terça-feira, 24 de maio de 2011

NORMALMENTE






Eu gosto de estar com os doidos porque gosto de estar do lado de gente normal. Quanto mais louco eu vou ficando, mais vou entendendo o que é ser normal, mais achando insano ser igual. Pena que ainda sou louco de menos, mas tenho metas de endoidecer à medida em que os cabelos ficarem brancos ou cairem, lá pelo outono da vida que é quando as penas para o crime de loucura ficam mais amenas. É engraçado ver que as crianças e os velhos, ou seja, aqueles que estão mais perto do estado de não-vida, são os mais próximos de uma liberdade louca usurpada dos seríssimos adultos sapientes de meia idade.

Meus cabelos não vão cair. Eu sei que não. É porque corto o cabelo de forma programada a partir das fases da Lua. A Lua é foda! A Lua é pra quem ainda acredita, tanto em cabelos quanto nos sentimentos e sensações sutis (Deus e o Diabo entram aqui). Claro que cortar o cabelo na lua crescente e no dia correspondente ao horário do próprio nascimento pode ser considerado coisa de gente insana. Mas brotam cabelos pseudoplacebos em mim de um jeito impressionante e mágico, logo em mim, que brotei numa família de carecas.

De todo modo, é engraçado perceber que a incompreensão é batizada de loucura pelos outros. É como se retribuissem a incompreensão com um soco chamado rótulo, que vêm lá da puta que o pariu mais primitiva que temos dentro de nós, no lugar tosco onde só sabemos fugir ou lutar. Nesse lugar tosco não há uma mesa de bar em que se possa sentar, conversar, tomar uma cerveja e depois buscar algum entendimento. É quase sempre os caminhos entre os diálogos que mostram alguma verdade, como um raio que ilumina a floresta escura e logo depois esconde a verdade na imagem que captamos no cérebro naquela ínfima fração de segundos. Esse alerta sobre os esplendores da dialética o Platão já nos fez antes de Cristo renascer do reino dos mortos, mas, como sempre é difícil entender coisas difíceis, ele é até hoje rotulado de um masturbador mental que morreu no campo da teoria e esqueceu da prática que é o quartinho onde o Tio Patinhas guarda suas moedas de ouro empoeiradas...O "sei que nada sei" morreu com o velho Sócrates que não tinha muitos problemas com a própria vaidade e por isso não escreveu porra nenhuma.

A loucura tem mais cores. Já pararam pra ver a cor dos carros na rua? O espectro vai do preto ao branco, passando pelo cinza e todas outros tons de cinza e de cor de merda mole correlatas. Os carros amarelos/roxos/verde-limão geralmente são dos publicitários que tem a sua loucura chancelada pela profissão. A loucura é mais legal. A loucura permite encontros, permite passos mais largos. Permite usar o passarão e o passarinho no mesmo ambiente, sem que haja um arquiteto positivista dizendo o quê "casa bem" com quê. Mas, para que os músculos da perna aguentem, é preciso, antes, um passinho meus caros passarãos. Um passinho que pode se dar evitando esse impulso mediocritas de batizar como loucura a incompreensão. Talvez esse possa ser considerado o  primeiro passo para tornar-se normal, que é o estado infinito e personalíssimo de autenticar esse monstro bondoso chamado você que dorme dentro de você. Ou alguém vai permtir uma carequice gratuita ou um autonaufrágio na própria piscininha inflável de 1000 litros?  

quinta-feira, 19 de maio de 2011

amar, amar y tuvo muerte lenta!



O estado de vigília trouxe a poesia do Fito fragmentada em único verso da música Sasha, Sissí y el Círculo de baba, que diz: AMAR, AMAR Y TUVO MUERTE LENTA...

Tenho amado do ctônio ao celestial. Do céu ao inferno. Do além para o acolá. Tenho amado vocês, você, tudo que eu vejo, tudo que você não vê. Tudo que eu esqueço. Tudo que você não sabe dizer. Tenho amado por tolerância e por egoísmo, acariciando o meu ego porque, antes, há uma união entre o que é meu e entre o que é plural. Tenho amado os mortos, os vivos, os morto-vivos. Amado as crenças por observação de que são um brinquedo. Estou assim por pureza de um estado que não se sabe como começa e até onde aguenta sem cansar. Ou se trata de uma condição permanente? A morte é manipulável, o amor, uma gasolina, uma comida, um gerador de energia vital. Eu não canso mais. Eu não sinto mais. Estou entregue ao final dos jogos, no quando não importa a delícia da vitória nem a cólera da derrota. As pétalas de flores coloridas jorram afetos pelos caminhos que piso, pelos lugares que imagino sem pisar. Há uma igualdade possível e por isso palavras como essência, pureza e verdade voltam a sentar comigo nessa grande mesa deste Ághape incessante. Amou, amou e teve morte lenta! Quantas músicas escondem tanta verdade que nossos ouvidos não escutam!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Unhas? Ainda?


- exemplo nojento de uma mão nojenta com unhas mais que nojentas -


Em média gastamos 1 minuto para cortar cada unha de cada um dos dedos da mão. Assim, são 10 minutos para aparar as garras das 2 mãos. Considerando que em média é preciso cortar as unhas 3 vezes por mês, gastamos 30 minutos por mês para essa tarefa anticontemporânea.

Por ano são 360 minutos gastos meditando enquanto cortamos as unhas das mãos. Tendo como hipótese que alguém viva 70 anos... - se bem que eu vou viver até os 81, ou seja, vou morrer no ano 2064, então, tomemos os meus 81 como referência já que essa pesquisa é minha. Vivendo 81 anos uma pessoa humana (?!) gasta em média 29.160 minutos cortando as unhas das mãos.

Se acrescentarmos à esses minutos os outros minutos gastos com os cascos do pé (sim porque toda unha de dedão de pé é um casco asqueroso), o tempo gasto aumenta. Com o pé a preocupação com o aparamento é menor por dois motivos: os calçados e a ciência. Os calçados camuflam a cena nojenta quando a preguiça é maior que a vontade de não ter uma garra felina. A ciência explica sem explicar que as unhas do pé crescem 3 vezes menos que a das mãos. Vai ver as duas coisas estão associadas e são as meias e sapatos que abafam o crescimento das unhas dos pés. Como aquelas experiências do colégio em que o fogo apagava quando tampávamos a vela com o copo.

Se essas duas condicionantes estão certas, um homem com um grau normal de porquice como eu gasta mais 120 minutos x 81 anos de tempo com as unhas dos pés, o que contabiliza 9.720 minutos. Esses 9.720 minutos gastos com os pés, somados aos 29.160 minutos gastos com as mãos, resultam em 38.880 minutos gastos cortando as unhas durante uma vida inteira de 81 anos. Isso pra mim. Se você for viver mais ou menos que isso, faça suas prórias contas.

Vamos às regras de 3, que são a única coisa que eu sei fazer em se tratando de matemática (e com calculadora... a invenção que acabou com a matemática escolar...porque as crianças ainda tem que estudar

   60 minutos -------- 1 hora
38.880 minutos---------- X

60x = 38.880
x = 648 horas


logo,

24 horas ------- 1 dia
648 horas-------X

24x = 648
x = 27 dias!!!


Logo, ficamos quase 1 mês cortando as unhas no intervalo de 1 vida. Porque essas unhas não param de crescer hein? Melhor seria dormir nesse tempo. Que Deus mantenha as unhas apenas nas mulheres nas próximas gerações.

terça-feira, 17 de maio de 2011

HELÊNICA





Na rua o molhado da chuva
refletiu tua boca como imaginura encantada.
Na rua a chuva fez trégua e,
mesmo assim,
em mim,
os pingos ainda te pingavam.
Os pingos fizeram em mim uma chuva inteira de ti.

Não é no pensamento que tu vens à mim,
mas eu é que vivo nos teus lábios,
e nesse insuportável celeste felino dos teus olhos -
lar de tantos abismos.

Pela luz molhada da rua
pude voltar à tua boca que,
às alturas escuras de um domingo
e mesmo nas alturas da semana,
vibram em mim como uma salvação
que salva do aquoso desses teus olhos sem nome.

Mas tua boca sangrou e,
sentindo o cálido gosto doce
do sangue que acariciou os sulcos da tua boca,
abri meus olhos,
tão confusos quanto helênicos.
O aço dos teus olhos, em feitiço,
transformou o caminho já morto atrás das minhas costas em mortal abismo.
Eu não mais poderia voltar à minha ancianidade.
Gritei por Helena... a que sempre esteve.
Em Tróia e sabe-se lá em qual outro canto da memória.
E fiz da intuição meus olhos,
porque ainda sou aprendiz da minha história.





segunda-feira, 16 de maio de 2011

INDÍCIOS





Não se sabe se aconteceu há séculos,
ou há pouco, ou nunca.
Na hora de ir para o trabalho,
um lenhador descobriu que o machado tinha sumido.
Observou o vizinho e comprovou que tinha o aspecto
típico de um ladrão de machados,
o olhar, os gestos, a maneira de falar...
Alguns dias depois, o lenhador achou o machado,
que estava perdido num canto qualquer.
E, quando tornou a observar seu vizinho,
comprovou que não parecia nem um pouco um ladrão
de machados, nem no olhar, nem nos gestos,
nem na maneira de falar.

Eduardo Galeano

quarta-feira, 11 de maio de 2011

SUTEMÁTICA: a temática surreal



Tanto tenta o pequeno homem dominar a gnose toda desse vasto império da existência. E o faz com o cochilo de seus sentidos. E meio assim aturdido, sem compreender e limitado a perceber, acaba batizado de batizador... o que não se constitui como um paradoxo propriamente dito, mas como um paradoxo impropriamente dito. E repete sua pequena história, que são as mesmas e cansativas histórias do mundo e que só mudam por conta dos diferentes títulos, como se os mesmos textos tivessem títulos reinventados...

Esse vício é de quase todos, e pode até ser que seja uma virtude que só compreenderemos quando o universo entender que é mesmo Uno. Uso o “quase” apenas pra não ser taxado de absoluto. Inescapável aos poetas, aos gênios, aos senhores respeitados e não respeitados (quê diferença há entre ambos?), aos anônimos que sentem e não batizam os sentimentos pois sentem sem necessidade de entender. Sentem e só. Como à maioria dos homens e mulheres sói assim acontecer.

São sempre os grandes e arquetípicos temas: medo, amor, morte, angústia, guerra, sexo, heróis, paixão, astúcia... parece que a criatividade esvaiu-se. Os sentimentos e sentidos só mudam mesmo de endereço, ou de email para já atualizarmos esse dito clichê que como tal são sempre ditos demais. As sensações são como uma família que muda de casa. Se a casa for maior ou diferente da de antes, continua a ser uma casa.

Ou – pergunto – essa tal alteridade, que anda cheia de moda e livros perfumados de novo, não é apenas o velho conselho de que nossa liberdade termina no limite da liberdade do outro? A velha questão da tolerância para com as nuances do outro que quase sempre são a nós insuportáveis porque, além de não virem de nós, são completamente diferentes das que vêm de nós...Do time de futebol que se torce até a posição e os parceiros eleitos para nos fazerem gozar. Acrescente-se nesse atualíssimo conceito difundido de alteridade um convite para que se convide o Outro (o alter do conceito) para um café com bolachas ou uma ida ao puteiro ou qualquer outro gesto de materialização do afeto. Um convite em que passemos a usurpar nosso próprio limite para que se cumpra a histórica regrinha de boa vizinhança, ainda que o Outro seja o maior filho da puta que existe na Terra, afinal, é preciso dar a outra face como ensinou Jesus quando cruzou por essas terras maculadas e benditas (sim, ao mesmo tempo).

Esses assuntos sobre a moralidade humana, esses choques entre revolucionários e naturalmente conformados, entre os crentes em Deus e os que dele se riem, entre capitalistas e socialistas e indiferentes, entre bondosos e malvados das fábulas da Disney, entre puritanas e sádicas, entre ociosos e trabalhadores, todos esses falsos confrontos disfarçados da mais pura vontade de domínio sobre o outro e sobre o resto, tudo isto e o que mais possa haver já encheram completamente o saco. Estão perfumados com talco, que é o cheiro por excelência de tudo que é velho e que está prestes a morrer de forma “delicada”. Assim, as histórias e tudo o que se diga (inclusive isso), só valem pela pitada de pessoalidade de quem as conta.

Por isso vejo na honestidade uma espécie de saída de emergência. Mas uma honestidade ainda maculada pela moral cristã e moderna e (sim) contemporânea. Sem honestidade de verdade, os temas seguem rondando as mesmas tensões, os mesmos falsos dilemas da nossa fantasia. Porque inventamos os dilemas se eles são produto da fantasia? Porque choramos a morte se a morte não morre? Porque queremos mais amores e mais dinheiro se, ao final, não vamos precisar de nenhum dos dois? Porque queremos consumir uma bunda gostosa se, ao final, vamos ejacular sozinhos? Porque os medos se é no espelho que encontramos os piores demônios? As temáticas da vida andam chatas demais. Tudo já foi dito, todos os filmes já foram feitos. Todas as guerras guerreadas. Até essa minha ode à canseira por certo já foi reclamada.

Tudo que a civilização aprendeu até hoje poderia ser resumido em uns pequenos postulados que poderiam ser agrupados numa Bíblia Resumão ou numa Constituição de poucos artigos. E tudo o mais que se quiser dizer, deixaremos de material para encher futuras linguiças filosóficas. Material a compor as sessões de livros promocionais que tem as mesmas coisas contadas por gente desconhecida e sem nenhum plano de marketing editorial. Esses postulados que já foram delimitados por tanta gente. Essa recorrência de argumentos mascarada de concorrência de argumentos. Uma contraposição de causa e efeitos (que serão os mesmos com nomes novos).

O que escapa desta regra: respeitar a si, aos outros e ao meio ambiente? Desenvolvimento sustentável... só se for da nossa santa paciência. Que saco ser tão educado! Pregar respeito ao meio ambiente e continuar comendo 500kg de carne em todo churrasco de domingo como uma hiena do Discovery? Que cada um possa viver dentro da sua garrafa do jeito que quiser, dessa garrafa desnorteada que bóia no mar de brinquedo de um pessoal que não conseguimos enxergar porque são grandes demais aos nossos olhos terráqueos. Mas basta dessas pregações! Basta de querer ver Outro ferrado só pra alimentar nosso saco de honrarias! E quem disser que isso é subjetividade ou loucura será igual aos que não disserem nada e rirem com um sorriso encabulado de quem não entendeu porra nenhuma. Na verdade eu também não sei o quê quis dizer, mas sou um filhote da intuição e, por isso, repito esse grande tema sem tema que é o caos. Abiantô, chatô, alô alô alô...alguém na escuta?!

terça-feira, 10 de maio de 2011

sábado, 7 de maio de 2011

VINHO DOS CORPOS DE PLUMA




Sei que meu desejo fez de mim um verdugo.
Sei que uma criança não cabe em um homem.
Sei o quê meu redor espera de mim,
mesmo que eu mesmo ainda não saiba.
Eu ainda grito,
choro
bato freneticamente os pés no chão
quando fico sem o pacote de doces.
Depois faço uma cabana no quarto com o cobertor,
ou durmo embaixo da cama,
lambendo as feridas que a fantasia fez, em mim,
virar dor.
E isso tudo só porque, agora que cresci,
meu doce é teu amor.

Então me rendo.
Entrego os pontos.
Fico nu neste sol de 40 graus que vai fritar minha pele.
Pouco me importa porque só sinto a partir da pele.
Dentro já não sinto, contemplo.

Meus joelhos estão no chão.
Meu rei sangrando no tabuleiro,
contente com a possibilidade de transcender ao calor da morte
e deixar para trás tantas obrigações sufocantemetne quadriculadas em preto e branco.
É a precisão que nos mata!

Mas quando, entre nós, faço uma medição,
chego a cogitar mesmo que estupro tua alma.
E revido meu próprio pensamento
pensando que o foco de luz que traço em teu caminho
é de uma lanterna dos deuses.
Isso justifica meu intento?
E do alto dos terrenos que piso,
ecoo teu nome pelo vale para que venhas
e sintas o cheiro dessas flores que não nascem na Terra.

Se isso em tua carne se faz dor,
é porque é na dor que a carne entende.

Tua confusão nem confusa consegue ser,
e em ti existe esse lúcido pressentimento.
Dance e brinque e minta.
Minta também a mim, que sei tuas verdades.
Minta sempre, mas só da pele para fora, sentindo dentro a verdade.
Nós somos de verdade, com todo o medo que a verdade nos causa.
Tua mentirinha é para mim uma carta de amor,
com letras de convite de casamento.

E à noite, que sempre revela verdades no escuro,
vamos brindar nosso amor com nossos corpos de pluma,
com nosso vinho veneno que já não contamina nossa carne que,
amando de verdade,
pensa que sonha alguma realidade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

PRE(S)SENTE




Quando ela chegou no meu apartamento com todas as malas que traziam todas as bugigangas dela, compreendi que o que tínhamos tinha acabado. Mas como as percepções são sempre matéria a se confirmar com o passo das horas do futuro, ainda não tínhamos acabado DE VEZ. Viveríamos juntos: mesma cama todos os dias, mesmo banheiro pra escovar os dentes e cagar, espaços iguais e vontades diferentes, andróginos em busca da necessidade de não ser, sexo burocrático por amor, medo e tesão. Faríamos essas coisas de casal que mora junto sem ter filhos. O filme do que viria passou e entendi que antes de começar tudo já estava errado. Ela não devia morar no espaço que era meu porque era meu e não nosso. E como as coisas sempre chegam em momentos decisivos, tudo estava acabado.

Antes mesmo que ela fosse já sabíamos por pressentimento, mas não queríamos admitir. Por isso criamos uns personagens que se amavam, enquanto nos escondíamos atrás desses fantoches de pano vivo. A gente se sentia mal porque no submundo das nossas almas habitava um monstro chamado fracasso. Todo projeto que dá errado desce rasgando a garganta e fica embolorado no estômago. Um fracasso que empunhava a bandeira: “você não é capaz de, sequer, planejar a própria vida seu animal estúpido”. Além disso, tinha todo aquele amargo de saber antecipadamente que se viéssemos a viver juntos, permaneceríamos juntos por conta das contas.

Claro, as contas ficam mais curtas se são divididas em 2. 1 casa dividida por 2 é = à despesa de meia casa para cada 1, enquanto 2 casas divididas por 2 é = à despesa de 1 casa para cada 1, logo, esse é um dos dois momentos em que o amor tem alguma precisão. O outro é quando amamos de verdade. A merda é que esses amores em que paira uma dúvida eterna são como os gatos traiçoeiros que um dia inesperadamente lanham todo nosso rosto. Hoje em dia existem muitos companheiros de teto que já se amaram e continuam morando na mesma casa porque a grana é curta. Acho essa uma das grandes merdas de nosso tempo.

Eu tinha sido um apaixonado. Um apaixonado pelos castelos que havíamos construído quando os castelos ainda eram um sonho. Eu gostava do jeito do nosso amor e isso é e sempre será inexplicável. Cada amor tem seus jeitos, suas manhas, seus modos idiotas de falar e de fazer preliminares. Seus programas prediletos, suas melhores posições, seus melhores movimentos invisíveis. À parte isso - que é quase comum -, tínhamos o tempero da distância. Esse era O PONTO. Eu morava no sul, ela morava no norte. Havia um gozo antes de cada encontro. O “estar indo”, essa grande e arrastada preliminar, realmente nos excitava. Cada vez era uma outra vez, que se desenhava sempre como um novo encontro escondido. Tomávamos uns capuccinos pela cidade, depois da expectativa do portão de desembarque. Novidades em cada papo e às vezes até um novo perfume no cangote, que quando se misturava com o antigo cheiro da pele fazia tudo ficar perfeito.

Nosso amor tinha uma teoria, uma autopesquisa, várias conclusões desconexas. E pensando, o que as pessoas amam são sempre os conceitos. A distância era o conceito nosso, nosso chantily. Quando os sete mares para atravessar se transformassem em sete centímetros de lençol, tudo estaria acabado, afinal, só amávamos o conceito, materializado na distância entre nós. O único jeito de manter vivo o amor que tínhamos era sentindo aquele pedaço de ausência que sempre nos atormenta, como disse a Camile Claudell num dvd bacana do Chico. Não tinha jeito. Não tinha jeito porque é só no presente que estão as respostas. Quando ela chegou no meu apartamento com todas as malas que traziam todas as bugigangas dela, compreendi que o que tínhamos tinha acabado.



terça-feira, 3 de maio de 2011

Leitura recomendada - Andréia Beheregaray


A amiga e escritora Andréia Beheregaray lançou recentemente dois livros sobre as profundezas do universo-mulher, tão conhecedora que é dos abismos delicados do feminino em que homens e mulheres caem e se espatifam num duro chão rochoso. 

Esse vasto universo feminino, em que os homens sucumbem à maciez das pererecas e as mulheres acabam traídas pela própria instabilidade hormonal e existencial, sempre aparecem de forma ácida, doce e reveladora nos escritos da Andréia. Leitura recomendada.

Entrelinhas - José Saramago

domingo, 1 de maio de 2011

patologênese




Os sinais estão aí. Basta alguma atenção acurada e intencional para perceber que a racionalidade pede socorro. A racionalidade e seus títeres, que são os homens e as mulheres. A racionalidade é uma complexa assediadora de consciências pueris (e são tantas...), de consciências que não nasceram há dez mil anos atrás como Raulzito.

Essa espécie de Queda no Éden da sociedade contemporânea é um efeito natural como já nos alertou Capra no seu Ponto de Mutação. Mesmo sendo natural, tem resultados nefastos. Como se a saúde de um corpo inteiro dependesse da amputação de alguma parte esclerosada. As amputações invisíveis estão por aí e pode que alguém perto de você esteja com dores atrozes ou mesmo anestesiado com algum antidepressivo. A existência vem naturalmente dispensando esse exército de “portadores rígidos da verdade”.

O caráter natural não aproxima nem exclui os falaciosos atributos de “bondade” e “maldade”. A ruína – pessoal e coletiva – é uma condição de possibilidade da grande natureza cósmica que, em essência, não se pretende boa ou má. O maniqueísmo é uma amarra da natureza humana que nunca encontrou harmonia com o caráter transcendente da natureza cósmica, mas que se manteve até hoje como uma espécie de agente regulador dos trópicos da existência temporal. Assim como algumas partes de nós são descartáveis, também o são os princípios que afiançam a realidade de algum tempo, considerando toda a história como uma grande existência una.

Às consciências de hoje resta perceber que a natureza pessoal depende do seu próprio entorno e que, em havendo dissonâncias, qualquer possibilidade sadia de pertencimento será aniquilada. A não adaptação à nova frequencia que vem se instalando neste pedaço de tempo e espaço em que vivemos, promoverá alguma espécie de eco inaudível daqueles que permanecerem escravos de sua própria noção de tradição. A tradição neste tempo é uma traidora. Não é possível que haja unidade com alheamento e, por isso, permanecer com os vícios ortodoxos do maniqueísmo é carimbar o próprio passaporte para o não-pertencimento existencial nesse tempo que vem.

Se você é do tipo que tem mais certezas do que dúvidas... cuidado! Os castelos de certezas traem os racionais de hoje assim como os contos de fada traem qualquer menina-mulher que acaba percebendo que seu príncipe-grande-amor tem uma barriga imensa, peida embaixo das cobertas e ainda por cima é assíduo freqüentador da zona, só pra comer umas pererecas que tenham gemidos diferentes. Um príncipe muito mais ogro do que encantado. Deviam ter contado a verdade desde o início, tanto às menininhas-projetos-de-princesa quanto aos racionais, que têm finas paredes de concreto que sustentam uma grande massa chorosa e gelatinosa. Mas como poderiam ter aprendido sem que ninguém os tenha ensinado? E como agora, depois que suas próprias certezas se tornaram firmes como a rocha, poderá ser diluído esse edifício altaneiro de verdades? Essa construção que ameaça cair sobre a cabeça dos engenheiros que confiaram tanto na precisão de seus dados e esqueceram-se da natural espontaneidade dos terremotos... Haverá – que me digam os deuses – outra via que não aquela que nos faz beber a lama do inferno para que se possa indicar a saída a esses tantos? Ou manteremos a verdade de Nietzsche que já sabia há quase 200 anos atrás que no trono da grande sabedoria repousa absoluto o Diabo como grande mestre?

O óbvio é uma ovelha branca igual à outras milhares de ovelhas brancas do rebanho. A terceira guerra mundial não será do Bin Laden, nem do Kadafi, nem do Obama. A terceira guerra é na verdade a primeira das guerras da invisibilidade. Que pouca atenção temos dado ao silêncio e ao escuro, como se fossem partes mortas e inertes da nossa parte humana que só vê sentido nas cores e sons do utilitarismo.

Nessa inexorável caravela que leva os racionais ao abismo, não serão bastantes as ciências tradicionais. Os antidepressivos serão tão ineficazes como usar aspirina como método contraceptivo. A terceira guerra é uma guerra personalíssima: você contra você mesmo. Uma guerra sélfica, só pra se dar os devidos ares de importância pra esse negócio que é sério, inevitável e desafiador para quem pretende servir de bóia de salvação para os outros. A interiorização nos seus mais plurais matizes é o anestésico possível. A interiorização requerida vai desde o canal afetivo que se pode estabelecer com um bicho de estimação até grandes descobertas no terreno da espiritualidade. Vale ir à missa, praticar yôga, frequentar o psicólogo, meditar sobre si mesmo tomando um porre, estudar filosofia e usar a interrogação como enfeite do chapéu, significar a vida com o afeto puro dos filhos, dialogar com os próprios demônios, encontrar um amor profundo que permita um passeio comprometido em territórios selvagens do ser etc. Vale reiki, biodança, tarôt francês, aprender a tocar um instrumento musical e mais uma etc (acho a coisa mais idiota do mundo esse tal de etc.). Além disso, primordial é que cada um encontre o seu próprio meio de alinhar as ondas pessoais com as novas que já estão começando a enlouquecer muita gente por aí.

Os acometidos de overdose de racionalismo estão adoecendo, incapazes de suportar a nova frequência desta temporalidade e deste espaço histórico. Esses ainda viciados pelas fragmentadas linearidades da lógica padecem vagarosamente, já que a única linha reta que lhes resta é a que os conduz, como gado ao abate, em direção ao próprio abismo. Os significantes desses doentes da vez serão a própria causa do abalo sísmico em suas harmonias existenciais. Quantas vezes esses livros insuportáveis de autoajuda já não disseram que viver com um único norte na vida é cavar a própria cova? Esses livros são um porre, mas insistem em obviedades que se escondem no meio do rebanho de ovelhas brancas. Que paradoxo filho da puta esse de que o
óbvio vive em permanente estado de ocultamento...

Erga as armas e caminhe, SEM dentes cerrados e SEM sangue nos olhos porque isso é coisa desatualizada, em direção à seus territórios desconhecidos. Só assim será possível evitar a morte por exaustão (e dor de cabeça e depressão e ansiedade e pressão alta e TPM e úlcera e câncer e esquizofrenia e AVC e e e e...) no seu próprio labirinto escuro.



terça-feira, 26 de abril de 2011

O que só existe como saudade não existe fora dela! O que só se vê de olhos fechados pertence aos túmulos e às mãos do poeta...e só...e é preciso a benção dessa percepção.




É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.



Mario Quintana, ensinando a sorver o deveras doce ar das mortes.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

FABULÁRIO DE UMA FAXINA


Fedor insuportável e sensação de que se vive num hospício são sentimentos constantes pra quem mora sozinho. Minha faxineira sumiu e a coisa começou a degringolar. Ela me enganou. Elas dizem que vem, e acabam não vindo. Vagabunas de merda. Vai ver ficam com preguiça e, se for por isso, tudo bem. Quando alguém vai inventar um site de faxineiras? Ta aí uma boa ideia! Se alguém quiser roubar a ideia fique à vontade porque eu não tenho saco para os negócios. Deixo isso pros sapientíssimos administradores de empresa e outros porcarias burocráticos do tipo.

Da última limpeza até o dia D passaram-se uns 20 dias. Sim, 20 dias. E não mexi um dedo pra arrumar nada durante os 20 dias. Falta de tempo, preguiça e esperança de que uma faxineira chegasse por teletransporte foram deixando a coisa se aproximar do caos. A casa tinha virado o chiqueiro de um porco-mor que era eu. Também funcionava como um teste pra um cara que tinha sido criado com o modelo de que as coisas tinham uma ordem. Ficar em paz no meio do caos é um bom exercício pra aquisição do atributo da psicoliberdade, conceito cardinal de um projeto em andamento que será comentado aqui. Ou não será comentado aqui.
Tinha uns tuchos de cabelo espalhados pelo chão que pareciam ácaros aumentados no zoom 100x. Quem já viu uma foto aumentada de um ácaro sabe que estou falando de um verdadeiro pandemônio microscópico que causa um tsunami no nariz de um alérgico como eu. Às vezes penso que o meu nariz, que já é um cotovelo, nasceu APENAS pra aporrinhar a minha vida. Funga, coça e produz cravos que devem ser bem parecidos com merda de ácaro. Queria um nariz destacável, que pudesse ficar coçando fora de mim.

Um farináceo de sujeira composto por farelo multi-origem, pó, areia, pêlos também multi-origem, restos de comida e restos de pele morta que servem de alimento pros ácaros pandemônios; ficavam grudados na palma do pé enquanto eu caminhava descalço pela casa.

Uma borda seca de pizza tava há 5 dias no mesmo lugar da sala, pensei até em dar um nome pra ela mas achei MUITO imbecil a ideia 2 segundos depois que a ideia nasceu. Os sapatos inconjuntos espalhados pela casa com meias fedendo muito depois que o molhado do suor secava. Não tinha mais uma puta cueca limpa. E aí é claro que a gente começa a repetir, sempre selecionando as que estão menos piores. Todo homem já fez isso alguma vez na vida. E pensamos sempre: “bom, hoje não vou comer ninguém mesmo”. Se por acaso pintar um sexo surpresa o negócio é tirar a cueca junto com a calça sem aquele ritual católico de ir devagarinho, no estilo padre filho da puta que quer comer o coroinha e começa oferecendo um pirulito pra depois tentar enfiar o pirulito no guri em nome do nosso senhor jesus que veio à terra pra ensinar coisas boas e técnicas retóricas pra comer o cú dos coroinhas.

Quando as cuecas confortáveis já estão podres, a saída é pegar as cuecas desconfortáveis, aquelas que já deviam ter sido doadas pra que o filho da faxineira sofra com os problemas dela porque ele é um cara que não teve a sorte de ser um espermatozóide com potencialidade burguesa... Algumas cuecas são batizadas pelo diabo que deve lançar alguma magia negra que faz a cueca ficar apertando o saco ou entrando na bunda ou com alguma etiqueta que fica pinicando a pele o dia todo.

Copo limpo também não tinha mais. Passei a beber tudo no bico e percebi que além de ser mais prático, mantinha os copos intactos. A técnica de beber no bico torna os copos dispensáveis. O lençol, já dá pra se imaginar! Tava com uma camada natural de uma banha também natural. Só não tava pior que um lençol que usei no intercâmbio por 6 meses a fio. É impressionante como somos um saco de merda. Pra ajudar esqueci uma caneta marcatexto (será que agora marca texto é marca-texto, marcatexto ou marcattexto com essa porcaria de reforma ortográfica? Ah que se foda essa reforma) aberta na cama que deixou uma enorme mancha verde-limão no lençol. Numa noite dessas acordei no meio da madrugada pra mijar e achei que o fantasma de uma mulher marciana menstruada tava dormindo comigo. Fiquei apavorado até lembrar que a mancha era da caneta.

Nas duas últimas noites antes do dia D, que foi o dia em que me obriguei a limpar a casa porque percebi que a casa estava tirando minha saúde, eu tinha dormido pouco. Com o sono atrasado, viajei pra estudar conscienciologia que é uma revolução que outra hora eu conto com mais calma. Era sábado, 22h, podre de sono e com o cansaço pesando nos ombros. No domingo teria que levantar às 6 pra ir de novo pra merda do curso, que é interessante mas é uma merda porque começa num horário fodido de domingo. Em outras épocas eu ia me sentir mal por estar sozinho em casa num sábado de noite, ainda mais limpando a casa. Hoje em dia já sei que a salvação não é se enfiar num lugar quente, sem lugar pra sentar e cheio de gente imbecil que frita a cabeça e a minha paciência. Só com muita cerveja pra suportar esse martírio.

Não tinha choro, o negócio era meter a mão na imundície. Coloquei meu calção que já tem 13 anos de vida (com um cheiro de saco since 1998) e incorporei o caça-imundície. Primeiro coloquei a roupa na máquina que ia ficar trabalhando por mim. Eu sabia onde deveria colocar o sabão e o amaciante, o problema foi o quadro de mil opções de lavagem, pré-lavagem, centrífuga delicada e não sei mais o quê. Pra quê serve uma PRÉ-lavagem? Pra roupa ficar pré-limpa? Se alguém souber peço uma breve explicação. As conexões possíveis daquelas tabelas de máquina de lavar roupa são mais complicadas que acertar na mega-sena. São MIL possibilidades e combinações. Só com faculdade pra entender. Como achei tudo muito normal, selecionei o “NORMAL” em todos os botões. Claro, separei as coisas coloridas das brancas como minha mãe ensinou. Não deu certo porque ainda somos todos platônicos demais e aristotélicos de menos. A regra a priori não funcionou porque não previu que uma caneta podia manchar as roupas. Manchei todas as roupas brancas de verde limão porque a merda da tinta do lençol se desprendeu e manchou todo o resto.

Fui pra cozinha. Quando comecei a mexer nos pratos vi que a coisa tava pior do que eu imaginava. Tinha risco de alguma coisa ter criado vida embaixo dos pratos, por isso mantive o RAID por perto. É uma marca muito boa. Meti a mão na massa e lembrei do dito: “se mexer a merda fede” – pura verdade. FEDIA MUITO. Pelo menos as formigas filhas da mãe estavam todas mortas dentro dos copos. Elas acabaram se ferrando porque pensaram que sabiam nadar nos restos de suco. Ou então foi uma overdose de açúcar (será que as formigas morrem afogadas ou de overdose?) Senti a lombar e tive que descansar no sofá tomando uma cerveja. Pelo menos ainda tinha umas cervejas pra salvar a pátria.

Sentado no sofá meditei: “já que to limpando essa merda, vou limpar TODA essa merda”. O chão me olhou e eu olhei pra ele. Os imbecis tentando pegar as meninas na festa pensando que os problemas iam acabar. As imbecis exibindo os silicones e o cabelo escorrido e bebendo pra criar coragem pra trepar. No final os múltiplos casais de imbecis iam trepar sem consciência e comentar com os amigos e amigas no dia seguinte, repetindo o ciclo no final de semana seguinte até o dia em que cansam e inventam um amor só pra não ter que voltar praquele inferno quente e sem cadeira. Pequenos imbecis seriam gerados. As pessoas não sabem ficar sozinhas e a estabilidade mental depende muito disso. Enquanto tudo isso acontecia eu arredava os móveis e talvez o desgraçado fosse eu sem sequer perceber que era um.

Os tuchos se mexeram no chão, sentiram que a mamata tinha acabado. Levantei os tapetes. Os ácaros entraram agrupados em 200 alas de 10.000 cada em direção às minhas narinas que deviam ser dois buracos negros pra eles. Muitos espirros se seguiram. Terminei a louça já completamente sem paciência. Depois que terminam as coisas grandes têm os talheres, fatigante, muito fatigante limpar talheres. Vou começar a usar os de plástico.

A vassoura é feita pra pessoas de 1 metro e 30 ou pra gente que gosta de varrer ajoelhado. As formigas fizeram uma conferência extraordinária na sala pelo estado de emergência que tinha se instalado na casa que, àquelas alturas, era mais delas do que minha. As coitadas não tavam entendendo nada dos meus movimentos pró-limpeza. Enchi o balde e fiz uma poção mágica com os produtos que tinham no armário da limpeza. Comecei a passar o pano. Eu nunca tinha lavado um chão antes. Talvez as faxineiras recebam pouco pelo que fazem. Dizem que só os grandes mestres budistas ganham a possibilidade de limpar o chão. Que só ganham o prêmio de limpar o chão depois que aprendem a comandar a própria mente. Eu não comandava nem a mente nem as costas que estavam cada vez mais felizes e tinha que limpar o chão. E percebi que durante quase 30 anos eu nunca tinha limpado o chão que eu pisava. É preciso estar nos lugares pra entender. Por isso quanto mais lugares melhor. Quanto menos, muito pior. As costas estavam bem felizes mas ainda preferem a cama.
PS: Esse programa da RedeTv é a única coisa que presta na televisão no tempo em que eu sento a bunda pra ficar como uma anta vidrada na frente de uma televisão. Pelo menos presta pra rir e tem bundas ótimamente artificiais, como os peitos de galinha que a gente come no almoço.


domingo, 17 de abril de 2011

Paradoxos Pensênicos



Por enquanto, isto: pensene = pensamento, sentimento e energia. Se ficou interessado procure no google alguma coisa a respeito. Se não ficou interessado, foda-se. O quê a palavra pensene tem a ver com o vídeo? Quase nada.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Enquanto os gatos trepam num sábado à noite



(psicose, nice to meet you)

Quando acordei ela já tinha saído da cama. Senti que ela estava sem estar quando escutei os pingos do chuveiro que escorriam pela pele dela que era uma pele deliciosa. Dormi de novo. Depois acordei de novo e ela já não estava mais no banho e nem do meu lado. Chamei por ela “Fulanaaaa, ô Fulana” (claro que fica complicado escrever o nome da Fulana aqui, posso tomar no cú valendo com uma ação de danos morais). A Fulana veio me enchendo de chamegos.

Deitou comigo na cama e senti a pele lisa, o cabelo molhado e perfumado do shampoo do banho recente. Ficamos abraçados por um tempo na cama. Ela tinha um cheiro tão feminino, tão adocicado, tão mulher, tão sobremesa, tão carnívoro, tão edípico talvez, tão salvador. SIM, um cheiro que me enchia de uma esperança de morte. Esperança de que ela pudesse matar minha parte que sentia com o abraço mortal da perereca, da perereca que conduz ao útero, o túmulo dos túmulos. Esperança de voltar ao útero e ficar lá, tranquilão, fazendo porra nenhuma senão ficar boiando nos líquidos amnióticos e ficar chupando comida pelo umbigo, como se o umbigo no útero fosse um chimarrão de comida que se toma pela barriga.

Eu tava com um bafo absolutamente podre. Como se tivesse mastigado um rato e esquecido de tirar os pedaços de carne de rato da boca antes de dormir. O bafo é o porém do sexo matinal. Só com muita intimidade se pode trepar com bafo, o que pressupõe obviamente uma trepada sem beijo e sem trocas de baforadas na cara caso a posição eleita seja o ortodoxo “pai e mãe” (papai-mamãe é meio pedófilo não acham, temos que amadurecer e começar a fazer a posição pai-mãe). A opção “de ladinho” acaba sendo uma boa pedida pra transar de manhã. O que não dá pra entender é quando umas mulheres querem beijos de cinema às 9 da manhã de um domingo. Não há pau que levante. Sentindo aqueles cheiros frescos e matutinos dela, fiquei de pau duro. Na verdade, antes mesmo de ela chegar na cama meu pau já tava duro. Aquele conhecido paudurismo da manhã. Nas manhãs, ganha-se um cheiro de rato morto na boca, mas pelo menos o pau fica sempre altivo.

Ela estava com um vestidinho branco colado no corpo, desses de malha surrada de ficar em casa, um tesão. As mulheres não entendem que tesão de homem é natural. Tendemos a gostar da naturalidade. Aquelas roupas cheias de panos nobres de festa, aquelas purpurinas idiotas e aqueles rebocos na cara não deixam ninguém excitado. Isso é alimento só pro imaginário de conto de fadas. Na fábula da libido real o desejo não usa maquiagem. Sem contar que aquele pó (a BASE, vejam só que base do mundo feminino eu tenho) que as mulheres passam na cara tem um fedor insuportável. Então melhor que apareçam as espinhas e os buracos na cara já que no final sempre se acaba trepando na penumbra que é uma anestesia para as imperfeições do corpo.

O vestidinho dela, além de excitantemente surrado, era curtíssimo. Revelava os gomos de baixo da bunda que ficam melhores ainda quando ficam na dinâmica do aparece-desaparece com o sobe e desce do vestido. Ela se enrolava na cama e o vestido subia (Nosso Senhor do Tico Duro, Dai-me Forças). Depois alinhava de novo o vestido enquanto eu ficava embriagado no planeta do tesão (Mais Forças Senhor). A verdade é que uma perereca tem o poder de levar um homem tanto ao céu quanto ao inferno. E isto é tudo que se pode dizer.

Percebi que ela tava sem calcinha. Era uma mania que ela tinha, vivia sem calcinha. Fazia pra me provocar. Acho que queria me deixar constantemente de pau duro. A estratégia funcionava muito bem. Além do mais, tinha uma perereca incrível, sem nenhum pêlo, ajustada, controlada, danada de boa. Um corpo gostoso que era um alimento. Um corpo com curvas no exato lugar em que as curvas devem estar. Coloquei a mão e ela já estava molhada, úmida como uma chuva fina que experimentamos com a mão pra fora da janela do carro. Incrivelmente molhada. Me achei dispensável, afinal, sempre escutei (não sei onde) toda aquela história de que as preliminares é que preparam o terreno e blá-blá-blá, que querer enfiar logo de cara não é muito romântico e blé-blé-blé. Teorias da Revista Nova à parte, aproveitei a situação quando ela disse:

- Pode enfiar. (pelo que lembro a Vani falou uma dessas pro Rui no seriado OS NORMAIS)
- Sério?
- Aham.

Como eu não era o Rui, achei ótimo. Nós homens somos ANIMAIS que tentam disfarçar que não são. Convites pra jantar, telefonemas carinhosos e até flores são só disfarces do animal que escondemos. Perdoem minha sinceridade, mas já é hora de começarmos um mundo mais honesto. Digo isso até das mulheres que amamos porque quando ficamos sem sexo, todo o romantismo escorre pelo ralo. Mas não se enganem porque ESSE é o nosso amar. Mulheres fontes de vida, entendam, nos amamos ASSIM. E teremos que nos entender pra que não se fale mais em “guerra dos sexos” em todas essas revistas idiotas de salão de beleza. Amamos MESMO. Temos coração, sensibilidade e até vontade de casar com a perereca que amamos.

Enfiei o pau como ela tinha determinado. E lá fiquei até o final. Verdade que não demorou muito, mas tudo bem, era sábado e teríamos o dia todo pela frente. Talvez novas chances de um sexo sem esforço no decorrer de um loooongo sábado libidinal. Ela não gozou. Eu sempre ficava preocupado quando ela não gozava. Homem materializa o amor com sexo e pensa estupidamente que a mulher faz o mesmo. Como somos estúpidos. Não que elas não precisem de sexo de qualidade com orgasmos alucinantes, mas é que simplesmente não dão a dimensão que nós homens damos pra essa coisa. (E não me venham mulheres metidas a revolucionárias, que ainda estão guerreando com o objetivo de dizer que mulher também tem prazer e goza porque isso todo mundo já sabe e é só um resquício de que algumas mulheres, em 2011, estão com a cabeça nos anos 70). Tire a magia do sexo e, para as mulheres, não há mais sexo. Nós conseguimos trepar sem magia nenhuma. E isso não é uma VANTAGEM, só uma característica, capiche!

Pelo menos é mais ou menos isso que tenho escutado por aí, nas traduções que faço. Pode ser que falem pra me agradar ou mintam. Em qualquer um dos casos, tudo bem. Como não tem como saber precisamente o que se passa na cabeça delas, o negócio é seguir na missão de ler as mensagens subliminares e continuar gozando sempre e sem problemas de frigidez. Melhor assim. Melhor pra quem goza fácil.

Fiquei preocupado, afinal, eu gostava dela e queria saber se ela não tinha gozado porque simplesmente não tinha gozado ou se não tinha gozado porque eu tinha gozado antes do tempo hábil para que ela gozasse. Ela se limpou e fomos para a sala. Ela não gostava de ter discussões sobre sexo e nem sobre porra nenhuma. Não queria briga. E agora me dou conta desse grande atributo dela: é uma pessoa pacífica! Eu às vezes me sentia a mulher da relação, querendo fazer terapia de casal. Eu sempre gostei de conversar e descobrir os porquês dos porquês dos porquês, sempre achava que conversando podíamos nos entender. Eu era um rato metido a psicólogo que achava que entendia das coisas, mas não entendia que algumas coisas dispensavam o entendimento. E as vezes esquecia que não sabia era merda nenhuma.

Às vezes não adianta falar. As pessoas em geral não são sábias o bastante pra simplesmente observar que o fogo queima e não ir colocar a mão nele. Só aprendem quando queimam a própria pele. O ser humano ainda é uma criança.

Tentei argumentar, mas ela estava ríspida demais. Disse que discutir sobre sexo era broxante e que falar só piorava as coisas. Falamos um pouco e depois paramos, aquilo não levaria a lugar nenhum. Ela trouxe um bolo que tinha feito para nosso café da manhã. Depois que comemos o bolo, trocamos uns beijos e tudo já estava certo. Ela não gostava de discutir e não era rancorosa. As rusgas dela se iam embora com o vento e isso era bom pra ela e pra mim. Depois sentou e foi estudar. Limpei a sacada que estava toda suja de areia, nunca suportei areia dentro de casa. Areia é infernal porque ela pode se esconder num canto da casa eternamente. Além do mais, acabava indo parar na cama e ai é aquela porcaria coçando as costas da gente a noite toda. Quando eu ficar velho vou ser insuportável de tão chato.

Limpei tudo e voltei a sentar na mesa com ela. Na verdade sentamos nas cadeiras que estavam ao redor da mesa e não na mesa propriamente. Ela me ofereceu um café batido que sempre ficava muito bom. Tomei. Uma pomba começou a grunhir na sacada e ela me perguntou:

- Já viu algum gato trepando?
- Não.
- Eu vi uns gatos fodendo nos arredores da casa da minha vó, eles fazem um barulho estranho. Ai ela imitou os gatos transando com uns sons absolutamente estranhos de gatos transando (tudo muito estranho).

Acabamos não trepando mais no sábado. Os gatos deviam estar metendo nas gatas, gemendo de prazer, era sábado, o dia em que o sexo se burocratiza. Minha quota tinha acabado. Mas sempre depois de um dia vem outro dia e sempre pode ser que a gente tenha outra possibilidade de dar uma. Se for com quem a gente gosta, muito melhor. A parte libidinal do sábado tinha acabado logo cedo. E eu teria que me contentar com algum filme, sabe com é relacionamento depois de um tempo, muito filme e pouco sexo. Acho que prefiro transar depois da janta.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O que mais vale nas mulheres é ter um BOM coração



Povo representante da masculinidade,
as mulheres se alimentam de carinho, de emoção,
é preciso resgatar a nossa sensibilidade
e nelas tocar apenas o coração.

Fiquei todo amoroso com a foto, sensibilizado.
Viva, viva, viva emocionalidade alternativa (Raul aprovando a paródia lá dos céus de Anarquilópolis).



- contribuição do amigo e poeta Leo Subtil -


domingo, 10 de abril de 2011

trânsito




Me adoenço.
Me curo.
Me adoenço.
Me curo.
Me adoenço.
Me curo.
(ad eternum)

Permaneço assim.
Nos hospitais de mim deixo meu corpo fétido equanto silvo pelo jardim das delícias.
Se é minha paz que se adoenta, fortaleço minha beleza para ser o pilar que sustenta a fraqueza do espírito.

Não é bom estar doente.
Não é ruim estar doente.
Não é bom estar curado.
Não é ruim estar curado.

A tolice pensará isto como um atributo,
como ser maleável ou felxível ou camaleão.
Estarão enganados.
Frequentemente estão e por isso me afasto.
Até quando?
Talvez até onde eu deva ir...mas onde está este onde?

Um postulado de fuga e permanência:
Se está doente.
Se está saudável, simplesmente.

Quem ainda não sabe que a palavra “é” é a mais poderosa e também a mais fajuta?
Disso se trata.
O “é” macula o pensamento que se escreve.
O “é” não existe.
E quando existe funciona para tornar possível um acesso. Mas qual?
Só o gerúndio é possível porque tudo o mais padece.
Tudo já foi e se não quisermos a cólera da sensação de orfandade
temos que nos proteger no útero de estar.
Estamos!
Deixemos afixado o postulado de que ESTAMOS.
Nossa consciência vive no estar, estando acordado ou estando a sonhar.

Estou doente até a hora que venha a cura. Transito.
E porque transito, não sinto dor nem delícia. Não sinto.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Reverberações midiáticas sobre Realengo ou Notas sobre o destino



Welington tinha uma boa relação com a família. Os pais adotivos morreram a 1 ano... (?!?)


Welington se dava muito bem com o canário belga que convivia com ele. A polícia encontrou o pássaro morto dentro da gaiola na casa do canalha atirador de criancinhas. Fala-se em morte por falta de alpiste...

***


O APRESENTADOR DO JORNAL: Como entender uma mente assim? E aí eu pergunto: o que têm pra entender?

OUTRO APRESENTADOR DE OUTRO JORNAL: Como explicar uma insanidade dessas? E aí eu pergunto de novo: que diferença faz explicar? Será que dá pra comparar o Welington com o Chapeleiro Maluco que era também um insano? Será que esta última pergunta não é idiota? O Chapeleiro Maluco matava criancinhas? Estuprava as cabras do Mundo das Maravilhas? Alguém pode explicar o chá do Chapeleiro? Ou sentir? Nem que seja asco? Será que o sentir por ser mais imediato é o único que pode explicar as coisas que não se pode explicar? E o banho de sangue do Welington - o mais novo astro da meninada que quer aparecer na TV e não vai conseguir ser igual ao Justin Bieber, o pau dourado de toda menininha de 12 anos - dá pra sentir sem entender? E por falar em pau, será que a esposa de um cara com um pau de 25 centimetros consegue entender ou sentir seu marido? E amanhã, você ainda vai estar sentindo um Realengo pelo corpo? Ou já hoje vai tomar um porre e trepar com sua esposa sem sal em nome das criancinhas do Realengo? E depois de amanhã? E depois de depois de depois de depois de depois de amanhã? O que haverá, então? É pecado não ficar chocado com o Welington? É pecado matar os outros aos poucos? Nós que matamos tanto os outros aos poucos? Se eu resolver matar alguém amanhã tentarão explicar essas perguntas que foram minhas...


***


Entrevista com um psiquiatra:

JORNALISTA: O que o senhor indica para pessoas que venham a sentir vontade de matar crianças?

PSIQUIATRA: Que fiquem calmas...

JORNALISTA: Há como evitar atos desastrosos como os que ocorreram em Realengo?

PSIQUIATRA: Sim, com muita maconha.

(parece que a entrevista não passou na sessão de edição)


***

Mortes em Realengo (alô alô Realengo...) confirmam que o Brasil é um gigante que desperta para o banquete dos grandes no cenário mundial. Enfim estamos deixando de ser pobres. Chacinas em escolas envolvem problemas psicológicos. E como psicólogo é coisa de aristocrata, estamos deixando de ser plebeus. ARRÃ, NÓS(X) TAMBÉM PODEMOS(X) MERMÃO (versão carioca de YES, WE CAN).


***


Da série “OH MEU DEUS, OS PONTOS DE VISTA...”

Conversa de ontem a noite numa mesa de boteco em Realengo:

BÊBADO 1: Sabe Zé, com aquela matança toda feita por aquele maluco, eu me aliviei, afinal, as contas que não consigo pagar, o corno que levei daquela puta da minha mulher e a brochada que eu dei no final de semana, ficaram fichinha perto do que aquelas famílias tão passando. Pô, perder os filhos deve ser dose. Foi que a morte da criançada serviu pra me deixar melhor...

BÊBADO 2: Comigo aconteceu o contrário. Fiquei super grilado. Além de todos os meus problemas, mais esses agora. E a televisão não para de falar e falar e falar.

BÊBADO 3: Cada um com os seus problemas. E por falar em problemas, os únicos que ficaram sem nenhum foram as crianças que morreram e o José de Alencar...esses sim tão numa boa.

BÊBADO 4: Olha eu sou um sortudo, uma sobrinha minha estava na escola e sobreviveu. Saiu sem nenhum arranhão, graças a Deus. Mas as 12 crianacinhas se foram...graças a...graças a quem será? A Deus? Não, isso só pode ser coisa do Diabo









quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quando Bukowski ataca Nietzsche (de leve)


"Nada de julgamentos; se bem que, por necessidade, a gente acaba ficando seletivo. Pairar acima do bem e do mal fica bem na teoria, mas pra seguir vivendo é preciso selecionar: algumas são mais ternas que as outras; talvez estejam apenas mais interessadas por você. Às vezes, as belas por fora e frias por dentro são úteis, só pruma boa sacanagem, que nem os filmes de sacanagem. As mais carinhosas trepam melhor na verdade, e depois de um tempo ficam lindas, só por estarem ali."

Bukowski

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O espírito livre





Ser independente é uma conquista que diz respeito a uma pequena minoria, é um privilégio dos fortes. Quem a tanto se determina, sem ser obrigado a isso, prova não apenas que é forte, mas possuidor de uma enorme audácia. Aventura-se em um labirinto multiplica ao infinito os perigos inerentes à vida. Está sozinho e exposto ao minotauro oculto na caverna de sua consciência (e ele é uma fera controlável). Supondo que tal homem pereça (melhor que tenha sido só uma suposição), o fato estaria tão distante do entendimento dos homens que eles não sentiriam nada, nem compreenderiam (a percepção de Nietzsche, mesmo que em fragmentos, da mentalssoma meu caro Mago). Ele já não pode regressar. Não pode sequer lograr a compaixão dos seres humanos (3a dessoma Mago?)

Nietzsche

quinta-feira, 31 de março de 2011

A VALSA DOS DEMÔNIOS




Há em ti essa cólera.

Percebo.
Porque em qualquer movimento teu está tua própria nudez.
Em qualquer aceno, em qualquer letra composta em frase.
Tua nudez revela tua fraqueza, teus demônios.
Os demônios que são pra mim amigos de bar.
Cago de porta aberta com os demônios
enquanto tu ainda pensas que eles são “do mal”.

E eles me dizem sobre tua cólera ao pé do ouvido, na maior amizade.
Essa cólera tua, que te consome a alma e te alfineta a espinha,
é só um amargo,
um  amargo que tu sentes ao perceber que este domínio do microcosmo não faz dele macro.

E queres o macro, não é?
Ou queres e por saber que não podes, finges que não queres?
Tu dominas a ínfima imensidão da tua pequena mansarda...e só!
Dominas esse farelo enquanto desejas,
no prelúdio da noite que faz do travesseiro tua fuga ao sonho,
o cosmo todinho.

E com a cabeça no portal dos sonhos, choras,
fazendo brotar em ti a dor que não dói,
a inveja, a incompreensão,
a ira maquiada de zelo,
uma vontade de vingança pelo destino que não pudestes escolher,
todos esses temperos que fazem da tua cólera a sopinha sem graça que tomo nos domingos de noite.

E quando te dás conta disso tudo,
esse microcosmo – que é um grão de areia – se desenha como pueril demais.
E tu choras criança, agora chorando por dentro, porque não tens a chave da transcendência,
e não podes ser maior, nem expandir tua consciência por aí.

E mais criança te sentes porque existe essa dúvida sobre o mistério das poesias...
E, de novo, não sabes pra que lado caminham os versos...

Então tua transgressão te fitas e tu não tens coragem de olhá-la no grão escuro dos olhos.

Teus planos de armadilha te mostram:
são indícios de uma criancinha que chora porque ficou sem lugar pra ver o teatro de bonecos só reservado às criancinhas que tiveram sorte.

CONCLUO:

Meus demônios vão até ti,
determinados a afogar tua garganta quando estiveres deslizando pelo sonho.
Quando estiveres sem ar,
caindo no abismo crepuscular e quase deixando a vida,
se iluminará em ti a verdade.
E a embriaguez do holofote ofertará a chance de volta.
Poderás voltar com resignação à vigília da tua pobreza, que é o teu tempo.
Ou então dançarás uma valsa com os demônios. Veremos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Texto Jornal Estado de Direito - março 2011


A MEDIAÇÃO COMO EXPRESSÃO DO FEMININO NO DIREITO:
ENTRE CAPRA E WARAT


Atrever-se é um privilégio daqueles que têm valor, sentencia Warat. E o atrevimento serve como gatilho para promover movimento. Tal qual a permissividade criativa das telas de Dalí, Magritte e outros grandes do surrealismo; o inconsciente, como reserva selvagem das interioridades humanas, é fonte da subversão. Quando Warat enxerga o Direito com olhos surrealistas, deixa que o inconsciente fale, mesmo sem falar de inconsciente. É daí que parte sua proposta surrealista, que pretende rasgar as folhas da lei, escapar da moldura do Estado e meditar outras formas de curar as angústias do Direito.

 
Em seu inspirador Manifesto do Surrealismo Jurídico, Warat refere que a subversão tenta provocar uma explosão nas máscaras de um cotidiano conformado, escravizado por uma maneira única de pensar que se pretende puritana e logomaníaca.

Para além do aquário de vidros espessos e racionais do Direito, por certo, muito há. O surrealismo jurídico oferece a mediação como uma das alternativas de superação da engessada jurisdição estatizada. Invocar a mediação como forma de solução de conflito é reflexo de uma grande transformação cultural que está em curso: a alternância de prevalências entre o feminino e o masculino na cultura.

Fritjof Capra, apoiado na estrutura oriental do I-Ching, observou a alternância os aspectos femininos (yin) e masculinos (yang) na civilização.

A dinâmica desses dois pólos esta associada a várias imagens antagônicas colhidas na natureza e na vida social. Refere o autor que, da mesma forma que homens e mulheres passam por fases yin e yang, também a cultura, como fenômeno dinâmico, experimenta picos em que um aspecto se sobrepõe ao outro.

A cultura ocidental de cunho patriarcal, que tentou limitar os aspectos conceituais de yin e yang à sexualidade, distorceu o significado desses termos da sabedoria oriental e fez do masculino o protagonista de nossa cultura. O predomínio do pensamento racional sintetizado no cogito, ergo sum cartesiano, demonstra que os indivíduos ocidentais equipararam sua identidade com sua mente racional e não com seu organismo total, cingindo arriscadamente corpo e mente. Associando o yin ao intuitivo e o yang ao racional, Capra constrói sua tese demonstrando que, atualmente, assiste-se a uma transição cultural que culminará com o enfraquecimento da cultura patriarcal e a inflação do feminino, cambio que, consequentemente, suplantará a supremacia do racionalismo em detrimento das características próprias do feminino (yin), como a intuição, a criatividade, a sensibilidade, a emotividade e todos estados ampliados de percepção da consciência.

O progresso da civilização ocidental se deu, pois, pelo predomínio da intelectualidade e da racionalidade, sendo que, atualmente, essa evolução unilateral atingiu um estágio alarmante. Incapacidade de manutenção de um ecossistema saudável; dificuldade na administração das cidades; falta de recursos para uma adequada assistência à saúde, educação e transportes públicos; riscos da ciência médica e farmacológica e – acrescente-se – caos ante o excesso de burocratização do Estado e, particularmente, do Poder Judiciário, um Poder paquidérmico, caro, oneroso, devolvido a sua grande missão: garantir os contratos sinalagmáticos e a propriedade privada, em nome da confiabilidade no mercado internacional; lembrando as palavras do waratiano Alexandre Morais da Rosa, são alguns dos resultados da exagerada ênfase dada à polaridade yang em nossa cultura.

Voz firme contra a dominação das características masculinas alastradas no paradigma cultural ocidental, Warat afirma que o maior problema do excesso de racionalismo no Direito é a perda de sensibilidade. Uma insensibilidade que toca aquele que julga e seus vínculos. Que torna insensível a percepção do mundo pela frieza da ficção de verdade e que fomenta a fuga alienante que proporciona as abstrações e os anseios modernos de universalidade que não permitem perceber o que a rua grita.

Tal qual Capra, que fala de uma cultura nascente e vaticina o equilíbrio entre os opostos culturais e psíquicos, entende-se que, no Direito, movimentos como o Direito alternativo, o Direito Achado na Rua, as inovações da resolução n. 9/2009 do CNJ - com o horizonte de humanizar os julgadores – e a atenção voltada para a conciliação e a mediação, são confirmações dos prenúncios de Capra e da sensibilidade reclamada por Warat.

A resposta que o surrealismo dá ao Direito com a mediação é, em verdade, uma reticência amorosa, que só pode ser alcançada por meio da recuperação das forças de yin na cultura ocidental. Se entregar à mediação é não querer vencer, de lado a lado, mas aparar contundências. O novo Direito que emerge da mediação tem como condição um novo homem, afinal, para que a colheita seja abundante, antes de revolucionar a terra, é preciso estar atento à saúde da semente...Esse novo indivíduo deve permitir a abertura das cancelas que guardam seus territórios subterrâneos e inconscientes. Só assim poderemos alcançar a verdadeira democracia que, para o inesquecível Warat, se constitui como o simples direito de sonhar o que se quer.


domingo, 27 de março de 2011

sábado, 26 de março de 2011

DELÍRIA






Divirta-se com uma máquina fotográfica.
Faça uma pose.
Faça uma pose sem sentido.
Faça uma pose que pareça que você não quis fazer pose.

Experimente sorrir.
Lembre, até que chegue a morte, do melhor sorriso que já apareceu diante dos seus olhos.
Experimente cuidar.
Cultive lembrando.
Experimente amar.
É o amor que faz as coisas crescerem.
Ele que cria.
Veja filmes selecionados por Cannes.
Experimente o outro.
Experimente a si mesmo.
Masturbe seus desejos.
Deseje seu próprio prazer.
Saiba que é só no/para outro que podemos nossos desejos
Deixe a barba crescer pra ver como fica.
Seja solidário.

Dê a bunda ao namorado de uma vez.
Faça menos cú doce.
Seja narciso.
Experimente o sincretismo.
Funda opiniões e funde a sua.
Foda com e sem amor.
Namore-se no espelho.
Peide à vontade. Seja naturalmente.

Experimente crescer.
Salte até o degrau mais alto.
Suba dois degraus de uma vez se as pernas conseguirem.
Veja sempre do mais alto que pode.
Amanhã as escadas terão mais degraus.
Experimente voltar no tempo.
Álbuns são essenciais à uma história.
Experimente permanecer no estar.
Experimente errar a coreografia.
Faça uma festa de aniversário.

Extravase.
Fique noites sem dormir.
Viaje até os lugares que deves ir. Sim, deves.
Caminhe manso.
Apressar é perder paisagens.
Desfile.
Exiba as virtudes.
Exiba os vícios, são humanos como as virtudes.
Arrisque.
Ligue achando que não devia ligar.

Conquiste espaços.
Valorize um momento qualquer de riso.
Valorize aquele momento. Isso é eternidade.
Valorize uma alegria. Isso é eternidade também.
Perceba a sensação. É ela.
Tire um cochilo no pé da árvore.
Minta que ficou doente.
Falsifique uma assinatura.
Minta sempre que for melhor não falar a verdade.

Varie para saber.
Fique do lado dos bárbaros para saber que você também é um.
Invente um passatempo.
Escute músicas que prestem.
Tente impor seus gostos.
Experimente um show pertinho pertinho do palco.
Experimente passar barro na cara.
Saiba provar as temperaturas.
Experimente se arrumar.
Experimente sua melhor beleza.
Experimente sua mais pálida pobreza. É nela.

Valorize as manhãs.
Entenda as razões do Jim Morrison.
Entenda os políticos.
Saiba que você quer privilégios e não direitos.
Valorize a falta de culpa
Elimine a culpa. Ela não existe.
Valorize as tardes de colégio.
Valorize as noites na sarjeta.
Valorize muito os momentos mágicos. Raros raros.
Sinta o coral do sangue do outro que canta em um abraço.
Sinta os lençóis macios depois do banho.
Tenha filhos só se tiver vontade de se dividir com alguém.
Plante uma árvore porque é de bom tom.
Escreva um livro que tenha coisas inéditas a dizer.
O seu modo de ver o mesmo é inédito.

Experimente piscina com roupa.
Transe na piscina para preferir transar na cama.
Experimente rio sem roupa.
Sinta a água do rio no pinto, solto como uma  minhoca no anzol.
Sinta o vento na perereca.
Caminhe pelado na natureza selvagem.
Não prenda pássaros em gaiolas.
Use roupas confortáveis, que se explodam os outros.
Estude cálculo com bolo e chimarrão.
Estude música, só você e o violão.
Encontre uma turma.
Ou um amigão que valha por uma.
Aprecie gaita de boca.
Leia partitura.

Experimente torcer.
Não saiba perder e caminhe querendo vencer-SE.
Vença apenas a si mesmo.
Certifique-se do próprio édipo.
Experimente ser um time.
Compartilhe o que tem.
Compartilhe a maior riqueza: as sensações.
Experimente desafiar.
Experimente desabar.
Experimente as chamas.
Aprenda sobre o mito da fênix.
Experimente renascer.

Respeite quem entende do assunto.
Experimente as nuvens.
Leia até alcançar a clarividência.
Depois passe mais tempo pensando do que lendo.
Experimente voar com os olhos fechados.
Encontre um jeito de andar de avião.
Experimente os sexos heterossexualmente.
Dê a bunda se quiser.
Aprenda sobre a força dos andróginos.
Seja um anjo.
Pense no sorriso da Monalisa. Da Vinci era um anjo telúrico.
Integre suas sombras até ser total.
Não julgue porque julgar é errar.
Pense que o que você pensa não foi você que pensou. Depois, eureka!
Experimente jogar.
Trapace com as cartas.
Seja o maestro, o artilheiro, o dono de algum prêmio.
Experimente se jogar.
Vale paraquedas, bunge jump e a vida.
Experimente abusar.
Beba demais.
Foda demais.
Passe a mão na bunda dela.
Experimente sexo oral com quem ama. Só com amor.
Prove a intimidade.
Caminhe nas regiões selvagens dos outros.
Hospede-se num hotel com quem ama.
Pergunte-se sobre o que é o amor.
Deseje a vingança como uma prova de que tenha amado.
Crie intimidades.
Veja uma perereca bem de perto e sem tempo pra parar de olhar Ali está o mistério.
Percebas as portas que flertam com teus desejos. Entre.
Encontre identidades.
Junte os saberes. Só existem os que sabem e os que não sabem.
Entenda as diferenças.
Perceba os enganos do "demais".

Experimente a liberdade. É lá que você está. Se ainda não chegou, você ainda não é...
Cague pelado.
Durma até o cú fazer bico.
Prove a embriaguez.
Dirija bêbado, mas devagar e sem mexer no som do carro.
Tenha sempre uma lanterna no carro.
Sinta alguma vez a loucura bem de perto.
Abrace os demônios.
Faça laços com Dionísio.
Saia fora do seu próprio corpo denso.
Transe sem camisinha, sem pílula e gozando dentro.
Conte com a sorte que está do seu lado.
Abra mão de ter o corpo perfeito. Foda-se.
Passeie entre as dimensões.
Tenha heterônomos anônimos. Só seus.
Escute os avós e os LP’s.
Seja todos que quiser.
Experimente a si mesmo.
Crucial que todos sejam todos e si mesmos ao mesmo tempo.

O mundo é o mundo de paisagens que habitaram os olhos.
O mundo é o mundo de sensações que não sentiram os olhos.