quinta-feira, 29 de abril de 2010

Contos Imediatos XIX


FARPAS CARDÍACAS

Quando acordou e alçou as costas para que se divorciassem dos lençóis, uma dor súbita no peito o fez urrar de dor, a mais aguda que já sentira. Voltou a colar as costas no lençol, imóvel, com olhos fixos naquela imensidão que era o nada. Era um solitário, e não fosse por Lurdes, que há vinte e oito anos limpava as cuecas, as taças de vinho e os ladrilhos da casa que era aquela sua vidinha; por certo teria padecido e engatinhado para a mansão dos mortos ali mesmo. Sem outra chance para esta vida e seus infernos.

Na CTI do hospital rasgaram sua veste tétrica de dormir. Sem nenhuma pena dos bichos de seda que tanto esforço tinham empregado naquele pijama cheio de tramas. A veste essa era de um luxo tamanho que se podia sentir – mais sensível que fosse o apreciador de pijamas – o suor dos pobres bichinhos, de tantas indas e vindas sobre o mesmo fio. De peito nu o anestesiaram, ainda que o caminho da morte já fosse uma anestesia e tanto. Tal qual haviam feito com o pijama, rasgaram também a ossada do peito, que tinha valor equivalente ao pijama àquelas alturas do campeonato.

Aberto o espaço necessário ao seu porém que era o coração, o médico arregalou os olhos, ficou engessado no instante, deixou cair o queixo. Hesitou em pura descrença à cena que os próprios olhos lhe entregavam. Esfregou as pálpebras com as luvas de látex, quase que a cortar a própria maçã do rosto com o bisturi que lhe assessorava. Não entendeu o que sucedia com o coração daquele homem que quase jazia estirado na mesa cirúrgica.

O coração pulsava muito, muito devagar; a manter apenas uma suave esperança. Isso, porém, foi o que menos surpreendera o médico. Atônito, não entendeu quase nada: nem o arame farpado que envolvia o coração do homem, nem as unhas e cabelos que dos músculos cardíacos haviam nascido, nem os soldadinhos em miniatura que transitavam rígidos naquela planície melecada de sangue. Até uma bruxa feiticeira, com verruga no nariz e tudo, mexia substâncias de cores duvidosas em minúsculos tubos de ensaio, olhando com ares petulantes para o médico e seu bisturi.

O médico lembrou das juras à Hipócrates e varreu o coração do homem. Eliminou todas aquelas estranhas defesas, sem deixar qualquer resquício. Reatou os ossos. Costurou a pele. Passados os efeitos anestésicos o homem abriu os olhos. A enfermeira foi a primeira a cruzar seu campo de visão. Se apaixonaram, e o homem nunca mais morreu.

PFF

Vem ver

Ereção a preço de banana


Ontem, o STJ derrubou a patente do Viagra. Vejam a notícia http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/04/stj-derruba-patente-do-viagra.html


Cá entre nós: eu aposto um cacho de bananas que quase todos os ministros do STJ (o ministro do voto contrário vai virar o sonho de consumo das assessoras e estagiárias...o machão alfa de potência natural...) tomam a pílula azul da pseudo felicidade conjugal (e não conjugal, claro). Eis um pré-juízo pra lá de autêntico (e egóico) na decisão de quebrar a patente do viagra. Eu tenho curiosidade de saber se depois que o Viagra ganhou o gosto popular aumentaram ou diminuiram os divórcios da classe alta. Imaginem, os Doutores estressados e sem tempo de antes, com problemas de ereção por motivos óbvios, desde o Viagra se tornaram os caras mais cobiçados do mercado. Mas será que diminuiram os divórcios ou aumentaram as relações paralelas da classe alta? Eis uma sugestão de pesquisa para o pessoal da sociologia. Independente da resposta à essa minha indagação, agora, também os zé ruelas vão sofrer (ou se beneficiar) com as consequencias. Pau duro é um direito de todo o cidadão que vive numa democracia, ora bolas. Em tempos de pan-principiologismo, não espantaria se o direito à ereção se tornasse um princípio e uma garantia individual na Constituição...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O ensino jurídico cospe no prato que comeu

O ensino jurídico cospe no prato que comeu

A filha de um amigo está estudando Direito e teve grande decepção nos primeiros dias de aula com um professor que não perde oportunidade para criticar os juízes. Como não tem argumentos ainda para contrapor ao “mestre”, ela apenas escuta com alguma indignação e não entende porque um professor do curso de Direito alimenta tanta revolta contra os juízes.

Esta menina me contou sobre o assunto com certa cautela e temerosa que eu pensasse que também ela tinha a mesma impressão dos juízes. Depois de acalmá-la, perguntei mais sobre as críticas do professor e ela teve mais segurança para dizer que o dito professor considera os juízes despreparados, preguiçosos, arrogantes e outros adjetivos não menos recomendáveis.
Perguntei, em seguida, se o dito professor tinha a mesma postura acerca do Poder Judiciário e do Direito e ela me respondeu que não entende muito ainda sobre “teoria do Direito”, mas já ouviu de estudantes mais antigos que o professor em questão é um “ferrenho positivista e dogmático”.

Depois perguntei sobre o estilo de aula e de avaliação e a resposta foi a que eu já esperava: as aulas são sempre discursivas, os alunos permanecem sentados no velho esquema de filas de cadeiras, a avaliação é feita através de provas e o “mestre” não se cansa de ameaçar os alunos com sua rigidez no momento de corrigir a prova. Acrescentou minha amiguinha que o “mestre” inicia sua aula escrevendo um longo esquema no quadro, o mesmo esquema que utiliza há vários anos, e depois se senta em sua cadeira de professor e faz um longo discurso até o final da aula.

Por fim, perguntei a minha amiga se já havia conversado com seus colegas sobre o que pensam em fazer após o curso e a resposta foi de que o grande temor da maioria ainda é passar no exame da Ordem, mas o objetivo de quase todos é fazer concurso para as carreiras jurídicas.

Então, minha cara, teus colegas, formados por teu mestre, serão os futuros delegados, procuradores, promotores e juízes de Direito desse país. O que você pensa disso? Como serão esses profissionais? Quem está lhes dando “régua e compasso”, como diz Gilberto Gil?
Então, concluiu minha amiga, o ensino jurídico é o responsável, em última instância, pelos profissionais da área jurídica? Sim, sem dúvidas. Compreenda, por fim, que o professor dogmático e tradicional que critica os juízes é o também o responsável pela formação desses “despreparados, preguiçosos e arrogantes”. É como se ele estivesse “cuspindo no prato que comeu”, sacou?

Não posso deixar de observar, por fim, que conheço dezenas de professores em cursos de Direito que mantém uma postura crítica e inovadora e que procuram, enfrentando os antigos esquemas, formar Juristas de verdade e não pinguins, como diz Warat.

Extraído do blog do Juiz de Direito, Gerivaldo Neiva - http://gerivaldoneiva.blogspot.com/

Woody Allen ataca novamente

Pessoal, vi no final de semana o último filme do Woody Allen, TUDO PODE DAR CERTO, 2010. Sou um fã recente dele, e ando impressionado com a crueza do homem-diretor-de-óculos-fundo-de-garrafa. A comédia é inteligente, atualíssima e de morrer de rir. Lembra um pouco o Manhatan que é um dos primeiros filmes dele: velhos cult com menininhas de 18 anos. O ator também é sensacional, ainda que minha curiosidade quisesse ver o próprio A. W. atuando como o gênio desacreditado da vida que é o personagem principal. Mostra com alegria o amargor de chegar com lucidez no crepúsculo da vida, super recomendado.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Contos Imediatos XVIII



- Mas...e aí? Meio nada a ver isso...Qual é a moral da história?
- Não tem moral nenhuma. Os contos são assim desde que nasceram: acríticos, ascéticos, alheios das ruas cheias de gente e, quase sempre, antipáticos. Não querem agradar ninguém. São a ingenuidade sublime de costurar palavras. O conto não quer nada senão contar. Tal qual o bebê que sonha, sem saber que sonha. Tal qual as tulipas lindas, sem saber que o são. São relatos cotidianos, sem tragédia, sem comédia, e são contos porque são contados, simplesmente.
-
PFF

Doce(c)alma




Depois de enxergar nua a alma,
que importa que horas são?
Dormir abraçados ou não...
equação de equilíbrio, de calma.
Que importa o prato, a lua, o avião;
depois de enxergar nua a alma?
Que importa a alma, então,
se não for doce e calma?...
Doce(c)alma...


PFF

sábado, 24 de abril de 2010

Que me perdoem as menininhas, mas trinta anos é fundamental...



CARTA FUNDAMENTAL AO POETINHA

Vinícius, poetinha da pesada,
cogistaste o eco dos teus versos?
Poetinha, meu distinto camarada,
é mesmo fundamental a beleza?
Viste que monstruosa cagada?
Permita reparar essa tristeza.
Não por humanidade às feias, não.
Ainda que aqui e agora,
a coisa é que ande feia.
Não sei se vês daí,
a vitrine que se transformou a beleza.
A prisão dos corpos a que
se trancafiaram as belas.
Em que são elas mesmas,
suas próprias sentinelas.
Poetinha ai do céu,
são prisões coletivas,
com poucas chaves de saída.
Difícil de explicar pelo papel.

Mas não poetinha!
Não sou eu a julgar teus adágios.
Não há pretensão tamanha.
A coisa, agora nesse estágio,
anda muito, muito estranha.
E tanto que a beleza antes rezada,
ficou no limbo, na encruzilhada.
Mesmo tu hoje não mais cantarias,
o pouquinho dessas siliconadas.
Louvaria as mulheres de trinta,
tão mulheres que andam.
E para que eu mesmo não te minta,
No mundo feminino, as de trinta agora mandam.



Remeta-se ao céu no endereço de Vinícius de Moraes,
ouvi dizer que é além do monte olimpo.


PFF

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O não-amor

O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor... mas através do desejo de partilhar o sono.

Milan Kundera, xerocado do blog da Déia!
-
Tá, vou completar com uma dialética negativa e tanto mais tosca: é por isso que as prostitutas são a apoteose do não-amor, o remédio dos que não amam. Por isso que o Jack Nicholson é sectário da prática, como ele mesmo já admitiu. Pobres não-amantes espalhados pelo mundo afora. As prateleiras dos mercados estão lotadas de não-amor, assim como os enlatados de gente que são as festinhas juvenis, é não-amor pra lá, não-amor se lambendo pra cá. Depois que os corpos amolecem, depois do cigarro para os fumantes ou do suspiro fundo para os saudáveis, são dois não-amores querendo amar sozinhos suas camas. Convenhamos, é bom demais não ter que dormir com um não-amor!

Érica, outros cafunés


Reencontrar Porto Alegre é um sorriso de outono. Ainda mais com esse vento sul antártico presente. E cheguei cá com um presente tão carinhoso, mas tão carinhoso, que fiquei perplexo de felicidade. Em estado de graça. Érica! Érica? a remetente. A locatária eterna do carinho meu! Sem risco de despejo. Mas não pela materialidade dos objetos, definitivamente não. O chato dos presentes é a burocracia impetuosa que os faz ser convenientes quando, quase sempre, não fazemos questão de ser. Por isso que as regras são sem graça. Os presentes regrados, também; à exceção de quando se é criança e se pode respirar com mais pureza os estados fantasiosos do ser. Como é doce o inesperado, o detalhe, o bilhete fugidio, o batom no espelho de manhã, aquele a mais que não estava no nosso script com overdose de destino.

Ainda nunca olhei nos olhos dela, e mesmo assim, nos abraçamos tanto e tanto. O presente todo foi uma moldura, uma moldura cheia de símbolos e carícias. Todos contemplativos, à moda do freguês. Fiquei a contemplar, antes, a atitude. E naveguei para além dos mares distantes da Antártica que traz esse vento geladito, a pensar no presente verdadeiro que são as atitudes. A atitude tanta que foi a dela, essa mulher e tanto, que só me surpreendeu mais um pouco. Não conhecer as pessoas nos dá de presente a capacidade de fantasiar...e do que dela medito, faço um jardim de cores e de borboletas. Eu não me surpreendo muito com as coisas do mundo, me parece tudo sempre velho demais, passado...e acabei ficando eu passado, eu e minha vidinha rabugenta. Flores a um homem? Só mulheres sem medo de ser mulher, mulher de verdade, Elviras com toda força sensível. Querida Érica, quis agradecer também aqui, pois minha felicidade não caberia em nenhuma particularidade. Não os presentes por eles mesmos, mas por ter me permitido pela primeira vez olhar teus olhos nas pétalas, sentir teu abraço nas poesias, ver tua alma doce nos riscos do papel. Mil atitudes bonitas para ti, anjo presente!


Para ti, estes versos:

Quanto mais leve tanto mais sutil
O prazer que das coisas nos provém.
Escusado é beber todo um barril
Para saber que gosto o vinho tem.

Maria Quintana.

-
Enlaçado em sutil amizade,
passeio os Quintana's a palavrar.
Bebericando gotas infindáveis,
desse vinho nosso que não há de se acabar.

Entre uma e outra quadra,
o ar geladito me detém,
de todas, bebo esta que me agrada
sem beber todo o barril, porém.

PFF

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Nietzsche: outras de cair o queixo


Ontem andei caótico com o feriado de Tiradentes. Nada combina melhor com caos que as máximas e interlúdios do Nietzsche. Então, sentei em meio ao nublado do dia com o Além do bem e do mal. Fiquei com um pouco de pena do pobre homem lúcido, devia doer além da conta as dores de cabeça dele. Nunca li nada que deixe a alma humana mais desnuda do que os aforismos do assassino de Deus. Cada frase precisa ser mastigada lentamente, meditada. Algumas minha vã compreensão simplesmente não consegue tocar. Outras, nos deixam mais pelados do que quando estamos pelados...Ei-las:

"O poder de atração do conhecimento seria muito fraco, se no caminho que a ele conduz não tivéssemos de vencer tantos pudores."

"Obervou mal a vida aquele que não viu também a mão que, de maneira delicada, mata."

"Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração."

"O homem genial se torna insuportável, se não tiver pelo menos duas outras qualidades: a gratidão e a polidez."

"Em tempos de paz, o homem belicoso engalfinha-se consigo mesmo."

"Uma alma que se sabe amada, mas não ama, denuncia as próprias profundezas. E vem à tona o que de mais vil estava sepultado."

"A mulher aprende a odiar à medida que desaprende a fascinar."

"A intensidade das paixões diferem no homem e na mulher, e é por isso que homem e mulher não param de se desentender."

"As experiências terríveis nos levam a questionar se aqueles que as vivenciaram não contêm também algo terrível."

"Envergonhar-se da própria imoralidade é um degrau da escada no topo da qual se sentirá vergonha da própria moralidade."

"Quem se sente mais inclinado à contemplação do que à fé, considera todos os crentes demasiado escandalosos, impertinentes, e procura evitá-los."

"Muitas vezes, a sensualidade ultrapassa o crescimento do amor, de tal forma que a raiz permanece fraca e pode ser facilmente arrancada."

E para terminar, essa tijolada com afundamento de maxilar:

"Um povo é o rodeio da natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. Sim, para depois evitá-los."

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Desvirar o mundo


A gente dizia baixinho:
o mundo não é meu,
o mundo não é teu.

E só a gente escutava o mundo.
Enquanto dançavam e bebiam,
e dançavam e esculpiam corpos,
e dançavam e circundavam a lâmpada,
e dançavam e etiquetas por todos lados;
já passava das dezoito horas,
já passava mais um sábado,
já vinha outra segunda,
com a mesma cara de sábado,
que era sempre uma segunda
pra quem nunca dançava.
Por que tinham nome os benditos dias?

Mas a gente dizia baixinho:
o mundo não é meu,
o mundo não é teu.

A gente estava louco.
A gente sabia, fazia tudo,
e tudo que fazia era pouco.
Mas a cartilha mandava dançar,
com um monte de pernas enlaçadas,
e a gente até tentava,
ensaiava, se lançava.
Tinha o mistério do mundo no bolso.
A gente era a caça ou caçava?
Era a tolice do sábado de antes.
Sábado era dia de dançar.
Segunda, de trabalhar.
A cartilha era do mundo, a gente sabia.
Mas reacionávamos em silênico,
a gente não fazia!
Seguir? A gente também não seguia!
Mas o mundo nos escutava?
E aonde iria para o trem?
No vazio de um desfiladeiro fantasma?
No mundo além do mal, do bem?
Mas aí precisava virar o mundo do avesso!
Ventamos com quatro asas amigas.
Com naipes de bossa nova,
com música nova e antiga.
Humberto, hilex na avenida São João.
Caetano, simples, simplinho de coração,
o avesso, do avesso, do avesso.
Vinícius, o poetinha, o amigo que mereço.

Mas a gente dizia baixinho:
o mundo não é meu,
o mundo não é teu.
A gente morreu,
e o mundo, enfim, não entend(D)eu(s).


PFF

Sons sentidos, feriado e outras alegorias caóticas

É o seguinte, acho que descobri uma grande coisa nos últimos dias, ou melhor, não descobri porcaria nenhuma. Mas pensei que pode ser uma percepção compartilhada já que sou virgem no assunto. Comecei a fazer ioga faz um tempo. Essa semana fizemos aulas com um violão, invocando mantras e cantando trechos repetitivos de algumas palavras místicas em sânscrito. Coisas do tipo: ooommmmmmmmm (até acabar o ar), depois com violão e dois acordes básicos (dá pra tocar em casa alternando um Lá menor e um Sol), algo assim: ganescha sharanam, sharanam ganescha (tenho absoluta certeza que não é assim que se escreve, mas não importa). Repetindo infinitas vezes de olhos fechados em um ambiente propício.

Os mantras são como canais vocálicos que nos conduzem às interioridades, na verdade, uma repetição de sílabas místicas que ao bom português - seja ele com a nova ou velha ortografia - nada dizem. Lembra daquela reunião dançante que todo mundo se emocionava com o Roxette sem entender bulhufas de inglês? Tá certo que tirar a menininha pra dançar era de suar a mão, mas acho que independente do resultado semântico das letras das músicas, é a harmonia e repetição de alguns sons que nos deixam em estado de graça. Induzido no caso da ioga e não induzido nas reuniões dançantes dos anos 90.

Segundo a filosofia oriental que dá base para a prática da ioga, os mantras abrem os caminhos para nossos chacras, parece que temos uns 6 ou 7 que vão do meio dos olhos até o períneo . Sou completamente novato no assunto, mas trabalhar com as bioenergias é um exercício que faz um bem enorme. E daí não precisa entende a teoria caro homo ocidentalis! É interessante pensar o modo de pensar dos orientais, essa diferença ruptural da consciência oriental e ocidental. Enquanto nós ocidentais fazemos da consciência uma máquina científica e industrial, imaginando que o uso das faculdades mentais nos conduz à descoberta de verdades científicas e de grandiosas tecnologias; os orientais fazem exatamente o contrário, já que o que pretendem é não usar a consciência (mesmo estando em sã consciência - eis a parte complicada dessa história!!). Querem esvaziar o pensamento, iluminar o vazio da escuridão interior, deixar de lado todo e qualquer julgamento. Prescindir de tudo que é mundano, como o dinheiro, o luxo, a comida...Não tem uns velhinhos orientais de 250 anos que se alimentam de umas bolinhas do mato? Por isso a respiração profunda e ritmada é um baita suporte. Essas tentativas de paralisação do pensamento por meio da meditação, buscam trazer a consciência para o momento utópico do presente. Será utópico mesmo o presente??? A angústia se fixa sempre pelo desleixo que temos para com o presente. Reféns do passado e do futuro, quase esquecemos de respirar profundamente...respirar deve ser o símbolo do presente... O passado nos condena com aquilo que supomos que deveria ter sido, e o futuro nos atira numa cerca de arame farpado porque nunca chega e também porque sempre reconfigura nosso horizonte com novas bulas de felicidade (sim, imaginamos sempre aquele mar de rosas no futuro, coisa idiota né?). É por ai que o Osho ensina a alegria da faticidade (Heidegger que não se mexa no túmulo).

Pois bem, aonde que eu tava mesmo? Vejam que não há um assunto definido...Bueno (palavra de ligação quando há um caos textual), por isso e por outras reflexões que agora tenho preguiça de escrever é que coloquei essa musiquinha boa da Carla Bruni, e nem precisa entender inglês! Ah, convenhamos que é uma senhora foto pra capa de cd (ficou cortada a foto, olhem inteira no google)! Grande Sarkozy, viva o liberalismo! Ele não deve precisar de ioga com uma mulher dessas cantando Before de world was made no ouvido presidencial. Quem disse que o poder não consegue tudo? De qualquer forma, não me dei o trabalho de traduzir a letra, pode ser uma grande porcaria, mas é uma boa harmonia nos nossos ouvidos não presidenciais, um presente de Tiradentes! Aliás, feriadinho besta que só serve pra descansar, aposto que em alguns anos as pessoas vão trocar presentes no Tiradentes. Não sei como o comércio não se atilou para fazer propaganda de branqueamento dentário ou próteses para comemorar o 21 de abril, vou falar com o Vini, pode ser um pulo do gato negão! Eu avisei que o assunto não era definido, esse Tiradentes me deixou meio caótico, vou falar com a Grasi também que entende dessas coisas! Ou vou fazer ioga, mas se bem que hoje é Tiradentes e não vai ter! Bueno...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Elogio vagabundo


Só aquele com coragem
para ser bem vagabundo,
pode ser um poeta
capaz de tocar o mais profundo.

Benção aos poetas,
aos vagabundos,
aos corajososos, aos profundos,
aos de razão ausente...
No fim, é tudo a mesma coisa,
são tudo mesma gente!

PFF

Biblioteca digital da filosofia latino-americana

Encontrei no blog Assessoria Jurídica Popular do amigo Luis O. Ribas, uma ótima fonte de pesquisa sobre pensadores latino americanos(http://www.iphi.org.br/sites/filosofia_brasil/ ) Compartilho com todos!

Conheçam a biblioteca digital da filosofia latino-americana, criada pelo grupo de discussão "Filosofia no Brasil". Contribuam com sugestões de autores e textos para alimentar esta importante ferramenta de consulta. Os textos estão hospedados no Portal de Filosofia - iPHi.

Contribuição essencial para a história da filosofia de nosso continente. Importante lembrar que existem outros grupos no Brasil preocupados com este tema, entre outros, o Instituto de Estudos Latino-americanos, e o Núcleo de Estudos e Práticas Emancipatórias, ambos da UFSC.

Destaque para os textos de
Simón Bolívar (Doctrina del libertador),
Enrique Dussel (1492 - El encubrimento del otro),
Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido),
Roberto Gomes (Crítica da razão Tupiniquim) e
José Martí (Nuestra América).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mais do mesmo em 387 a.C.


Cada um de nós é como um homem que
vê as coisas em um sonho e acredita
conhecê-las perfeitamente, e então desperta
para descobrir que não sabe nada...!


Platão – Político – 387 a.C.

domingo, 18 de abril de 2010

Contos Imediatos XVII


SEGREDO DA EXISTÊNCIA

O segredo era um alguém muito misterioso. E por sê-lo, também curioso. Até de si mesmo. Quase não podia se contentar com a prisão que era a existência reduzida de um corpo que, por vasto e complexo, já era, por ser algo, um segredo. Mas não só daí lhe vinha a alcunha, pois havia entrelinha até onde não estavam as linhas. Tudo que é, é um segredo quase indecifrável. Essa era uma das verdades menos misteriosas do universo.
O segredo ficou a pensar sobre o maior dos segredos, que era o segredo da existência. Entre um cigarro e um conhaque no copo que não era para conhaque, fumou um pouco da alma feminina para tentar responder a escuridão daquele segredo cheio de farturas e fraturas. Todos os segredos andam assim pelas ruas, fraturados e de barriga cheia. Alçou as pernas ao parapeito. E escreveu :

O segredo de uma mulher toca a magia e a divindade. Primeiro deves ser o mágico, a adivinhar-lhe os mais escondidos, tórridos e sinceros desejos. Depois deves ser deus. O deus capaz de realizar cada centímetro dos seus desejos mais escondidos, tórridos e sinceros.

Eis a forma sem conteúdo do não-segredo da existência.

PFF

sábado, 17 de abril de 2010

A hora íntima, Vinícius de Moraes



Quem pagará o enterro e as flores
se eu me morrer de amores?
...
Quem me dirá palavras mágicas
capazes de empalidecer o mármore?
...
Qual a que, o rosto sulcado de vento
lançara um punhado de sal
na minha cova de cimento?
...
Quem vai pagar o enterro e as flores
se eu me morrer de amores?

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mestrado UNISINOS: o ponto final


Já fiz os agradecimentos a todos aqueles que participaram desse pequeno caminho do meu caminho. Ainda que se trate de um ponto final de uma etapa acadêmica, estes dois anos de mestrado me foram completamente valiosos porque me lançaram nas minhas próprias chamas, no privilégio que tive de arder, queimar e virar as cinzas de mim mesmo. O ponto final, pois, mascara as reticências, elas que são o rabo inacabado das verdades. Por sentir o fogo na pele, penso que se justificam até as vaidades; sempre tão mal vistas tanto na academia quanto na vida. No fim, acaba se compreendendo aquele pessoal que antes parecia tão alheio dessa vida fantasiada e cheia de simplificações idiotas que estamos inseridos sem querer... Agradeço ao Lenio por ter abraçado minha causa e, completamente de coração, ao Prof. Alexandre Morais da Rosa por ter aceitado o convite, sem dúvida ninguém melhor do que ele no Brasil para avaliar o trabalho. Para quem estiver nos arredores de São Leopoldo, fica o convite para assistir à sabatina.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mas, mãe, por quê?


Na explicação do que é Ciência, Pedro Demo (in Pesquisa e Construção de Conhecimento) propõe a diferenciação do senso comum, do bom senso, da sabedoria e da ideologia.
Pois bem, atento-me ao senso comum. Ao ler que o "senso comum não é científico porque aceita sem discutir, ou melhor, porque não aplica ao conhecimento nele implicado suficiente sistematicidade questionadora. Nisto está a ingenuidade, que pode ir até a credulidade" (p. 17).
Em tal ponto, adiantei-me e me perguntei: "mas que raios fazemos com nossas crianças?"
Barramos o conhecer delas de forma abrupta, respondendo-lhe porque não e não percebemos que a cada momento que um corte ríspido de sua curiosidade goteja e ecoa em sua mente, estamos esterilizando a sua criatividade, os seus passos ao desconhecido, até mesmo a sua coragem de enfrentar mudanças – por isso, muitas, fatidicamente, comporão a manada programada que não consegue agir diante do acaso e, desse modo, entra em colapso.
Bem, mas isso pode ser daqui a alguns anos. E o que se vê atualmente?
O senso comum impera tanto na aprendizagem das crianças quanto nos bancos acadêmicos. Apesar de o autor referido defender que "o senso comum não representa algo desprezível, pois, na prática, é a maneira mais usual de ver a realidade", que "não podemos imaginar viável organizar a nossa vida sobre a base de questionamento sistemático de tudo", declarando-o, dessa forma, imprescindível à convivência humana, assevero que o senso comum, hoje, está arraigado de uma forma tão integrada na sociedade que a impede de questionar o mínimo para que possa agir com bom senso, que é a percepção adequada da realidade.
Não creio, portanto, que tanto senso comum é necessário, nem útil, muito menos saudável.
Considerando que a realidade descrita depende do observador e que os membros da sociedade, não questionando, apenas reproduzem o que veem como uma atitude aceita pelos que creem serem autoridades em um dado setor (político, jurídico, social, econômico, tendencial-midiático), é extremamente fácil a manipulação dessa massa pela realidade do observador que tenha interesse nesse comodismo – mais fácil que tirar doce de criança.
Comodismo ou ingenuidade? A mediocridade é digna de raiva ou de compaixão?

Seguindo o raciocínio aqui exposto, fragilmente se conclui pela ingenuidade e pela compaixão: muitos não passam de crianças que, há tempos, ouviram tantos "porque sim, moleque! e cale a boca", "porque não, guria, já te disse", que tiveram bloqueados seus ímpetos criativos e pensantes. Eternizaram-se por segurança e por aceitação dos "mais velhos", das autoridades. Sua alma acolhida pelo senso comum nem ousa questionar o que está "certo", o que está "decidido".

Por conseguinte, não vislumbram a possibilidade de mudanças em suas vidas além daquelas já programadas pela sociedade ocidental: brincar quando criança, curtir quando jovem, ter uma boa profissão e ganhar bastante dinheiro, casar, ter um casal de filhos e garantir uma boa aposentadoria. Não, nem pensam em morrer. Aliás, não conseguem enfrentar a ideia morte – dá medo, como o escuro, o bicho-papão ou o homem do saco (aquele do Chaves).
Não querem questionar porque a conclusão poderá acarretar mudanças. E mudanças dão medo, geram insegurança; além de poderem ser contrárias ao que se tem já estabelecido, por hábito, por costume, por tradição.

Mas, em alguns casos, verificam-se claramente os que, por comodismo, pretendem manter a vida como está. Afinal, em time que está ganhando não se mexe.
Mas, é melhor mesmo não mexer em time que está ganhando?
E o time está mesmo ganhando?
E (pqp!) quem disse que há um time?
-
Texto da Grasi no blog Cultura do Controle.
Impressionante costureira das palavras com creme!

Vinha cantando alegremente, quém quém



O Pato, essa bela canção lembrada pelo grande amigo Dione Rigoni!
De boa ingenuidade se vive a vida.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Com creme e sem açúcar


ENTREDOCES

Com creme e sem açúcar!

Com creme e sem açúcar?

Bem agora(?) que eu faria teu doce predileto,

com açúcar, com afeto,

com outros tilintares das unhas do Chico nas cordas do violão.

Sem açúcar...!

Tens certeza que sem açúcar?

Eu que ia te adoçar, fico com o creme.

Com o creme e a poesia sem letra das minhas mãos...

Se adoçar não dá, dá pra lambuzar.

Se o lambuzo for muito, abusar.

Abusar da página em branco que é teu corpo,

com a poesia sem idioma das minhas mãos.

Mas se não dá pra adoçar,

quê faço dos teus olhos?

Essas duas glicoses mudas sobre a foto.

Universo dileto dos meus olhos...

Se não dá pra adoçar,

como leio o agridoce da tua boca que sinto cá nos olhos?

Este doce não sabido qual os pães de milho,

que se dissolvem frouxos na saliva...

Nem o açúcar empoeirado e sublime do confeiteiro?

Talvez esse, com creme, com Chico; tom certeiro.

Quê faço eu, privado dos açúcares que ando,

da distante doçura tua?

Oficie-se à doceira, às formigas, ao cozinheiro,

ao decorador de bolos, às abelhas rainha.

E também ao confeiteiro.

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PFF



terça-feira, 13 de abril de 2010

Mais respostas diante dos espelhos nossos


As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.


José Saramago

Contos Imediatos XVI


O MUNDO DE CARMINHA

Carminha mal conseguia encostar os pés no chão quando sentava no vaso do banheiro todo branco de sua casa. A casa que era o seu quarto, ou melhor, o castelo de sonhos impossíveis de ser sonhados que era o seu quarto. Afinal, um quarto repleto de regalias como o dela era o sonho de princesinhas sem um quarto repleto de regalias. Circunscrita em sua terrinha do nunca, que era colorida com todos os tons de rosa e verde cintilantes, Carminha já meditava com sabedoria tibetana. Voltava-se pra si mesmo com a necessária ingenuidade que é bem exclusivo das crianças e dos loucos. Ser criança é poder ser louco antes de ter coragem de ser. E sem prejuízos de convívio. E ali, sentada no vaso, meditou todos aqueles azulejos entrepostos pela arte incompreendida que eram aqueles rejuntes rosa chá. E meditou em cânticos sussurrados, os mantras da paz que a existência toda havia reduzido no seu corpinho miúdo de princesa. Cantarolando inaudível, meditou aquela centopéia que andava entre os azulejos. Como poderia ela caminhar tanto sem se cansar? Observara Carminha que a centopéia era incansável. E o quê buscava naquele passeio de círculos irregulares e viciosos num banheiro de aparatos exclusivos de princesa? Porque carregava a perversão dos homens nas suas raízes, Carminha bateu forte o pé no chão, imaginou o estrondo sísmico que causaria na calma da centopéia. Queria observar suas reações, ver aquele desespero em cem patinhas frenéticas à procura de algum abrigo. Queria se reconhecer na centopéia? Ela nem podia indagar seus próprios botões a tal fundura. Porque também carregava a fraternidade do mundo feminino, não cogitou esmagar a transeunte de cem patas. Vendo a indiferença da centopéia, tanto pelo barulho nos ouvidos quanto pela imagem nos olhos, pensou que não sabia nada sobre centopéias. Será que elas têm olhos e ouvidos? O bichinho não reacionou e seguiu buscado o vago da existência de ser bicho naqueles azulejos brancos de um castelo feito para todos os tipos de bicho. Pensou que a centopéia estava mesmo assustada, mas que, por ser uma centopéia experiente, apenas disfarçava o temor com aquela indiferença toda. Lembrou que se mantinha indiferente e imóvel toda vez que o escuro da noite lhe presenteava um barulho indecifrável. Melhor jeito para tratar os medos não havia, estava escrito na história do mundo, que era seu mundinho, o mundinho do seu quarto. Pensou que se assustada estivesse a centopéia, não poderia correr para muito longe, ainda que tivesse tantos pés a atritar o chão de azulejos. E caraminholou Carminha que para ir longe era preciso continuar com os mesmos passos. Que fugir era fugir da fuga. Que ir longe dependia de ficar bem perto dos próprios medos, encará-los e transformar todos os pés estrondosos em azulejos pelo caminho, em outros chãos possíveis. Para as centopéias tudo era chão, até as paredes. Carminha não entendeu como a gravidade não valia para as centopéias. Ia perguntar para a professora de Ciências sobre essa regra furada e relativa que diferenciava ela daquela centopéia que ela invejava tanto.

PFF

Reflexões naturais


De manhã chovia, e eu estava feliz.
Agora o sol nasceu, e tenho que ser feliz.
A felicidade da chuva é uma escolha
entre o doce da angústia serena
e a calmaria confortável do desassossego.
A felicidade da chuva sempre funciona.
É uma felicidade de lençóis macios depois do banho.
Uma alegre melancolia de viajar os próprios países.
Na companhia silenciosa da imagem muda da televisão,
do ventinho gélido que se desdobra entre as frestas,
das meditações em correspondência que são
a respiração e o canto dos pingos da chuva.
O sol é um mafioso bigodudo com um
38 apontado para nossas cabeças:
seja feliz seu escroto ou te mato!
Um ordena-dor da felicidade esse sol coitado,
maldito.


PFF

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O vício da vaidade, Fernando Pessoa


O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não poder ver, assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.
Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura, mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana.
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Aforismo 466 do Livro do Desassossego
Fernando Pessoa

sábado, 10 de abril de 2010

Elegia anônima


O bom dia partiu,

como um pedaço de seda na garganta do suicida.

Primeiro acariciou, seduzindo nuca, as palpitações da carótida.

Logo, o ar de sílabas normais que partiu da boca,

foi tão lancinante e tanto,

que condenou a pobre moça, que saíra por um pote de manteiga,

apenas por um pote de manteiga,

e voltara carregando o peso dos poréns

em suas costinhas tão sem carne.

Caminhou condenada,

olhando para trás mesmo sem deixar de olhar para frente.

Especulando os prótons lançados pelo hálito de flecha

que fora aquele bom dia.

Nunca mais foi vista a moça pobre nas vendas de pote de manteiga.

Dizem os amigos mais chegados

que enlouqueceu no universo de seu quarto.

Os parentes afirmam categoricamente que bateu as botas.

E ninguém soube se morte mesmo havia,

ou se era uma morte morrida com aquele mortífero bom dia.



PFF

Como transpor obstáculos tão humanos?

Eu poderia dizer que é esse teu mal entendido que me provoca, é essa leitura que sabes por complexa que fazes da simplicidade da minha fala, da minha escrita, esse modo de sorrir e lde ogo depois me abraçar quando menciono um pensamento vanguardista que apre(e)ndi.

Eu poderia dizer que é a desnecessidade de alguma explicação tua do que fazes ou sentes, já que conheço tuas respostas pelo padrão de conduta que me representas.

Sim, venho te acompanhando a tempo, analisando teus passos a mim. Aliás, nutro esse teu sentimento racionalmente e (quase) sei o que fazer e o que falar, e com isso fiz com que criássemos um tudo relacional - o que foi possível facilmente porque tua essência é querida, é delicada, é verdadeira e natural... como um diamante não lapidado aos olhos do que tenho conhecido.

Poderia manter tudo isso que temos, mas a minha sistematização complexa (e redundante) das minhas experiências e teorias me inclinam à sentença de que esse tudo é quase nada e, o pior, já fadado ao fracasso. Esse tudo que temos, apesar de ser muito, não se identifica comigo em uma proporção suficiente para que eu me sinta satisfeita com ele.

Desculpa-me... eu não te vi antes disso e tu também não viste a mim.

A verdade (em termos) é que preciso de uma conversa sobre processo dialógico e sobre relatividade consciente exterminada pelo consenso de dois. Meus pulmões ambicionam o mais raro caos de novidade, como meus olhos buscam uma ordem específica e cativante de ser. Quero identificação que represente não a totalidade da minha essência (nem haveria graça se fosse possível), mas que espelhe uma considerada proporção do que me move, do que me instiga, do que me faz sentir viva.

Ah, sim, um beijo e um abraço me proporcionam uma vivacidade - mas momentânea e eternizada em uma memória. A vivacidade que almejo é a dos mitos: a eterna. A inquietação dos questionamentos, dos debates, das trocas que nos fazem seres humanos mais pensantes do que sentimentais.

Não quero parecer fria, pois não sou. Sei ser doce com os meus e amarga com uns tantos outros. Sei de sentimentos e sei de razão - esse caos de que me valho todo dia para despertar e vivenciar cada instante de presença lúcida, a qual sempre luto para ter.

Não me nego a te recolher pela mão e te mostrar as linhas desviantes da ficção em que o mundo vive; porém, e sem querer ser egoísta (mas já exercendo a habilidade humana do eu), também quero ser levada um pouco - e não por estradas já percorridas: por estradas novas que me testem.

Em suma, quero uma identidade que seja majoritária num relacionamento e quero a dualidade do ensino.

Mas como te dizer tudo isso, se é só desse jeito que eu sei dizer e é bem desse jeito que tu não me entendes?

Extraído do blog Genealogia do Caos, da Grazi, essa grata e próxima surpresa caótica!!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A parodia marota y la nostalgia de los viernes


Eis o lirismo maroto do amigo Potter, fazedor de paródias, um poeta germinal! Um grande afeto para ele e os demais amigos de los viernes. Aquele abraço saudoso da sexta que só pode ser genuína com amigos de verdade. Outros sambas virão, outros tantos.


Samba para o Amigo Paulinho

Poeta, meu poeta camarada
Poeta da pesada,
do Valete e do perdão
Perdoa essa canção improvisada
De todo o coração,
Da moça e do violão...

Poeta, poetinha vagabundo
Quem dera todo mundo fosse assim feito você
Que a vida não gosta de esperar
A vida é pra valer,
A vida é pra levar,
Paulinho, velho, saravá

O mal da bíblia

O mal da bíblia é não ter sido escrita em versos. Se poesia fosse, desde o tempo dos apóstolos, se sentiria mais e se interpretaria menos. Se algum lirismo bíblico houvesse, a civilização estaria mais arrepiada e caraminholaria menos a razão da razão da razão. Quem for escrever alguma coisa sagrada daqui pra diante, cuidado com isso, por favor!


PFF

Um caldo com Lidia

Por que esse blog se pretende plural, publico, mais na vitrine por assim dizer, a crítica feita pela leitora Lidia ao texto Síntese Relacional que escrevi dias atrás aqui no blog. Sinceramente fiquei feliz com o comentário da Lidia. Bom perceber que pessoas com desenvoltura crítica transitam por aqui. Também concordo com ela quando diz que é complicado teorizar os assuntos do coração. O que fiz foram meras anotações - e não propriamente um texto - na exata medida do clichê que ela apontou, que tinha como produto final o amor ideal. Aceito e também concordo que a ideia de um modo geral possa ter sido uma repetição de mensagens já dadas outras tantas vezes. Mas, se no mundo dos que respiram não é possível atingir o amor ideal, tenho certeza que ninguém me condenará por tentar tocar o sublime do amor por meio das palavras, essas que acabam produzindo sentidos sem, muitas vezes, produzir as sensações correlatas. Pode também ser um vício dos modernos, tão cartesianos que, ao final, somos todos. Sobre o teu esconderijo identitário Lidia, como não sou muito de criar regras, tudo bem. Depois de uma crítica com porquês razoáveis e sensíveis, aceito teu anonimato. A linguagem de fato não cede quando se expressa, o que não concordo é que alguém de o tapa e saia correndo, teu silêncio implicaria alguma coisa próxima à covardia. E fico feliz que assim não tenha sido. És anonimamente bem vinda, afinal, é preciso respeitar a diferença e as tuas verdades pressupostas!


Um resposta à altura dos outros posts. Achei teu blog por acaso, e, assim, casualmente voltei outras vezes. No entanto, por um único motivo, o sentimento. Antes de virgulas bem usadas, coesão e coerência, um bom texto precisa ter sentimento. E os seus, via de regra, transbordam afeto.
De fato, não te conheço, mas cada linha de seus escritos sugere sensibilidade e ternura, parecendo ter endereço certo. Qual não foi a minha frustração ao ler esse post. Certas coisas são melhores quando não ditas. Sinceramente, não me apetece a idéia de teorizar os assuntos do coração. Diferente de você, não penso que seja preciso. Pegamos essa mania de reduzir tudo a termo, inclusive o que sentimos. Parece-me muito mais uma vã tentativa de controlar e arquitetar as futuras relações.
Mas até aí, ok. Se acreditas que tem o poder de abreviar a complexidade ‘relacional’, tudo bem. Mas, ao menos o faça de forma criativa. E nesse ponto é que fica a minha maior bronca. Você não foi além de obviedade. Sociedade Repressora versus Sociedade Libertina, igual a amor perfeito. Muito minguado para quem já escreveu belíssimas poesias. De duas, uma: ou não alcancei a complexidade de sua proposta, ou, em razão dos outros textos, esperava mais de você. Em suma, achei ‘raso e clichê’.

Ps: Que papo é esse de só aceitar críticas com nome e endereço?!? Antes de qualquer coisa, vem a força das palavras. A poesia não perderia o sentido, se ao final, no lugar de Neruda, estive Gonçalves. Deixa de frescura homem!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Eles também bebiam



Quem fala é o Tom, mas o Vinícius é o personagem, mesmo em silêncio, ou melhor, murmúrios. Acompanhe no segundo 20, quando ele tenta dizer "garrafa" pra ajudar a fundamentação do amigo! É demais!

Bebi 90% do meu salário, os 10% dei pro garçom! Para Vininha, e aquela saudade do litro de rum que tenho que derrubar sozinho!

Teatralidade


Todo mundo atua, age, interpreta. Somos todos atores. Até mesmo os atores! Teatro é algo que existe dentro de cada ser humano, e pode ser praticado na solidão de um elevador, em frente a um espelho, no Maracanã ou em praça pública para milhares de espectadores. Em qualquer lugar [.. ] até mesmo dentro dos teatros.



Augusto Boal

Extraído do blog Assessoria Jurídica Popular

Contos Imediatos XV


CERVEJA NO CAFÉ


A camisa pólo amarelo claro e a calça bege, que era um engarrafamento de pano sobre o tênis, denunciavam a despreocupação estética de Nelson. A estética vaidosa, essa que nada tem a ver com a vaidade do espírito.

- Posso sentar, perguntou ele.

- O senhor fique à vontade, respondi.

- Senhor está no céu, retrucou.

Ainda que às nove horas que o relógio anotava e a cerveja com o pote de queijo em cubos não encontrassem muita correspondência com um café da manhã, para Nelson era o seu de todos os dias. Octagenário, carioca, boêmio e pianista; essa era a identidade superficial do Nelson, que dissertava com uma suavidade saudosa as histórias de toda uma vida no tempo de um encontro efêmero de café da manhã. Disse ser amigo de Chico, companheiro de banda de Tim Maia, parceiro de charlas de Vinícius. As lembranças musicais e líricas soavam duvidosas, como se as informações fossem perfumes nobres de uma história cheia das mesmas histórias já sabidas de um oitentão que se deleita falando do tempo que já tinha sido.

Às nove e vinte da manhã, já tinha amassado três latas de cerveja, e disse antes de todas:

- Essa é a penúltima.

Das mulheres, disse o mesmo:

- Sempre tem aquela penúltima que permanece até quando os oitenta anos declaram nossa morte anunciada.

Falava das duas filhas sem saber ao certo se tinha apenas duas filhas, afinal, ser malandro – que era quase sinônimo de ser carioca – era ter que manter aquela eterna pulga atrás da orelha do mundo, mesmo que nem um matusalém como ele pudesse perceber que passava a vida toda a desconfiar de si mesmo, jogando para longe suas próprias e pobres certezas. Através dos óculos escuros, percebi que Nelson perdia o olhar em cada caminhante. Olhava como quem esperasse, a oitenta anos, alguém que lhe viesse com um tapa nas costas e uma promessa de recompensa por toda aquela espera tediosa da vida. Mas ele não sabia disso e, enquanto o papo fluía como sexo em sintonia, tomou a quarta cerveja, acostumado que era de desjejuar com queijo prato em cubos e algumas latas de cerveja.

Quando vi aquele excesso de cabelo artificialmente grisalho sobre as orelhas, tive certeza de que ali habitava o espírito do Alain Delon, todo aquele charme senil que seduzira – e seduzia – o mundo e a si mesmo sem se dar conta. Como com todo bom malandro reinam as entrelinhas, perguntei:

- Os dois casamentos, foram dois?

- A história sempre passa, e as penúltimas é que vêm Jorginho; me disse ele com o ar de proprietário do oráculo de todas as verdades do universo.

Já entupido de cerveja e bêbado de queijo prato, saímos das mulheres e voltamos para as letras. Nelson me contou de umas composições e lembrou que era a vida boemia e o piano os responsáveis pelo desalinho com as mulheres. Percebi que os assuntos não podiam se divorciar. Lembrando alguns sambas e umas poesias, Nelson indagou:

- Sabe quais são os cinco maiores letristas do Brasil Jorginho?

E sem permitir sequer o chute, decretou:

- O primeiro é o Chico, o segundo é o Chico, o terceiro é o Chico, o quarto é o Chico e o quinto está no grande oriente, Vinícius. Tinha bom gosto o velho.

Classificações à parte, falamos de maçonaria. Chamar o céu de grande oriente era sabidamente coisa de maçom. E não porque coincidíamos nossas duas solidões naquele café, mas na burocracia de alguma coisa, nos tornamos, assim de repente, tio e sobrinho. Como que se qualquer empatia anterior se apagasse para que se fizesse absoluto o conceito inventado pela instituição de que ele e eu, mesmo sem nenhum consentimento, participávamos. Ainda assim, estreitamos o olhar que já vinha de antes, mas que a ele se avolumou pela condição nova que nos colocamos. Mesmo maçom, confessou umas gonorréias expúrias, mulheres que ficaram pelo caminho, abraçadas com suas promessas bêbadas. Famílias suas que suas já não eram, deixadas para trás em absoluto esquecimento.

- As verdades habitam o decorrer da conversa, disse ele. Sem se importar com a falta de correspondência de suas atitudes com os cânones da instituição que nos familiarizava.

Ainda falamos de futebol, da pobreza das cidades, das possibilidades intelectuais de cada um e da nostalgia dele dos vinte e poucos anos que eram meus pelo nosso fuso horário que divergia.

Terminou a sexta cerveja, se despediu e partiu. Como se fosse direto dali para o túmulo. A seduzir também a morte, que estava prestes a lhe dar um tapinha nas costas.

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PFF

terça-feira, 6 de abril de 2010

Novas pessoas que nós engendramos em nós



Salve a existência! Salve os porvires!

A síntese relacional

É preciso, pelo menos, teorizar. Ou tentar. Pensando e tentando, anotei algumas variáveis do que se poderia chamar de histórico relacional, tanto de um passado não muito distante quanto do que hoje experimentamos e do que o devir reserva para os corações que ainda baterão na Terra. A tese provavelmente se iniciou na geração de nossos pais, ou mesmo antes deles, já que os divórcios a granel indicam que o modelo relacional deles era completamente fraturado. De qualquer modo é uma simples anotação. Me apropriando da ideia de Capra alinhada no livro O ponto de mutação, no qual o autor afirma por meio da sabedoria oriental do I-Ching que todo auge está fadado a uma queda de igual proporção; tenho que essa revolução relacional ainda está em curso. Tenho que a antítese esteja alcançando seu ponto mais elevado nesses exatos dias nossos. Com alguma sensibilidade é possível perceber já alguns resultados dos excessos cometidos e suas dores correlatas. O amargo nas línguas loucas e pueris. O aperto nos corações que não conseguem penetrar nas reservas selvagens (Warat) das suas caras metade. As caras metade que se tornaram conteúdo dos contos, das fábulas, das músicas que não tem mais espaço no espaço sistematizado e racionalizado de agora. Todo aquele verdadeiro estado de exceção relacional do tempo dos nossos avós, que tinham relacionamentos burocratizados, ajeitados pelo senso moralista e com elevada hierarquia entre homem e mulher (talvez venha daí a ideia de familia como instituição); ruíram para fazer com que a liberdade se travestisse como um monstro interno e invisível. Um monstro que tem levado ao completo niilismo dos sentidos, a uma anestesia das sensações sem precedentes históricos.

A verdade blá-blá-blá dos sacerdotes na era eclesiástica passou para a ponta da mesa nos lares: o lugar do pai. Os reacionários de antanho que tamparam os ouvidos para os sacerdotes e suas verdades que cheiravam a bunda de criança, foram os mesmos que berraram pela libertação dionisíaca do século passado. A paz e o amor de Woodstock venceram o neo blá-blá-blá daquele tempo, mas, como tudo, deixaram suas marcas de fogo na existência relacional das gerações que se seguiram. Parte dessa relfexão foi lançada no conto Feminando o feminino, publicado dias atrás aqui no blog. Algumas amigas berraram por pensar que se tratava de um manifesto contra a aspereza feminina. Era isso, mas não só. Além de denunciar essa rudez erradamente copiada pelas mulheres, a crítica se deu em tom mais profundo, e envolvia homens e mulheres. Todos que parecem não compreender o sentido renovador que pode brotar das atualizações do passado. Homens e mulheres se enganam - e incluo meu passado na crítica - imaginando que o sentimento pode ser profuso, sem se dar conta que profusão não combina em nada com aprofundamento. Já me conduzi sozinho para a chibata, me condenei, fui morto e sepultado. Ainda tento mover um corpo dormente para renascer dos meus próprios enganos. Ufa!

Não se trata de resgatar o passado, mas de tentar compreender como o passado condiciona nossos vícios não percebidos no presente. Com tudo isso, penso ser possível modificar o futuro dessa área tão fundamental que são os afetos e os relacionamentos amorosos, mesmo que o amor ande líquido por aí, escorrendo dos dedos de todos, quase inapreensível. Eis as variáveis! Benção à síntese, oxalá seja esta!


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Tese relacional: excesso de pudores, impedimento do envolvimento sexual, idealização do amor, burocratização dos sentimentos, relações por interesse social e moral, famílias in vitro, virgindade como requisito para felicidade conjugal, desequilíbrio cultural entre homens e mulheres, rigidez do pensamento dogmatizante, alheamento do caráter dionisíaco, repressão dos desejos sexuais, encobrimento da polaridade arquetípica contrária, romantização idealizada, respeito à bula da felicidade relacional fundada na concepção da vida e na manutenção das castas sociais, poesia romantizada à mulher amada, severa repressão da traição feminina, rígida distinção de funções sociais para homens e mulheres, felicidade burocrática transformada em calma tristeza.


Antítese relacional: Liberalização completa dos desejos sexuais, libertinagem nefasta, banalidade relacional, envolvimento amplo, irrestrito e acriterioso; estreitamento entre o primeiro contato e o gozo vazio, niilismo relacional, suplantação da poesia e da romantização, busca de novo equilíbrio e posterior confusão entre os contrários arquetípicos, novo desequilíbrio, quebra dos obstáculos morais de antanho, efemeridade dos vínculos conjugais, desvio da finalidade familiar para a finalidade egocentrista, egoísmo exacerbado, despreocupação com o parceiro e com a relação, engodo em relação aos sentimentos, engano sobre a materialização do amor, sexo sem sentido, amor como utopia, descrença na manutenção relacional.


Síntese relacional: amor como sentido, musicalidade, vida poética e contemplativa, simbiose entre o ímpeto sexual e a materialização do amor, equilíbrio das razões sensíveis dos vínculos conjugais, manutenção em busca de deleite pessoal e fraterno, integração da sombra inconsciente, complementação interna dos pólos arquetípicos, aprimoramento dessa complementação com o outro relacional, absorção dos aspectos saudáveis tanto da tese quanto da antítese relacional, aproximações por afinidades, valorização da intimidade relacional, abandono da burocratização e das relações instintivas pelas aproximações meditadas e conscientes,

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Dois silêncios...

A volta da mulher morena

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

Rio de Janeiro, 1935, Vinícius de Moraes


A volta de Warat e o amor


Para brindar a recuperação de Warat, compartilho alguns trechos escritos por ele na tentativa de desvendar os ares sempre misteriosos do amor. O texto já tinha sido lançado nos blogs das amigas Deia e Érica, e ficou no prelo até hoje. Serve para fazer os amores amadurecerem, mas apenas para quem está pronto para tanto.

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O amor é algo muito raro de acontecer, de acordo a mensagem de Osho. A relação amorosa é um dos mistérios sagrados da existência. O encontro desarmado que duas reservas selvagens podem expressar uma para a outra. Duas flores secretas que se revelam mutuamente.Uma revelação muito forte, já que se tem que dar tanto através dos sentidos, que as reservas selvagens podem transmitir pelos corpos e as palavras, como pelas coisas que cada um pode roubar do inconsciente amoroso do outro (a zona mais nobre da reserva selvagem, a que unicamente se chega viajando nos silêncios).

No momento em que duas reservas selvagens se encontram desarmadas, um novo mundo é criado, inscrito um devir de diferenças no tempo. Nesse novo mundo, ambos se transformam.Quando alguém consegue amar, já não é mais a mesma pessoa. Juntamo-nos para criar uma relação, e essa criação nos cria como diferentes, (re)cria-nos no mais profundo. Um outro silencioso se apodera de nosso corpo mostrando-lhe o inédito que escondia como uma semente de mostarda (como diria Osho) que o outro do amor impulsiona a crescer.

O encontro de dois mundos selvagens em reserva é algo muito complexo. É a mais complexa das místicas. O lugar mágico mais complexo. Os conflitos que unicamente a magia pode resolver.Os dois que se encontram vêm carregados com um longo passado, geralmente de adições, que resiste a ser desarmado. Ante a cada possibilidade de amor, a armação de defesas tende a crescer, a fortificar-se.No começo de um caminho que leva para o amor, os encontros são periféricos. As reservas selvagens não intervêm, observam a distância.

Quando uma relação cresce em intensidade e intimidade, então as reservas começam a aproximar-se, a encontrar-se mais e mais. Isso pode começar a ser chamado amor.A periferia nunca é uma zona de amor. Quando duas periferias se aproximam, dá-se um encontro entre conhecidos.

A grande maioria das pessoas se engana, confunde os conhecidos com o amor. Uma grande falácia com um triste final, no mínimo, de desilusões.Para amar é preciso encontrar o outro em sua reserva selvagem. Algo duro, que não é fácil, obriga cada parceiro a passar por uma revolução que o transforme, porque se queres encontrar a alguém em tua reserva, terás que permitir que essa pessoa chegue a tua reserva. Tua reserva selvagem terá que voltar a se desarmar, terá que ficar absolutamente desarmada. Algo que traz muito risco.

O amor é doloroso porque nos deixa sem armaduras, vulneráveis, o amor nos coloca no risco, fora dos cálculos, fora dos portos seguros.Podes evitar as dores do amor evitando o amor. Estarás renunciando a viver.

As dores do amor são criativas, levam-te a um maior dar-te conta, transformam-te. Se renuncias às dores do amor, deixas de ser um peregrino. Tua vida deixa de ser um rio que vai até o oceano, transforma-se em um charco estancado. O estancamento narcisista.

Um rio permanece limpo porque flui. O fluir do rio outorga-lhe virgindade. Todos os amantes são virgens.O homem moderno perdeu a coragem de entrar nessa aventura chamada amor. O homem aprendeu a linguagem da ciência moderna, esquecendo-se da linguagem do amor. A linguagem da intimidade que nos envolve, que nos revela o rosto original do outro.

A palavra intimidade, diz Osho, vem do latim intimum. Significa teu centro mais profundo. Esse centro pode ser um cosmos ou um caos (quando estamos desintegrados e não sabemos aonde ir).A intimidade assusta, dá medo, porque o outro pode aproximar-se e descobrir que em nosso centro só existe o caos.A intimidade é permitir que o outro entre em tua reserva selvagem, que te veja ainda nas coisas que tu mesmo não consegues ver.

Amar é mostrar-se vulnerável ao outro com a absoluta confiança de que o outro não tentará aproveitar-se da tua vulnerabilidade para converter-se em teu amo. Essa é a arte do amor, a mais esplendorosa alquimia que pode imaginar-se. O amor é uma arte, a maior da existência, também a mais difícil de praticar. A flor dourada é a mais difícil de criar. O amor como luxo, não como necessidade. Um estado da alma, não um fazer. Meu corpo inunda de felicidade, é o vazio.

Luis Alberto Warat