhados impreterivelmente até o dia 29 de fevereiro de 2012 para o email: ferrarezefilho@yahoo.com.br



Atenciosamente,

Alexandre Morais da Rosa,
Paulo Ferrareze Filho e
Alexandre Matzenbacher (organizadores).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

NADA NOVO





No chão do quarto, as formigas estavam entranhadas num pedaço de papel higiênico sujo de gozo, o que comprova que as secreções do desejo humano são doces... talvez fosse a tal sacarose da 7ª série. Faz tanto tempo que passei pela 7ª série que já não lembro porra nenhuma sobre biologia. Talvez todo o ensino esteja formatado pra ensinar apenas que podemos aprender. Não o conteúdo em si, mas a percepção de uma potência que temos e não sabemos como usar.

O coração tinha chegado perto de um infarto do miocárdio, e tentava se recuperar, sedentário que era o pobre por conta da minha preguiça. O melhor a fazer era fechar os olhos, respirar fundo, esperar que a vida voltasse a acontecer como sempre: igual, lenta, sem sentido aparente, com sorrisos espontâneos inventados, cotidiana como manter o corpo vivo. O cotidiano assusta demais o povo, que quer viver no êxtase eterno, na eterna sexta-feira, nas férias eternas, com o pau sempre duro, com transbordes de tudo, no eterno pódio impossível...A vontade de gozo é uma fuga como são as drogas, o futebol, o trabalho, as seitas, o álcool ou o facebook. Viver é basicamente uma procura por escapes do cotidiano. É por isso que os drogados morrem, que os jogadores perdem tudo, que os loucos são internados, que os workaholics não têm lazer. Quando a vida se esquece de viver fora do cotidiano, nascem os problemas óbvios que não vemos. O óbvio é um grande filho da puta, porque sempre se esconde num lugar óbvio que, por sê-lo, é o último a ser investigado pela maioria dos babacas...

Nos limpamos e aproveitamos aquele pedaço de momento em que a vida valia a pena. Precisava de água, minha boca era a de um peregrino do deserto que só tinha amendoins pra beber, eu queria tomar um drink gelado. Fui até a cozinha e bebi um gole longo de água no gargalo, não havia drinks gelados nem copos limpos - e se houvesse, usar copos pra quê? Enquanto a água descia pelo meio das vísceras, eu não pensava em nada. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

masturbando o amor...





Masturbar o amor é o melhor jeito de fazer com que ele goze na nossa cara!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

MÍNIMAS - 9


Harmonia, pedia um mendigo no metrô


ELOGIO AO DETALHE: Ser contemporâneo é ter intimidade com o detalhe. É uma inteligência que, no braço de um violão, cria acordes que formam uma música calma de se ouvir na sombra de uma rede, calma e toda detalhada. Como um flamenco que se escuta sentado, tomando um vinho. 

*

A verdade, por ser o primeiro passo no ar de um pé que acaba de deixar a superfície, é impossível à vida. A verdade é apenas um "estar morrendo" qualquer, é um clic de uma catraca no meio exato entre duas coisas diferentes e imemoráveis entre si.

*

Por paradoxal que possa parecer, o homem-aranha é uma fantasia do imaginário coletivo para demonstrar a força destruidora do feminino. A mulher é a aranha-moira de uma grande teia, que desenha traços de armadilha nos ares da floresta escura chamada vida. Durante o dia e para todos, as vistas são o escudo contra a escravidão e morte na teia. Mas durante a noite, a morte e a vida ocupam o mesmo lugar... e estão sempre prestes a acontecer. 

*

Se um corpo desatento ou sem fortuna encontra a teia, tem sempre sua força de resistência testada. Precisa juntar todas as maiores forças para livrar-se da confusão da trama que se mistura com as pernas paralisadas,  precisa esperar que a anestesia da possibilidade de seguir caminho passe. A liberdade perdida no instante requer a energia necessária...mas não para sair da teia, senão para mostrar à grande aranha que pode sair. Quanto a este aprendiz que acaba na teia: ou acaba preguiçosamente permitindo o corte frio da foice da morte ou começa a desfazer o nosado a tempo, com a astúcia devida para desarmar uma bomba-relógio.

*

CONTINUAÇÃO CONTEMPORÂNEA DO COMPLEXO DE ÉDIPO: São as mães que nos matam de não estarmos vivos.

*

Todos os paus são pequenos. Um pau duro é uma antena que tenta captar algum sentido no universo inexplicável e no mistério do universo de um útero.

domingo, 22 de janeiro de 2012

AMANHÃ




Assoprei um pedaço de laranja,
como para esfriá-lo,
igual se faz com uma colher de sopa quente.
Mas era uma laranja temperatura ambiente...
Então comi, mastigando e pensando na loucura,
esse estado que se alcança com sorte, trabalho e força de vontade.
Depois de torturar o gomo com os dentes,
numa inquisição alimentar, traguei o pedaço.
E pude sentir ele descendo morto pelo meio do meu peito até meu inferno estomacal.
O estômago é o inferno das comidas.
Quando me coloco no lugar das comidas, sinto pena delas.
As coisas que andam plácidas e conscientes em direção à própria morte têm minha pena.
É que resisto,
não me entrego mesmo com agulhas enfiadas embaixo das unhas.
Seguro um muro que é vorazmente atacado por bichos loucos de raiva.
Sustento,
junto com os últimos soldados famintos
e loucos
e suicidas
e também os indiferentes,
um outro muro em ruínas,
que faz uma sombra curta num deserto sem nome.
A sombra dá pra metade de um corpo:
num dia é preciso queimar a pele das pernas,
no outro, o peito e os braços e a cabeça.
A dor de queimar uma pele já queimada é lancinante...
mas só até que não se sinta mais nada.

A laranja morrerá amanhã numa descarga,
junto com todos nossos pequenos pedaços e dizeres invisíveis.
Amanhã, logo amanhã.
E os refúgios também morrerão com os dicionários.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

MÍNIMAS - 8





É preciso decretar a inaptidão dos sentimentos ante os devires da vida. Sentir é um equilibrar-se incessante, é correr cansado atrás das mil faces de tudo. Sentir é um copo que, no ar, ainda não se espatifou no chão. Sentir é o trono da incerteza, é o amargo deste tipo de vitória humana a que chamamos "amor".

***

As ficções não existem, são manobras contra a falta de memória.

***

Um homem passa a se sentir um homem quando consegue se identificar com o próprio pai. Quando somos pequenos, queremos ser tão grandes quanto. Quando somos fracos, queremos ter a mesma força. Quando somos frágeis, queremos ser resistentes com a mesma indiferença a todas as dores e frios e chuvas. Enquanto somos alimentados, sonhamos com poder alimentar. Enquanto sentimos que a vida é maior das angústias, desejamos a serenidade de contemplar a vida da varanda calma da velhice. É desse jeito que passamos a vida a tentar alcançar este pai, imaginário ou não, que, de um jeito ou de outro, sempre vai à frente, imortal que é. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O BISPO E A TORRE







Um mês sem sexo.
Ela vinha pela orla,
puxada pelo cachorro enorme que se fazia de cachorro pra ficar perto dela.
O cachorro era forte, desses grandes,
grandes e espertos.
Com uns solavancos de coleira,
gerava nela uns trancos de corpo,
e com eles uma dança naqueles peitos que eram um artifício da medicina para que o número de estupros aumentasse.
Usava um tênis de fazer caminhada na praia com um cachorro.
Um short curto, desses que deixam o fim do mundo mais distante e comprido.
Uma mini-blusa vermelha, essa cor mestra de todos os pecados do mundo humano.
Usava também uma cintura fina por fora e fértil por dentro.
Comentamos:
- Bah, gostosa.
Depois avancei duas casas com o bispo, de um modo a ameaçar a torre preta.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

1o CAFÉ FILOSÓFICO NA PRAIA - A jornada do homem contemporâneo


De conversas esparsas, tonturas existenciais (um jeito bonito de se referir a porres homéricos) e uma ideia inicialmente pouco pujante, nasceu o Café Filosófico na Praia.

Desde que vim viver do mar, percebi que poucos eram os lugares de Balneário Camboriú/SC para exercitar e compartilhar o devaneio. O devaneador é, na maioria das vezes, um solitário. Devaneia não porque gosta ou porque sinta apreço pela confabulação, mas porque não pode fugir da tirania do devaneio.

Mas os devaneadores também amam. E o amor, quando aparece, sempre pede companhia. Quando o amor aparece em forma de flashes esparsos, o devaneador hesita e duvida da saúde da própria solitude, fazendo dela, solidão. Se a solitude é um pote de mel, a solidão é um ácido de bateria na carne que sente.

Contra a solidão não bastam poesias, músicas do Chico Buarque, nem vinhos de bom gosto. Quando chega a solidão do devaneador é preciso compartilhar. Os amores grandes são sempre solidões partilhadas. Silêncios divididos ao meio. Ausências que andam de mãos dadas. Charlas econômicas que se complementam. Contemplações que miram, do mesmo mirante, a mesma paisagem.

É para dividir a solidão do devaneio que criei, com mais dois amigos, o Café Filosófico na Praia, que bem poderia se chamar Espaço do Devaneio. Em Balneário Camboriú a divisão do espaço público se dá ou com ecstasy (nas festas de música eletrônica) ou com fé cega (nas igrejas de todos os tipos e raças e bandidos) ou com à ode a beleza da praia (na democrática(?) "faixa de areia", que nega e julga os brancos, os gordos e as mulheres com a bunda mole).

São raríssimos os espaços de devaneio no litoral com o sol e a pujança do mar, com pinga pra encharcar as ideias, com ideias que superem a grande filosofia "telófica" do "ai se eu te pego..."... 

É para compartilhar solitudes, para fazer da divergência uma rainha do amor e para aprender, que queremos dividir o espaço de devaneio no 1o Café Filosófico na Praia que terá como tema nesta primeira edição A jornada do homem contemporâneo, com palestras do carioca Renato Kress e do filósofo Wellington Amorim Lima, música de qualidade, animais do mar fritos como comida, cerveja gelada, caipira pra melhorar o QI, vista pro mar, amor rabugento, poesias e teatro.

Então, saia da superfície e se aprofunde conosco:

Data: 21 de janeiro de 2012
Horário: 17 horas
Local: Pousada Raiz Brasileira na Praia Brava/SC - Rua Carola Coelho, n. 57 (na beira-mar)

Programação
17:00 - Banda Diogo e Trio (violão, sax e cajón)
18:00 - Palestras
19:00 - Debate com o público
20:00 - Teatro arquetípico
21:00 - Balada Filosófica anos 70, 80 e 90.


>>>  ENTRADA FRANCA <<<


PATROCINADORES

Faculdade Avantis
Procave
Livraria Nobel
Pousada Raiz Brasileira
Clínica Equilíbrio
Fundação Cultural de Balneário Camboriú
Cinerama BC
Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciências Humanas, Contingência e Técnica -UFMA

sábado, 7 de janeiro de 2012

HISTÓRIA DA SEDUÇÃO DESMEDIDA



A Beira do Pantanal
Foi lá na beira do Pantanal
Seu corpo tão belo enterrei
Foi lá que eu matei minha amada
Sua voz na lembrança eu guardei:
"Por que, meu querido
Por que, meu amor
Cravaste em mim teu punhal?
Meu peito tão jovem sangrando assim
Por que esse golpe mortal?"

Assassinei quem amava
Num gesto sagrado de amor
O sangue que dela jorrava
A sede da terra acalmou
E lá onde jaz o seu corpo
Cresceu junto com o capim
Seus lindos cabelos negros que eu
Regava como um jardim

A lei dos homens me condenou:
Perpétua será tua prisão
Porque foi eu mesmo quem calou
Com aço aquele coração

E eu preso aqui nessa cela
Deixando minha vida passar
Ainda escuto a voz dela
No vento que vem perguntar:
"Por que, meu querido
Por que, meu amor
Cravaste em mim teu punhal?
Meu peito tão jovem sangrando assim
Por que esse golpe mortal?
Cravaste em mim teu punhal
Por que esse golpe mortal?

Raul Seixas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

NOITE






Saio e contemplo a noite.
Como um lobo calmo e lento e invisível.
Dou vistas aos mal amados.
Jogo cartas com os bêbados.
Na esquina um cachorro coça o pêlo sob meu olhar de resignação.
Uma gorda rói as unhas por carências que não posso resolver.
Abraço os carentes de loucura à porta do manicômio.


Com os inconscientes, utilizo ainda mais inconsciência.
Aos que fogem, deixo que sigam em disparada.
Os que dormem num canto, atirados, esses têm meu apreço.
Aos que tomaram um pé na bunda, desejo que sofram até a morte.
A noite é a amante de um casamento com a solidão.



Vou amiúde,
cortando essas pestes que se espalham no pátio de uma casa esquecida.
Vou amiúde e lentamente,
até encontrar os que, 
embaixo de um teto, não têm uma casa.

Eu sento, sinto, penso, cito, pisco... tomo um gole.
Encharco as ideias sedentas - lombrigas de merda!
Me paro, me julgo, me analiso, me condeno...até que a morte me separe...
Estico as pernas, o sangue se espicha.
Escuto, enxergo, percebo, estou vivo... talvez eu recorde.
Acerca-se um qualquer, um nenhum.
Sinto com ele já que não há o que possa haver em outro lugar.
Sentir é um lar de irmãos.
Os caminhantes da noite se entrecruzam,
andam em círculos como zumbis.
Os do dia não deixam por mais.

Sinto-junto-com-o-que-sofre
talvez para roubar-lhe o sofrimento.
Sofro junto até não querer mais estar sofrendo.
E só não explodo porque sou um lobo já velho e respirante.

Compartilho um copo com a habitante.
Peço que a noite me tome em grandes goles.
Brindo com os fracassados a última vitória de uma rinha de galos.
Amanhã comeremos carne, 
já que só nos alimentamos com a ajuda dos dentes...

Tomo um gole.
Durmo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

BOAS FÉRIAS






Na carona das férias não tem cerveja.
Não tem sexo,
não tem nem sequer uma punheta.
No banco de trás,
todo peido será condenado.
No da frente também.

Na viagem de férias,
você poderá morrer a qualquer momento.
É perigoso achar que os que morrem são sempre os outros.
A qualquer hora alguém poderá vomitar em cima de você –
e os vômitos tem cheiros horríveis.

Ler causa um reboliço,
uma vontade conjunta de peidar, suar, vomitar e se projetar pra fora do corpo,
como se todo o corpo fosse uma bolha de ar e água prestes a explodir.
Pior quando existem cachorrinhos no banco de trás que vão peidando sem parar.
A verdade é que, 
lá pelas tantas, 
todos peidam com o mesmo fedor,
como as mulheres que menstruam ao mesmo tempo numa repartição.

Na mais democrática das hipóteses,
na metade do tempo,
você terá que escutar música escolhida por outra pessoa,
o que torna a chance de que seja um sertanejo muito grande,
considerando os dias de hoje.

Haverão as conversas sobre o tempo.
As paradas pra mijar.
Outras conversas que não chegarão em nenhum lugar e que vieram de lugar nenhum.
Piadas conhecidas sobre as placas de caminhão e
sobre as putas desgraçadas do asfalto.
Meditações de como aquelas casas rurais vivem tão singelamente mais felizes que nós,
que passamos correndo por elas em busca de algum alívio que nunca nos aliviará sem que seja mentira.
Ainda assim, faltarão muitos quilômetros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

POEMAS POUCO ERÓTICOS DE VERÃO ou O POEMA DE LARS VON




Não deixe de assistir este filme...



Dizem que o diabo se esconde nas mulheres.
Eu acredito.
No futuro,
teremos coragem de ser machistas apenas no meio de uma bebedeira.
As mulheres,
de um jeito ou de outro,
são as responsáveis pela nossa vida e nossa morte.
Estamos rendidos,
com a benção de uma gaita de boca feminina.
Elas tem a chave que abre a porta entre dois mundos.
São lindas balseiras no rio da liberdade.
Sãs e salvadoras.
Eu, em nome de todos os homens,
declaro que baixamos as armas,
que nos entregamos por escravos,
que estamos rendidos.
No final,
sempre vence o mal.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

DIABICES INFANTIS







Voltei a lamber tuas voltas,
enquanto tu acompanhavas

a miséria das minhas mãos trêmulas e suadas e nervosas e incertas sobre tua pele.
Minha petição era por morrer afogado de novo
na tua buceta úmida e cálida e venenosa.


Logo tua bunda voltaria a estar contraída e contariada contra o colchão,

expondo celulites que não julgam-se como tais durante um orgasmo.

Teu gozo sempre foi uma raiva expulsa,
uma angústia que deixava de ser câncer pela benção do êxtase do prazer do corpo.


Estaria eu de novo perto do teu ouvido passivo,
que esperava minha poesia de pernas abertas mas evitava meu pau de pernas fechadas.

Meu conduto poético vive na cabeça do pau,
que desabrigado, passa fome, fenece, esmorece moribundo.

Morre-se tudo: o amor, a amizade, o desejo, a poesia, potenciais orgasmos.
O talho é a haste dos óculos para quem pretende ver com lentes que façam ver de verdade. 


Mas volto-me pensando que tua boca -
não só ela senão também a língua,

fazia o pensamento em mim parar.
E já não sei se a poesia é por muito pensar,

ou porque, nas pequenas mortes, 
com o pensamento estacionado,
vou a uma grande despensa com enlatados poéticos nas prateleiras.

Ainda estávamos à flor da pele,

Resumidos a um beijo de sexos úmidos:
Tu, uma avalanche. Eu, gotejando.

A buceta que teus olhos viam pelo espelho,
era estranhamente minha porque chegava em mim como imaginura
 – e o cheiro como lembrança pornográfica.

Tua masturbação era a minha:
um jeito de continuar a paixão, a doença e o delírio.

Tudo que se relaciona precisa dessas 3 doses para ser eterno.
Nas feridas de cada um, estávamos estranhamente absolvidos e condenados,
livres e amarrados, respirando  o ar da vida à beira da morte.
Enquanto tua buceta continuava madura.
Meu pensamento ia madurando.

Um corpo maduro, saco de ossos se torna.
O pensamento, maduro se torna.

 Tu foste já minha alma e minha lama...
agora sobraram essas nuvens insossas.
Tua diabrura maligna se fez um chiclete vagabundo que rápido perde o doce.
Conceitos novíssimos talvez nos esperem,
para que tua sombra possa ainda me assustar.
Porque tenho saudade,
quero de novo o pesadelo devorando meus sonhos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

MÍNIMAS - 7





CIENTIFICISMO ÀS AVESSAS: Pesquisas afirmam que a maioria das mulheres são lésbicas no que se refere à pornografia...donde se conclui que toda pesquisa é uma grande mentira formada por pequenas verdade.

*
A melhor garrafa de vinho é a que permanece fechada pela urgência dos amantes.

*
UM AMOR QUE TRANSCENDEU DIZ: foste minha alma e minha lama... e só hoje nos fora permitido as nuvens. Eis uma experiência de totalidade estando vivo.

*
Os desejos subterrâneos de uma mulher merecem a calma de uma garoa que se arrasta ao longo dos dias e  que encharca, aos poucos, as entranhas longinquas do chão, até que toda a terra, amolecida por completo, caia sobre os vilarejos, devastando casas e dizimando almas.

ADULTOS NO ÚTERO DA HISTÓRIA

Na casa da paz, reina, além da paz, uma nudez despreocupada, um silêncio benigno, a calma das ruas marginais. Na casa da paz existe uma rede com tramas tradicionais, que se deixa ser tocada pelo vento sem sentir frio ou desagrado... Estando morta, a rede consegue ser mais forte do que eu que, supostamente, estou vivo, o quê, por si só, me desassossega.
Na casa da paz existe a potência da música, que dorme em cada instrumento não tocado – esse tão belo casamento entre homem e instrumento (se os casamentos fossem assim, uma conciliação entre o silêncio e a música, poderiam dar certo...) 
Para instalar a paz, como faz um técnico que instala uma antena de TV a cabo que multiplica os canais, é necessário abrir as gaiolas e deixar que os pássaros engaiolados voem para onde quiserem voar, isso se for caso de gaiola ainda não vazia.  
Com a liberdade dos pássaros, as gaiolas são inúteis, são adereços... Como espelho da natureza como faziam os antigos, cogito que ainda não sabemos separar o que é necessidade e o que é adereço com a liberdade que a história nos concedeu. É esse o cálculo a ser feito depois da conquista desse sentimento a que damos o nome de liberdade... Viver é perceber a vida como um amontoado de adereços decorativos que escondem coisas com as quais não sabemos viver sem... Do ponto de vista quantitativo, para cada um, há uma quantidade de necessidades - quanto menor elas forem, mais próximo do grande sono se está. Afinal, desde que se saiba que o grande objetivo da vida é morrer, não haverá mais qualquer sintoma da grande ignorância, desse som infra ou ultra que chega a tão poucas consciências sonares.  
A paz existe nos orgasmos de amor e de intimidade, na recuperação do fôlego que o excesso de participação na vida nos tira. É nesse sentido que o sedentarismo é um exercício poético: quanto mais plácido o corpo, mais rapidamente se perde o ar. Todos vivem de querer perder o ar, e é por esse desejo catastrófico de perder o fôlego que se instalam no homem todas as chagas do espírito. É esse desejo nirvânico, de tocar com os dedos o rosto de Deus e de descortinar a verdade por inteiro, que há que se decretar a falência de uma era. No cume das altas montanhas existe um baú com a inscrição “A HUMILDADE DAQUI PARA DIANTE...”. Dentro dele está, num frasco muito pequeno, a única gota que é necessária para que a vida se mantenha dentro de cada caminho de cada caixeiro viajante do novo destino. Parece zombeteiro? Em breve não parecerá...
A casa da paz abre as portas, para um mundo reinventado, com olhares sem medo, com uma injeção que pinga honestidade pela agulha, ávida para fazer matar e fazer viver, tingindo de verdade a verdade de cada um. O sol queimará toda pele fraca que não souber que a sombra é seu lugar. As teorias serão parciais, localizadas, regionais. Haverá uma outra metafísica, já que as matérias da metafísica serão experiências ligadas à carne, aos olhos, aos sentidos. Haverá calma ao dormir e interesses grandiosos ao despertar. Haverão ainda outros e novos caminhos para o devaneio. As casas serão, em todas as partes, igrejas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

TRESVALORAÇÕES





Há sempre um divórcio que nos espera. Esperar de alguém, alguma coisa, é sempre um divórcio de antemão. É sempre o além do presente aquilo que nos trai. Empírico que sou, recebo dos dados da experiência verdades parcias altamente consideráveis. Tivesse Aristóteles precedido Platão, viveríamos em um mundo mais honesto. Casar-se à moda antiga... - reflito à beira dos 30 anos. As pessoas se casam por conforto e medo, sobretudo por medo. Um medo que é da impermanência que elas mesmas sentem no corpo que sente. Se o corpo perece, porque o resto não haveria de perecer também? A instabilidade do que se sente, falsamente controlada pelo ritual exterior, termina como brincadeira adulta de papai e mamãe, com contas pra pagar e sexo aos sábados. É que estamos ainda domesticados a buscar soluções externas para dramas que são tão escondidos quanto secretamente guardados no infindo universo interior.

Casar-se? Indago-me... mas com quem? Com a velhice? Com a morte? Com a resistência das horas? Com este mato úmido que da serra me olha...e chora dentro de mim como um prazer calmo igual à morte dos orgasmos? Casar-se...? Para que o sentimento acabe? Para que a fantasia de imaginar pereça? Para que o perfume vire mau hálito? Casar-se para que se acabe o delírio da espera? - essa ejaculação tão precoce do espírito? Casar-se para eliminar essa mágica espera pelo paraíso que há no mundo empírico, em cada novo rosto e cada novo toque...?

Quê ainda resta que possa ser honestamente reticente, metafísico e infindável? Qual a graça de uma piada já sabida? Qual o esplendor de uma paisagem já tão consativamente provada pelas vistas desses olhos coletivos que também são nossos? Quê resta que possa ser possível sem deixar de ser extremado e intenso? Eu não gosto desses divórcios que a cultura empobrecida que temos coloca no porvir de nossos caminhos. Das despedidas, se forem inevitáveis, espero honestidade - esta tão pequena lei. Fujo de finais inesperados e dolorosas cisões espirituais...por isso vivo a vida como o aprendizado de investir em tresvalorar as relações. Quero ser rico da riqueza de agregar o que em mim já passou...o banco dos réus que a história, a cultura e a moral me convidam a sentar, é para mim um trono.


Aquilo que ainda se pode perder é tão mortal como dez facas lancinantes em direção ao coração, o que me faz concluir, como Quintana, que apenas o que já se perdeu pode perdurar. A saudade do que foi e que já não é, é uma presença, e talvez a única imperecível. A lembrança de um cheiro que num repente nos visita as entranhas da sensibilidade cerebral. A cólera abstrata de um ciúme posseiro, de um domínio que nunca nos pertenceu e nunca pertencerá... São demasiado gasosas as coisas a que temos direito na memória... mas só se quisermos manter esse mundo de mentiras, não sinceras, mas desonestas de dar dó. Se assim não se dá, os amores terrestres vivem apenas se começam tarde, como aliança numinosa à beira da morte. José Saramago e Pilar me fazem ter essa sensação.

Pensemos então. Se os relacionamentos tradicionais flertam com a permanência, talvez seja a morte minha noiva sutil e benfeitora. A morte - eu disse a morte - como única permanência. A morte no altar, dizendo em polissemia que apenas ela mesma é que separará o indivisível. Se a morte é rainha, que possamos ser como Édipo para tomar, domar e se apossar da morte em busca da eternidade que temos direito. O domínio da morte permite uma outra realidade, que só pode ser outra em toda a sua nudez e toda a sua mudez. Dominar a morte é manter-se na crista de uma onda que não termina quando encontra a praia. O gingado de manter a consciência entre o suicídio da loucura e a derrocada de uma vida meio assim fosferina: ferina e fatal como um fósforo acesso, normal, corrente...um peido histórico que se perde no ar da memória.

Sentir o presente é o mesmo que sentir verdadeiramente um presente que uma pessoa querida nos entrega com toda uma honestidade que vem dos mais encravados sentimentos que em ambos existem. Os presentes extremados são os que fazem sentimentos subterrâneos se entrelaçarem: um amor e um grande desejo futuro, uma paixão e um projeto de vida, um sentimento e uma velhice programada. Não importa o quê ou como se sinta, basta que seja extremado, com adrenalina, inevitável como um orgasmo que já não se pode evitar por mais que pensemos em todas as contas que haja pra pagar e por mais que se aperte a cabeça do pau. Conhecer com agudeza almas alheias: é assim que aquilo que se perdeu permanece em nós como sonho, memória e transcendência. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

CARTA À NOEL: "DEUS É PAI, NOEL..."


"A origem do universo" de Gustave Courbet...censurado no facebook da Neoidade Média


"Se o medo da loucura, nessa estrada escura,
me afastar da luz, que me conduz.."Raulzito

O legal legado do Papai Noel, à parte a besuntada tarefa dos que fazem bico nessa época com uma indumentária nada tropical, é que, no natal, somos remetidos aos delírios e dilemas do nosso inconsciente em relação ao fim dos ciclos. O final de um ciclo lembra fim, cessação, não-ser, não-estar, inércia existencial. Fim lembra que a especulação sobre nossa origem e nosso final não conseguiu evoluir para além da especulação, visto que as especulações são fragilíssimos bebês de proveta do pensamento.

A tentativa de resolver dilemas indissolúveis nos conduz a um abismo que tem dois buracos: o primeiro é o buraco da busca do conhecimento; o segundo, o buraco da sensação humana de totalidade ou aquilo que ocidentalmente (ou seria acidentalmente?) se chama de Deus. O legado do Papai Noel é apenas material filosófico para quem o percebe como ser histórico do imaginário popular, como dado folclórico e mitológico do gênero humano, como a simples representação teatral que é.

Vamos à silogismos e "deducionices": se Deus é pai, se o padre é a representação de Deus na Terra, se os pastores dos rebanhos são solitários que conduzem um rebanho como Deus conduz, do céu, os mortais... (Mais se's...) Se o Pai é Deus e se Deus é Pai (agora maiúsculamente)...então Deus é o Papai Noel e vice-versa (se não entendeu, tome um gole e leia de novo). E é essa tentativa de estabelecer um contato com algo que não está disponível entre os fenômenos que reside a necessidade de Deus, tão aguçada no Natal, que não por acaso está associado ao final do ciclo de um ano...Deus é ainda, entre os homens, uma exceção. Uma exceção porque, se Deus fosse comparado com um filho, seria sempre o filho exceção...ou alguém extremamente amado, ou alguém completamente rejeitado. Nos homens, ou Deus é adorado, ou Deus é odiado a ponto de que haja a negação completa da imago dei. A negação da  ideia divina se constitui como inflacionada característica inconsciente que provoca o ateísmo consciente. O ateísmo é, sobretudo, um acento muito próprio de um perfil narcísico e pouco maduro ou, para usar a expressão de Jung, não individuado. Contrariamente ao paradigma científico, que opera redutivamente considerando as maiorias como totalidades, a interpretação de Deus pela consciência humana se dá nas beiradas, nos extremos, no que se destaca entre o bem e o mal, entre a luz e o breu. Deus nos homens nunca é sombra: ou é luz ou é escuridão, ou é vivo, como para os religiosos em geral, ou é morto, como para os ateus e céticos e niilistas. Me permito intuitivamente dizer que Nietzsche matou Deus e criou um outro, a que chamou de amor fati, ou, a monarquia aristocrata do “agora”, hoje tão mal visto nos livros de autoajuda que,se funcionassem, não venderiam tanto...

Judaico-cristianamente falando, pode-se dizer que boa parte dos equívocos da leitura bíblica se dá pelo esquecimento do caráter metafórico das alegorias dos contos, do Gênesis ao Apocalipse. Entre os religiosos ignorantes das mais diversas seitas, a leitura é estilo “ao pé da letra”. Ao legar a expressão “ler ao pé da letra”, a cultura ensina que toda rigidez que conduz ao extremo da literalidade é uma superficialidade. Imagino que o “pé da letra” seja um lugar baixo demais para as pretensões maiores do homem. Imagino que o “pé da letra” seja apenas a escrivaninha de um estagiário, ou de um pau-pra-toda-obra qualquer. Essa é a maior pobreza sombria de uma consciência religiosa. A consciência religiosa é dos crentes e dos ateus - sim! Por mais paradoxo que possa parecer, é inevitável atestar que crentes e ateus acreditam piamente em Deus. A leitura que nega o caráter simbólico da linguagem bíblica é a leitura materialista que fazem os religiosos. É possível, inclusive, problematizar-se os fatores inconscientes que existem entre a leitura extremamente materialista que se arrastou ao longo do desenvolvimento religioso e os excessos que hoje colocam em xeque a estrutura materialista que preponderou ao longo da modernidade.



O leitor tradicional da bíblia considera que Deus, em nenhum momento, permite uma briga de bombris ou um homem que dê a bunda. Dos religiosos aos constitucionalistas materialistas, entende-se que a menção feita é literalmente de homens e mulheres... e não do masculino e do feminino, como a metáfora sugere. É possível entender a ideia de "negação do mesmo sexo" como sendo a tendência do homem inautêntico (bom exemplo é o homem autômato e robotizado do modelo econômico-cultural-e-pensante atual) de desenvolver-se por completo ou, o que a mitologia de Campbell chama de realização da jornada do herói. A completude como integração dos conteúdos masculinos e femininos do psiquismo individual e coletivo é o processo de passagem pelos rituais que marcam o desenvolvimento do herói do nascimento à morte. Pelo olhar da psicologia analítica, o que essas passagens bíblicas pretendem é apenas alertar para a necessidade de que temos que descobrir o par oposto que está latente dentro de nós mesmos.



Esse mandamento oracular em nada se confunde com o fenômeno da sexualidade corporal ou eventuais desejos homossexuais, como parece ser a interpretação materialista e literal do texto bíblico. O feminino e o masculino são forças inconscientes que estão presentes no psiquismo e, o processo de integração, ou a construção do sujeito de tantos e tantos dizeres tantos da história, é a atitude consciente de lançar luz sobre o outro lado de nosso grande muro psíquico para que possamos experimentar a plenitude que nos é possível, mesmo que essa mirada de luz em direção ao escuro tenda à inércia e seja, por princípio, contrária ao andamento "normal" de nossa consciência. É nesse sentido que existem razões suficientes para atestar que o autodesenvolvimento consciente de individuação, ou a autopromoção da aceleração deste "processo"  é uma espécie de estelionado, já que ultrapassa a barreira do desenvolvimento natural da consciência. O Éden bíblico, visto como metáfora, não é nada mais que a individuação do psiquismo por meio da integração de um oposto. Visto com estas lentes, a leitura bíblica tradicional e materialista me parece desatualizada, antidemocrática, pobre, rasa, medieval, tosca, chula, intelectual e espiritualmente vagabunda...mas apenas ME parece, é bom se diga.



A autoridade de Deus no antigo testamento que a ele dava poderes de condenar os que não estivessem sob seu jugo, é apagada quando Cristo e Satanás, os dois mais famosos filhos de Deus, se tornam líderes dessas duas grandes equipes do Senhor: o bem e o mal, o céu que não existe depois que descobriu-se o caos do unverso e o inferno que é quando estamos tristes de verdade... A autoridade de Deus, que é absorvida por todas as interpretações religiosas da bíblia e de outros textos tidos por sagrados, é a grande miopia em termos de historicidade na análise dos textos bíblicos por grande parte dos religiosos de todos os tipos.



Há um assustador exercício de arbitrariedade - para dizer o mínimo - em um texto que expresse autorreferencialmente que contém, em si mesmo, sua própria interpretação. A hermenêutica filosófica trata de conferir autenticidade às interpretações por meio de um diálogo com a tradição, uma espécie de aferição de equivalência entre aquilo que se quer interpretar e o que historicamente de fato se deu em relação às relações entre as coisas e os sujeitos históricos. Mas é pelo fato de que essa hermenêutica desconsidera as partes inconscientes da história coletiva, que este correto mandamento hermenêutico deve ser relido. Não sem razão que a religiosidade pré-antiga e mesmo a pré-socrática oferece um extenso rol anti-hierárquico, quase caótico de divindades. Alguém que não seja especialista dificilmente saberá qual dos deuses gregos da mitologia é o primeiro ou o pai-de-todos-os-outros. Por outro lado, todo e qualquer ser humano na Terra sabe que é o DEUS garrafal, nas três grandes ramificações religiosas do judaico-cristianismo, do islamismo e do budismo, o grande inventor de TODO o universo...essa atitude tão manifestamente masculina e paranóica do psiquismo coletivo.



As religiões que se desenvolveram ao longo deste grande período patriarcal de nossa história (de Sócrates à Nietzsche) se identificam pela criação, em cada uma delas, de códigos sagrados que encerram perigosamente em si mesmos um sentido de unidade interpretativa estrita e literal. Nietzsche foi o grande retrato humano e coletivo da tragédia de Sófocles, Nietzsche é a personificação do Édipo que tem a Moral como Pai e o instante como Mãe...Nietzsche mata nosso instinto de necessidade pela figura paterna, para que possamos tomar posse integral de nossa imanência na grande Mãe Terra. É Nietzsche que, antes de todos, abre as portas do modelo de pensamento contemporâneo – esta menina que engatinha... É em função do paradigma patriarcal que o argumento de autoridade materialista do texto bíblico diferencia o homem da mulher. Entre os intérpretes materialistas e rasos e pobres da Bíblia não se entende que a separação entre homens e mulheres é apenas uma metáfora sobre a desintegração do homem com o si-mesmo, na lendária instituição do pecado pela maça edênica – porta de entrada no humano mundo dos contrários (a árvore do conhecimento do bem E do mal). É assim que na bíblia, onde se lê que [..........] não se pode ver mais que o roteiro de um teatro psicológico, nos moldes do romance de James Joyce, que eu nunca li.



O potencial lesivo do argumento de autoridade dos textos sagrados que são interpretados sem a necessária conotação metafórica é assustador. A diferença lançada entre homens e mulheres no texto bíblico, e mesmo o argumento de separação dos homens mediante o fator de crença absoluta em Deus (este da bíblia cristã) são, todos, o mesmo perfume de todos os regimes totalitários de disputa que brotaram entre os homens na Terra: bárbaros e romanos; cristãos e pagãos; católicos e protestantes; negros e brancos, indígenas e europeus, capitalistas e socialistas; crentes de todos os tipos e ateus de todas as raças... É assim que a pobreza dos olhos da grande casta de medíocres que sempre prevaleceu e sempre prevalecerá na Terra fez, de tudo que foi sagrado, o combustível do que de mais vil, hostil e cruel se noticiou na Terra. A bíblia, usada como grande fundamento moral de todo o sangue que escorreu pela Terra e toda a pior dor da carne, se fez código de horrores tanto quanto se fez código do humanismo e da benevolência.



Ao requerer, ao longo desse longo período patriarcal, uma (única) interpretação correta (inviável pela falta de paridade axiológica de acordo com a pluralidade de seitas), o fenômeno religioso das religiões se constitui como o grande transe de toda a cultura humana, um estado de sonho do qual dificilmente a humanidade conseguirá lembrar quando acorda...Assim como pouco lembramos de nosso antecessor período matriarcal... - O Ensaio sobre a Grande Cegueira Paradigmática da História.



Para os pré-socráticos que testemunharam o último grande momento do matriarcalismo ocidental, o homem era o centro e a medida de todas as coisas. Se temos o dever de dar um passo, nesse momento de bancarrota do patriarcalismo, este passo é corrigir o adágio de Parmênides, para dizer que o homem é o centro e a medida apenas das coisas que quer ao seu redor... O Juízo Final é o oscar da Paranóia, em que todos vestem black tie e esperam sentados a chamada de Deus...aos ganhadores os louros, aos perdedores, o quinto dos infernos. Por trás das religiões e do Deus por ela inventado está o arbitrário livre-arbitrio dos homens. O Deus das religiões é apenas o resultado de um nepotismo histórico. Feliz Natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

mas acontece que eu saí por aí, e aí, lararí

CONSTELACIONES CRONOPICAS






P'al cronopio de la matina y p'ala imaterialidad de Cortázar


Del negro ángel de los territorios selvajes,
vino la brisa universal de los cronopios.
De manos seguimos al pueblo que nos llamaba,
como una pareja poetica de una temprana matina.
A la grán puerta, ya nos esperávan los cronopios,
y su verde no era tan verde así como al verde lo sabemos.
Aún así, la regla es:
luego se pinte el cielo con constelaciones cronopicas,
ya estarán dormiendo los famas.
Pobres famas que se duermem rotos,
cotidianamente rotos sin saberse,
monotonos,
fríos,
previsibles,
sin aire,
a un solo paso del centro homogeneo donde todo es igual,
duros como cualquier cosa sin vida
- piedras sin sensasiones de ultraje -
hechas de un grís terrible que se difraza en superdosis de color.

Verdes: así son y así se veen los cronopios, pues que son transparentes.
En verdad - pa'que se arreglen las palabras -
son medio verdes,
pues que en el territorio de los cronopios también los colores no están bien ubicados.
Pero los cronopios no esperan nada,
ni de la vida tampoco de la muerte,
a ellos poco importan los temas de ubicación...
Ellos están colgados en una trama de sueños sin saber la verdad...
sobretodo porque no la quieren.

Cuanto más fondo se consume la noche,
aún más duermem los famas.
Y quién se cree como gente,
sigue meditando la verdad cronopica mientras duda de la verdad de los sueños cargados de este "solo-ser-gente"...
Los que los codigos llaman de sujeto...
son los famas cuando despiertan por la mañana...
Los famas en vigília es lo que la historia llama de gente.


MÍNIMAS - 6



Uma bunda é para o homem o que uma coleção de bolsas é para a mulher. A bunda é apenas uma reunião de toda a futilidade do homem.

*

Quando Lacan diz que o inconsciente se estrutura como linguagem não está fazendo mais que fenomenologia de um bêbado que balbucia palavras inconjuntas.

*

Os problemas não têm solução porque sempre são outros.

*

Os pensadores, os animais caçadores, os escritores: todos estes aguardam, passivos,  que o “alguma coisa” lhes aconteça.

*

A liberdade que os suficientemente fortes tem, os liberta suficientemente para que possam ser livres...com todo o prazer de sê-lo.

*

RELACIONAMENTOS MALDITOS QUE SERÃO BENDITOS: eliminando-se o pecado, não há culpa de lado a lado.

ELOGIO AO ÓCIO





Alguns chamam de preguiça,
outros de vagabundagem.
O batizaram de irresponsabilidade,
de descompromisso, de falta de objetivo.


As coisas são ociosas,
mas só um homem pode usar a palavra ócio.
As coisas ociosas, como uma geladeira sem uso,
uma televisão 40 polegadas com tubo de imagem pesada como uma vaca morta,
ou uma tranqueira guardada em algum lugar de tranqueiras ociosas...
- tudo isso são coisas que não podem dizer que desfrutam do ócio.

É como a coisa-em-si que nunca conseguirá ser a coisa-para-si, isto é Sartre - bom que se o saiba!
As coisas-em-si não podem se vangloriar da ociosidade que experimentam.

É por isso que ainda guardo esperança pela raça dos homens,
em lampejos de otimismo (ou seriam lampejos de madureza?)

Posso ir até a hora em que as coisas forem ao meu redor:
essa é a fortuna do ocioso.

Fazer nada.

Deitar sobre o nada.

Não esperar nada do amanhã.

Não pretender o amanhã, nem a hora seguinte, nem mesmo a próxima música...

Meio assim, entrelaçando-se com a grande comédia da vida,

toda a mudez irônica de nossas vozes sem alcance,

toda a graça ambulante do nosso bolo de farelos humanos,

toda essa comédia, engraçadíssima, de não ser nada,
nadica de nada, o farelo do peido do cachorro do grande Monstro,
ou o farelo do peido divino do nosso Grande Síndico Divino...

ou ainda de ser apenas um peido ocasional, de uma tarde monótona, cotidiana,
sem novidades, nem dores nem orgasmos de porco,
neutra, moribunda, insossa...
um peido sem persistência, sem barulho, sem fedor.

*

Olhem aqui nos meus olhos,

Com seriedade!

Me olhem como quem quer realmente escutar o que diz a alma,

Ouvir como quem pretende ver com os ouvidos...

Me olhem com toda paradoxalidade,

Me olhem como quem olha o mundo que se dobra ante o vento que vale a pena.

Me olhem com nudez, vontade, concentração.

Me olhem estando prostrados diante de mim.
Me olhem no grão do olho seus filhos da puta, seus miseráveis
Me creiam: a miséria dos ócios determina a infância das almas.

Me creiam, almas juvenis:
saibam aceitar o estado de pureza de tudo que é vão e em vão.

domingo, 18 de dezembro de 2011

MEU VERMELHO



Meu vermelho são raios que acontecem ao meu redor.

Meu vermelho parece com o inferno.

É uma cabeça que acorda natimorta

com um dos lados da cara numa poça de sangue na Av. Alguém Importante.

Meu vermelho tem tons de laranja relâmpago.

O laranja é um vermelho disfarçado.

Existem cores e pessoas de dar dó.

Mas é preciso o laranja, pra se chegar ao vermelho...caravela hacia al cielo!

O laranja é o cara que foi usado por outros caras pra esconder uma pilantragem.

Meu vermelho é uma espanhola morena,

coxas esperançosas,

hálito ruim e quente de sangria vagabunda,

castanholas e aquele vestido arquetípico,

ácida sensualidade que desconcerta meu olhar.

Um olhar de vampira de filme do SBT.

Meu inferno é um jogo incessante entre o nobre e o vagabundo. 

Posso dizer aos que ao inferno chegarão:

o inferno não é um recreio assim tão áspero do nosso filme.

Os recreios de escola são quase piores que o próprio inferno:
toda crueldade, vileza e ódio humanos puros estão num recreio de escola.

O inferno vale a pena porque é um inferno querido, pensado, projetado.
Se ocorre de infernos aparecerem sem que os queira:
sinal de que ainda se deve muito à si mesmo...

Infernos autênticos são de antemão arquitetados.
São melhor lugar que museu ou praia.

Museu é pra gente que gosta de dizer que foi a um.

A praia é dos covardes que não suportam a melancolia do frio,

átrio jocoso do inferno.

Meu vermelho é de morangos maduros que lembram mamilos rosas com tesão,

é uma cabeça de pau inchada.

Meu vermelho é a sensualidade de uma pessoa que sou sem querer,

e todos meus estagiários do destino.
O inferno é a falta de Senhores, de Reitores, de Direção.
É uma peça sem cartaz, sem horário, com personagens fantasma,
e uma única platéia feita de você.
Meu vermelho é uma mulher que usa meu pé pra acariciar a própria buceta enquanto escrevo.

Pois...Agora pouco me resta:

estou sendo pressionado a parar de escrever.

Deve ser por isso que dizem que o demônio vive dentro das mulheres,

são elas que acabam nos falindo, de um jeito ou de outro...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DEUS DO CÉU, ESCUTAI A NOSSA PRECE





Deus está morto.
Foi Nietzsche quem disse quando estava vivo,
mas hoje está morto.
Sócrates está morto.
Ulisses Guimarães também.
Napoleão tinha um micropênis e também está morto.
Freud virou pó.
A democracia se esvai, moribunda.
O superego é só linguagem, sabia Lacan.
Essa gente sabe de tudo.
Mas sabem falando.
Falando não se fala de Deus, entendam de uma vez.
Deus é brincar um pouco no meio de tudo.
Se beber, melhor.
Quanto mais, melhor.
Desde que não se vomite.
Beber exige experiência, aristocracia, fidalguia.
Falar de Deus? Ah, parem de encher o meu saco!
Ou senão lambam ele, divinamente.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Será que Nietzsche gostava de peitos ou preferia as bundas?


Eu e Cassandra em 1912

Trepávamos como a unidade do espírito santo amém.
Evito dizer essas rezas.
Como evito escrevê-las
por medo de escrever sobre alegrias.
Sou um egoísta das alegrias.
E,
além do mais,
as alegrias me deixam com medo.

Ela circulava pelada pela casa em penumbra,
usando uma camiseta surrada que talvez fosse minha.
Os bicos arrepiados não eram dois, mas apenas um.
Na verdade eu que já não enxergava direito.
Ela tinha um bico que vivia arrepiado e outro que vivia murcho,
pra dentro, introvertido, negativo,
como se se recolhesse chafurdando o mundo.
Esse bico só aparecia durante o sexo,
ele era um egoísta como eu,
ou talvez era apenas alguém tímido.

O repousou, a morte, as ilhas que habitamos no mar do universo:
tudo isso quando está ao nosso redor é tão familiar,
- e não temos medo do que nos é familiar.

São paisagens, demasiado paisagens,
como Nietzsche já disse sobre os humanos que vivem em nós.
Será que Nietzsche gostava de peitos ou preferia as bundas?



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

POEMA PARA AS MULHERES DESEMPREGADAS


vovó com a casa vazia e a cabeça no diabo


Como vovó já dizia:
"cabeça vazia, casa do diabo".
Vovó era politicamente correta.
Não a culpemos.
Ser correto era um mal do tempo das vós.
Hoje é menos incorreto ser incorreto.
As siriricas já nascem nos lábios lambuzados de batom e glós e mesmo os crus.
(Nada como lábios crus)
Vózinha tinha tesão contido, pobrezinha.
Se você já ficou uma tarde em casa, sozinha,
sem porra nenhuma pra fazer, entenderá a vovózinha.
A louça e os filhos eram o chocolate da vovózinha,
assim como é o trabalho é para a mulher contemporânea.
Às desempregadas, resta o flerte com o diabo.
E é provável que o diabo da vozinha seja o mesmo dessa sua coceirinha:
o diabo do ditado é bem dotado,
duro, venoso, inchado,
com a cabeça roxa.
Hoje temos democracia:
se a casa estiver vazia, ligue pro diabo.