terça-feira, 18 de maio de 2010

entreolhares


ENTREOLHARES


Há esse tom meigo nos olhos teus,
Que se entrecruzam como lanças invisíveis de carinho puro.
Há essa luz viva nos olhos teus,
Desligados da tristeza, chorosos pela vida,
Esses dois sorrisos pueris vestidos em cílios de mulher.
Há essa penumbra balsâmica nos olhos teus,
Que me sombram no calor tórrido dos corpos.
Há também alguma tenacidade nos olhos teus,
Que fortalecem as fibras de tudo que te sente, toca ou vê.
Há uma maternidade fraternal nos olhos teus,
Que ninam outros olhares sem julgar sequer a imagem.
Há mil séculos de história nos olhos teus,
Que podem contar todos os amores da existência.
Há, sobretudo, uma ternura contida nos olhos teus,
Mas que vaza fugidia em cada lágrima tua,
Em cada riso solar que é tua felicidade diante do sublime.
Há, claro, uma overdose de cafunés nos olhos teus,
E como é terno pousar os olhos nos teus,
E como qualquer olhar rábico é manso no teu.
Há uma cama quentinha nos olhos teus,
Que convida a enfiar-se em lençol de cheiro,
Escondendo os traços e revelando a poesia da alma.
Há um encontro de peitos nus nos olhos teus,
Que se aquecem no compasso dos toques cardíacos,
Que são a eternidade do teu piscar.
Há um útero fértil nos olhos teus,
A transformar em vida cada potência de ser.
Há, à parte, uma fragilidade juvenil nos olhos teus,
Que se protegem a cada toque de outros cílios nos teus.
Há um lamaçal de desejo nos olhos teus,
Que devoram cada centímetro dos prazeres que te aprazem.
Há essa aporia velada nos olhos teus,
Que choramingam duvidosos entre o amor e o amor demais.
Há, enfim, uma lassidão nos olhos teus,
Que querem se fechar para sentir as entrelinhas do espírito,
Mas que são de um aberto imprescindível,
a iluminar o mundo todo que te espera.


PFF

...d'accord, d'accord, d'accord


Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Angeli para ver






Contos Imediatos XXI



SINCERIDADE

- Você tá pensando o quê...que eu beijo logo no primeiro encontro é?
- Não, eu acho que você passa vontade no primeiro encontro...
.
.
.
PFF

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Confessar a covardia

Tudo vai mudando, mudando...

Todo mundo já escutou o Raulzito, essa então nem se fala! Mas tudo vai mudando, mudando, mudando...e escutei de novo essa depois de um bom tempo. Já andava interessado pela loucura nos últimos tempos. Li uns trechos do Elogio a Loucura do Erasmo de Roterdam, voltei ao Manifesto do Surrealismo Jurídico do Warat, fui ver Alice e o chapeleiro maluco no cinema. Ser louco? Quem tem coragem? Ou ninguém é tão livre assim? Todos os loucos têm a mesma doença: o excesso de liberdade. E como devem rir-se de nós, dessa nossa grande acomodação predestinada à que Roterdam também chama de loucura! A loucura da loucura real!

"E esse caminho que eu mesmo escolhi, é tão fácil seguir, por não ter onde ir...", já disse um louco livre que deixou milhos na estrada - estrada que aparece a cada momento - para outros corajosos. A loucura é uma benção. Pensei outro dia: é a solução dos que têm ímpeto suicída. Se você pensar em se matar, fique louco antes! E me caiu no colo da memória essa canción do Raul. Já tinha escutado mil vezes, mas porque ando mais em paz com a loucura, escutei outra música. E essa nova compreensão denunciou em mim o quanto covarde eu sou, um covarde diante da vida. Mas tudo vai mudando, mudando, mudando.

ATESTO: sou um incompetente, ainda não consigo passar no vestibular da loucura...

La décadanse



É evidente que não sei o que é melhor para nós. Nunca pretendi saber. Vou vivendo e sentindo as coisas à minha volta na medida em que elas se apresentam. Não sigo roteiros porque a única graça da vida está na improvisação constante. Não há o que temer. A única coisa realmente assustadora deste mundo é saber exatamente como será o dia de amanhã.
De um autor fantasma

terça-feira, 11 de maio de 2010

Vômitos da razão: um prelúdio



Apoiou na mesa o cotovelo,
e os dedos ao lado da testa.
Mesclou tanto a razão - como em novelo -
que engasgou-se com a lógica indigesta.



PFF

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Em definitiva

Dores da loucura, um outro parto



Antes de louco ser
uma dor aguda vais sentir.
É que estás de novo a nascer,
E esse choro, se acalmará no teu porvir.

PFF

Sorrisos




Acho que já ganhei vários tipos de presente, mas nunca tinha recebido uma poesia. É uma felicidade imensa, ainda mais com tantos carinhos assim. Obrigado Michele, muito doce!


Paulito querido, preciso dizer
Eu fico boba quando leio você
Não é paparico, nem exagero
O que eu digo é verdadeiro

Você tem um dom, pode acreditar
Continue escrevendo, não deves parar
Sempre que eu o leio, fico a pensar
Feliz daquela que o Paulo amar

Nem todo homem sabe escrever
Nem o que sente, sabe dizer
Por isso querido, és singular
Que nem você, é difícil encontrar

Homem, menino, tens uma luz
És um poeta, tua escrita seduz
Então meu amigo, pra terminar
Vou repetir, não deves parar

domingo, 9 de maio de 2010

Quando a moral estupra a paciência


PELA TIPIFICAÇÃO DO AUTOESTUPRO


Sabe-se que o estupro é dos crimes mais condenados pela moralidade. Não tem estuprador que escape ileso da guilhotina da lei – que arranca simbolicamente a sua cabecinha (sim, aquela!) – e dos cabos de vassoura e demais acessórios naturais quando pisa no xadrez. Por ser uma cólera do comportamento humano, o estupro é mal visto por todos que se consideram amigos da sanidade. E o é, em grande parte, pela violência que é a não correspondência entre a vontade do estuprador e da vítima. O estuprador quer, a vítima não quer. Mas o estuprador, que sempre é mais forte e corpulento, impõe à vítima sua vontade. Faz da unilateralidade um consenso forçado. A vítima, então, acaba agindo contra sua vontade. Dando aquilo que nem emprestar queria, em resumo. Até aqui todo mundo já sabia.

Porém, o que ocorre seguidamente, são os auto(?-?)estupros (não lembro como ficou essa porcaria de hífen com a ortografia nova). - Autoestupros? Sim, auto-!!-estupros! Os auto%*estupros, diferentemente do estupro mais ortodoxo, por assim dizer, são fenômenos complexos e provavelmente históricos na civilização, mas que só agora tem espaço dentro da democracia sexual para poder fazer parte do (anti)discurso liberal. Os auto$+estupros são mais condenáveis que os estupros uma vez que estupram duplamente: quem quer “estuprar” acaba sendo estuprado e quem também quer ser “estuprada”, acaba não sendo. Explico. Manter-se-á aqui uma hipotética relação heterossexual para facilitar a compreensão do caso, consciente que os estupradores tem preferência sexual difusa.

Como manda o script da felicidade enlatada de uma noite, o menino dá uns beijos na menina, tomam um cachaçinha qualquer além do 0,6 mililitro por alguma coisa de sangue como diz a lei, e acabam na cama (em geral de motel barato ou na casa do menino que é mais barato ainda). O menino, domesticado que foi, quer (às vezes bebe bem além do 0,6 para se convencer de que quer mesmo...). A menina, domesticada para não querer, quer! E como quer! É a lógica inconsciente de que o que é proibido tem mais tempero e mais açúcar... Além disso, sabe-se desde as cavernas que a mulher é do contra...! Independente das razões da cada um, ambos querem. A menina bêbada e com os sentidos corporais aguçados, então, literalmente baba. E baba por todos os lados, porque enquanto o menino bebe para recuperar a masculinidade assustada, a menina bebe justamente para vencer a domesticação que a condiciona. Mas aí a tirania da moralidade e da pressuposição do julgamento alheio lança seu veneno (na primeira vez, nem falar, diz o código da boa menina). A menina, ainda que de pileque, quer, mas não dá (nem empresta, nem porra nenhuma). Ela baba por todos os lados, deseja o menininho do menino mais que tudo, mas mantém em pé o muro da moralidade (e também o menininho do menino), que é, para o pobre menino, um verdadeiro muro das lamentações. É nesse exato momento que o auto-estupro se dá. E ela nem é mais forte nem mais corpulenta! A menina se estupra internamente porque sua vontade e sua ação não encontram correspondência. E estupra o menino e o menininho, que queriam, mas que vão ficar no prelo, sob o efeito imediato de uma molenguidão corporal e psíquica de dar dó. Estuprar é um desencontro de vontades. O autoestupro é um desencontro duplo de vontades, em algumas teorias que ainda não existem também é chamado de estupro às avessas. O auto---estupro devia constar no Código Penal com agravante de pena em relação ao estupro, uma vez que é cometido duplamente. Pode ser uma qualificadora também, eu nunca entendi direito essas coisas de Direito Penal...O crime de autoestupro sequer consta, todavia. Nem se sabe de projeto de lei tramitando para incluí-lo. Pensando bem, talvez o estuprador da história não seja a menina, mas a moral...

A moral estupra muito gente por aí, todos os dias, em todos os lugares...e ninguém nunca viu ela ser julgada, condenada, encarcerada.... e nem assediada por algum cabo de vassoura...

sábado, 8 de maio de 2010

Soneto de anistia à Loucura



SONETO DE ANISTIA À LOUCURA
Para Luis Alberto Warat

Com teus pares não discuta
Se não te podem compreender
Vê a vida, e dela disfruta
E deixa eles com seu grande (a)parecer.

O cotidiano é uma conformação
Escraviza uma maneira de pensar
Faz tu ruína entre sim e não
E outros continentes vais encontrar.

O louco se mostra, é a todos um espanto.
Mas pobre é o tolo e sua fissura,
que morre no charco raso do próprio pranto.

Na vida, tudo é lonjura
E sentindo... se sente tanto...
Santo espanto: a lucidez é da loucura!


PFF

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Magia e surrealismo

A amiga Ana Sefrin é uma indicadora por excelência. Sempre indica livros, filmes e coisas bacaníssimas. A foto do post abaixo, inclusive, é furto do orkut dela. Ela mandou esse vídeo que mistura o surrealismo (a)temporal do Dalí e a magia dos traços de Walt Disney. É espetacular e cheio de simbolismo. Beijão Ana!

O ser humano inventou o amor porque não sabe o que fazer com o espelho


Muitos me dizem o mesmo. O mesmo escuto nas esquinas, nos bares, nas repartições. Quem se sente à vontade e abre as cancelas da alma...promove o chororô pós-moderno!

Sempre que se vão embora as máscaras que escondem a pele lisa da verdadeira autenticidade, uma criança desacostumada com o mundo lacrimeja. Chora. Pensa que o mundo é muito cansativo. São tantas coisas que se devem fazer. É ter que ser tanta coisa. Viver é um saco, literalmente. Somos um saco vazio de coisas nossas querendo encher o mesmo saco com quinquilharias que nos dizem que devem estar no saco... é muito óbvio ou eu ando ficando cego, louco, surdo, mudo? Digam-me, por favor! E, nostalgicamente, roga-se pela mãe. A velha mamãe a acocorar as dores dos dentes que furam a gengiva, a que conforta a boca com leite morno e nutritivo. A mãe já era meus amigos (em relação ao leite morno um microondas ajuda barbaridade), e ainda vamos ter que cuidar dela e dos filhos no futuro (depois que aprendermos a engolir o choro, se bem que eu não sei se tem que engolir mesmo...). Por essas e outras que a psicologia é a ciência e a profissão do futuro. O seu Freud acertou em muitas partes, era um tadinho como nós, os habitantes do mundo adulto, em que tudo reina linear e lindo nos ares públicos e bêbado e angustiante nos espaços privados (sabe aquela angústia do chuveiro e da privada, essa mesmo!).

O ser humano inventou o amor porque não sabe o que fazer com o espelho. Tem um medo danado de ser autosuficiente. Como disse o Fernando Pessoa, não entendeu o ser humano que para se ver é preciso estar em reverência a si mesmo, quando antes só podíamos nos ver nas águas dos riachos, ajoelhados sobre nós mesmos... Muitas máscaras eu vejo por ai, nas esquinas, nos bares, nas repartições. Faz tempo que sabemos que é tudo um teatro e que tudo vale quase nada. Essa tem sido uma regrinha última para os meus botões: se é o desejo do senso comum, não siga! Melhor que nem todos saibam disso, sob pena de esquizofrenia generalizada (mais um ponto para a classe dos médicos da alma). Parece que ninguém mais sabe ser! As vitrines ambulantes seguem a trotar pelas cidades cheias de vitrines... será que o pessoal que não vive na terra pára - como as senhoras nos shoppings - ao redor dos anéis imaginários do nosso planeta para especular sobre os produtos que vendemos aqui?

A vida contemporânea é uma menininha de vinte anos com silicone e chapinha no cabelo: uma bela princesa pública a pisar os espinhos lancinantes da vida nos seus rançosos espaços privados. Uma desalegre (infeliz é pesado demais) que esconde, atrás da pseudo rigidez da carcaça extonteante que lança ao público, uma gelatina mole e frouxa, uma poeirinha pueril da própria existência. Uma incapacidade de viver sem bengalas, de saber quem e o quê é. É uma criançinha que chora baixinho e sem derramar lágrimas, saudosa da última mamada.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

A costureira das palavras


Se eu não tenho pressa?
Não: eu tenho urgência!
Urgência de sentir na pele o existencial questionado,
a doce essência no paladar já seco,
o cheiro colorido de tudo que conheço.
Não tenho pressa: tenho fome emergencial
Tenho uma sede de suprimir meu fôlego
Uma angústia de querer o que é eterno
Uma ânsia de pertencer ao que é terno - e nele me aconchegar.
Tudo que padeço, tudo que (des)faleço
Cumpre a função de me tornar nova ao que eu direi que é o começo
Transformo-me, transmuto-me e digo:
quero viver o que lateja em meu peito.
Quero dilascerar o que preciso aqui dentro,
com saga,
com aperto,
com afinco,
erros e acertos.
É o caminho em que posso me perder, sem medo
Já que é o traçado planejado aqui dentro
e confirmado pela razão no mesmo momento.
Urgência de sugar,
Emergência de libertar.
Urro de colorir e de perfumar.
Loucura em tocar.
Agora!
-
Extraído do blog da Grazi - Genealogia do Caos

A hora de mandar os outros à merda



ENTREFÓRMULASPERSONALÍSSIMAS

Tentam predizer teu destino
com conselhos que são pura ladainha.
Santa ingenuidade de menino!
Só tu sabes tua vida, ela todinha.


PFF

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Contos Imediatos XX



HISTÓRIA CONTINUADA

Quando jogou-se sobre o nada a purpurina mágica da ciência e da religião, toda a existência foi criada. Um professor de gramática, encucado que era, questionou a impessoalidade no dia em que brotaram os existires. Debatendo-se sem resolver a questão, encaminhou o caso para um filósofo. Depois de indagar os mais longínquos conhecimentos, em parecer, o filósofo ponderou que a impessoalidade não era exatamente uma inexistência, mas a neutralidade do sujeito atirador do pó mágico da criação. Restando ainda lacunosa a história da criação da existência, uma comissão conduziu o perrengue às montanhas, onde, perto das nuvens, vivia o eremita. Com um silêncio protocolar, nada disse o eremita aos comissários. Afastou-se daqueles engravatados e, na varanda, diante do horizonte solar que se punha, sussurrou fugidio ao estagiário que acompanhava a comissão: todos os nascimentos são uma eternidade.


PFF

Mario Quintana por ele mesmo - fantástico!

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

(Texto escrito pelo poeta para a revista IstoÉ de 14/11/1984)

terça-feira, 4 de maio de 2010

endeusar o Acredito


A quadra dos crentes


Para sentir Deus,
nos dizem para acreditar.
Mas eu prefiro pensar,
que Acreditar é que é o deus.


PFF

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A nudez e a morte

As melhores ideias,

porque são sempre as mais diferentes,

acabam escondidas.

Poucos tem coragem de desnudá-las de forma íntegra:

santo risco de desnudar-se também totalmente.

Por isso que os melhores escritos

ficam melhores ainda depois que morrem.

A morte não tem vergonha de dizer.



PFF

paragem, poesia, porto alegre


No fim tu hás de ver
que as coisas mais leves
são as únicas que o vento
não consegue levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

Mario Quintana
(Foto da foto na Casa de Cultura Mario Quintana em Porto Alegre)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Contos Imediatos XIX


FARPAS CARDÍACAS

Quando acordou e alçou as costas para que se divorciassem dos lençóis, uma dor súbita no peito o fez urrar de dor, a mais aguda que já sentira. Voltou a colar as costas no lençol, imóvel, com olhos fixos naquela imensidão que era o nada. Era um solitário, e não fosse por Lurdes, que há vinte e oito anos limpava as cuecas, as taças de vinho e os ladrilhos da casa que era aquela sua vidinha; por certo teria padecido e engatinhado para a mansão dos mortos ali mesmo. Sem outra chance para esta vida e seus infernos.

Na CTI do hospital rasgaram sua veste tétrica de dormir. Sem nenhuma pena dos bichos de seda que tanto esforço tinham empregado naquele pijama cheio de tramas. A veste essa era de um luxo tamanho que se podia sentir – mais sensível que fosse o apreciador de pijamas – o suor dos pobres bichinhos, de tantas indas e vindas sobre o mesmo fio. De peito nu o anestesiaram, ainda que o caminho da morte já fosse uma anestesia e tanto. Tal qual haviam feito com o pijama, rasgaram também a ossada do peito, que tinha valor equivalente ao pijama àquelas alturas do campeonato.

Aberto o espaço necessário ao seu porém que era o coração, o médico arregalou os olhos, ficou engessado no instante, deixou cair o queixo. Hesitou em pura descrença à cena que os próprios olhos lhe entregavam. Esfregou as pálpebras com as luvas de látex, quase que a cortar a própria maçã do rosto com o bisturi que lhe assessorava. Não entendeu o que sucedia com o coração daquele homem que quase jazia estirado na mesa cirúrgica.

O coração pulsava muito, muito devagar; a manter apenas uma suave esperança. Isso, porém, foi o que menos surpreendera o médico. Atônito, não entendeu quase nada: nem o arame farpado que envolvia o coração do homem, nem as unhas e cabelos que dos músculos cardíacos haviam nascido, nem os soldadinhos em miniatura que transitavam rígidos naquela planície melecada de sangue. Até uma bruxa feiticeira, com verruga no nariz e tudo, mexia substâncias de cores duvidosas em minúsculos tubos de ensaio, olhando com ares petulantes para o médico e seu bisturi.

O médico lembrou das juras à Hipócrates e varreu o coração do homem. Eliminou todas aquelas estranhas defesas, sem deixar qualquer resquício. Reatou os ossos. Costurou a pele. Passados os efeitos anestésicos o homem abriu os olhos. A enfermeira foi a primeira a cruzar seu campo de visão. Se apaixonaram, e o homem nunca mais morreu.

PFF

Vem ver

Ereção a preço de banana


Ontem, o STJ derrubou a patente do Viagra. Vejam a notícia http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/04/stj-derruba-patente-do-viagra.html


Cá entre nós: eu aposto um cacho de bananas que quase todos os ministros do STJ (o ministro do voto contrário vai virar o sonho de consumo das assessoras e estagiárias...o machão alfa de potência natural...) tomam a pílula azul da pseudo felicidade conjugal (e não conjugal, claro). Eis um pré-juízo pra lá de autêntico (e egóico) na decisão de quebrar a patente do viagra. Eu tenho curiosidade de saber se depois que o Viagra ganhou o gosto popular aumentaram ou diminuiram os divórcios da classe alta. Imaginem, os Doutores estressados e sem tempo de antes, com problemas de ereção por motivos óbvios, desde o Viagra se tornaram os caras mais cobiçados do mercado. Mas será que diminuiram os divórcios ou aumentaram as relações paralelas da classe alta? Eis uma sugestão de pesquisa para o pessoal da sociologia. Independente da resposta à essa minha indagação, agora, também os zé ruelas vão sofrer (ou se beneficiar) com as consequencias. Pau duro é um direito de todo o cidadão que vive numa democracia, ora bolas. Em tempos de pan-principiologismo, não espantaria se o direito à ereção se tornasse um princípio e uma garantia individual na Constituição...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O ensino jurídico cospe no prato que comeu

O ensino jurídico cospe no prato que comeu

A filha de um amigo está estudando Direito e teve grande decepção nos primeiros dias de aula com um professor que não perde oportunidade para criticar os juízes. Como não tem argumentos ainda para contrapor ao “mestre”, ela apenas escuta com alguma indignação e não entende porque um professor do curso de Direito alimenta tanta revolta contra os juízes.

Esta menina me contou sobre o assunto com certa cautela e temerosa que eu pensasse que também ela tinha a mesma impressão dos juízes. Depois de acalmá-la, perguntei mais sobre as críticas do professor e ela teve mais segurança para dizer que o dito professor considera os juízes despreparados, preguiçosos, arrogantes e outros adjetivos não menos recomendáveis.
Perguntei, em seguida, se o dito professor tinha a mesma postura acerca do Poder Judiciário e do Direito e ela me respondeu que não entende muito ainda sobre “teoria do Direito”, mas já ouviu de estudantes mais antigos que o professor em questão é um “ferrenho positivista e dogmático”.

Depois perguntei sobre o estilo de aula e de avaliação e a resposta foi a que eu já esperava: as aulas são sempre discursivas, os alunos permanecem sentados no velho esquema de filas de cadeiras, a avaliação é feita através de provas e o “mestre” não se cansa de ameaçar os alunos com sua rigidez no momento de corrigir a prova. Acrescentou minha amiguinha que o “mestre” inicia sua aula escrevendo um longo esquema no quadro, o mesmo esquema que utiliza há vários anos, e depois se senta em sua cadeira de professor e faz um longo discurso até o final da aula.

Por fim, perguntei a minha amiga se já havia conversado com seus colegas sobre o que pensam em fazer após o curso e a resposta foi de que o grande temor da maioria ainda é passar no exame da Ordem, mas o objetivo de quase todos é fazer concurso para as carreiras jurídicas.

Então, minha cara, teus colegas, formados por teu mestre, serão os futuros delegados, procuradores, promotores e juízes de Direito desse país. O que você pensa disso? Como serão esses profissionais? Quem está lhes dando “régua e compasso”, como diz Gilberto Gil?
Então, concluiu minha amiga, o ensino jurídico é o responsável, em última instância, pelos profissionais da área jurídica? Sim, sem dúvidas. Compreenda, por fim, que o professor dogmático e tradicional que critica os juízes é o também o responsável pela formação desses “despreparados, preguiçosos e arrogantes”. É como se ele estivesse “cuspindo no prato que comeu”, sacou?

Não posso deixar de observar, por fim, que conheço dezenas de professores em cursos de Direito que mantém uma postura crítica e inovadora e que procuram, enfrentando os antigos esquemas, formar Juristas de verdade e não pinguins, como diz Warat.

Extraído do blog do Juiz de Direito, Gerivaldo Neiva - http://gerivaldoneiva.blogspot.com/

Woody Allen ataca novamente

Pessoal, vi no final de semana o último filme do Woody Allen, TUDO PODE DAR CERTO, 2010. Sou um fã recente dele, e ando impressionado com a crueza do homem-diretor-de-óculos-fundo-de-garrafa. A comédia é inteligente, atualíssima e de morrer de rir. Lembra um pouco o Manhatan que é um dos primeiros filmes dele: velhos cult com menininhas de 18 anos. O ator também é sensacional, ainda que minha curiosidade quisesse ver o próprio A. W. atuando como o gênio desacreditado da vida que é o personagem principal. Mostra com alegria o amargor de chegar com lucidez no crepúsculo da vida, super recomendado.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Contos Imediatos XVIII



- Mas...e aí? Meio nada a ver isso...Qual é a moral da história?
- Não tem moral nenhuma. Os contos são assim desde que nasceram: acríticos, ascéticos, alheios das ruas cheias de gente e, quase sempre, antipáticos. Não querem agradar ninguém. São a ingenuidade sublime de costurar palavras. O conto não quer nada senão contar. Tal qual o bebê que sonha, sem saber que sonha. Tal qual as tulipas lindas, sem saber que o são. São relatos cotidianos, sem tragédia, sem comédia, e são contos porque são contados, simplesmente.
-
PFF

Doce(c)alma




Depois de enxergar nua a alma,
que importa que horas são?
Dormir abraçados ou não...
equação de equilíbrio, de calma.
Que importa o prato, a lua, o avião;
depois de enxergar nua a alma?
Que importa a alma, então,
se não for doce e calma?...
Doce(c)alma...


PFF

sábado, 24 de abril de 2010

Que me perdoem as menininhas, mas trinta anos é fundamental...



CARTA FUNDAMENTAL AO POETINHA

Vinícius, poetinha da pesada,
cogistaste o eco dos teus versos?
Poetinha, meu distinto camarada,
é mesmo fundamental a beleza?
Viste que monstruosa cagada?
Permita reparar essa tristeza.
Não por humanidade às feias, não.
Ainda que aqui e agora,
a coisa é que ande feia.
Não sei se vês daí,
a vitrine que se transformou a beleza.
A prisão dos corpos a que
se trancafiaram as belas.
Em que são elas mesmas,
suas próprias sentinelas.
Poetinha ai do céu,
são prisões coletivas,
com poucas chaves de saída.
Difícil de explicar pelo papel.

Mas não poetinha!
Não sou eu a julgar teus adágios.
Não há pretensão tamanha.
A coisa, agora nesse estágio,
anda muito, muito estranha.
E tanto que a beleza antes rezada,
ficou no limbo, na encruzilhada.
Mesmo tu hoje não mais cantarias,
o pouquinho dessas siliconadas.
Louvaria as mulheres de trinta,
tão mulheres que andam.
E para que eu mesmo não te minta,
No mundo feminino, as de trinta agora mandam.



Remeta-se ao céu no endereço de Vinícius de Moraes,
ouvi dizer que é além do monte olimpo.


PFF

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O não-amor

O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor... mas através do desejo de partilhar o sono.

Milan Kundera, xerocado do blog da Déia!
-
Tá, vou completar com uma dialética negativa e tanto mais tosca: é por isso que as prostitutas são a apoteose do não-amor, o remédio dos que não amam. Por isso que o Jack Nicholson é sectário da prática, como ele mesmo já admitiu. Pobres não-amantes espalhados pelo mundo afora. As prateleiras dos mercados estão lotadas de não-amor, assim como os enlatados de gente que são as festinhas juvenis, é não-amor pra lá, não-amor se lambendo pra cá. Depois que os corpos amolecem, depois do cigarro para os fumantes ou do suspiro fundo para os saudáveis, são dois não-amores querendo amar sozinhos suas camas. Convenhamos, é bom demais não ter que dormir com um não-amor!