terça-feira, 22 de março de 2011

"OI, VAMOS TRANSAR?" (parte 2)







Dizem que hoje em dia o sexo é fácil, mas não é bem assim. Isso só é verdade se compararmos a possibilidade que todo mundo tem de trepar hoje, em 2011, com a possibilidade que as pessoas tinham de trepar nos idos de 1911, que é um ano ainda distante de 1968, o ano símbolo da virada dionisíaca. Meus dois avôs ainda são vivos (se bem que um deles é meio vivo-meio morto. E se bem que esse que é meio vivo-meio morto consegue ser mais vivo que o meu vô vivo, se é que me entendem). Com os meus dois avôs o discurso é o mesmo: contam que pra comer uma perereca em meados do século só tinha dois jeitos: putas ou esposa (e toda aquela cerimônia fajuta que acompanha o ritual que promete curar o paudurismo do homem e a necessidade de segurança da mulher com o novo “papai” que agora vai poder comer ela legitimamente sob os olhos permissivos de Deus). Época de merda a deles.

A questão toda é que o sexo não é tão fácil a ponto de se poder chegar pra uma mulher e dizer: “Oi, vamos transar?”. Anos depois de toda revolução sexual, não podemos ser sinceros com relação aos nossos desejos. Uma frase dessas, dizem, é atentatória. A sinceridade como um todo é atentatória e eu me debato com isso, afinal, ou assinamos o contrato de hipocrisia ou assinamos o contrato da sinceridade. Como vejo pureza na sinceridade, assinei um contrato parcial com ela. Sim, parcial, porque o contrato integral é pra gente de verdade e isso eu ainda não sou e nem sei se chegarei a ser.

A garçonete enfim me atendeu. Sentei numa cadeira e fiquei bebendo meu conhaque e minha doce solidão. Estava me sentindo um idiota. Duplamente idiota. Fiz com a caneta às vezes do cigarro pra ocupar a mão que não segurava a bebida. A banda era boa. Quando começaram a tocar um rock pesado uns caras se possuíram e começaram a se empurrar. Eu não entendia se estavam brigando ou não. Talvez fosse a forma que eles tinham de sentirem-se menos idiotas. Mas era uma coisa imbecil, ficavam batendo os ombros uns nos outros, uma coisa aborígene, selvagem, animais que podiam falar e andar sobre duas patas. Nem bem arrebentavam a cara um do outro, nem bem ficavam quietos. Às vezes os empurrões se exacerbavam e parecia que uma guerra ia começar, mas logo eles se acalmavam. Não deixava de ser uma forma de estar livre, ainda que fosse imbecil.

A mulher da bunda bonita passou por mim e resolvi aplicar o contrato que eu tinha comigo mesmo.

- brigadão pela caneta fulana; agradeci. Tá afim de transar depois que a gente sair aqui do inferninho?
(um olhar de incompreensão e depois a resposta)
- idiota.

Eu sabia que ela ia ficar chocada. Tomei mais 2 doses e me mandei dali. Os imbecis se batiam cada vez mais. Um deles até arrebentou a bacia na quina de uma mesa. Quando sai encontrei duas meninas paradas na rua, gostosinhas, 17 anos, deviam esperar a carona do pai ou de alguém, pererecas sem uso, mais vontade de comprar roupas do que de trepar etc. Me aproximei e disse:

- Peço licença para me aproximar. Trago com essa aproximação um carinho, um espírito de paz, uma poesia e algumas flores. Trago tudo isso pra demonstrar que não há nenhum motivo pra temer minha aproximação já que é tarde da noite e eu sou um estranho. Faço essa introdução, já que seria absolutamente normal que senhoritas como vocês, de aparência frágil e beleza pueril, se amedrontassem com a aproximação de uma espécie estranha como a minha. – elas perguntaram meu nome e eu respondi.

- Paulo é nome de homem inteligente, disseram.

- Ah é? Conheço cada Paulo imbecil por aí. Às vezes até mais imbecis que eu. Tem outros Paulos políticos, Paulos que ainda acreditam que a terra é quadrada como a própria cabeça... (sempre pecava pelo excesso de crítica, elas ficaram a ver navios...)

Deram risada. Já tinha sido bastante que tivessem conseguido formular um comentário. A maioria sequer consegue. Na verdade eu é que era um chato vestido de educado. Eu representava, nada mais. Como se as ruas fossem um palco. Como se a vida fosse um palco. Elas disseram que estavam esperando o táxi. Vi frustrada a possibilidade de comer alguma delas. Poderia comer qualquer uma já que as duas eram ótimas. Uma tinha uma saia indiana, estilo hippie. A outra era baixinha e ria até dos paralelepípedos da rua. Ria de tudo que eu falava. Com mais tempo e mais sorte, poderia comer a baixinha. Mas o meu saco também não era muito grande pra ficar falando com elas por muito tempo.

O táxi chegou e disparei a última bala do meu tambor:
- Se quiserem posso dar uma carona pra vocês.

Elas disseram que seria antiético chamar o táxi e dispensá-lo. Era uma boa e ética desculpa. Seguiram em marcha na direção do carro que esperava. Senti que não iria ter jeito. Ia dormir sem comer ninguém. Num instante, pensei que poderia pagar o valor equivalente ao taxista para que elas fossem comigo. Elas não aceitaram, claro. Quem iria embora com um estranho que tinha tomado 10 doses de conhaque às 2 da madrugada? Antes da hippie entrar no carro, pude perceber as duas carnes redondas e duras da bunda dela. Comentei:

- Tua bunda é muito bonita.
- Brigada.

Gostei pelo fato dela não ter se ofendido, seria uma grande mulher quando chegasse aos 27 anos. Percebi que quem dirigia o táxi era uma mulher. Ela escutou meu elogio à bunda e perguntou:

- Ah senhorito, então gostou dela só por causa da bunda?
- Basicamente sim – respondi.

A menina apenas ria, adorando o cortejo. Eu continuei:

- Olha, a verdade é só uma: primeiro, o importante é a bunda. Cada homem gosta de um tipo. Alguns gostam de bunda esparramada. Outros de bunda empinada. Outros de bunda magrinha e dura. Outros de um bundão estilo reboque de topic. Outros de bunda estilo queijo coalho. Os gostos são os mais diversos, mas a certeza é uma só, antes de tudo, é a bunda que deve agradar (mulheres não me matem!) Só depois é que vem todo o resto. Esse todo o resto é essencial também, porque ninguém agüenta uma mulher só pela bunda bonita que ela tenha. Perceba cara leitora que agora pensa que eu sou alguém deplorável, que não se trata de nenhum machismo, apenas de uma verdade sincera. Qualquer coisa dita em contrário pelos companheiros de raça é fingimento. Então, ou admitam que lhes agrada as sinceras mentiras, ou vivam bem com a verdade que acabo de lhes contar.

Caminhei em direção à minha casa. A cidade parecia hostil às 3 da madrugada. Parecia, mas eu não sabia se efetivamente era. Eu nunca saía de madrugada trotando pelas ruas. Sou um velho que mora num corpo novo. Sentia-me demasiadamente velho. Não sei como, mas a solidariedade é uma coisa que aumenta com o passar dos anos. Só não aumenta pra quem não tem solidariedade nenhuma. O que não existe não pode crescer. Eu, que era um velho usando uma carcaça jovem e tinha uma veia solidária, me despedacei com o catador de papelão que selecionava o lixo na beira da calçada às 3 da manhã. Puxei instintivamente a carteira. Instintivamente mesmo. A única nota que eu tinha era uma de R$ 50. Eu poderia comer três dias com aqueles R$50, mas tinha outros R$50 no banco. Dei a nota para o pobre mendigo. Pobre mendigo. Prometeu que Deus ia me pagar de volta os R$50. Concordei com o olhar.

Continuei caminhando. Como o ser humano é estranho quando caminha. Se largarmos o corpo e simplesmente usarmos as pernas, os braços balançam, em movimentos contrários às pernas, de um jeito muito esquisito e mecânico. Como parecemos idiotas. As pessoas são umas máquinas usadas por consciências. Eu sabia disso porque eu era um velho dirigindo um corpo novo, também nasci a dez mil anos atrás. Pra onde será que vão as consciências que morrem de velhas?

Cheguei em casa com a fome renovada. Nada nos armários. Abri a geladeira e tinha um melão com meses de vida. Desisti. Lembrei do freezer, poderia ter alguma coisa esquecida lá. Quando abri não tinha porra nenhuma. Resolvi desligá-lo da tomada pra economizar luz. Já tinha tentando isso outra vez mas ele começou a feder muito. Eu não sabia que freezer também fedia depois de morto. Aprendi isso quando passei a morar sozinho. Fiquei pensando naquelas histórias de gente que esquarteja alguém e guarda no freezer. A história era sempre a mesma: morte, esquartejamento, pedaços do churrasco humano no freezer, viagem do esquartejador e falta de luz. Os vizinhos passavam a perceber o fedor insuportável de uma carne apodrecendo (só pode que carne de gente fede mais que de churrasco), chamavam a polícia e creu. O assassino era descoberto. Um freezer vazio combina também com sacos de plástico cheios de dólares. Mas eu não tinha nenhum.



segunda-feira, 21 de março de 2011

cartas ao mago


Mago,



o mistério habita uma morada que transcende qualquer categoria do nosso pensamento. Chamamos esse grande mistério de Deus, com a pobreza da linguagem possível à nós, como já disseram os mitólogos por aí. Um mistério que poderia ser dito de qualquer outra forma, com outra eleição arbitrária de palavras, com qualquer outro mecanismo ou encadeação de letras que nos conceda a linguagem e os seus sentidos correlatos.

Mas é a necessidade de definir com a linguagem que nos faz assim incompletos, humanos. É essa necessidade de dizer/batizar/dar nome aos bois, que nos reduz.

Assim vivemos a experiência com o complexo: ao mesmo tempo em que pressentimos a existência de algo que não pode ser maculado pela linguagem porque distante dos 5 sentidos, também não nos contentamos em silenciar, vorazes que somos em dividir o conhecimento, viciados pela nossa velha vontade de poder, que é uma vontade de poder do intelecto pensante e que tem como ferramenta única a linguagem. Manipular essas duas necessidades humanas, faz com que nossa relação existencial se torne demasiadamente complexa. Uma complexidade que não pode ser capturada por seres que desde sempre tentaram a tudo definir sistematicamente.

Como disse Quintana, "uma definição só define o definidor"...

Quando temos a presciência de que algo existe além daquilo que podemos pensar e que mesmo sabendo, temos furtada a experiência com essa dimensão pela simples condição de estar vivo, percebemos que a verdade é um silenciar que interroga sem concluir. Afinal de contas, o que é aprender a viver senão viver simplesmente?

Por isso Mago, a tarefa de movimento a que nos incitam as interrogações como as que tiveste nessa manhã de ressaca, são armadilhas mortais porque querem esconder na interrogação um caminho em que a chegada supostamente revela uma solução. A complexidade é a parcialidade temporal de toda e qualquer solução. Ou ficamos presos no cotidiano enganador em que as respostas "existem", ou transcendemos, pairando no limbo entre o bem e o mal, para entender que o caos não é um adjetivo tão malévolo quanto se pensa. Nesse alcance, o caos, ao contrário do que se propaga, é a certeza de que tudo é nas circunstâncias limitadas do aqui e do agora, do ponto existencial, da onda (usando tua própria teoria).

Não há outra possibilidade de estar absolutamente vivo senão desse modo caótico, de braços abertos para os devires.

A poesia, meu amigo mago, é a única que pode nos transportar dentro das dimensões, pois faz a própria linguagem transcender. Na poesia as palavras deliram, já assinalou Manoel de Barros.

O mistério só chega a nós por meio de uma grande metáfora, mas quão difícil é perceber a multiplicidade de deuses, ou mesmo perceber que Deus ou os semi-deuses existem quando vemos um documentário humano sobre Jim Morrison. A metáfora aparece para contar a verdade e engana a todos que não querem, com exceção dos geniosos, uma verdade apenas exemplificada. Queremos o Deus dos deuses porque nos borramos de medo de que as divindades sejam complexas. O misoneísmo é o instinto/impulso a ser superado se o ser humano pretende avançar. E se esse é um postulado sobre as metáforas de validade possível, só posso indicar, amigo mago, que eleja arbitrariamente algumas poesias e que as leia com vagar, fazendo o salto de uma palavra para a outra, de uma frase à outra, como passos que conduzem ao caminho em que tem como resposta única o próprio caminho que se descortina.



sexta-feira, 18 de março de 2011

OI, VAMOS TRANSAR? (parte 1)

Eu não tinha comido quase nada o dia todo. Fui driblando a obrigação de comer com uns tragos de refrigerante e uns pedaços de uma pizza borrachuda. Não sei como essas mulheres que querem emagrecer (quase todas) ainda não descobriram a dieta goles de bebida gaseificada-pedaços de qualquer comida-goles de bebida gaseificada – ad eternum.

O primeiro golão de refrigerante faz a base e já dá uma boa estufada na pança. Depois os pedaços de comida ficam boiando no estômago em cima do líquido com gás. O mata-leão é com o segundo golão de refrigerante sobre aquele bolo de comida mastigada que bóia no estômago. Dá pra ficar semanas comendo só isso e desse jeito. Claro que se você for uma usina de produção de merda que passa mastigando o dia inteiro, nem a minha dieta resolve e você tem que morrer empanturrado mesmo. Com essa dieta também se perde menos tempo mastigando. Já pensaram no tempo que a gente leva pra mastigar tudo que mastiga no interstício de uma vida terrena?

Quando anoiteceu comecei a tomar um conhaque vagabundo e aí sim que a fome passou. Sai de casa enconhacado. O mundo rodava. O álcool às vezes nos salva. E são poucas as coisas que nos salvam. Entrei num bar que tocava rock (inferninho) e fui direto buscar uma bebida. Sempre que se chega a um bar a primeira coisa que se faz é ir atrás de uma bebida. Não propriamente pela bebida, mas pra ocupar as mãos e se sentir menos idiota. Os que fumam sentem-se duplamente idiotas, por isso precisam ocupar as duas mãos. Uma com o copo e a outra com o cigarro. Seguidamente me sinto assim, duplamente idiota, crivado de humanidades.

Apoiei os cotovelos na barra do bar e fiquei esperando a garçonete me atender. Eu queria uma dose de conhaque (pra continuar na mesma vibração alcoólica) e uma caneta pra anotar uns recados que tinha recebido do submundo. Fazia tempo que eu tinha esse vício filho da mãe de anotar todos os “recados” que vinham das alturas e do mundo subterrâneo. Quando aparecem ficam me picando a alma, como enxames de abelha no meu pensamento que não vão embora até que eu os transcreva. Uma espécie de médium de assuntos irrelevantes, um condutor de mensagens de gente que já morreu (ou que ainda nem nasceu) e que não diz coisa com coisa. Essa minha missão depende sempre de uma caneta que eu nunca lembro de carregar. A caneta é a minha espada.

A vagabunda da garçonete não me atendia (sim a impaciência), e as abelhas ferrando com a minha calma. É estranho como as ideias brotam no pensamento como se fosse um bêbado que atravessa a frente do carro de chofre. Do meu lado (ainda na barra do bar porque a filha da puta ainda não tinha me atendido) estava uma mulher alta, cabelos encaracolados, saia curta. Ela era alta e tinha uma bunda bonita. É difícil achar mulheres altas com bundas que prestem. São raridades. Verdade que hoje já nem tão raridades assim com o império do silicone. Não me importo com silicone, seja onde for que se coloque. Se tivesse silicone pra aumentar o pau eu aumentaria um pouco o meu, que não é nenhuma anaconda da amazônia. Sejamos sinceros, que homem não gostaria de aumentar um pouquinho? O silicone e o viagra são as maiores invenções em termos de sexualidade desde o anticoncepcional. Mas pensando bem, o anticoncepcional, sexualmente falando, não presta pra nada. Não deixa nenhuma mulher mais gostosa, nem ninguém de pau duro. Invenções sobre sexualidade têm que ter propósitos ligados ao aumento do prazer e da fantasia, e não pra servirem de medida preventiva para que o mundo não exploda de tanta gente.

Perguntei à mulher de saia curta, alta e bunda bonita se ela tinha uma caneta pra me emprestar. Ela tirou uma da bolsa e disse que pegaria depois que voltasse do banheiro. Acho que não aguentou esperar pela garçonete que era uma lesma.

A caneta dela era boa. A ponta deslizava sobre o guardanapo. Parecia sexo com uma perereca bem molhada. Escrevi umas frases esparsas. Quando ela voltou perguntei quanto ela queria pela caneta (pra fazer um charme, lógico). Lógico também que o charme de galã de rodoviária não funcionou, mas pelo menos ela disse que eu poderia ficar com a caneta. Vi a possibilidade de ver aquela bunda pelada ir pro beleléu.

(CONTINUA)

terça-feira, 15 de março de 2011

cartas





Besta!

A verdade, que tem sido pra mim salvadora e vilã, é que desde que deixei o teu abraço lá na beira da lagoa, muito pensei em ti. Muito mesmo.

E enquanto eu pensava, percebi que era bom. Que era bom PENSAR em ti. Ficar pensando, e só. Porque quando eu pensava, a esperança sentava no meu colo como um cachorrinho de estimação que nos supre as faltas. Não uma esperança em relação a nós dois visto que um “nós dois” sequer houve, mas uma esperança em relação a tudo, à vida, ao mundo, ao meu existir, às manhãs que vão me obrigar à abrir os olhos enquanto o meu paraíso onírico fecha as cortinas. Tudo poderia ser bom, se tivesse a mesma aura que tinha enquanto eu pensava em ti.

Lembrei da tua risada de menina e toda a moldura de flores que enquadravam teu rosto em cada sorriso.

CLARO que eu via essa imaginura só e tão só na minha imaginação. Mas quem vai ter o topete de dizer que as imaginações não existem? Eu andava pra lá de Bagdá, é verdade, mas a questão toda é que EU VIA, via em cada sorriso teu uma tela. Um quadro desses feitos por quem entende do assunto da pintura: Chagall e companhia limitada. Então, que ninguém se atreva a dizer que o quê eu via era uma alucinação, porque se eu via, existia. Isso até pode nos ajudar a entender que as alucinações não merecem esse nome de batismo já que existem da cabeça de quem as têm.

Ontem, voltando do retiro das consciências livres, enquanto a estrada vinha diante dos meus olhos, desliguei o som do carro, com o ouvido cansado do barulho, a consciência toda pesarosa porque minhas sensações estavam longe de ti, fiquei lá, absolutamente sozinho no micromundo do carro, pensando em ti.

Num momento íntimo e abstrato que foi só meu e que, mesmo sendo só meu, foi também teu, porque no pensamento tu estavas.

E como pensar é estabelecer um projeto, cheguei a conclusão nenhuma porque, na bem da verdade, não sei se tu poderias ter sido a mulher dos meus sonhos mais coloridos, se poderia ter sido uma paixão de carnaval que não aconteceu, se poderá (agora no futuro) algum dia ser minha em algum instante ou se, simplesmente, o que passou lá no meio daquelas árvores mágicas, já passou, e eu sou apenas um sonhador que gosta de manter as puras sensações que sinto bem vivas na alma.

Foi mais ou menos isso que senti quando lembrei de ti.

Digo mais ou menos porque só podemos explicar as sensações "mais ou menos" mesmo.

Mais ou menos assim que as fotos traduzem os instantes. Lembra daquela nossa foto com os pés soltos e em comunhão no chão de grama?

Nossos pés ali, flertando, tentando algum entendimento. Apreendemos aquele instante na foto.

Meus pés sujos ao redor dos teus protegidos pelos tênis, aquele abraço de pernas, minha panturrilha nos teus joelhos, alguma coisa em mim que queria te proteger e que a psicanálise vai tentar explicar de algum jeito todo teórico, aquele momentinho de curar a alma, aquela pequena inconsciência que nos lembra que o amor é o grande rei da história e que,se talvez os cruzamentos do destino mirassem em nossas testas como uma arma de precisão da CIA com aquelas luzinhas vermelhas, assim como se o tiro fatal fosse paradoxalmente um prêmio, talvez assim, poderíamos ter provado com a ponta da língua o amor por meio do beijo que não houve.

Teve a graça dos corpos e a sincronia toda com a dança que fizemos no cobertor atirado na grama,

teve o churrasquinho,

teve o teu cheiro que era o perfume bom do teu shampoo,

teve o equilibrio na grama com meus calcanhares nas tuas ancas e as nossas 4 mãos pensando que eram 2,

teve o colo final e o "vamos fugir",

teve o roçar proposital dos meus dedos em ti,

teve o toque despropositado (?) no teu peito.

As mãos, confesso, queriam mesmo era encostar na tua pele quando disfarcei meu desejo com uma massagem.

Teve mais.

Mas o que mais teve é só nosso.

E essas coisas ficarão gravadas mesmo que a gente nunca mais cruze os olhares por ai.

Sabe-se lá o dia de amanhã!

Mas o passado, esse sim, é nosso.

(esse excesso de "enter" é uma denúncia de que a poesia foi inevitável)

O passado é a única coisa que podemos portar, para honrarias ou vergonhas ou vergonhas que são a causa das honrarias do presente.

Eu gosto do passado porque posso guardá-lo.

Acho que sou um colecionador de memórias. E as boas, como essa que tivemos, fica na seleta ala das memórias raras, que são aquelas que sabemos de antemão que não se repetem todos os dias, aquelas que se constituem de dias-exceção.

Vai ver os estados de exceção podem ser, além das guerras, também os dias mágicos. Vou mandar um email para o Cristóvão Buarque sugerindo a criação de uma emenda constitucional para acrescentar os dias mágicos como estados de exceção. Se der certo e se o destino nos aproximar as peles e os corações de novo, será decretado oficialmente, com chancela de alguma autoridade e tudo mais, o DIA DA MAGIA, que são esses dias raros em que temos a única overdose que não mata: a do amor e do afeto.

Puta merda.

Que memória.

Que memória lindíssima essa nossa. Vai ficar em mim durante toda a vida, vou lembrar de tudo que passamos mesmo quando eu tiver caindo aos pedaços.

E já concluindo sem concluir, posto que a memória é um cheiro que (volta e meia) volta, podes tu concluires que te amei, simplesmente.

sábado, 12 de março de 2011

projeto barba negra

Esses dias atrás resolvi deixar a “barba” crescer. Coloco aspas porque na verdade minha barba não é uma BARBA. Tenho uns fiapos de pêlo no rosto que não merecem (ou não me sinto merecedor) do título de dono de uma BARBA.

Resolvi deixar os fiapos à vontade pra ver no que dava. Claro que, pelo tamanho da escravidão em que vivemos, permitir essa liberdade dos fiapos da cara é uma subversão, afinal, com exceção dos subversivos (os para quem FODA-SE o resto), só podemos ter barba se realmente tivermos uma completa/fechada/sem falhas. As incompletudes não são muito bem aceitas, bem sabemos. Barbas falhadas, assim, são FALHAS da natureza e, portanto, devem ser desprezadas tal qual os bebês que nasciam sem uma perna ou com uma cabeça cheia de água e eram atirados no abismo pelos próprios pais na antiguidade. Uma barbicha de mendigo, dizem, pega mal para um adEvogado.

A experiência me surpreendeu quando, no decorrer dos dias, percebi que eu realmente TINHA uma barba. Rala é verdade. Os pêlos iam nascendo tímidos, com uma preguiça filha da puta. Pensei em desistir porque realmente estava ridículo. Ponderei que o carnaval estava próximo e mantive o foco. O carnaval é um tempo em que se pode ligar o foda-se na temperatura máxima, inclusive um adEvogado como eu. Tive a certeza de manter o projeto barba 2011 quando, no carnaval, escutei de umas meninas: “homem = a barba”. Mesmo sabendo que elas são exceções já que a maioria das mulheres acha que os ácaros dormem embaixo da barba, que barba espeta o beijo e o sexo oral, que barba é suja e isso e aquilo, dei ouvido às meninas. Sempre dou ouvido às exceções. Elas, por serem exceções, acabaram se tornando, do dia pra noite, minhas amigonas. 3 grandes pessoas.

Talvez a tentativa de ter uma barba representasse a materialização do meu estágio final de ser homem. Essa condição tão reclamada pelos ecos ausentes dos “outros”, esse grande fantasma que nos assusta sem existir. Nós TEMOS que virar homens, construir nosso próprio iglu, caçar com as próprias garras. Nas tribos da putaqueopariu, os aborígenes adolescentes tinham que carregar uma capivara morta, pesadíssima (que deve ser uma coisa absolutamente cansativa), para que pudessem portar a insígnia invisível de ser HOMEM. O ritual do tornar-se homem aparece de todos os jeitos em todas as historietas da civilização e hoje, capivaras à parte, a coisa continua pesadíssima.

Chega uma hora em que somos incitados à equação liberdade-responsabilidade. Tomamos um coice na bunda e temos que caçar sozinhos o antílope que corre a 90km por hora na savana, como uma espoleta tresloucada.

Para nos tornarmos homens de acordo com o protótipo de homem que perambula por ai a coisa é mais ou menos assim: futebol, carros, cervejas até que se possa alcançar com o dedo na goela, coçadas (in)conscientes no saco pra demonstrar que TEMOS o instrumento, peidos entre os amigos (quanto mais fedorentos melhor), ímpeto de sobreviver na selva caso um boing 373 caia na selva e você seja o desgraçado que não morreu, especialidades hidráulicas, especialidade em consertar persianas que são um produto feito pelo diabo, especialidades elétricas pra saber se dá pra encostar a porra do fio vermelho no fio azul e vice-versa, especialidade com aquela máquina de furar paredes de concreto para depois pendurar quadros, especialidade matemática pra calcular AONDE enfiar o parafuso para que o quadro não fique torto, especialidade em desentupir vasos e em instalar chuveiros (eu só sei trocar do verão para o inverno). Lá no Rio Grande temos ainda que fazer churrasco, se a carne for de Capivara (um animal de caça – e ai eu pergunto: qual animal não tem que ser caçado antes de virar churrasco? Se eu fosse uma vaca e soubesse que ia virar churrasco iam ter que me caçar), se o assador assar uma capivara, mais CÔNAN ainda. Isso sem falar nas qualidades mecânicas. Esse ano o amigo Matz me ensinou a fazer a tal chupeta de uma bateria para outra, quando a outra acaba porque a gente chega podre de bêbado em casa e deixa o som do carro ligado. O problema é que eu já esqueci como faz, então, amigo Matz, por favor envie o passo-a-passo sobre a chupeta de bateria. Só lembro que é um tal de engata o cabo esquerdo no azul, o vermelho não sei onde, liga o carro x antes do y (qual agora?) e fincalhefogo na acelaração. Se eu fizer hoje incendeio os dois carros com certeza.

Quando eu era pequeno perguntava pro meu pai porque os pêlos nasciam no sovaco dos meus primos e não em mim. Ele dizia que era uma questão de tempo, pensava em como seria útil se ele pudesse passar pra mim os chumaços que tinha em excesso no saco. Ele dizia que também tinha sofrido com a falta de pêlos quando era menino e ia cobrar lateral no futebol da vila, sem um puto pelo embaixo do braço, aquela calvície no sovaco exposta pra todo o time.

Meus pêlos acabaram nascendo como meu pai tinha prometido. Quando andava todo orgulhoso dos meus chumaços ao redor do pau, a minha primeira namorada pediu que eu desse uma aparada nos pentelhos. Obedecendo a patroinha, passei a tesoura e encurtei os pêlos pra deixar a região mais higiênica. Apesar da tristeza inicial, acabei me contentando quando percebi que cortar os pêlos dava a sensação (falsa) de que o pau ficava maior. A partir de lá, sempre aparo pra ficar me enganando. Mentiras sinceras interessam, grande Cazuza, ainda mais quando se trata do tamanho do pau. (a única coisa que não dá pra aguentar é quando as mulheres falam “mete teu pauzão”... quando o cara tem certeza de que a única coisa que não tem é um pauzão, isso é realmente broxante, antes de dizer uma asneira dessas, melhor que fiquem só no óóóóhhh, úúúúúhhh, ááááhhhh). (acabei de perceber que as vogais “e” e “i” estão excluídas dos grunhidos do prazer).

Mais tarde, uma outra namorada pediu pra eu raspar com gilete todos os pentelhos. TODINHOS. Dizia que era pra ficar lisinho. Eu, sempre muito obediente, raspei. Meus amigos me escutem: NUNCA FAÇAM ISSO. É uma agressão, um atentado aos direitos humanos, uma chacina. O vermelhão que ficou foi tenebroso. Todos meus anticorpos foram para perto do pau achando que era a 3ª guerra mundial e que a gilete era a bomba atômica. Depois, quando os pêlos começaram a nascer, as pontas pontiagudas que não tinham espaço pra nascer livres porque a cueca não lhes dava o espaço devido, acabaram entortando e encostando na pele. Resultado: uma coceira filha da puta! Mas filha da puta MESMO!

Harmonizado o tamanho dos pentelhos, faltava vir os pêlos do peito. Esses demoraram. Quando os meus terminaram de nascer, nasceu a moda de raspar os pêlos do peito. Aí não entendi mais nada. Como não sou muito de me adaptar e como minhas experiências com raspagem são péssimas, mantenho os pêlos do peito até hoje. Meninas do carnaval: homem = a pêlos no peito também?

Nessa odisséia, chegou a vez da barba. Que experiência ver a barba nascer. Até ando levantando com mais entusiasmo, só pra ver se ela cresceu durante a noite. Mas hoje vou tirar todo o cultivo dos últimos 20 dias. Vou raspar todos os fiapos. É que hoje a lua está na fase crescente, então vou tentar essa nova estratégia.


sexta-feira, 11 de março de 2011

a obesidade do passado


O passado é uma velha gorda, imensa, daquelas tipo Guinness Book, 450kg de pura banha, que não consegue sequer ir da sala para o banheiro, que não sai do lugar nem com macumba, mórbida, um exemplo do que NÃO fazer para filhos e netos e bisnetos e tataranetos. Como os acertos se projetam para o futuro, o passado é sempre um exemplo do que NÃO fazer. E os nãos ficam lá, gordos e imexíveis, com aquelas varizes que dão nojo de olhar, presos na fragrância da nossa memória. 



   

quarta-feira, 9 de março de 2011

confesso que pensei

Ultimamente tenho lido muito os escritos do Bukowski. E fico pensando nele durante boa parte do dia. Vai ver é uma paixão, daquelas arrebatadoras. Fico pensando na vida que ele teve que levar, ou melhor, que ele levou, porque não TEVE que levar a vida que levou, mas sim, OPTOU pela vida que levou, o que é MUITO diferente.

O dever que se esconde na conunção “TEVE QUE”, é algo que rouba nossa dignidade e que nos afasta da própria individuação, essa palavra com a qual Jung batizou o processo de iluminação do inconsciente. O processo de autenticidade idiossincrático. Aquilo que teremos que passar se quisermos ser aquilo que REALMENTE somos e que se esconde atrás daquilo que parecemos ser.

A dignidade da vida de cada um, tendo a individuação como uma condição, é vizinha da autenticidade, da existência sincera que levam aqueles que não podem viver alheios de si mesmo. (Fiz uma massa com molho de creme de leite a uns dias atrás e o fedor que se espalha pela casa é tenebroso).

Meditando sobre a passagem do velho e morto Buk pela terra, dá pra pensar que uma vida “digna” não é, na verdade, muito digna. Isso me desassossega uma barbaridade porque fui criado pra ter uma vida digna entre aspas. Aos olhos do mundo, o Buk foi um beberrão de merda que só “prestou” porque escreveu e acabou virando escritor, que se torna uma insígnia de dignidade apenas depois que se tem livros escritos. Nesse sentido, foi a escrita que salvou ele, mas apenas dos olhos de aço dos outros porque ele esteve salvo e livre desde o início já que nunca esteve preocupado com porra nenhuma, se lixando mesmo, cagando e andando.

Lembro inevitavelmente do Bukowski porque acabei de sair do tribunal. Fui até lá participar da palhaçada toda, do teatro de títeres sem cérebro, com o pessoal que ficou com a cobertura e os camarões fritos na torre de babel. Conto como foi: os cidadãos de "bem" iam “julgar” causas (eles, os JUÍZES com a caixa e o nariz alto) e eu supostamente “defender” uma das tantas causas. Uma grande cena. Uma historia da carochinha. Todos com a certeza inabalável da sua grande importância na sociedade (...contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social, pra não esquecer do Raul). Todos, inclusive eu, com uma capa preta sobre os ternos e terninhos delicadamente lavados na lavandeira. Batmans do Direito prontos pra salvar Gotan City. A coisa mais imbecil desse universo.

Como o ser humano é doido por uma pompa, por um espaço destacado, todos querendo apenas empanturrar o estômago da vaidade: uns acham que aparecer é ter dinheiro (vaidade pura); outros acham que aparecer é ficar famoso com o Big Brother ou fazendo artes ou escrevendo livros (vaidade pura), outros querem aparecer isolando-se numa montanha com a certeza de que são mestres em meditação (vaidade pura), outros acham que aparecer é comer as pererecas que tem as mais belas donas (vaidade também), outros, ainda, pensando que os filhos vão ser o que eles não foram, fodendo a vida da gurizada só pra aparecer para os compadres e poder dizer que têm orgulho dos filhos quando, na verdade, o orgulho é do próprio rabo (vaidade de novo).

Da vaidade ninguém escapa, fato. É só olhar todas essas movimentações e fotos no facebook. Não que se deva condenar a vaidade, não mesmo, mas a porca torce o rabo quando a vaidade fica inflacionada e as pessoas acabam pensando que são espermatozóides que partiram do saco de Deus. E antes que alguém me julgue, saiba que me incluo na constatação, já que isso não é uma crítica. O silêncio dos que apenas ouvem diz mais que os ecos dos que gritam por ai, digo isso porque as vezes me escondo no próprio silêncio e percebo que sou igual aos que gritam. Queria ser mais silencioso, mas, as vezes, falo demais e me ferro. Mas essa vaidade, voltando à ela, é a velha vontade de poder que o grande Nietzsche já constatou em 1800 e pedrada, ele que conseguiu ir até o inferno e voltar de lá são, salvo e com o mapa que leva até o tesouro de ir até o inferno e poder sair de lá vivo e olhando tudo de um degrau mais alto.

Alimentamos nossa vaidade com a mesma voracidade de uma hiena que acaba de caçar um antílope azarado na savana. Lá no tribunal, todos pensavam que eram importantes porque definiam a vida das pessoas, modificavam a sentença do juizico da primeira instância, os rumos dos processos. Tudo em direção ao bem da nação, da justiça e da igualadde, da proteção dos valores blábláblá.

Cruzei o olhar com um dos juízes. Era um cara novo, uns 40 anos. Detivemo-nos no olhar por 2 segundos. Ele me olhou com um sentimento nos olhos que não sei o nome. Um estranhamento misturado com medo e pedido de socorro (este último de nós 2). Parecia o olhar de um enjaulado que estava feliz por poder ver a mulher no final do dia de trabalho. (A felicidade de um preso prestes à receber visita íntima?) Pensei na certeza que ele tem em relação à dignidade da vida que leva. Como a vida é dele, que fique com essa certeza até o final (mesmo que em geral não seja isso que aconteça). Mas a vida dele, me diziam os olhos, era tão estática que me secou por dentro. Lembrei da crueza do lobo da estepe que aparecia para o Hermann Hesse. E em mim se fez um deserto. O deserto da falta de sentido. Ele, o juiz-grande-horizonte-de-todo-estudante-de-direito, ali, prostrado, seco, com os olhos mortos e sem brilho, com vários mil reais na conta corrente todo mês, filhos educados pra ter vários mil reais na conta todo mês, uma mulher honesta que goza numa só posição, churrascos premeditados com a sogra epilética, natais iguais até morrer, processos, processos e mais processos, causas jurídicas sem gente humana envolvida, uma TV led na sala e a mulher com dor de cabeça na cama lendo a CARAS, a filha usando ecstasy na rave e ele sem saber aonde “errou”, uma casa na praia que vai ser vendida depois do divórcio para um narcotraficante cheio de plásticas quando a mulher achar alguém que faça ela gozar em duas posições, aquilo tudo ali, materializado naquele cidadão que acha que a prescrição (um instituto inventado pelo Direito) visa a paz social. O importante julgador ali, com a vida desértica em meio aos purificadores de água. Paralisado. Morto. Fétido mas perfumado com perfumes caros comprados no free shop. Enjaulado. Escravo da rotina, do dia-a-dia. Do pão nosso de cada dia que ele compra na padaria quando sai do tribunal. Daquelas charlas miseráveis dos outros advogados idiotas como eu que iam se pronunciar sobre outras coisas estapafúrdias.

Não nos entendemos naquele olhar de 2 segundos (sabem como é isso né?). Tão encapsulados que estávamos nas roupas e naquela bata preta do batman que vai julgar os malfeitores de Gotan City e trazer a paz de volta com a prescrição. Antes de pronunciar as asneiras que eu ia falar, peidei baixinho, sem nenhum cheiro ruim, passando despercebido. Fiz uma prece rápida ao Bukowski com uma rápida lembrança, pedindo que ele me desse sapiência e paciência, acho que acredito mais em Deus quando penso no Bukowski, e talvez só ele poderá entender o sentido de divino de que eu falo. Comecei o trololó. E lá pelo meio da minha engravatada exposição, blábláblá vai, blábláblá vem, mais um peido mudo. E todos os meritíssimos com caras seríssimas olhando pra mim, sem nem imaginar o que se passava por baixo da bata preta.

sexta-feira, 4 de março de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

doces demônios que se riem de mim


Queria uma poesia, mas era uma burocracia toda engessada que me tinha.

Queria ouvir a chuva deitado na cama, ver as nuvens andarem mansas pelo céu cor de fumaça, mas tive que estar sentado, bonitinho, gel no cabelo, o campeãozinho de merda, aquela aura de falsidade no ar. Costas retas, seguindo as normas da boa saúde, como se fosse tirar uma foto 3 x 4 pra documento importante, com aquela cara de cú, com uma vassoura invisível enfiada no rabo, costas retíssimas, pra parecer que existia (com)postura.

Queria gozar, mas tive preguiça.

Queria ver o futebol na TV, mas dormir 8 horas era essencial porque fico um trapo no outro dia se não.

Queria comer, comer de verdade, mais pra preencher possíveis vazios do que por fome propriamente. Mas que tanto de panelas e coisaradas se usa pra comer. E toda aquela podridão depois fedendo na pia. Acabei desistindo. Comer até nem cansa tanto, mas preparar a comida é um saco. E como preparar a própria comida é a única maneira de ter certeza sobre a comida que se come, não tinha solução: melhor era não comer.

Queria estar mais livre, mas tinham os prazos, improrrogáveis, sem choro nem vela nem lágrimas nem cera de vela, exatos como a matemática, totalitários. O mundão-véio-sem-porteira (e sem jeito) como uma máquina pré-programada. Assim como as pessoas, todas engrenagens da máquina. E o pior é que quase ninguém percebe que é uma parafusetinha. Estive enganado achando que perceber é uma vitória. Não é. É apenas um calo a mais. Mas todos, quase todos, vivem sem perceber. Ou percebendo quietos e me enganando. Ou só sonhando com a relaidade e depois esquecendo quando abrem os olhos para o alvorecer de mais um dia. Ou até mesmo lembrando dos sonhos, mas sem contar pro defunto que acorda ao lado na cama. Olhe pro defunto que acorda do seu lado caro leitor, se ele já parou de respirar é hora de enterrá-lo.

Queria a dança (com Deus e com o Diabo), mas sobraram reuniões e compromissos com gente séria. Serissíssíssíma. Gente de bem. Honesta. Com foco. Trabalhadeira. Orgulho dos avós. Dos vizinhos. Da ONU. Da putaqueopariu.

Até que o quê eu queria se transformou em vilão. E meu destino avisou: “se liga malandro, a rapadura é doce e é mole. Mas mesmo assim, teus dentes vão cair. Todos eles. Daqui a 100 anos. Todos eles, um por um, tragados pela terra.”

Percebi o eco do querer. E querendo o que eu quero, vou vivendo. E até digo: “puta merda, eu to vivo, VIVO”. Me sinto pequeno quando percebo que estou vivo. Participando da vida. No contexto da coisa toda. Sentindo as sensações dos olhares alheios e toda essa grandiosidade do relacionar-se com outro ser absolutamente frágil e incompleto como eu. Viver é grande demais. E logo percebo que aquilo que antes eu queria, não pode ser. Sim, não pode. E não pode porque se espalhou nos meus músculos como uma anestesia geral. E fico vivendo no apagão dessa anestesia geral por uns instantes.

Acabo perdoando o meu destino. Percebendo que minha queixa era só uma respiração. Me perdoando por ter pensado que MEU destino ME desrespeitou ou traiu. Não me culpo, então e depois desse rebote da minha consciência que refrata minha autocrítica. Acerto as contas com meu destino, passo a régua. Por que não tem muito que se fazer quando tudo ainda está por ser feito.

terça-feira, 1 de março de 2011

mortalhadosvivos


Tua graça flertou com a morte.
E por ela seduzida, em ti , fez-se o riso.
Teus rodopios tétricos,
de braços soltos e frugais,
eram uma xícara de chá quente no inverno dos meus olhos.

A unidade madurou como em deslize,
mais rápida e una que as frutas nos galhos.
Nascemos dentro um do outro,
mas sendo íntegros em cada um de nós.

Fomos abençoados pelo beijo da morte nos teus lábios,
que não levou-te porque, no beijo vosso, evitou-se a língua.
E a morte;
maternal como os abraços,
sedutora tal beijos de olhares,
amante dileta e fugidia do mundo,
foi nosso cupido,
a que pode nos deixar mortos de prazer,
bem ali,
na mortalha de lençóis suados da cama.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

THIS IS THE END






O Bukowski a cachaça levou. O Tim Maia também. O Jim Morrison se consumiu todo, fumou um cigarro com os próprios cabelos e entrou nas portas do paraíso que tem muitas portas. Cazuza e o Caio F. foram embora levados pelo hiv, que foi quem comeu o cú deles literalmente. A Clarice deve ter morrido de cansaço. Niezscthe morreu de suicídio (que é diferente de suicidar-se) depois de se atirar do alto da torre de babel escutando Wagner no walkman. Quintana Drummond e Vinícius, vivem juntos no an(verso) do mundo. O Jung não morreu, foi morar no inconsciente coletivo e vizinha com Freud que vive no inconsciente pessoal no andar de baixo. O Fernando Pessoa foi sequestrado por ele mesmo, ficou com síndrome de Estocolmo e é super amigo de Alberto Caeiro o suposto sequestrador. Raulzito construiu uma casa de dois andares em Anarquilópolis. Joseph Campbell virou um mito. A velha guarda se foi. A nova guarda também. Mercedes Sosa sabia que todo, todo cambia  e cambiou-se pro lado de lá. O Saramago tá na porta do céu, tentando um habbeas corpus contra a autoridade coatora de Deus pra entrar no reino do senhor que não tem nem virgens nem neoliberais pra ele criticar. O Warat foi embora no dezembro último, virou pescador de lagos encantados. Hojé é fevereiro mas é o dia dos finados. Meus heróis morreram e estão morrendo. De overdose e de outras formas naturais como a overdose. Sobrou o Woody Allen, o Galeano, o Albano Pepe que até tenho o número do telefone. Tenho que dar uma ligada pro Albano. E se sobrou mais alguém não lembro. Tem horas em que há um cheiro de morte no ar, a morte tem um cheiro de cera de ouvido. E eu NÃO estou louco. Nadinha. THIS IS THE END, MY ONLY FRIEND, THE END.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Bukowski, cuspindo o catarro (2)

...e os velhos às vezes ficam bem agressivos com o que uma parte da juventude anda fazendo - "que diabo, trabalhei DURO a vida inteira!" (eles acham que isso constitui uma virtude, quando a única coisa que prova é que o sujeito não passa de um perfeito idiota), "esse pessoal quer ganhar tudo sem fazer NADA! passando o tempo todo sentado pelos cantos, estragando o corpo com drogas e álcool, esperando viver às custas da riqueza da terra!"

aí a gente olha pra ELE:
que dúvida.

está com inveja. foi tapeado. perdeu os melhores anos se fodendo por aí. o que gostaria, mesmo, era de cair na gandaia. se pudesse recomeçar a vida. só que não pode. por isso agora quer que os outros sofram como ele sofreu.


Bukowski, a mainha.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Bukowski, cuspindo o catarro


quem ainda não ouviu essas velhas que vivem dizendo: "oh, acho simplesmente ATROZ o que essa juventude anda fazendo por aí, com todas essas drogas e sei lá mais o quê! que coisa mais horrível!" e aí a gente olha pra ela: sem olhos, sem dentes, sem cérebro, sem alma, sem bunda, sem boca, sem cor, sem ânimo, sem humor, sem nada,  apenas um sarrafo ambulante, e a gente fica pensando o que o chá com bolinhos, a igreja e a bonita casa de esquina fizeram por ELA.

Bukowski, o painho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

RARIDADES COTIDIANAS

Eu sabia inconscientemente que ela estava me esperando no quarto. E porque ela era um tesão, o ritual do prazer em mim começou. Tirei os sapatos que faziam doer a panturrilha (há tempos tenho sustentado que os saltos de sapato social para os homens são uma tortura às panturrilhas, guardadas as proporções e resistências, igualzinho ao massacre às panturrilhas femininas. E por falar em salto, logo volto ao ritual do prazer, há que se dizer que o salto é a revelação da representação. É a expressão do nosso fatal destino de viver na escravidão do olhar alheio. Dizem que a alteridade é isto: identificar-se por meio do outro. Não sei se concordo. Provavelmente eu discorde porque discordar é essencial, pelo menos pra mim. O salto é a revelação da representação cotidiana. Do teatro de merda. O salto é um dos personagens e o teatro é todo o resto. Isso porque o salto é feito absolutamente PARA o outro, PARA o deleite do outro sobre aquilo que somos ou parecemos ser, PARA nosso próprio deleite pelo deleitamento alheio, enfim. Convenhamos: usar salto é uma merda. Nossa natureza não é feita pra andar sobre os tacos dos saltos. Não lembro de nenhum indígena ou aborígene australiano com apetrechos nos pés nos programas da Discorery, no máximo uma havaiana feita de casca de árvore. Fico imaginando o desprazer que as mulheres enfrentam tendo que se equilibrar naquela porcaria de salto agulha. Os nossos são fichinha perto do delas. Pobres mulheres).

Tirei os sapatos com o salto de merda. Os pés precisavam desaguar o sangue acumulado. Existe uma overdose dos pés quando ficamos mais de 16 horas sem levantar os pés acima da linha da cintura. Os meus estavam a mais de 16 horas no campo de batalha. O alívio maior foi quando tirei as meias e senti o frescor do piso gelado na palma do pé (a palma parece uma palavra-propriedade da mão...).

 Que delícia aquela temperatura menor que a do meu pé no meu pé. Tirei a camisa, todos aqueles botões inúteis. Três botões resolveriam, mas enfiam uns 12. (fui até o quarto pra contar quantos botões têm nas camisas: são em média 7 ou 8 em cada camisa!) Inútil. Um velcro resolveria. A camisa estava com o colarinho podre de sujo, mas a faxineira viria logo. Grande faxineira. A Marina é a minha nova faxineira, e as coisas andam mais limpas por aqui. A outra faxineira era porca e, se eu não esqueci em algum lugar que não lembre, deve ter levado umas camisetas minhas que sumiram do armário.

Tirei a calça e aquela a cinta desconfortável. Minha barriga era escrava daquela cinta. Pobre da minha barriga, louca pra ficar à vontade, toda projetada pra frente. E aquela cinta infernal apertando as minhas vísceras cheias de pulsão de vida e expansão. Senti fome mas como a sede era maior resolvi beber e deixar a comida de lado. Enchi um copo de uísque com vinho branco. Lembrei do meu pai que ia dizer que o gosto do vinho muda de acordo com o copo em que se beba. Não importa. É uma bobagem. O gosto é o mesmo. E o vinho bebido no copo “errado” era acrescido com o sabor da subversão, que é delicioso. Com o copo na mão, liguei a vitrola que ganhei do meu vô com um LP dos Beatles que é uma raridade. Aconselho as músicas I’m the walrus e I’m only sleeping. Walrus é um monstro marinho, provável que o Paul estivesse chapado quando escreveu a música.

Tirei aquela cueca de dois dias e, com o copo, fui pro banho. Enquanto isso ela me esperava no quarto, deliciosa. Liguei uma luz azul e desliguei todo as luzes da casa. Ela gosta desse clima nublado antes do nosso encontro de peles. De peles limpas e peladas. Limpos e pelados é bom demais. A chance de dar errado é reduzidíssima. E ela sempre estava limpa, sempre à mim disposta. Nosso sexo dependia de mim, apenas de mim, que nos últimos dias andava ocupado demais com coisas de menos. Tomei o banho em meio a uns tragos de vinho branco.

Quando sai do banho, o desejo se expandiu em mim com ares vulcânicos. Fui até a cozinha e calibrei o copo de uísque com vinho, até o gargalo. A ponto de ter que chupar com o beiço o vinho que cairia pelo caminho. Juntei o tapete do corredor e o coloquei no quarto em que ela estava nua, à minha espera. Em cima do tapete coloquei a cadeira. Seria ali, em cima da cadeira. Nos sentiríamos ali, na cadeira que repousava no conforto do tapete do corredor emprestado ao quarto. Nos abraçaríamos ali mesmo. Unindo nossos breus. E eu estava quase lá, nu com os meus desejos.

Vesti um calção surrado que ganhei a muitos anos da minha mãe, eu precisava me sentir confortável, à vontade. Só assim é possível chegar ao maior prazer possível: estando tranquilão. Coloquei um chapéu panamá que me deixou como uma mistura de piada sem graça com anti-sexy simbol exótico. Aquela barriga indecente para um cara de 27 anos, o calção azul de algodão surrado, e o chapéu absolutamente ridículo para a ocasião. Juntei as roupas sujas. A cueca com cheiro de cú. As meias com cheiro de cheetos lua. O sovaco com cheiro de sovaco NIVEA. Depois troquei o lado do LP dos Beatles. Nesse lado tocou Penny Lane que é, se não me falha a memória, o clássico da faixa de segurança.

Quis ter a certeza de que a música não pararia enquanto eu estivesse com ela no quarto. Busquei o ventilador na sala para que o fogo não nos incendiasse. O fogo do verão infernal do Brasil tropical e infernal quando é verão. Liguei a luz azul da calma e o notebook na tomada. Sentei na cadeira. Ela estava ao meu redor. Pensei em tocar uma punheta. Mas cogitei que depois de encontrá-la seria melhor. Senti seus lábios no rosto quando ela se apresentou nua, ela, a escrivinhação, minha amante. Talvez a punheta fique pra depois. Depois que eu terminar de escrever essa porcaria a quem teve a sorte de poder ler pra entender que o ser humano é apenas um espelho que quer se sentir espelho quando alguém para na sua frente, se a palavra pra isso for ÚTIL, que assim seja. Talvez os caras da alteridade estejam certos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SEDE




Só o ócio pode nutrir. Se sou uma engrenagem, então vou rodar ciclicamente, até que a máquina morra. E é isso, então? Devo me resignar? Quase 100 anos depois do Chaplin? Se sou uma rebimboca da parafuseta, ou uma correia dentada que vai operando sem parar, não posso parar pra pensar. O chavão popular não diz "Pare e pense" à toa. Não importa do que meus nervos se alimentem, se de lama ou de pão com manteiga. Quero o banquete que não é o banquete de todos, e sem que com isso recaiam sobre mim, pesados como o aço, esses olhos cheios de pesar. Não importa se a feijoada me causa diarréia ou se o chocolate ataca minhas úlceras que dormem, a necessidade é pelo verbo, é necessário comer, seja lá o que for. Um prato de comida é a salvação para os famintos. Um prato sem sal, a salvação dos hipertensos. Um prato sem açúcar, a salvação dos diabéticos. Aos doentes um prato de comida pode ser mortal.
 Os substantivos são mal vistos, são luxo desnecessário, coisas de um playboy, coisas de um inútil. Não importa o quê você come, importa que come, dizem. Fodam-se. Fodam-se, definitivamente. Vou me alimentar das minhas operações pra ver se morro logo. E depois, ah depois eu vou encher a barriga com meus pratos favoritos e exóticos. Enquanto isso minha sede vai aumentando, vou comendo os amendoins, enchendo a boca com eles, sedento, testando minha sanidade, morrendo de sede. E mirando o copo de suco gelado que ainda não posso tocar. Ou já posso, caros senhores proprietários da minha alma?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Contos Imediatos XXXVI




(...)




Ela: eu só fico assim toda cheia de coceira no nariz quando eu fico nervosa, e quem está me deixado nervosa é você Alberto.

Alberto: Então não fique nervosa.



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

SORRIA:VOCÊ ESTÁ SENDO DESALMADO


Só as fotos são felizes. Mas isso pode soar muito pessimista. Então é melhor dizer melhor: só nas fotos mora a felicidade. E se alguém perceber um sorriso feito especialmente para as fotos, que seja desconsiderado. Aquele que sorri sem sorrir, quer congelar a felicidade, quer esquecer que depois do flash luminoso, só nos álbuns restará imortalizado o êxtase do sorriso que não era um sorriso. As fotos não são o que mostram, não são o que parecem, não são o que parecem. Assim como todo o resto.

Nelas tudo é riso, dos talheres que reluzem ao pedaço de carne cheio de dentes. As viagens foram perfeitas. Os encontros foram apoteóticos. A crise dos casais não habita as fotos. Não interessa se ela dorme sem sentir-se desejada. Não importa em que vasta quantidade a palavra “insuportável” habitou os pensamentos daquele outro no tal encontro "nobre" e de gentes "interessantes". Não importa o quanto ele trabalha e não dá a mínima para os filhos. Não importa que esteja se fodendo para o altruísmo. Não importa que esteja se fodendo pro próprio egoísmo. Não importa se o diferente existe ou se é possível tragá-lo. Nada nas fotos importa porque nelas existe uma morte por asfixia.

Teve aquele show inesquecível que não se pode ver nada além de cabeças e uma voz que partia de um risco do tamanho de uma formiga, e como sorriu a foto. Não importa quanto álcool teve de ser engolido para que a foto saísse feliz. A tia gorda e mal comida também ri na foto e, olhando bem, até parece contente de verdade. As formaturas, as viradas de ano, os casamentos, o black tie: tudo sorri alegre no vão das fotos. Os moribundos fazem pose, os mortos também. Lembro de Incidente em Antares. E o riso da foto não sabe em que bolso esconder a melancolia quando a foto acaba. E todos esses sorrisos e essas cores são uma lança no corpo daqueles que não sorriem, então? Os sorrisos escondem um déspota, um torturador desprovido de comoção diante do não-sorriso alheio. E os choramingos roucos, onde estão? E o pesar da dúvida sobre os ombros, onde está? E a morte, em que distantes caminhos passa flertando a vida?

Não quero esses sorrisos enlatados porque não quero ser pela metade. Quero o luto do dia-a-dia que me pertence. Vivo da micro-morte de não ser mais o que fui quando acordei. Quero namorar a melancolia e dela tirar uns filhotes. No meu álbum, tragédia e comédia fazem um 69 sem fim, em um eterno estado anterior ao gozo. Estou sempre prestes-a, um prestes que não pode ser capturado pela rapidez da máquina fotográfica. O vir-a-ser tem o privilégio de desprezar a palavra “é”. Esse é o “quando” do Vinícius de Moraes quando disse: “meu tempo é quando”. O quando é também rei do meu tempo, sábio Vinícius. A vida é pobre quando é rica de sorrisos. Vou dar uma risada brilhante dessas diante do espelho e me fotografar com os olhos. Só pra ver se sou tão feliz quanto os felizes das fotos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

NOTAS SOBRE UMA PERERECA SEM PÊLOS


Passeando pela internet encontrei um site com imagens nada triviais. O não trivial me apraz uma barbaridade. Quando as imagens têm um significado superior para os meus nervos, chamo-as de imaginuras, uma adaptação da palavra iluminura que aprendi com o querido mestre Warat, que agora, enquanto escrevo, deve estar pescando uns peixes coloridos em alguma lagoa da dimensão seguinte, com um panamá fazendo sombra aos olhos e uma taça de malbec massageando a alma. Agora que morreu para esta vida, deve ter certeza de que esta vida é o tal inferno que pensamos estar no submundo.
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Entre as imagens nada triviais, encontrei a foto de uma perereca (sim, uma perereca dessas que as mulheres ganham quando nascem e que, nós homens, passamos a vida toda atrás). Gostei da perereca da foto. Toda misteriosa, lisa, sem pêlos (voltaremos em seguida ao tema “A RELAÇÃO ENTRE AS PERERECAS SEM PÊLO E A PEDOFILIA NA PÓS-MODERNIDADE”, mas fica, desde já, a dica pra título de tese de doutorado).
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Gostei da sensação amadora que a foto trazia. Parecia ter sido tirada com um celular de baixa resolução. Pude imaginar toda a cena que precedeu o momento em que a foto foi feita. Aqueles momentos preliminares, aqueles passeios pelos corpos. As conversas antes da dança do sexo. A textura dos lençóis roçando na bunda dela. Todos os joguinhos de sedução que as mulheres fazem até a porcaria da calcinha finalmente ir pro espaço.
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Cogitei que a foto pudesse ter sido tirada pela própria dona da perereca, no estilo “vou ver como minha perereca é, vista de baixo”, mas como gosto de inventar histórias – mesmo que elas não existam – preferi colocar um cara na minha confabulação especulativa.
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A foto mostrava um ambiente todo verdadeiro, uma perereca que escancarava, na imagem congelada, um momento de plena intimidade. Em geral os filmes pornô pecam porque, no fundo, não conseguem deixar transparecer o desejo verdadeiro da mulher. Mulher fingindo prazer é uma cena medonha. No fim das contas, quando se trata de sexo, as mulheres são as únicas que podem dar conotação de veracidade ao desejo. Os homens ficam de pau duro com qualquer revista pornô escrota de posto de gasolina, aquelas do tipo “FODENDO DUAS PRIMAS ARDENTES”. A foto que eu garimpei não tinha nada disso porque era dos melhores tipos de arte: a que retrata a vida em linhas exatas. Ao pornô falta a arte da vida real.
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Salvei a foto no computador, como faço com todas imaginuras que pesco das navegações na internet. Ontem, postei a foto com a poesia sobre o raso e o profundo. Pensando hoje, não sei o que pensei quando escrevi a poesia sobre o raso e o profundo, mas lembro que tive certeza de que a foto de uma perereca não tinha, de início, nada a ver com raso ou profundo. De início, porque depois, parecia ter sentido uma perereca como imagem de um texto sobre o raso e o profundo. Se não me fiz entender, paciência. To sem saco pra explicar.
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Bom, o que aconteceu foi que a tal foto causou um redevú (rendez vou, rendê e vu ou seja lá como se escreva essa merda de palavra emprestada do francês que significa algo próximo de confusão).
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Primeiro, tive quase certeza que minha namorada ia olhar pra foto e achar que eu tinha comido a perereca da fulana. Claro que salvei o site de origem da foto pra evitar um olho roxo posterior. Não confirmada (ou não externada) a desconfiança da patroa, recebi um email de uma amiga que estuda sobre crianças violentadas sexualmente, dizendo que a violência sexual contra crianças é uma realidade dolorida em nosso país.Disse que a perereca sem pêlo da foto parecia de uma criança e que, por isso, meu blog corria o risco de ser denunciado. Me disse para pensar por um instante (sabendo do meu ceticismo).
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Fiz o que ela mandou e, por um instante, me vi saindo algemado do edifício em que moro, no meio da madrugada, com o sono interrompido pela visita da polícia civil e seus capangas, vestindo camiseta branca amassada e um calção azul marinho confortável que uso desde 1998 pra dormir, com a imprensa toda em volta com aquela luz lancinante nos olhos, com todos os vizinhos olhando assustados pra mim e comentando em sussurros: “advogado é tudo ladrão mesmo, não adianta, raça maldita, e depois não querem que piadas, corja de canalhas”. Depois que o instante passou, a cena de filme passou.
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Percebi que a preocupação era exagerada, já que uma perereca adulta também pode não ter pêlos, o que, diga-se, é ótimo. Principalmente pra quem gosta de sexo oral. Perereca peluda e sexo oral tem uma relação muito íntima com o vômito. Não adianta dizer que o corte é ralo porque trata-se da textura e não do comprimento da grama. Esteja a grama alta ou baixa, os micuins sempre estão lá, esperando pelas nossas costas nuas. Com perereca e pêlos a coisa é mais ou menos igual.
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Os amigos quiseram saber de quem era a perereca, especulando sem êxito. Os inimigos devem ter pensado que a perereca em questão não era a perereca em questão. E a perereca continua lá, ou melhor, ali, rindo de todos nós. Quando as pererecas dão risada, o melhor é sair correndo. E isso vale para as carecas e as peludas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

raso - profundo


Quando cavouco com o pé na areia,
percebo que também a areia representa,
como se fosse uma atriz com dotes naturais.
A areia clara esconde uma areia outra,
de robusta textura e profunda escuridão.
A areia outra que mora embaixo da areia,
tem outra natureza,
por privada dos toques do sol,
por esquecida,
por profunda,
por diferente,
por alheada.

Quando vejo todo o mosaico verde que pinta a montanha,
pressinto que também a mata virgem esconde terra escura
e folhas secas que um dia beberam a seiva elaborada
que só existe nos livros de ciências do colégio.

Quando o mar me beija
- e mesmo assim distante -,
sei que ele é a cobertura de um bolo.
E se o raspo com a colher infantil dos olhos,
puerilmente evitando a massa menos doce,
sei que o faço por cansaço do pensamento.
Mas mesmo negando num repente a inteireza,
sonho com o único silêncio mortal que guarda a vida,
o que contém o destino universal de estar vivo em um silêncio sepulcral:
o fundo do mar.
O fundo do fundo do mar, como meu pé,
também toca a areia,
e lá, a escuridão deve dar um medo danado.
Talvez os frutos do mar prefiram acabar fritos nos restaurantes
do que encarar essa fêmea senhorial que é a escuridão do fundo do fundo do mar.

E, como se essa convivência entre o raso e o profundo fosse singela aos olhos,
posto que a pureza da natureza é a mais possível a nós,
a tolerância é concedida aos homens
(mesmo que tê-la não saibam),
com ares feitos de resignação cósmica
e uma imensidão que cabe no bolso sem baixar o cós dos calções.

Quando essa resignação repousa em mim
assim grande e leve,
afirmando que harmonia é necessidade da vida,
ensinando que são inevitáveis as mãos para levar a água doce à boca,
ou,
se na falta delas,
as pernas ajoelhadas permitem a humildade do beijo da minha boca no riacho;
a tolerância que em mim sempre esteve não vista brilha
porque quer em mim ser.
Nessa fração atômica do tempo,
conduzo,
aqui dos ares salgados da praia e dos olhares cansados dos vendedores de churros,
o que de minha consciência o abstrato não usurpou,
deixando-me deitar aliviado sobre toda a existência,
com a mesma calma segura de um sexo com um velho amor.

Toda a vasta existência,
que existe como a areia e a mata e o copo que com água sacia minha sede com a força superficial das minhas mãos
(que por estarem aqui não requerem meus joelhos na beira de um rio),
toda essa vasta existência
tem a grandeza divina de poder simplesmente ser.
Pela absolvição da superfície.
Pelas necessidades mútuas que vem
da trama andrógina e harmônica entre o raso e o profundo.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

tele-visão




"A televisão me deixou burro, muito burro demais.
Agora todas coisas que eu penso, me parecem iguais..."

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Titãs

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

podia ter sido presidente da república



Cheguei em casa muito bem. O dia havia acabado e era uma hora do dia como nenhuma outra. Cheguei a pensar que aquele ditado “O trabalho dignifica o homem” podia estar certo. Por um momento aquela abominável coisa fez sentido. Mas depois passou. Melhor que passasse sob pena de eu morrer sem o ímpeto de seguir adiante e criar uma vida em que o ócio e a vagabundagem reinassem absolutos e que, mesmo assim, eu pudesse ter dinheiro na conta corrente pra fazer as coisas boas da vida que precisam de dinheiro. É preciso ter algum dinheiro pra ser vagabundo. Ou, então, ter a coragem do Bukowski. Eu não tenho (hesitei em escrever um “ainda não tenho...”).

Mas tinha chegado em casa bem. Não havia outro momento senão aquele. E a vida tinha que ser vista assim. Estar e permanecer no estar era uma missão filha-de-uma-boa-puta-boqueteira. Quando se podia tocar, por uns instantes, a excelência de permanecer no estar, era sinal de que a vida valia a pena.

Liguei a vitrola de tocar LP’s que ganhei de natal do meu vô. Aliás, esse meu vô, que é o pai da minha mãe, é um grande cara. Que ficou perdido numa vila porque ninguém o descobriu. E é só por isso que não tenho uma COMPLETA admiração por ele. É um gênio que vai morrer no anonimato, simplesmente porque não aprimorou as ferramentas que ganhou de presente na vida. Esse meu vô é o mais dionisíaco de todos na minha família.

Queimou todo o dinheiro que tinha com a canastra. Fumou todos os cigarros que pôde. Ele tinha 7 casas na vila em que morava com a família. Ai queimou 6 delas com as cartas. Quando sobrou apenas a última das 7, a casa em que toda a família morava, minha vó disse que, se tivesse que morar na rua, largaria ele. Nesse dia, meu vô morreu pela primeira vez. Exatamente no dia em que teve que deixar de ser dionisíaco na grande paixão que tinha na vida: o jogo de cartas.

O orgasmo pra ele era jogar cartas e deixar um cigarro esquecido queimando no canto da boca enquanto marcava o anverso das cartas com a unha comprida. No dia em que teve que controlar os ímpetos do jogo, preocupado em perder a minha vó (e não exatamente a casa), teve a primeira morte em vida. A segunda veio no dia em que o médico disse que ele tinha que largar o cigarro por conta de um enfisema pulmonar fodido que ele tem até hoje. Aqueles cigarros que ele fumava com a ponta amarelo-queimado, eram fortíssimos. Ele fumava 2 carteiras de "oliú" (Hollywood) por dia. 40 pregos cravados no próprio caixão a cada dia.
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Como aproveitou a vida esse meu vô, o Edo, que é apelido de Hélio, o nome dele. Ele é um dos caras que eu mais respeito na minha família, que admiro até a ponta dos fios dos cabelos. (a última frase teve que ser reconstruída porque a sinceridade ainda é muito ferina...)
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O velho podia ter sido presidente da república. Agora resiste em morrer porque acha que minha vó anda trepando com o vizinho. Só porque o pau dele não levanta mais. Anda todo sem esperança o coitado: se tomar um viagra, morre do coração; quando caminha até o banheiro, fica esbaforido como se tivesse corrido a São Silvestre; no inverno, quase morre de frio; não pode cortar a pele porque o sangue não tem consistência e não coagula; se ficar de pau duro naturalmente (como a repetir o milagre do Gênesis com um sopro de Deus direto no pinto dele), morre porque o pulmão não aguenta o chacoalho do sexo.

Esse quadro desgraçado fode com a masculinidade de qualquer um. E, quando a masculinidade escorre pelo ralo, um homem escorre junto. Essa impotência generalizada criou um ciúme doentio dele pela minha vó, que já anda pra lá de Bagdá. De qualquer forma, acho que ficar de pau duro é o mínimo que um homem pode oferecer. Uma mulher com um broxa persistente tem todo o direito de um “divórcio por justa causa”. Isso se a mulher não tiver problemas de lubrificação. A secura das mulheres é a broxura dos homens. Antes tinha a saliva pra ajudá-las. Até imagino as sessentonas dos anos 50 dizendo, “...olha, eu estou toda lambuzada e você ai com essa porcaria mole...”. Depois veio o KY (aconselho misturar com umas gotas d’água). E agora o viagra equilibrou as coisas. Na verdade, somos nós homens que historicamente fomos oprimidos. Até a chegada do viagra, não tínhamos solução, perdíamos a validade sexual assim como as mulheres perdem a validade reprodutora, uma coisa pra se pensar. Mas para o sexo-pelo-sexo, estamos em paz. Eu imagino a alegria da velharada com esse viagra. Vou tomar muitos futuramente.

Como no caso do meu vô, nem o viagra pôde salva-lo, consigo entender a neurose ciumenta que se instalou na alma dele. Ele criou uma ilusão, apenas pra se manter acordado aqui na vida da terra. Ele, como eu, gosta do ar podre da terra, e por isso resiste em morrer. É diferente de quem gosta simplesmente porque não conhece o perfume e o fedor do ar. Ai ele fica criando um ciúme de brinquedo pra ficar vivo. Ficamos vivos até quando podemos manter o foco em alguma coisa. Depois que nada mais tem luz, é preciso morrer. Ele iluminou a minha vó. E não porque ela é especial, mas porque era a que estava mais perto. Meu vô e eu conseguimos nos entender só com o olhar. Como se fosse um pacto silencioso sobre o grande mistério, que de tão grande eu nem sei qual é, mas sei que existe.

Fui visitar ele uns dias antes do Natal, que é um dia depois do meu aniversário, que é no dia 24. Ficamos lá no sofá conversando até que ele disse que ia me dar a tal vitrola de tocar LP’s de presente de aniversário. Achei que aquilo podia ser a herança do meu vô, e que ele pudesse bater as botas antes do meu próximo aniversário. Seria uma pena perder ele. Ele sabia que eu queria a vitrola, e por isso resolveu me dar. Agora, depois que comprei alguns LPs, a vitrola esta funcionando aqui em casa. Toda prosa. Meu pai disse que era um trambolho que nunca ia ser usado, se enganou. As músicas de LP têm um pano de fundo que se parece com som da garoa caindo antes de dormir. Toda tecnologia dos mp3 e Ipods para, no fim, voltarmos ao vinil e seu melódico som de chuva.

Liguei a vitrola porque cheguei bem, como eu já disse lá em cima. Coloquei um disco do Stones. Fiquei pelado e fui tomar banho. Não sem antes fazer um copo de guaraná, gelo e vodka vagabunda. Dancei no banho como um demente. E o som dos Stones rolando alto na sala. Depois sentei de toalha na mesa da sala e comecei a escrever. Uma mulher na janela do edifício que fica bem na frente da minha sacada, me olhou com uma cara de nojo. Deve ter pensado que eu tava no msn e ter me achado um imbecil. Ou não gostou de me ver pelado, que é realmente uma cena horrenda. A gente antecipa muito as conclusões sobre os outros e isso é uma merda. Ainda que seja necessário dizer que, em geral, o “todo mundo” é uma merda mesmo.

Nesse dia em que ganhei a vitrola do meu vô, ele contou que uma velhota caindo aos pedaços e toda religiosa, que morava na mesma rua dele, perguntou como ele fazia pra atrair os beija-flores que iam bebericar nas esperas de água com açúcar que ele deixava na varanda de casa. Ele respondeu pra velha:

- Eu amasso duas pedras de crack e misturo na água.

A velha fez o sinal da cruz e saiu horrorizada.

Pensando bem, dopar beija-flores não é crime. E, se fosse verdade, ele seria um homem de bem, mesmo drogando os pássaros. Vejam como o mundo é idiota, os atletas não podem tomar nenhuma droga, mas qualquer artista pode encher a cara e fumar o que bem entende pra produzir suas artes. O dopping é permitido aos artistas! Conclusão: melhor ser artista que atleta. O mundo quer leis universais e esquece que há todo tipo de gente e coisas no mundo. Mundo idiota, com a sensação de que não é.

O meu vô só dava esmola pra mendigo que quisesse tomar cachaça. Se chegasse pedindo dinheiro pra comprar pão e leite ele mandava o cara à merda. Que grande coração tinha o meu vô. Anestesiava as dores dos outros. Era um médico sem diploma. Falo era porque nem ele entende como ainda está vivo. Vou encher o copo que a vodka acabou.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

amores infantis


Sempre gostei da minha prima, a Carol. Foi a prima com a idade mais próxima da minha e, por isso, foi a menina que, desde guri, serviu de razão para os meus desejinhos pueris. Descobri os lábios de uma alma feminina nos lábios miúdos e rosados da Carol, com um selinho fugidio no quarto da nossa vó, quando devíamos ter nossos 9 ou 10 anos.
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Lembro que engolimos uns pedaços de pasta de dente Colgate, afinal de contas, um primeiro beijo não podia ter mal hálito. Os adultos bebiam e fumavam na cozinha da casa da vó e nem cogitavam que as crianças podiam estar seduzidas pela descoberta do "outro". Tivemos uma paixonite infanto-juvenil, muito mais infanto do que juvenil. Acho que ela também deve ter escutado umas músicas pensando em mim naquela época. Devia ser pelos anos de 1993 ou 1994. Na época, eu escutava Queen, pensando que se a gente casasse, nossos filhos iam nascer com defeitos pelo corpo.
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Depois que crescemos, lógico, a paixonite passou. Ficamos amigos. Fui viver meus amores e a Carol foi viver os amores dela. Ela engravidou e virou mãe cedo. Dela nasceu um anjo, a Manu. Que é a criança mais doce e especial que eu já vi. Uma borboleta sem asas. Uma flor, que mostra com os olhos que não vai murchar nunca. Que vai ensinar a pureza de ser a toda nossa família, a todo o país. Deve ser essas crianças índigo, que pelo que sei são especiais e pertencem à nova casta evolutiva da humanidade. No final do ano fiquei 1 hora balançado a Manu na rede. Ela fechava os olhos a cada vez que eu nos lançava no ar, feliz da vida com o vai-e-vem da rede. E enquanto ela fechava os olhos, a vida fazia todo sentido pra mim. Acho que quando eu tiver filhos, meus porquês vão acabar. Escrevi tudo isso, assim ao correr dos dedos no teclado, só porque a Carol mandou uma mensagem repetindo as palavras da Manu:


- Mamãe, se a minhoca não tem pernas, como que ela sobe no pé de limão?


Hoje, eu tenho pela Manu a mesma paixonite que tive pela Carol. Sou bem apaixonado pela doçura toda dela, que me faz ser otimista e ver a vida como ela deve ser vista: como um balançar bom de rede no fim da tarde.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Quadrinha frugal



Estou percebendo.
Eu sinto.
Já me fora alertado -
Vai cair meu pinto.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Depois do Corcel 73, eu devia estar contente ?



Das melhores frases do Raulzito:
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"...do cume calmo do meu olho que vê, senta a sombra sonora de um disco voador".
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