domingo, 2 de outubro de 2011

REFÚGIOS DA CONSCIÊNCIA NIILISTA

Hoje quero dizer as coisas com calma. Se você está com preguiça, pare de ler. Provavelmente este seja um texto longo, a não ser que eu canse antes de que o texto fique longo. Ando deveras preocupado com o pragmatismo do meu pensamento e com o embuste da minha razão equivocadamente sensível. 

Talvez trate-se de uma revisão de paradigmas ou mesmo de uma confirmação. Atravessar o autoritarismo da matéria é um tormento para quem habita dimensões etéreas, tão dispensáveis a tudo que parece ter algum valor ou brilho terráqueo. A matéria, que só cede com cortes profundos de lâminas assassinas (e "reais"), acaba quase intocada com a lentidão e suavidade do pensamento, por mais cáustico que ele seja.  

Confesso que me vejo sofrível porque sofro influências. Não fosse por conta das influências (de um pai, de um pastor, de uma puta, de uma teoria), não seríamos aquilo que somos. Somos reprodutores, copistas, repetidores. Ou melhor, eu é que sou: um reprodutor, um mero copiador de formas... Esse impulso de teorizar a partir da pobreza da nossa experiência é uma pulsão esquecida pela psicanálise da velha guarda. A rua e os bares estão minados de teóricos generalistas a partir das suas experiências únicas. O que se diz pelos alto falantes do mundo, porém, é uma ode sedutora à necessidade de sermos únicos, diferentes, referentes particulares, faróis altivos na solidão do alto mar.

É que me filio sempre à empiria, à observação despretensiosa do bicho homem, dos seus jeitos e modos de lidar com as mentiras que ele mesmo cria. Nesse sentido, faço de mim um laboratório e dos outros um fenômeno de observações com conclusões imediatas. Vistos como fenômenos, os outros simplesmente acontecem, e suas ações e reações não precisam necessariamente ser efeitos de uma causa psicológica ou antropológica qualquer. O outro como fenômeno me confere a possibilidade de concluir a cada cena da vida. Não perco tempo em concluir porque o tempo do teste do pensamento já faz a "experiência" mudar, o que inviabiliza qualquer conclusão que pretenda ser minimamente honesta. Testes longos são tarefa para a paciência científica e seus aceleradores de partículas. A ciência que me pertence é a apenas a ciência de estar ciente do que faço, de porque existo e de como interajo com o meu entorno.

Tendemos a repetir - é o que vejo ao meu redor. Voltamos ao mesmo restaurante, ao mesmo prato do mesmo restaurante. Tendemos a amar a mulher que já sabemos amar. Tendemos a ter músicas preferidas ou estilos teimosos, quase arrogantes. Tendemos a criticar as mesmas coisas – e nesse aspecto eu sou um repetidor contumaz. Tendemos aos mesmos vícios, esperando que a fajuta imortalidade da vida nos conceda tempo no futuro das nossas ilusões. Tendemos a trepar do mesmo jeito. As mulheres são campeãs em gozar de poucos jeitos... ou talvez eu é que seja mesmo ruim de cama, desfavorecendo as mulheres na multiversidade de posições orgásmicas. E, falando em sexo, tenha cuidado se sua mulher goza apenas em cima de você. Isso pré-indica duas conclusões: a insuficiência carnal de seu pau, e a vontade de domínio dela sobre você. Mulheres dominadoras só gozam em cima. Com essas, o melhor é sair correndo. Tendemos, enfim, ao eterno retorno que Nietzsche disse antes e Freud, depois. E com certeza muitos tantos antes de Nietzsche e outros depois de Freud, porque até com o alto escalão do pensamento existe muita repetição...

É pelo fato de que, tanto as repetências em si como o próprio fenômeno é repetido, que precisamos entender os mecanismos de repetição que acontecem com todos, em todos os lugares, em todos espaços e tempos históricos. A ligação do pensamento de Campbell com Jung se dá exatamente nessa pequena abordagem acerca das repetições – tempo para um gole de vinho, com licença (hoje estou educado).

Os comportamentos-tipo, também chamados de comportamento padrão, que se fazem experiência em toda a existência humana, são a chave para a compreensão de nossa própria totalidade, tarefa para que possamos subir ao próximo degrau. Platão estava certo. Platão falava de verdades, ainda que fossem as verdades inventadas por ele mesmo. Mas Aristóteles também falava verdades. Os medievais falavam verdades. Os dionisíacos da razão falavam verdades. A verdade que eu falo é verdadeira. A verdade da síndica do meu edifício é uma baita verdade. A sua verdade, estimado leitor, é verdadeira. E nessas inconjuntas disparidades, a saída de todos é perceber que desde sempre estamos condenados ao êxtase e ao tormento da nossa própria verdade. Perceber esses degraus que - mesmo diferentes entre si - são, todos, o próximo de todos. Todos temos um próximo degrau, afinal.

Se cometo alguma poesia no meio do texto, peço que compreendam minha estação (estou supreso com a minha educação de hoje, talvez seja porque eu ande me sentindo culpado por alguma coisa e, por isso, estou tratando todos muito bem. Quando estamos devendo alguma coisa a nós mesmos, nos tornamos mais legais com os outros...).

Para que possamos sanar desde já equívocos futuros: Platão errou ao generalizar o conteúdo das formas. De qualquer modo, não existe ninguém com honestidade na Terra que se sinta completamente a vontade para falar de um grande filósofo. Entre os que estudam filosofia, aprofundar-se em um grande filósofo, para "colocar as lentes de determinada teoria", é tarefa básica, quase um postulado. Eu não concordo com essa regra na medida em que é impossível aprofundar a teoria de alguém sem ser esse alguém.  Para falar de Platão seria preciso ter estado do lado dele ou mesmo ter sido ele...Nesse sentido, o que se fala de Platão são atestados de incapacidade. Eu mesmo, que falo de Platão nas minhas aulas, sou incapaz de tecer comentários a contento sobre a teoria platônica, por isso é que uso o método da intuição global histórica (um método que inventei agora e que não estou com saco de explicar). Afinal, Platão errou ao generalizar os conteúdos e não as formas dos conteúdos. Platão é o pai de todos os preconceitos ocidentais. Platão é o culpado pelo aperthaid, por Hitler, pelo totalitarismo da globalização.

 Esse foi o conserto dos mitólogos que perceberam o caráter representativo-metafórico do mito. Representar, repetição e reprise, são todas palavras que tem o mesmo prefixo "rep”... provável, portanto, que tenham alguma familiaridade entre si, mas esse é um dado puramente intuitivo (do mesmo método de cima) já que não estou preocupado com comprovações científicas de absolutamente nada.

Assim, se nossa característica de “rep”etidores estiver intuitivamente certa, podemos concluir que nós somos nós mesmos só um pouquinho. Provável que o livro Repetição e Diferença do Deleuze fale sobre isso. Esse é mais um dos tantos livros que eu comprei e não li. O amontoado de livros não lidos é fonte de desassossego para quem imagina que a conclusão divina da soteriologia pode ser encontrada nos livros. De todo modo, como não podemos ser escravos de nada, que se fodam os livros. Adoto o método sincrônico de eleição de leituras: leio o livro que escolhe ser lido por mim, ou seja, quase não participo da escolha. Não apenas útil para leitura, esse método é familiar àquele dos estóicos gregos que acreditavam na indiferença como grande ferramenta para engoliar a supremacia da razão cósmica. Indiferença é um bom antídoto para as culpas e ressentimentos quando acabamos sendo demasiadamente humanos e maniqueístas. 

Tirassem a vaidade da filosofia, todos os filósofos seriam compreendidos. Os filósofos são pessoas que perdem a paciência com facilidade. Os filósofos de verdade são pessoas que não têm em si o atributo da paciência porque conseguem ser sem participar ativamente da existência, relacionando-se intimamante com elementos externos. O pensamento é o único local de nudez para o filósofo...e quanto este sai às ruas para gritar aquilo que foi pensado, já está sempre vestido e com alegorias que escondem o bruto daquilo que pensou genuinamente. O filósofo é, então, um partícipe indireto da vida, um alguém que opta conscientemente pelo diálogo interior sem que isso represente qualquer tendência egoísta.
Para Raul Seixas o astrólogo conhece a história do princípio ao fim. Na verdade qualquer um pode conhecer a sua própria história do princípio ao fim, mas apenas os filósofos que sabem que são filósofos, podem conhecer, além da história pessoal, a história coletiva do inicio e do fim. É mais ou menos nesse ponto de explicação que a coisa toda se perde. Nesse ponto, só com poesia é que as coisas podem ser ditas.  Só com as roupas metafóricas da poesia é que consegue-se dizer aquilo que não se pode dizer.  

Para que fique mais claro, é como um filósofo que lembra que, desde sempre, foi um filósofo – eu já não tenho nenhuma dúvida do caráter contínuo da consciência entre as mortes das nossas carnes humanas. Vejam essa recorrência, ou repetição - para não mudarmos os termos: espiritismo, xamanismo, cristianismo, budismo, filosofia moderna, histórias do fantasminha camarada, psicologia junguiana, regressões terapêuticas, vida eterna, cronópios verdes de Jorge Luiz Borges...tudo isso trata do mesmo assunto, das continuidades, da crença e da certeza de que além dos muros não estaremos salvos no nada, mas escravos das nossas influências contínuas. Que possamos trocar as fugas por refúgios, assim o não-sentido poderá ficar dormindo do lado de fora, como um cachorro sarnento que tem uma casinha própria.


 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

PÁSSAROS ARTERIAIS






Compulsaram-se os pulsos.
Posso pedir que pulses? - algum disse.
Pousaram-se, nos pulsos dum, os dedos doutro.
Desnortearam-se os pássaros em ambos,
como se houvesse incêndio na floresta ou eclipse na lua.
Pululavam em conjunto as pulsações, como explica a medicina das paixões.
Mas a medicina ortodoxa não explica o desnorteio dos pássaros de dentro das pessoas.
Dizem outras poesias que esses pássaros têm a cor azul.
(Eu nunca pude ver algum pra atestar qualquer tom ou cor)
Era o pulsar da veia do pulso contra o da veia da ponta dos dedos.
Era um par de dedos tocando,
e outro fazendo charme.
Como fazem os despreocupados com etiqueta quando bebem espumante barata.
Com relação aos pássaros que vivem em nós, não é necessário etiqueta.
Nas pulsasões moravam veias e artérias e ainda outras coisas humanas como os pássaros.
Nas veias corria sangue arterial, que é aquele sangue bonzinho, com vida e oxigênio.
Nas artérias não havia sequer sangue, mas pássaros que cantavam em coro.
E era a batida das asas que se podia sentir.

domingo, 25 de setembro de 2011

MÍNIMAS - 3




Todos os livros de dieta e todos os nutricionistas poderiam ser queimados se as mulheres aprendessem que o alcoolismo tira a fome e evita aquele queijo espesso que sobra nas mãos da gente durante o sexo. Eu prefiro as médias. As gordas, as raquíticas e as que acham que tem um pau maior que o da gente, essas não tem viabilidade nenhuma senão aos desesperados.

 
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Em time que está ganhando se mexe, mas só um pouco, que é pra fazer o time permanecer ganhando por mais tempo.


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O problema básico das mulheres é que querem atenção. O dos homens também, mas em ocasiões mais excepcionais como uma perda profissional ou uma carência fantasmagórica de sexta à noite. As mulheres querem fazer da vida a dois uma obra de arte. E nós, artistas da paciência, temos que obrar com mentira quando a parcimônia está em falta no nosso estoque. Que a honestidade possa estar em promoção no buffet de atributos das almas futuras.


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O caos merece muitas das honrarias que, desavisadamente, foram parar na sala de prêmios da ordem. O caos funciona como marco zero, como instituidor do novo, como a flecha que só se completa como flecha quando encontra uma carne quente ou um alvo milimétrico. Os antigos, os religiosos e os contemporâneos, falam de mil maneiras diferentes que é o destino o território das pulsações e, portanto, da verdade fajuta que nos compete como humanos. O caos mostra por meio da desordem que a metade das verdades vêm sempre depois...antes, não nos é cabível sequer usar o vocábulo.


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É a transitoriedade a grande culpada pela imperfeição dos julgamentos.


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Humildade e honestidade são atributos humanos que se odeiam. Atrás de olhares ternos e benevolentes, estão vaidosas miradas às nuvens.


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À noite, o sexo é dos burocratas que acreditam em calendários. De manha, trepar significa crer no amor dos filmes. Mas quando alguéns trepam de tarde, é porque existe verdadeira fidelidade. Não há como ser fiel sem a intimidade da tarde, sem a subversão corriqueira do tempo.


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Estou – mais esta vez – de acordo com Bukowski: estar entre tantos suicidas que morrem de medo de morrer, é estar entre covardes.


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A solidão, em regra, é uma terra do nunca em que existe apenas uma regra: respeitar o fato de que a tolice tem absoluta certeza de que a tolice é dos outros.


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Engana-se quem pensa que deixamos o útero com o parto. É pelos idos da meia idade que conseguimos nos livrar da sedução uterina e caminhar em direção à sensualidade da morte.


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Os sadomasoquistas sabem que as dores da carne anestesiam as dores que não pertencem à carne. Não deixa de ser uma maneira de cruzar altaneiramente as mais insuportáveis dores.

sábado, 24 de setembro de 2011

EXPLICAÇÕES CELESTIAIS

EXPLICAÇÕES CTÔNIAS




"...Feliz aniversário. Natal. Ano novo. Isso é a mais doente de todas as coisas doentes...Eu me suicidaria se tivesse que participar disso. E agora, vocês fazem as perguntas e eu dou as respostas..."

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O PROVINCIANISMO USA GEL BOZZANO

Sinto nada. Não sinto nada aqui. O aqui é a cidade em que eu nasci. Não sinto a cidade em que eu nasci. Sinto, estando nela, um grande deserto. Um vento uivante distante como as coisas que são longínquas como as tumbas dos cemitérios. Na cidade em que eu nasci não se pode usar chapéu nos bares e nas ruas. Nas ruas, a intolerância é um olhar de reprovação, é um "bico torto". Nas ruas é melhor ser como a mediocridade cristã e pagã determina que se seja. Nos bares, usar chapéu é tão nefasto e proibido quanto fumar cigarro em lugares fechados. Qualquer espécie de desvio em circunscrições provincianas faz um mal danado aos pulmões das gentes médias e coletivas, que estão desde sempre domesticadas com a fumaça falsamente clara e saudável da moral.

A moral, como já disseram tantos e tantos não lidos pelos provincianos da cidade em que eu nasci, fode o rabo dessa gente maniqueísta que acredita que o julgamento do vizinho é uma espécie de postulado moral por excelência (ideia próxima àquilo que Kant chamou de imperativo categórico) que deve prevalecer sobre os desejos personalíssimos de todos que são vizinhos dos vizinhos. A metavizinhança acaba retroalimentando a miséria das províncias que, mesmo com a invasão da internet e das TV's a cabo do mundo, acabam não conseguindo parar de correr atrás do próprio rabo (ou do rabo do vizinho). Aliás, a falácia da mundialização da informação pode ser vista nesses pequenos condados medíocres como é a cidade em que eu nasci. Quando apenas é a miséria interna que se projeta no objetivismo exterior, não há mudança significativa que ocorra. Esse é um problema dos ocidentais, que querem modificar a plantação adubando a terra, sem prestar atenção à saúde das sementes. Internet e tv a cabo por quê, se tudo se resume à assistir o Bonner, o futebol de domingo e vigiar as frestas do vizinho pelo facebook.

Não tenho pretensões de que meu discurso seja bem quisto. Não vejo saída à mediocridade senão por meio da tragédia. Precisam perder filhos em acidentes de carro, precisam de grandes choques existenciais para que um terremoto interno seja capaz de balançar as estruturas fixas e pesadas que levam nas costas, como se fossem Sísifos-besouros que arrastam eternamente o próprio bolo gigante de merda. Deixam de perceber a atraso de suas percepções animalescas, lhes falta outra cor além do cinza para que possam enxergar a multiplicidade, a paradoxalidade que até a ciência já detectou.

Na cidade em que eu nasci existe um atraso de aproximadamente 600 anos. Em relação às vestes da moringa, ainda são medievais. Na Idade Média, quando o Deus cristão institui a onipresença da verdade por intermédio dos pastores que tocavam punheta no banho feudal, os fiéis tiravam seus chapéus quando entravam na Igreja em sinal de respeito ao grande Deus que, por ter o atributo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, flagrava os padres tocando bronha em homenagem aos coroinhas e às camponesas de bucetas provavelmente peludas e insuportavelmente fedorentas. Meus devires medievais trazem até meu nariz colossal os odores piscianos das bucetas do feudalismo.

Se as bucetas melhoraram de lá pra cá, nos bares da cidade em que eu nasci pouco mudou em relação ao ritual do chapéu. Usá-lo é crime de lesa majestade à saúde da homogeneidade. A diferença continua sendo um espinho que atravessa as carnes morais dos provincianos. Claro que a crítica não pode ser generalista, mas, como sou junguiano, acredito no caráter coletivo da consciência dos lugares. Resumo da ópera: fui agredido por um troglodita medieval por usar o chapéu que me apraz e que eu levava na MINHA moringa. O troglodita não era um segurança que não pode estudar, mas o próprio dono do lugar.

Os medievais contemporâneos como esse imbecil ainda vivem na lógica darwinista: seleção pela melhor capacidade. Mas como, em geral, leem pouquíssimo e fazem de suas vidas um jogo pueril que no mais das vezes se resume a futebol com amigos, bebedeiras e brochadas burocráticas resolvidas à base de viagra com a esposa que eles traem na zona pensando que são os caras mais espertos da paróquia medieval líquida, continuam acreditando que força e tamanho são poderes insuperáveis. Eu que sou um covarde mas que tenho devires sofistas, usei da retórica pra não apanhar e agora vou altivo buscar minha indenização moral depois de fazer uma ocorrência policial e uma perícia médica. Não acredito no estado democrático de direito senão quando posso usá-lo a meu favor como é o caso. O troglodita precisará pagar um advogado, precisará olhar pra minha cara numa sala de audiências, precisará sonhar comigo mijando em cima da sua própria cabeça de vento, precisará me pagar alguma coisa. O lastimável é que nada disso vai mudar o troglodita, o que escancara a falência do estado de direito enquanto locus de reeducador da conduta humana. 

Minha terra natal não aceita meu chapéu. Eu aceito cada vez menos minha terra natal. Nas terras do nunca, que são todas as que estão fora dos muros invisíveis da aurea mediocritas, os chapéus não agridem ninguém. Na verdade, meu chapéu representa a provocação à sensação de segurança que a estabilidade histórica traz. É mais fácil repetir o legado familiar do que instituir modelos novos. A psiquiatria sabe muito bem que do misoneísmo só escapam os que conseguem compreendê-lo, que meus conterrâneos visitem o dicionário e meditem.  Vivem na lama da homogeneidade, esta esquizofrenia coletiva que forja a sensação de segurança. Ainda precisam perceber que quando todos são bárbaros, é a civilização o exército inimigo. Depois desse insight primeiro, se está apto a perceber que a dicotomia não existe senão no reino das fantasias racionais (e medievais), que fazem das consciências provincianas, um sóton maculado por teias de aranha e outras coisas peçonhentas. Na terra em que eu nasci, as esposas continuam depilando o cú, os padres selando casamentos mentirosos e os homens de bem usando gel bozzano no cabelo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

uma madrugada



2 da madrugada.
Eu escrevia.
Ouvi gritos da rua, era uma mulher.
Gritava com todo o pânico que a voz podia.
Pedia socorro.
Corri na janela.
Vidros se estilhaçaram.
As janelas dos apartamentos brilharam,
uma a uma, com as luzes acessas.
Outras janelas viam tudo do escuro com seus inquilinos medrosos.
Os gritos da mulher seguiam.
Ninguém podia ver nada, dos edifícios da frente e dos lados.
Outra vidraça se quebrou.
A mulher clamava por socorro,
como se estivesse diante do diabo.
Alguém disse ter visto o ladrão.
Eu não via nada, mas assistia tudo.
Era o palco flagrante da vida,
que ia sendo assassinada em flagrante.
Os piores flagrantes são os que não se permitem aos olhos quando estão acontecendo.
Um homem herói jurou morte ao ladrão pelo ar escuro da noite.
Ele vestia pijama azul, falava do 5º andar...
e é provável que fosse o mais cagão entre todos os vizinhos.
Outro herói desceu com lanterna e revólver na mão.
Deve ter visto todos os filmes do "Máquina Mortífera".
O Mel Gibson copman é o sonho de todo nazista homossexual contemporâneo.
Ninguém podia ver nada.
Alguém mandou alguém ligar para a polícia.
Era uma comunicação entre as janelas nunca antes vista.
A solidariedade pelas janelas vizinhas.
Uma solidariedade que protegia os solidários do suposto ladrão, assassino, estuprador.
Uma senhora que estava caindo aos pedaços ligou para o 190.
Fechou o chambre tentando evitar a dor alheia que urrava pelo vento.
Eram gritos de uma mulher como ela, de um ser humano como ela,
quase insuportáveis aos ouvidos da velha,
que só gaguejava pelo telefone com o policial.
A velha tremia.
Deve ter sido bolinada pelo pai alcoolatra quando criança.
Ver que o ser humano treme ante a bestialidade de sua condição é um espetáculo.
E eu nem precisei pagar ingresso nenhum.
Todo o show era grátis, da janela do meu quarto.
A grande virosa  humana ali, para quem quisesse ver ou estivesse acordado na madrugada.
A madrugada é a subersão das 24 horas.
A madrugada é o surrealismo do dia,
é o aurora da escuridão dos sonhos.
Os olhares dos outros eram curiosos.
Antes estavam todos dormindo,
tinham caras de sono e de casamento.
Teriam que trabalhar no dia seguinte
pra que não precisassem ser ladrões durante a noite.
Iam acordar, tomar banho, vestir suas roupas, comer suas torradas sem gosto e ir pro trabalho.
Trabalhar é preciso pra que se possa ter onde dormir.
Dormir é preciso pra que se possa trabalhar.
É assim que vive-se incessantemente aventura da vida...
A vida toda se resume a isso...
com algumas sobremesas como as férias ou as trepadas de sábado a noite.
"Todos os maridos funcionam regularmente, porque é sábado", disse o Vinícius de Morais.
Os trabalhadores e os ladrões se identificam na necessidade de ter necessidades.
Ambos necessitam.
Resolvi dar outra volta na chave da porta,
ser covarde cansa menos.
Não tenho pretensões heróicas.
A convivência terráquea anda de mal a pior.
Todos estavam desesperados.
O ladrão também.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PARTIDO DO PINTO POÉTICO - 1o libelo


- Scarlet admirando o próprio rabo em novíssima performace que vazou na rede virtual e mundial e internacional-
Scarlet é sinônimo de uma mulher que, se fosse homem, certamente poderia ser membro do PPP.

É importante que a mulher, no futuro, esteja fora do peso e com os peitos levemente caídos, exatamente como vai acontecer com a Scarlet. Essa gordurinha do futuro dela é encantadora.


 Provável que esta seja uma manifestação histórica. Nunca antes na história desse país uma ideologia política poderia arrebanhar tantas identidades. Aviso de antemão que em breve (ou nunca) me candidatarei a algum cargo político. Quero experimentar a política para sofrer ameaças de morte no segundo dia de mandato. Quero cutucar a onça com o dedo minguinho, que é o mais curto depois do mata-piolho. Não lembro do nome de cada um dos cinco dedos (pai de todos, furabolo, matapiolho etc.), então, se alguém lembrar, peço gentilmente que me comunique. Minha promessa será prometer que não vou melhorar a vida de ninguém. É que sou um homem honesto, que gosta de cumprir com as promessas que faz.

O partido, porque ainda não existe, terá que ser criado. Isso porque o partido necessário para a minha candidatura ainda não tem equivalentes entre os existentes. Deve ser fácil abrir um partido político. Preciso ver os trâmites e a papelada toda. Vou chamá-lo de PPP – partido do pinto poético. Explico: o pinto da maioria dos homens é poético. Poético é um jeito de dizer que os paus de quase toda a gente são paus equilibrados, sem exageros de estilo, sem carnes em excesso. As pesquisas comprovam que os paus que mais existem, são os paus comuns. Fique feliz amigo! Você tem muitos companheiros silenciosos de jornada. O problema todo é que estamos na era do desempenho olímpico de tudo. Temos que ganhar grana demais, temos que foder como uns exterminadores do futuro que salvam o presente, temos que comer apenas grão de bico, temos que ter beleza pra se comer no café no almoço e na sobremesa. Temos, por silogismo, que ter paus astrológicos: grandes, duros e longínquos como os planetas.

Nesse sentido, sou ainda um moderno e um nazista. Como moderno acredito na viabilidade e na força das maiorias, como moderno quero que as exceções se fodam. Como nazista, acho que todos os caras com paus de tamanho japonês e todos os caras com paus planetários, deviam morrer. Todos com guilhotina que é pra que as cabeças fiquem bem separadas. Nós, elite majoritária de paus comuns e, portanto, poéticos, tomaremos o poder. Somos o Cérebro da dupla Pink e Cérebro. Temos a cabeça do pau inchada de poesia para as tristezas femininas, e, por outro lado, um inchaço sanguineo satisfatório para as saúdes do prazer-mulher. 

Faremos propaganda demonstrando os benefícios terapêuticos de um pau comum. O pau comum é o futuro da terapia e da medicina holística. Não machuca na entrada e é discreto na saída. O pau comum é um gentlemann. É garçom de restaurante caro. O pau comum pode ser um bêbado quando a mulher quiser beber e um lorde quando a mulher quiser lordear.

Os pintos de japonês, sem comentários. Acredito que as legislações orientais deveriam considerar como legítima defesa a conduta das mulheres que pedem divórcio no oriente. Os pintos grandes também merecem desprezo, convenhamos. Minha anima intuitivamente afirma que paus grandes ou são pobres, ou são canalhas que não sabem mentir, ou tem complexo de édipo inflacionado...

Às mulheres, cabe escollher. De qualquer forma, já existem dados suficientes pra se concluir que, em geral, os pintos poéticos vencem. E vencem sem nenhuma arrogância de jeito, mas porque os pintos comuns sabem dormir quando é hora de dormir e sabem que não se deve ligar muito, que é para presentear com dúvida. As mulheres não tem tesão por pau grande, mas pelas grandes dúvidas, que até podem ser, excepcionalmente, em relação próprio tamanho do pau...mas só excepcionalmente. A maioria das mulheres têm dúvidas maiores - este também é um dado científico-empírico-político-filosófico-espírita-mitológico. 

Eu até tinha pensado em batizar o partido de PPC – Partido dos Pintos Comuns, mas aí pensei que ficaria muito parecido como o PCC da bandidagem e que seria uma estratégia de marketing equivocada, já que bandidagem não combina com política no partido que pretendo propor ludicamente se a preguiça for tanta a ponto de me escravizar às palavras que não acontecem. As palavras, quando bem ditas, cedo ou tarde acabam acontecendo. Voltando à badindagem, é possível que a bandidagem da espécie política seja um câncer que pode ser exterminado com uma quimioterapia poética.

Por essas razões simples, o mais adequado acabou sendo chamar de PPP – partido dos pintos poéticos. A repetição de “p’s” é uma boa jogada de marketing, tal qual as rimas das poesias ruins dos poetas medíocres. Tem poesia medíocre que acontece por aí que dá tristeza na alma.

Fique tranquila leitora, homens com pau poético sabem fazer gozar. Os integrantes do nosso partido são médiuns do prazer. Sabem que é preciso ser um espírito que assopra nos ouvidos alguma mentira que deixa de ser mentira porque é a verdade do presente. Os homens de pau médio sabem dos múltiplos toques e dos territórios que existem além do território das carnes. São cartófrafos do prazer espiritual, porteiros da realidade honesta.

A equivalente feminina do homem de pau comum ou médio ou poético, são as mulheres equilibradas entre a gostosura da mais in-crível fantasia e a pior tormenta que pode aparecer diante dos olhos. Claro que o caráter exterior é imprescindível. De qualquer forma, às feias, peço que se tranquilizem. Sempre tem um japonês ou uma anaconda à sua espera. Os paus médios são presentes de Deus às mulheres que serão gordinhas com 45, e vice-versa. Aristóteles estava certo quando falou que ser equilibrado era o melhor caminho pra viver bem. Oxalá Ari! Tu que, por certo, nunca esteve aqui.

Os homens do PPP não têm as maiores ereções, é verdade, mas são os únicos que têm as ereções poéticas mais inchadas e roxas como beringelas de fios quentes de sangue fresco. O partido conta com os dados do IBGE...dados do IBGE? Ai eu pergunto: como é que as pesquisas comprovam que o tamanho médio do pau dos brasileiros é de 15 centímetros? Eu nunca participei e não conheço ninguém que tenha participado de uma pesquisa desse tipo. Imagine uma equipe de pesquisadores na praça Sé em São Paulo pedindo que os transeuntes tivessem ereções relâmpago para que se pudesse medir o tamanho da bigorna do brasileiro.

A mídia também será combatida nesse partido, mas esse assunto ficará para o próximo libelo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PINHEIRINHOS NÃO NATAL

As mulheres, por questão de natureza, são como os pinheirinhos de natal. A diferença é que pra quase todas elas, o natal acontece o ano todo. É como se elas pudessem usar permanentemente as bugigangas que carregam usando a mesma desculpa esfarrapada dos filhos que não querem comprar presente aos pais no dia dos pais, sob o pretexto de que todo dia deve ser celebrado como dia dos pais... É assim que elas se mantêm natalinas e festivas nos doze meses do ano. Cheiros e ornamentos são masculinos na linguagem, mas femininos na essência. Fatalmente, algumas mulheres são como os pinheiros de natal, cheias de bolinhas espelhadas e coloridas, adjetivos, fumaças de cores, penduricalhos, decorações. Apelidei a minha mulher de pinheirinho porque ela é como um, com uma bunda mais gostosa, porém.

Eu bebia meu vinho e minha santa paz. Ela começou a indicar com sinais e cheiros e olhares que era hora de treparmos. Não me opus. É difícil que um homem negue uma trepada que esteja à disposição sem que se tenha que fazer esforço. Ela começou a tirar pacienciosamente os penduricalhos, as correntes, os anéis de todos tipos, as pedras correspondentes ao signo dela, os brincos do brechó, outras correntes menores com pingentes e dentes da sorte. A pobrezinha corria risco de morrer enforcada se alguma corrente daquelas engatasse sem querer numa quina qualquer da casa. Foi desabotoando os panos, frouxando as alças. Arreando as segundas e terceiras peles. A calcinha ficava embaixo de tudo, como um santo graal que guarda o cálice santo da eternidade cheio de baba de buceta.

Era a mesma cena de 6 de janeiro, quando as crianças e as mães desarmam o pinheirinho de natal enquanto os papais enchem a cara de cerveja e comem as amantes em motéis de 30 reais. Em outros países, onde o Natal é menos  Coca Cola, as crianças recebem os presentes no dia 6 de janeiro pelas mãos míticas dos três reis magos e seus camelos sedentos. Não é à toa que as crianças deixam 3 vasos de leite e 3 copos de água na noite de 5 de janeiro: querem contraprestar os presentes trazidos pelos reis e pelos camelos. Nós que pertencemos à cultura natalesca Roberto Carlos/Coca-Cola, acabamos recebendo os presentes no dia 24 de dezembro, o dia que eu propositalmente nasci, enviado pelo destino. Lembro que uma vez um tio religioso pediu a palavra e começou a palestrar que o dia 24 de dezembro era importantíssimo, já que era a data de nascimento de um menino muito diferenciado, especial etc. Estufei o peito achando que era eu mas na verdade ela falava de Jesus. Pode ter sido por isso que passei a travar uma briguinha pueril com as religiões, afinal, Jesus tirou meu lugar no dia 24 de dezembro. Sempre comi o bolo de aniversário com Jesus.  

O monta-e-desmonta de pinheirinho pega bem só na propaganda da Coca. Na vida real, montar o pinheirinho é um pé no saco. Tirar aquela caixa de papelão imensa de algum canto empoeirado da casa. Pegar as caixas com aquelas bolas que vêm da China, luminosas, sempre desparceiradas, vagabundas. Na China parece que os chineses trabalhadores se fodem pra fazer essas bolas de natal, trabalham nos feriados e ganham 1 centavo por cada tonelada de bolas produzidas. Uma merda completa pra eles que são os responsáveis por iluminar os nossos pinheirinhos de natal minados de presentes burocráticos.

Os presentes de natal são o maior embuste das famílias que, no fundo, se odeiam. Mesmo se odiando, por vontade de redenção e desejo de paraíso, fingem amor. Todo ano é a mesma porcaria: depois de passarmos o ano todo criticando os apêndices da família e mesmo os familiares que não nos são tão familiares assim, desejamos falaciosamente que todos eles tenham saúde e prosperidade. Uma hipocrisia filha da puta. Todos os natais são os momentos rituais e solenes das pessoas que se gostam pela metade. Natal é hipocrisia materializada pela mão do hábito que virou cultura, é sorriso forçado pelo estado de necessidade e pertencimento, é a foto que se repetirá só no próximo natal, com cabelos mais brancos, rugas mais fundas e gentes mais mentirosas ainda.

Dividindo espaço com os presentes burocráticos, está o presépio e as ovelhas que só não cagam no pátio do pinheirinho porque são de gesso. Tem também aquelas plumas de papel celofane cafona que se coloca ao redor do pinheirinho. Os ricos não gostam de usar bolas, mas cajados vermelho e branco ou caixinhas de presente feitas por algum hippie fodido que adora Raul Seixas. No fim, os penduricos são iguais porque todos servem pra nada. Isso sem falar nos galhos do inferno. 120 galhos soltos que devem ser encaixados num buraco encoberto e invisível no tronco-mor do pinheirinho.

O Natal deste ano ainda virá, mas aqui no meu mundo era 6 de janeiro em um agosto qualquer. Era a hora do meu pinheirinho se desfazer. Subverti as datas porque em mim o calendário é menos totalitário, como quase tudo. Meu pinheirinho é menos hipócrita que o pinheirinho cristão porque posso trepar com o meu. Dadas as circunstâncias, prefiro ver a nudez do meu pinheirinho quente do que esperar pelos presentes gelados de natal. Ela se desfez na minha frente e foi pra cama. De lá gritou pra mim dizendo que estava com frio. Agora os deixo, aqui é 6 de janeiro de um agosto qualquer e preciso desmontar meu pinheirinho com uma ejaculação precoce. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

TORRA TORRA DE ILEGITIMIDADES


Foto da amiga e fotógrafa Nina Paludo, o novo olhar revelado, legitimado, encaminhado, remoçado.



Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro




Só os gênios podem
vencer a falácia
da humildade para poder declarar:
“eu sou um gênio”.
A vontade é de poder,
simplesmente.
Querer poder não é odiar competidores,
mas saber que amar os outros é um tema de casa.
Querer poder não é encharcar-se de soberba,
mas enobrecer cada cena da existência.
Querer poder não é desejar o trono,
mas distribuir saídas para quem não as têm.
Querer poder não é menosprezar o amor,
mas aprender a ter menos medo da eternidade.
Querer poder não é prever o porvir,
mas ajudar a tirar as pedras do futuro.
Querer poder é querer saber-se.
E há quem se saiba sendo isto,
aquilo ou nenhum e nenh’outro.
(essas aspinhas no meio da palavra é pra dar um charme,
como se as aspas fossem os paetês de um belo vestido).
Mas, voltando ao antes,
qual é o pecado de querer saber-se e, afinal, se der certo, saber-se?
Encontre seu poder,
vá até a sua banca de poder mais próxima.
Aproveite a promoção do fim do mundo:
TORRA TORRA DE ILEGITIMIDADES.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O MEL É O CIO DA TERRA







Andei pensando muito na poesia.
A poesia, lhes conto,
é um gnomo que nos convoca pra uma floresta colorida e encantada,
dessas que aparecem nos desenhos animados mas com o acréscimo de estar
cheia de virgens e gostosas com calcinhas pequenas e bundas firmes.
Ah, e claro, loucas pra dar e fingir que amam a mãe da gente.
A poesia é uma gostosa querendo dar pra gente.
Nesse sentido,
minhas mulheres têm a vantagem de ser trocadas por poesia e não por outra vagabunda.
(Para a mulher da gente, todas as outras mulheres - à exceção da mãe da gente,
da irmã da gente e da própria mulher da gente - são vagabundas.)
Melhor, então, que eu as traia com poesia.
Melhor que eu as traia com poesia?
Não, descobri que as mulheres têm ciúme também da poesia.
Se for caso de poesia, deve ter hora marcada e comunicação prévia,
que é pra evitar que ela faça as unhas sem necessidade.

(Agora um parênteses...minha perna, que se deita desta cadeira donde estou pra cadeira da frente donde não estou, treme estranhamente. Não sei se é a fome, a bebida ou um espírito que sentou no colo da minha perna – eu já não ando duvidando de mais nada, melhor considerar tudo como possibilidade que é para as possibilidades que vivem em nós aumentarem. Considero tudo verdade verdadeira provável ou improvável, afinal, todas as coisas são mesmo verdadeiras, provável ou improvavelmente).

Mas, voltando ao antes, lhes digo:
Essa é a minha habilidade -
viver entre a vida e a poesia.
Sei que do lado de cá, apodreço.
Sei que do lado de lá, enlouqueço.
Sou flungiston, sou o crepúsculo e a aurora,
nunca o dia ou a nunca noite.
Sou o imberbe com alguma barba.
Sou sem partido.
Sou sem paixão.
Sou sem sonho de revista.
Assassino das minhas próprias faltas.
Cometedor de minhas poesias.
Estuprador das minhas culpas.
Pastor das dúvidas que tenho.
Controlo minhas poesias como um peão que segura os bois com cavalo e berrante.
E, se acaso alguma me escape do rebanho,
a anistio de imediato,
com toda delícia e premonição bendita de que encontre melhor caminho.
Sonho é como filme:
se for bom, prefiro lembrar.
Sobre sonhar, sigo sonhando (e rezando) que os sonhos sejam a realidade...
Enquanto minha prece ainda é coisa do futuro,
me viro com poesia.
E volta e meia, ao meu bel prazer,
cometo cometas no céu dos meus versos higienizantes.
É que me comovi com uma moça que dizia que a poesia era o contrário do tumor.
Imagine só, a poesia ganhando espaço na prateleira da farmácia.
Oficinas de poesia nas farmácias, ensinando enfermo e enfermidade a poetar.
A poesia nas farmácias é um capítulo do futuro.
É definitivo: além de anestésico da alma,
a poesia é o mel do pensamento.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ESCREVER É UMA PUTA QUE CHUPA O PAU DA GENTE



Esse era pra ser o comentário dessa poesia verdadeira ai de baixo. Mas se não quiser saber, peça a Deus pra ele evitar dissabores na da sua vida. Todas as religiões e as gnoses espirituais dizem que funciona. Bom, a ideia é a seguinte, aproveitando que escrever pra uma revista tem que servir pra alguma coisa, pensei que essa revista deve querer ser megalomaníaca (é que vou escrever numa revista ai que pelo que sei é livre e plural, então ótimo!).

Acho que podemos dominar o mundo com essa revista, mas parando pra tomar um vinho, respeitando a preguiça, a impaciência e a TPM (caso você seja uma mulher). Se não servir pra mais nada, vai servir pra ajudar a alma de quem escreve nessa revista, num jornaleco qualquer, num blog visto por meia duzia de afixionodos ou num papel de pão pra listar as compras do mercado. 

Digo isso porque escrever é uma como uma dose de morfina que a gente precisa sempre que a dor de existir começa a carcomer os filetes de carne da nossa alma. Claro que se você não tiver nenhuma dor, pode inventar alguma, que é pra vida ter um pouco de graça. Suavidade, fora da poesia, é coisa de nuvem. As nuvens são a coisa mais “morocochô” que existe no céu, parecem aqueles bicho preguiça insuportáveis de zoológico.

A vida das nuvens deve ser sem graça, convenhamos. Ficar lá, perambulando pra lá e pra cá, que nem um idiota. Deve dar ânsia de vômito como também dão as escunas. Escuna é sinônimo de vômito. As escunas só prestam nos folders de agência de turismo.

Mas mesmo não sendo nuvem, imagino que a mensagem das nuvens deva chegar ao máximo de gente possível. Por exemplo, agora mesmo acabou de apitar o forno anunciando que a pizza congelada que eu quebrei pela metade pra fazer está pronta, linda, queijosa.

Só que não sinto fome. Aí a pizza acaba ficando parada dentro do forno até amanhã, endurecida, plastificada, pálida, em estado vegetativo. Dá preguiça de ir até a cozinha buscar a pizza. Escrever é melhor que comer e pensar melhor que escrever. De qualquer jeito, quando dá vontade de trepar, não tem jeito. A escritura é uma puta cara e gostosa que fica chupando o pau da gente.

Uma saída boa é beber. Beber alimenta e evita que você tenha que ficar levantando pra pegar os talheres e todo aquele equipamento de produzir cocô: garfo, faca, prato, guardanapo (se é que você não prefere limpar na blusa como eu), taça vagabunda, o vinho mais vagabundo ainda. Como são saborosos os vinhos vagabundos. E o são porque eles não têm nenhuma regra, já nascem mortos pelo destino, como os pobres e os penitentes.

A única regra de um vinho ruim é que ele é um vinho ruim. Não se pode contestar a uva, nem a safra, nem porra nenhuma, ele é apenas um vinho ruim. E, por isso, é um vinho de fácil trato, simpático a todos.  Bom, se você estava ou está esperando um final feliz, foda-se daqui.

MÍNIMAS - 2



*

O vinho é o sangue da terra. Quem toma vinho é carnívoro.

*

Ser solitário é ter a benesse da confiança das mulheres. As mulheres sabem por intuição, não precisam se foder de tanto estudar como nós. E quando algum homem é sabidamente um ser solitário, acaba comendo todas as mulheres que sabem que não é de interesse de um solitário espalhar por aí que comeu fulana ou ciclana. 

*

Alguém disse: “namorar é legal quando a gente é correspondido, né”.
O outro disse: “eu não correspondo...acho que meu mal é não corresponder”.
O Alguém redisse: “nossa, como você é frio”.
O outro redisse também: “não sou frio, apenas não tenho temperatura”.

*


O mais importante a ser ensinado é que o mais importante é tomar muitas taças.

*

Dionísio o é por ser inoperante, bêbado, livre e indiferente.

*

A filosofia é a loucura da razão

*
Trabalhar é uma merda. Mas se você tiver enchido a cara até tarde da noite, no outro dia, trabalhar é uma caganeira completa. Aí, no primeiro abrir das pálpebras, você pensa: “mas que merda”.

*

Nós somos todos escravos dos cronópios. Eles ordenam e nós obedecemos. Inclusive me mandaram escrever esta frase. E sim, estou louco. Mas louco de mentira, que é pra não parecer que sou louco de verdade... porque, na verdade, não ex-tou.

*
Lobão sabe que o quê Freud quis dizer é que todas as mães são putas. Acho o Freud muito mais doente mental do que o Lobão.

*

Roubo qualificado é quando alguém assalta a própria intimidade de alguém que quer permanecer na sua própria intimidade.

*

Sobre intimidade, deve-se dizer que pensar é mais íntimo que cagar. Eu sinto uma vergonha danada de pensar de porta aberta.

*

Até os dias de hoje, não há notícia ou registro de um casamento que tenha tido o amor como justificativa.

*

Encontrei todas as soluções, não resolvi nada.



terça-feira, 30 de agosto de 2011

MÍNIMAS - 1




Chapéu azul diz: "olha ali o mínimo"
Chapéu vermelho diz: "aqui é menor ainda..."


O Bob Di(z)lan: “I dont care about the economy”… Eu concordo com ele, com a arte, com a música. Também não me importo com a economia. A economia devia economizar a paciência das pessoas. Papo de economia é coisa de tiranossauro rex. Economia é não passar fome.

*

A beleza é a sabedoria da juventude. As sensações são a sabedoria da velhice. A arte de libertar a liberdade é a sabedoria das crianças. Aí, quando você consegue passar por todas essas estações da sabedoria, você acaba descobrindo que a sabedoria da sabedoria é saber as três sabedorias juntas. Depois que você é sábio ao cubo, você descobre que a grande sabedoria é esquecer todas as sabedorias. E termina-se vazio, plenamente vazio. E com um tesão vicioso por mais alguma coisa pra se saber.

*

Coisas complexas devem ser ditas com simplicidade, que é pra se facilitar as coisas...

*

A diferença entre o inicio e o meio de um relacionamento está na consciência do peido: no inicio você dorme preocupado em não peidar, e acaba peidando inconsciente durante o sono; depois de uns meses você finge que dorme pra poder peidar, peidar conscientemente. De todo modo nada substitui a legitimidade de um peido solitário. A solidão flerta com a maior liberdade possível. A solidão é o peido.

*

As mentiras são um jeito sincero de mostrar que a verdade é uma mentira.

*

O NASCIMENTO DA PREGUIÇA - Eu sou o que não sei ser. E isso não me basta, pois me falta tanto.

*

Os homens não existem. As mulheres também não existem. As pessoas existem de verdade se entenderem que os homens e as mulheres não existem. Uma mulher chupar uma buceta ou um homem dar o cú não tem nada a ver com ter atributos femininos ou masculinos. Os anjos não têm sexo não porque não gostem de trepar, mas porque, pra eles, trepar é coisa de homens e mulheres que pensam que existem. Esse é o próximo degrau da escada, vossos temas de casa.

*
Por falar em buceta, uma coisa é certa: o dicionário Aurélio está equivocado quando diz que buceta se escreve com “o”. Alguém já viu alguma buceta com “o” por aí? Boceta, assim com “o”, é coisa de quem fala de buceta apenas na teoria. Na prática elas são todas com “u”.

*
Quando for chutar a macumba, aproveite pra comer a galinha morta.





domingo, 28 de agosto de 2011

Bukowski tapes - 1

born into this

"Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem que era, estava 30 minutos adiantado, pensando no câncer. Caminhei pela sala de espera. Ali estava a enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu vestido uniforme branco e justo, seu vestido subira até os quadris, coxas grossas e potentes. Esqueci do câncer.

[...]

A enfermeira desapareceu pela sala e continuei lendo a Life. Quando ela voltou voltei a imaginar se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e não ser preso."


Buk (com intimidade)

O FEDOR DA PUREZA



Que nós encobrimos a verdade,
não há nenhuma novidade.
As vísceras da morte,
enganamos com algodão no nariz.
Os peidos todos... escondidos:
embaixo do cobertor,
no silêncio assoviado das cuecas,
no íntimo privado dos nossos fedores.
É esse fedor da verdade que fica encoberto por aquilo que só pode ser contorno.
Esquecer do fedor gera em mim uma intolerância em relação ao que é definido por alguma definição.
Essa maquiagem que disfarça o pus que contrasta a higidez,
é a mesma que borra as fronhas antes limpas dos travesseiros.
Mas é que nosso fedor tem tantos desejos de dissipar-se no ar
que acaba sendo um fedor meramente de origem.
O fedor privado tem em si um desejo de ser público.
É como se só pudessemos ser curados
à medida que as mãos envergonhadas pelo choro cedessem,
para que nossas lágrimas pudessem ser vistas pelo mundo...,
ou como se o orgasmo múltiplo
só pudesse se dar com uma overdose de vouyerismo passivo,
para que fosse realmente possível aprender sobre o fedor de ser puro.
A pureza tem um fedor ainda pontiagudo aos nossos narizes castos.
Nosso olfato - e nossos outros sentidos -
ainda rezam um terço de joelhos pra pagar um pecado inexistente.
Ou então as flores, que sabem ser flores - e são -
mesmo vivas, mesmo mortas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

territórios desconhecidos





Minha mulher perguntou o que eu achava da roupa que ela ia usar numa janta. Por falar em janta, ela  anda enchendo o meu saco dizendo que não se diz “vou numa janta”, mas sim “vou a um jantar”. Ah, foda-se, vou seguir falando janta. Enche o meu saco também porque eu falo “vou no banheiro mijar”. Me ensinou que banheiro é quando tem vaso (de cagar) e que, em restaurantes e afins, o correto é chamar o banheiro de toalete. Não sei se vocês entenderam, porque eu mesmo fiquei muito tempo pensando nisso. O negócio é o seguinte: quando dá pra tomar banho é banheiro, e quando não dá pra tomar banho não é banheiro, é toalete.

Quanto ao mijo ela me indicou evitar, não o ato do mijo, mas o nome do mijo, ou seja, é preciso batizar o mijo com outro nome que não "mijo". Como me neguei a falar xixi, ela disse que era pra eu dizer simplesmente que estava indo ao banheiro. O problema é que ai fiquei confuso porque não entendi se o banheiro deveria ser usado apenas quando era pra tomar banho ou se também podia ser usado pra ir no banheiro pra fazer mijo com outro nome.

Sobre a roupa ela me disse: “baby, o que você acha de eu ir com uma saia plissada, com uma meia calça com cor de tigre africano, um sapato de tira entrecruzada entre o cinza e o roxo, uns colares de paetê e um look estilo monobloco de cores, que é a última tendência?”*. “Acho bem bom”, respondi.
*o figurino é fictício porque eu não lembro como ele era exatamente dada a variedade de coisas que ela ia pendurar na carne. Falo que é pra não ter que escutar depois que minha mãe vai achar ela brega quando conhecer.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

AFINANDO A LOUCURA

Os processos de criação desenham em nós alguma coisa que todos os outros processos não podem desenhar. Os círculos de criação coletiva são uma necessidade para quem pretende ensinar caminhos ou descaminhos (estes que são lugares mais inéditos e, portanto, mais ricos). É preciso excitar os pontos de energia colorida... mas eu nem sei o quê é um ponto de energia colorida, tampouco sei onde eles estão. È preciso absorver a música até o final, a poesia até a ponta dos cabelos, a respiração auscultada dos ácaros que nos rodeiam...mas também não sei nada sobre isso, falo por falar, pra enganar a torcida, tomar tempo de gente que reclama que não tem tempo mas que lê irracionalidades porque anda cansada de fazer algum sentido...

É preciso estar confortável, em casa, inserto no seu hábito mnemônico, nos dogmas da sua existência, entre as paredes que sustentam o caos que lhe pertence. É triste ver que as pessoas não aguentam a própria solidão, que são dependentes de outros fantasmas como elas. No que se refere à companhia, em geral, prefiro os livros às pessoas. Eles tem mais o que dizer. De todo modo, contraditoriamente, entendo que os livros são engodos, fugas da realidade. Depois de um tempo, os livros dizem sempre a mesma coisa, são substancias comuns em formas articuladas pluralmente. A vida não vive nem acontece nos livros. Depois de ler, é preciso viver. Se os livros nos trazem conhecimento, as pessoas nos trazem crescimento. Não há como dar passos senão comparando diferenças. Comparar diferenças é avançar por meio da fusão de horizontes que foram previamente atritados pela nossa capacidade de confrontação com o estranho. Para aumentar de tamanho, portanto, é preciso conviver. A indispensabilidade do outro é um tema de casa pra mim. Encarar o outro e seus olhos defensivos, que atacam nossos reinos pelas costas. O universo de cada um de nós, visto como o útero que nos detêm, acaba se tornando facilmente uma pequena pulga atrás da orelha de um deus ou de um diabo. 

Eu tenho conclusões pra esconder que não tenho nenhuma. Eu acabo enganando quando sou porque ser alguma coisa é deixar de ser todas as demais. Poder de escolha? Ah, ando suavemente cansado de falar de livre arbítrio ou relatividade, condeno os fantoches do meu tempo sabendo que também sou um. Escolhemos o quê afinal? A comida que nos come, uma mulher pra ter como companheira, as rotas da estrada da vida, as músicas que nos chegam aos ouvidos, nossos desejos de não castração? Ou estamos castrados desde todo o divino SEMPRE? Qual a liberdade que existe quando sequer podemos dizer aos amigos que não estamos com saco pra aguentar a companhia deles? Eu tenho requerido uma honestidade honesta de verdade, sem culpa, sem dor, autônoma, que fuja da onipotência das certezas únicas da ciência, da religião, dos relacionamentos, dos paradigmas que copiamos da TV.

A rejeição da universalidade com a matéria corpo é a pior das castrações. E essa polenta congelada que eu tenho que comer, o que dizer sobre ela? Essa polenta industrial da Sadia que de sadia não tem nada me escolheu antes que eu pudesse escolhê-la, razão pela qual eu não posso mais falar em lívre arbítrio, liberdade ou autonomia. Eu tenho nostalgia da Rute, uma querida amiga que trabalhava na casa dos meus pais que fazia uma polenta deliciosa, verdadeira, à mão, com carinho, açúcar e afeto como disse o Chico. Sem afeto, afecttio, afeição, sentimento de bem querer, a coisa acaba ficando uma merda mecânica completa.

Fazer poesia é o único jeito de enganar o destino, mas se esse não for o único jeito, me conte digno leitor que gasta seu precioso tempo lendo essas letras manchadas de esperança e desassossego. Digo isso para que não me descubram, quero o privilégio de ter a certeza de que posso chegar antes de qualquer um na minha descoberta, de ter certeza de que o processo de ser não acaba nunca, nem na mortalidade do passado, nem na eternidade do porvir.

A loucura talvez seja uma benção pela sua desrazão, pela conexão direta e régia com o divino. Ter nascido assim com pouca loucura me faz sentir pobre de uma pobreza maior que as pobrezas que aparecem na TV. A TV aqui em casa pifou. Era daquelas grandes, com tubo de imagem. No meio de uma pequena reforma, deixei ela sobre a cama. E, da sala, praguejei sobre o peso daquela porcaria dos anos 90. Aconteceu que ela se atirou da cama, se espatifou no chão e estragou. Agradeci. Minha namorada me emprestou a TV dela. Mas acontece que a TV plasma dela não funcionou e estou até hoje sem ver TV. A TV é um movimento, uma companhia na solidão. Com esse quadro todo, percebi que a TV era uma bengala. Pago a TV a cabo até hoje, mas sem ver as imagens. Fico imaginando os programas que a TV passa...e é provável que tudo continue igual: os mesmos gols do futebol, os mesmos boa noites do Bonner, as mesmas tragédias.

Não tenho saco pra ligar de novo pra um 0800 e tentar consertar a falta de sinal. Esses dias liguei para o 0800 da SKY. Uma mulher eletrônica atendeu, falando de forma gravada como se não estivesse falando de forma gravada. Falando coisas do tipo “então, olha só, se você tá com problemas de sinal, tecle 2; se tá com problemas na fatura tecle 4” e assim por diante. Acho que é um jeito de fazer com que a nossa paciência aumente. Eu fui teclando os números do meu problema complexo que era simplesmente voltar a ver TV. Quando falei com uma vagabunda de verdade, a bateria do meu celular acabou e prometi que ia pagar a SKY sem ver a SKY, apenas imaginando os programas, imaginando que essa era uma mensagem dos deuses pra me fazer exercitar a imaginação. Me foi conveniente pensar assim. Estou alienado do mundo, sem saber se a bolsa caiu ou se os terremotos pré programados pelo destino estão devastando alguma terra do mundo. Não escuto o rárárá do CQC e do Pânico na TV. Tenho postergado a ligação e vou seguir assim até que a coragem volte. Tenho visto os DVD’S que estavam por ver e eles têm sido interessantes. Busco a loucura para depois ter um problema pra resolver. Quero ser um inquilino da normalidade, mas com aluguel atrasado. Essa televisão que me abandonou, essa polenta artificial da Sadia, essas crostas de comida nos talheres mal lavados pela faxineira, esses fantasminhas camaradas...tudo isso é de mentira, criações imaginantes. Ao final, nos melhores diálogos que temos com nossos abismos, estamos sozinhos. Confirme você mesmo antes de dormir.

domingo, 21 de agosto de 2011

Cartas de Jung

"(...)O 'modus philosophandi' de Heideger é totalmente neurótico e baseia-se em última análise em sua excentricidade psíquica. Os seus afins mais próximos e mais remotos estão em manicômios, alguns como pacientes e outros como psiquiatras com ares filosóficos. Apesar de todas as suas falhas, o século XIX merece mais do que ter Heidegger como seu último representante.(...) Com toda sua crítica a filosofia ainda não conseguiu eliminar seus psicopatas. Para que existe um diagnóstico psiquiátrico? O ranzinza Kierkegaard também faz parte deste capítulo. A filosofia ainda precisa aprender que ela é constituída de pessoas e que que depende seriamente da constituição psíquica. Um capítulo de uma filosofia crítica do fututo terá como título "A psicopatoloia da Filosofia". Hegel quase explode de presunção e vaidade; Nietzche goteja desonrosa sexualidade etc. Não há pensamento em si, mas há eventualmente um pote de impurezas de todos os demônios inconscientes, como qualquer outra função que reindivica hegemonia. Muitas vezes é menos importante 'o que' é pensado do que 'quem' pensa.(...) A neurose desmente todo filósofo, pois ele está discorde consigo mesmo. Então sua filosofia nada mais é do que o combate sistematizado de sua própria insegurança. Desculpe estas blasfêmias! Elas brotam de minha tendência higiênica que lamenta ver tantas inteligências jovens serem contaminadas por Heidegger."


Do livro C. G. JUNG - Cartas (1906-1945)

balbuciando o inexprimível


DINÂMICA DO INEXPRIMÍVEL:
1) beba 6 copos cheios de vinho;
2) fique olhando para a figura acima durante 6 horas ininterruptas, sem piscar;
3) depois faça uma colagem com revistas velhas;
4) beba mais um copo;
5) descreva as sensações do inexprimível;
6) chame uma ambulância.




Todo pronunciamento é uma falha.
A Queda do homem está na linguagem escrita e falada.
A expressão que diz, é de uma pobreza intolerável.
Dizer é contestar a universalidade.
Dizer é deixar de dizer o resto que não se disse.
Traduzir é equivocar-se ao quadrado.
A linguagem é uma bomba relógio ao contrário,
que vai nos deixando cada vez mais distantes daquilo tentamos buscar com ela.
Todos os livros e discursos são silêncios prematuros.
E as poesias, crianças cagando nas fraldas.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CHURRASCO DOS DEUSES


Dalí, que acabou namorando eternamente.

Um amigo que começou a namorar a pouco tempo,
criou em tempo recorde uma barriga que nunca teve.
Talvez case em breve.
O casamento é o corredor da morte no matadouro dos deuses.
Como se os nubentes fossem vacas no átrio de um frigorífico com câmaras frias.
Os deuses nos casam pra que a gente engorde.
As mulheres são enviadas pelos deuses pra nos fazer engordar.
Vamos aumentando a pança.
Criando carne.
Formando graxa.
Quando estamos no ponto,
como um bife que não é nem bem nem mal passado,
os deuses metem uma estricinina divina nas veias da gente.
Morremos,
com direito a velório, chazinho de carqueja e velinhas religiosas com a coluna atrofiada dizendo:
"...pelo menos descansou".
E enquanto os familiares choram no velório
(isso se a morte for caso de choro e não de festa),
os deuses divertem-se esperando que a gente vire o churrasco deles.
Acho que é preciso evitar o orgasmo do casamento
pra que o ímpeto de sono-pós-orgasmo não amoleça as carnes do relacionamento.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

POESIA FUTURO





Uma conclusão é sempre um atraso atrasado.
O preconceito das datas é assim:
Você planeja que a data seja assim,
Mas ela acaba sendo assado.




segunda-feira, 15 de agosto de 2011

NASCENÇA





Quando os “olhinhos infantis” do Caetano soaram pela sala de cores,
disfarcei meu sentimento olhando para as letras do livro,
sem, porém, ler palavras.
Ela escrevia uma receita nova, a “Pizza Freudiana”.
As receitas iam virar livro, e isso já era um projeto,
um prato solto no ar que deveria receber um tiro certeiro.
Ela também disfarçou, mexendo a caneta sem nada escrever.
Então cantamos em disfarce a música enquanto a música tocava,
um olhando para a folha do livro, outro para o caderno.
O risinho meio safado meio de Buda, não era de se ver, mas sabia-se.
Éramos disfarçados e disfarçáveis nos tantos que tínhamos que carregar com nossas criações.
Ela falou umas coisas que não consegui entender.
Desconsiderei, ela falava sozinha.
Tinha uma loucura,
e por isso era minha mulher sendo, antes, um broto do mundo.
Uma propriedade dos deuses que eu tinha alugado com moedas de sorte.
As normais são muito anormais pra mim, sinto fadiga.
Disse que estava com 70% de vontade de mijar,
quem na terra há de saber o que significavam os outros 30%?
Talvez fosse um pretexto sincero pra ficar ali comigo,
como quando deixamos de mijar pra ficar na cama no domingo de manhã.

Depois olhei ao redor,
tentando entender todas as aquelas cores.
Mas não dá pra entender as cores.
O colorido confunde quem vê.
A sedução é uma confusão de sentidos.
Estava de novo seduzido, enfim.

domingo, 7 de agosto de 2011

o homem vitruviano




O homem vituviano chegou sem bater na porta. As grandezas que são recheadas de intensidade, em geral, não são matéria anunciada. A presença do homem vitruviano requeria um vinho especial, uma iluminação confortável aos olhos, uns sonetos sem linguagem na caixa da vitrola. Velas disfarçadas de vela nos cantos da mesa lateral. E eu. Quem mais? Quem mais, me diga destino, destino meu? Haveria paciência capaz de suportar o transborde do meu lamento de poeta? Se não sou um aos olhos da história, sou aos meus olhos que veem o quê apenas quero ver. Que outros olhos importam para quem não pode ver demais? Ou será que vejo de menos?

Sobre ver, o que sei é que ver-se é a única maneira de pertencer, isso caso você seja alguém que percebe o engodo da existência. Pertencer é uma mentira coletiva, um pretexto. Pode ser uma igreja, podem ser as metas da sua empresa, pode ser o filho que nasceu e que chora por seu cuidado, fazendo você se sentir único num mundo que ignora coisas únicas. Pode ser sua egrégora de final de semana, pode ser sua família, pode ser o esporte, o videogame, a cervejada no fim do expediente... pertencer a si mesmo, no entanto, no ardor calmo das letras, é saída possível ao poeta, que vai em solitude lapidando os pensamentos, alinhando as desordens do caos que há dentro da alma, compreendendo que a compreensão da desordem depende do ajustamento mecânico das frases. Que as frases nada digam é expediente corrente ao poeta, que em geral é bom em estuprar a linguagem. O poeta é um mecânico das letras assim como um mecânico é um mecânico de carros. Mecânica há até no pensamento, vejam só. Eu, ali, tendo tudo que havia ao meu redor, existia, existindo errado.

Enfrento o outro esforçadamente, fardo-me e, logo, me farto. Entendo a necessidade de abraçar meu entorno, sei dessa importância para a bússola que aponta ao norte nosso. Percebo a benção que haveria se eu fosse o útero materno das coisas que me envolvem, me cobro, me culpo, me julgo, me absolvo... mas sempre duvidando da sentença e da soltura. Absolvo-me pelo esforço mas condeno-me pelo fracasso interno que a mim grita quando não suporto o assalto dos outros àquilo que penso. Quero pensar o que o pensamento em mim pensa, não aquilo que quer me pensar por coação de forças que não estão em mim. Sou o tipo egoísta, portanto? Nunca saberei saber o que é o ego ou o que são os ismos. E por isso pasmo!

Quero diluir-me naquilo que ganha vida em mim por meio das letras? Quero vencer a necessidade de crer na bendição do discurso da aceitação...Mas me incompreendo, irrisório, flácido em relação aos demais que também pensam o que eu não penso... Como posso não querer o que querem? Como posso destino meu? Como posso não sorrir pelo riso que dá riso aos rostos todos? E como posso rir do que em geral não é matéria para fazer riso? Como posso não ter objetivos tão puerilmente anestésicos a ponto de estar condenado durante sabe se lá quanto tempo a ter clareza de que a maior delicadeza da vida é acreditar em mentiras? Ou, senão, ser grande suficientemente para, mesmo descrendo, embriagar-me de consciência para crer mesmo ante toda ausência de sentido, ante toda falsidade do paladar, ante todo o deslumbre dos olhos?

Abandonei o fardo da minha carne sobre o chão gelado do inverno. Abri o peito como se mal na terra não houvesse. A entrega aos ares mansos do universo fez de mim o vitruviano. Pensei no quê as pessoas pensam quando pensam no homem vitruviano. Pensei em como da Vinci pensava penetrantemente e materialmente a ponto de transformar tanto a realidade, em fazer sentido para o passado e gerar plausibilidade ao porvir. Pensei nas teorias, nas ratoeiras enganadamente montadas sobre as razões da criação do vitruviano pelo gênio. A genialidade faz da certeza da ilusão o sangue que mantém a vida dentro do corpo existencial. Será que o homem vitruviano tem um coração capaz de viver sem pulsações? Os corações sempre precisam desse vaivém...pobres corações necessitados. Meu coração é uma carne enganada, um pedaço de vida desconfiado, mas que espreita pelos andarilhos a trazer novidades vindas de outros reinos e pelas donas a balançar suas ancas sorridentes. Espreito na sacada que outrora foi de tantos que também encostaram a bunda no parapeito para tragar com mais suavidade o suicídio do cigarro.

As velhas que não amam morrem corcundas porque o coração amargurado lhes rouba a postura da coluna, pobres velhas mal amadas. Talvez eu me deva delclarar, então, um novo mal amado porque amo essas letras que eu vou letrando ao longo da tela? Só me vitimizo porque preciso pensar que há em mim uma cura a ser feita, caso contrário, declararia minha morte por automatismo, que é uma espécie de morte ainda não prevista nem pelos livros de medicina, nem pelos livros de psiquiatria. O amor é a única ilusão que nos cega. Cegueira é pior que aids, a cegueira é a única das doenças que realmente é incurável. A aids já foi controlada, o câncer só mata quem não pode fazer renascer suas partes podres, o ebola acho que só existe mesmo nos filmes... porque tudo que vive longe de mim não vive em mim. As demais ilusões como a continuidade da vida, a prepotência da matéria ou mesmo a nossa fajuta lógica dos desejos podem, todas, ser descortinadas com a visão de um olho. O amor indomável nos deixa de olhos abertos no fundo do oceano escuro. É bom saber que a qualquer hora um tubarão me partirá ao meio, dilacerando minhas carnes e livrando minha alma, talvez até mesmo dessas letras.